Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



NARRADOR E SOCIEDADE: UMA LEITURA DO ROMANCE DE ALEITON FONSECA NHÔ GUIMARÃES – Maria Eduarda Pinto Pereira, Silvia Eliane de Oliveira Basso e Adenilson de Barros de Albuquerque





 

Maria Eduarda Pinto Pereira

Silvia Eliane de Oliveira Basso

Adenilson de Barros de Albuquerque

 

Instituto Federal do Paraná

 

 

RESUMO: Este artigo é uma análise do papel do narrador na sociedade atual; da forma como ele introduz sua narrativa, os métodos que usa e a maneira como trabalha em conjunto com a memória a fim de fornecer narrativas que possam transmitir não apenas histórias, mas experiências. Com base no envolvimento do narrador não correspondido pelo ouvinte, que está vinculado diretamente a coisas imediatas, o assunto abordado será relacionado ao romance de Aleiton Fonseca, Nhô Guimarães, o qual instiga uma reflexão a respeito da posição e da importância do narrador em sociedade. A partir da contribuição de autores como Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Pierre Nora e Michael Pollak é feita uma análise a respeito da principal hipótese aqui levantada: se o narrador está ou não à margem da sociedade nos dias atuais.

 

Palavras-chave: histórias; memória; experiências; ouvinte.

 

ABSTRACT: This article is an analysis of the role of the narrator in present society. It introduces the narrative, the methods, uses and the way he works them in conjunction with memory, in order to achieve a narrative that can transmit not only stories, but also experiences. It will discuss the case of the narrator that does not correspond with his listener, since the latter is linked only to immediate things, in the novel Nhô Guimarães, by Aleilton Fonseca. It instigates a reflection on the position and the importance of narrator in society. Employing the contributions of From of the contribution of Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Pierre Norra and Michael Pollak, this article will analyse the book having as its main hypothesis raised here whether the narrator is at the margin of society.

 

Keywords: stories; memory; experiences; listener.

 

MINICURRÍCULOS: Maria Eduarda Pinto Pereira foi pesquisadora Pibic-Jr, de março de 2015 a fevereiro de 2016, no projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É estudante do Ensino Médio Integrado em Química, no IFPR/campus Umuarama. É membro do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação

Silvia Eliane de Oliveira Basso é docente no IFPR/campus Umuarama. Colaboradora do projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É líder do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação.

Adenilson de Barros de Albuquerque é socente no IFPR/campus Umuarama. ´É coordenador do projeto de pesquisa “Literatura, memória e histórias: estudos comparados”. É membro do EDIFICARE – Grupo de estudos em Educação.


 

NARRADOR E SOCIEDADE: UMA LEITURA DO ROMANCE DE ALEILTON FONSECA NHÔ GUIMARÃES

 

Maria Eduarda Pinto Pereira

Silvia Eliane de Oliveira Basso

Adenilson de Barros de Albuquerque

 

Instituto Federal do Paraná

 

 

Nhô Guimarães (2006) é um romance de Aleilton Fonseca que retrata, através de uma homenagem a Guimarães Rosa, a vida no sertão. Mantendo a sua maneira característica de escrever, Fonseca dá ênfase ao narrador e às suas histórias vividas. O escritor prende a atenção do leitor graças à sua forma de escrever que reflete alguém experiente. Na sua maneira de desenvolver o texto, ele nos leva para além do personagem, fazendo-o se transformar a cada leitura, criando assim um tipo de identificação tornando-o mais “real”. O escritor reflete em seus escritos experiências de vida. “Isto porque sua vida é o principal alimento da sua escrita” (RIBEIRO, 2009, p. 297). Esta bagagem, que está diretamente ligada ao seu método de contar a história, enriquece a narrativa, aquela que carrega consigo as boas histórias/experiências. Aleilton Fonseca nos impulsiona a novos sentimentos: ele “é capaz de nos fazer enxergar qualidades e valores do ser humano que se fazem cada vez mais raros no nosso quotidiano de simulacros de emoções” (OLIVIERI-GODET, 2010, p. 99). Assim, indo além do fantasioso e transformando o que é dito simples em algo substancial para o leitor, Fonseca retrata, a história da personagem Nhô Guimarães.

Uma narradora personagem, por meio de muitas histórias, tenta repassar suas experiências ao seu ouvinte (semelhante àquele de Grande sertão: veredas), destacando o interesse que a personagem Nhô Guimarães tinha pelo sertão. Fonseca emprega informações obtidas e trabalhadas pelo escritor mineiro Guimarães Rosa e as organiza de maneira que a narradora personagem possa homenageá-lo. Na homenagem a Guimarães Rosa, está conservada a característica do narrador do sertão, que procura não apenas contar uma história, mas torna-a “real” de maneira que o ouvinte possa refletir e se identificar. Outro destaque do texto é o próprio ouvinte, sua postura de atenção silenciosa à narradora. Isso gera uma provocação sobre o tipo de respeito e valor que o meio social atual fornece ao narrador.

Destacada, em linhas gerais, a maneira como a obra de Fonseca retrata a vida no sertão, este artigo, especialmente, está voltado à ação de narrar e à (des)valorização do narrador nos dias atuais. A narradora em Nhô Guimarães valoriza os aprendizados, as experiências que a vida lhe proporciona. A admiração dedicada ao marido que não era um homem estudado, mas que vivia e aprendia as coisas que o sertão lhe oferecia, representa a importância da experiência não somente na história, mas no contexto geral de vida: “Mas ele era difícil de errar as ideias; tinha boa intuição e preparo… Foi um longo tempo de observar de um tudo, aprendendo e ensinando”. (FONSECA, 2006, p. 12).

Ao pensarmos na experiência, devemos ter em conta a maneira como ela pode ser conservada e transmitida através da memória, no trabalho de armazenar e rememorar. Esse processo só é efetivo se exercitado rotineiramente, pois a memória é seletiva: “Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado” (POLLAK, 1992, p. 4). Ao afirmar isso, Pollak chama a atenção para o seguinte: apesar de muito eficiente ainda é dependente do agora, do exercício. Assumi-la é considerar por completo suas características, sendo uma delas estar em função do momento presente: “As preocupações do momento constituem um elemento de estruturação da memória” (POLLAK, 1992, p. 4). Esse fator a torna, em alguma medida, limitada. Atualmente, parece haver a perda da distinção da própria memória que não consegue mais determinar o que é ou não importante, o que deve ou não ser armazenado, já que tudo é muito mais breve e momentâneo. A memória nos tempos de hoje está resiliente e ao mesmo tempo distingue o porquê de sua fácil e passageira adaptação ao efêmero. É como se houvesse uma convenção do não uso da memória. Por mais efetiva que ela seja, há um afastamento das funções que não apenas poderia ou conseguiria exercer, mas, insistimos, deveria exercer.

Apesar das restrições que há sobre a memória, ainda assim “a gente guarda a memória de certos barulhos” (FONSECA, 2006, p. 67). A narradora, em sua fala, remete ao barulho que o cavalo da personagem Nhô Guimarães fazia ao se aproximar, apenas pela forma que cavalgava ela conseguia distingui-lo de qualquer outro cavaleiro que chegava, demonstrando por meio disso uma maneira da memória armazenar as coisas importantes. Entretanto, existe a nossa (in)capacidade de nos prontificarmos a ouvir: “Muita história que se conta nasceu de coisa acontecida, mas fica por si” (FONSECA, 2006, p. 40).

A desvalorização da importância da memória e da experiência em sociedade deve-se às velhas verdades das narrativas trocadas por algo mais imediato e digitalizado. É como se a sabedoria atribuída às experiências perdesse sua vitalidade para o próprio narrador, tornando-se algo descartável e facilmente substituível. Apesar disso, não é como se o narrador tivesse uma parcela de “culpa” pela morte da narrativa. Pelo contrário, a responsabilidade deve ser atribuída em grande medida às características da sociedade atual que, além de desmotivar, gradativamente exclui o narrador de sua dinâmica.

Com base no exposto até aqui, entendemos que a memória é constitutiva, transitando entre ser formadora de indivíduos e formadora de uma cultura. No caso específico deste estudo, as experiências da memória estão constituídas em narrativa.

Na obra de Fonseca, a narradora passa toda a história relembrando e contando ao seu ouvinte inúmeros aprendizados. Ele permanece em silêncio apenas “assuntando”, o que a faz elogiá-lo pela sua facilidade e paciência em apenas ouvir. É isso que a personagem Nhô Guimarães (representação do escritor Guimarães Rosa) fez ao adquirir os conhecimentos com o povo do sertão e “repassá-los” utilizando a ferramenta da escrita. “Nhô Guimarães contou a mesma com palavras outras, umas muito difíceis dá gente saber, porém bonitas” (FONSECA, 2006, p. 48). A relação entre o leitor e as narrativas escritas estende-se à do narrador com o ouvinte: ambos devem estabelecer uma relação fraternal e recíproca porque “o texto só existe quando é lido” (BOMBINI, 2011, p. 5), assim como o narrador só cumpre o seu papel quando há alguém para ouvi-lo. A familiaridade entre escritor e leitor, portanto, pode servir de parâmetro de comparação entre o narrador e seu ouvinte, pois entre leitor e escritor, para que a compreensão seja satisfatória “estabelece-se um elo (…) o qual se fortalece a partir do que é exposto e desenvolvido no texto e compartilhado por ambos” (PEREIRA, 2009, p. 56). De maneira semelhante, se fixa uma relação entre o narrador e seu ouvinte, essencial para que se estabeleça, mediante a história narrada, um elo entre os dois. O narrador pode projetar que tipo de sentimento quer provocar em seu ouvinte ou até mesmo de que maneira a forma de narrar pode prender a atenção de quem escuta.

O narrador deixa espaços vagos (mas não vazios) reservados para que o pensamento do interlocutor explore e acrescente a eles seu tipo de percepção do que é escutado. Por isso, ao se pensar em narrativas, deve-se considerar os narradores e seus interlocutores que desempenham papel fundamental na (re)constituição das histórias.

Apesar da arbitrariedade na comparação entre as narrativas escritas e orais, o trabalho desempenhado pelo ouvinte difere do desempenhado pelo leitor. Ao se colocar em posição de interlocutor, o ouvinte deve prestar atenção redobrada ao narrador de maneira que não se distancie em nenhum momento do que ouve e não perca os detalhes da narrativa. O leitor, quando perde o foco, pode voltar algumas páginas e reler. O ouvinte pode pedir para que o narrador repita, mas a maneira que contou uma vez, mais acentuada do que no ato da leitura, não será igual ao se “repetir”: outro tom de voz, outro humor, outros gestos, outras palavras serão empregados. Somado a “todo aparato circunstancial que engloba o momento da enunciação e audição, o ouvinte aciona sua memória pessoal” (PEREIRA, 2009, p. 60) ao mesmo tempo em que ele precisa se distanciar e ir ao seu mais íntimo para se identificar com o sentimento que lhe é despertado, armazenando o ensinamento que está agregado ao que ouve.

Ao “reapresentar” a história ouvida, o ouvinte se torna um narrador e tem a oportunidade de contar a sua versão e buscar a “autenticidade” na reprodução, tomando cuidado na forma como a reproduz. “É preciso apurar o juízo que as histórias têm sentidos escondidos nos interesses das pessoas” (FONSECA, 2006, p. 53). A narradora personagem de Nhô Guimarães aconselha seu ouvinte ao lhe dizer que nem tudo que é contado é verdadeiro, mas que tudo tem seu valor. Ela – quando se trata de histórias que não lhe “pertencem” – assume que conserva o que lhe contaram, não sabendo se o assunto é verídico. Parece haver mais a ser aproveitado do que excluído. Cabe ao ouvinte também discernir o que ouve.

A importância do narrador, tanto individual como socialmente, está não apenas na pessoa que narra, mas na maneira com que faz uso de sua memória que é formadora de identidades. A memória quando individual se transforma através da narrativa para algo conjunto ao de ouvir. “Quem escuta uma história está em companhia do narrador” (BENJAMIN, 1994, p. 213). A narrativa retrata as memórias de maneira que se permite imaginar a respeito delas, o que o narrador sentiu ao escrevê-las/contá-las. O narrador é peça fundamental na conservação da memória, pois é aquele que consegue fazer a ponte entre as experiências captadas e as memórias armazenadas, transformando-as em narrativas.

 

Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer a um acervo de toda uma vida (uma vida que pode não incluir apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer).  (BENJAMIN, 1994, p. 221).

 

O narrador recorre a um acervo de memórias, de experiências próprias ou alheias, tornando-o ensinamento, narrativa. É o talento do narrador que trabalha com a memória, juntando fatos e transmitindo-os de maneira que prenda a atenção do ouvinte. Essa narrativa rica, formativa de identidades individuais e coletivas, está, contudo, em decadência devido à sociedade pós-moderna que a sufoca.

É importante ressaltar que a morte do narrador, demonstrada por Benjamin (1994), tem relação próxima com a perda recorrente da sensibilidade ligada à memória mencionada por Nora (1993). Memória e narrador caminham juntos, um necessita do outro para que ambos se constituam. Afirmar que o narrador está perdendo seu lugar na sociedade, também é dizer que a importância da memória está se perdendo. Com a falta de narradores que estabeleçam cotidianamente a ponte entre a memória e a narrativa, destacam-se outras formas de manutenção de memórias. Na tentativa de conservá-las, são consagrados lugares, ambientes nos quais se tornaria “mais fácil” o “acesso” à memória. No entanto, “desde que haja rastro, distância, mediação, não estamos mais dentro da verdadeira memória, mas dentro da história” (NORA, 1993, p. 9). Com medidas paliativas, armazenam as memórias em objetos, coisas e lugares. Não obstante, quando há alguma mediação, ela não se habita mais na memória humana, pois se trata mais do trabalho feito pelo narrador. A memória, assim, se torna patrimônio coletivo o que, ironicamente, soa como algo positivo: tudo que é coletivo é de todos. Não se deve esquecer, porém, que antes de coletiva a memória é individual. Cabe primeiramente ao indivíduo “repassá-la”, mantendo ainda sua presença nela. Algo “sacralizado”, arquivado e mediado (por monumentos, lugares e objetos) não se referem mais à memória viva, mas à história. Além de transmitir determinados conhecimentos, a narradora de Nhô Guimarães também nos reporta em sua fala sobre como a memória funciona, evidenciando em sua fala o que foi marcante e memorável para ela.

 

Naquela noite, foi um assombro como nunca. Ah, nem queira o senhor saber. Tive um pressentimento, fiquei com a imagem da falecida atentando meu juízo. Fiquei mofina de ir me deitar, mas o sono me agarrava. Fui dormir muito tarde, era uma noite de uma lua bem pouca, no alto de mais do céu. Eu estava inquieta, tremia aperreada (FONSECA, 2006, p. 73).

 

Notamos o quanto a memória é marcante nesta fala. A narradora possuía uma amiga de infância que havia levantado uma calúnia a seu respeito. Em função disso, a antiga amizade se desfez e sua companheira nunca mais foi vista até o dia de seu enterro, no qual a narradora deixa de lado seu ressentimento e vai acompanhá-lo. Ainda de acordo com a narradora, a falecida lhe faz uma breve visita na noite em que não conseguia aquietar sua mente. Ela relembra, detalhadamente, que naquela noite ela havia ido dormir tarde e que a lua era pouca no céu. Não cabe aqui, obviamente, questionar a veracidade dessa fala na narrativa, mas ressaltar esse conjunto de detalhes fornecido pela narradora que dá forma e concretiza uma característica marcante da memória humana: armazenar tudo aquilo que lhe é importante.

A memória, entretanto, não guarda somente imagens ou momentos relevantes. Ela consegue gerar certos mecanismos para além do imaginado, conservando lembranças e determinados sentimentos geradores de esperanças. Esse tipo de função foi outra característica vivenciada pela narradora.

 

Ah, meu Deus! Por derradeiro, confiro um detalhe. Aqui está: o senhor tem o sinal de minha gente. Agora junto os demais: seu olhar, seus gestos, seu modo de sorrir, seu sentimento. O senhor há de ser gente minha, conforme quero e anseio. Me dou por ciente, satisfeita. Esperei, tive fé: alcancei? O senhor é a revelação? Eu confiro com sua esperança? O que o senhor descobriu? Se for o certo e exato esse quarto arrumado então é seu. Venha a mim, me abrace. Tenho sentido muitas saudades suas (FONSECA, 2006, p. 171).

 

A narradora que havia perdido seu marido e não tinha notícias do filho há anos, do qual não se lembrava mais como eram as feições, guardava na lembrança seu modo de ser e o que sentia por ele. Ao observar seu interlocutor no desenrolar da narrativa, a narradora personagem conclui sua história questionando se não era ele o neto que há tanto tempo aguardava, que jamais vira e não sabia se realmente existira. Ela se lembra, naquela idade avançada, as características de seu povo, recordando o tipo de sentimento que seu filho despertava nela, deixando transpassar o sentimento que conservara desde a sua partida anos atrás.

Ao se dirigir para um final sugestivo, a narradora, antecipadamente, faz um de seus últimos comentários/ensinamentos a respeito da importância do narrador e da relação com seu ouvinte, do poder que este último (um narrador em potencial) tem em mãos. Ela aconselha: “Pois, se o senhor reunir os causos, escolher as palavras e contar as histórias, saiba que muita gente vai se agradar do senhor” (FONSECA, 2006, 105). Ao deixar um de seus últimos ensinamentos, relembra o que Nhô Guimarães fez ao recontar as histórias, conservando sua autenticidade, mas de maneira que todos se interessassem por lê-las. Além disso, ela chama a atenção não apenas para o ato de contar, mas para o saber contar, a partir do qual o narrador se apoia para dar vida à narrativa. Podemos afirmar ainda que, ao oferecer este ensinamento ao seu ouvinte, a narradora espera que ele vá além do ouvir, usando tudo que aprendeu para recontar a narrativa à sua maneira, pois o desejo do narrador, além do ouvinte, é que a narrativa caminhe e permaneça viva.

O maior problema, contudo, atribuímos à forma como o narrador é visto atualmente na maioria das sociedades contemporâneas: “o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas ‘dar conselhos’ parece hoje algo de antiquado” (BENJAMIN, 1994, p. 200). A falta de tempo e desatenção às histórias contadas contribuem para constatações como a seguinte: “a arte de narrar está em vias de extinção” (BENJAMIN, 1994, p. 197). Assim, o próprio narrador perde sua força de comunicação social. Devido a isso, Benjamin anuncia a morte do narrador.

A perda do valor encontrado nas relações humanas em comunidade e “mecanização” psicológica gradativa dos indivíduos ajudaram a extinguir modelos de “(…) representantes arcaicos, (…) um exemplificado pelo camponês sedentário, e o outro pelo marinheiro comerciante” (Benjamin, 1994, p. 199). O primeiro, ganha vida com suas viagens, com elas também tira suas experiências, já que elas se estabelecem em relações e situações abundantes. O segundo leva vida estática se comparada ao outro, obtém suas experiências a partir de informações e situações no seu próprio lugar.

A partir dos pressupostos antes citados, relacionando-os às análises do sociólogo Zymunt Bauman (2007), encontram-se neste século novos tipos sociais que podem ser comparados ao narrador da modernidade de Walter Benjamin. Bauman sugere três tipos sociais que vêm ganhando destaque a partir da segunda metade do século XX: o guarda-caças, o jardineiro e o caçador. O guarda-caças, consciente do mundo a sua volta, sente-se ainda satisfeito com sua imobilidade, ele é o responsável por vigiar a caça e pode ser relacionado ao servo do período medieval, o que possui o seu papel definido e faz parte da manutenção da vida, mesmo que não se encontre no topo da pirâmide. O segundo, o jardineiro, tem certa porção de terra e sementes para formar seu jardim diferente do guarda-caças, tem ainda certa medida de escolha do que pode plantar ou cortar, seja o que for decidido de sua vontade. O jardineiro pode ser relacionado ao renascentista, ao iluminista, que até estabelece perspectiva para o futuro, mas faz coisas mínimas para mudá-lo. Por fim, sendo característico de grande parte da população pós-moderna, surge o caçador, que é movido única e exclusivamente pela sede de caçar, sustentando-a mesmo na ausência de caça ou no excesso dela. Para ele, a procura é o que o deixa em movimento e o afasta do que seriam consideradas “intervenções negativas” em sua vida.

 

Diferentemente dos dois tipos que prevaleceram antes do início de seu mandato, o caçador não dá a menor importância ao “equilíbrio” geral “das coisas”, seja ele “natural” ou planejado e maquinado. A única tarefa que os caçadores buscam é outra “matança”, suficientemente grande para encherem totalmente suas bolsas. (BAUMAN, 2007, p. 105 – grifos do autor).

 

É nesta interseção, narrador excluso e desvalorizado mediante as novas tendências humanas deste século, que se encontra a narradora de Nhô Guimarães. É ela um exemplo do camponês sedentário, que viveu “(…) sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições” (BENJAMIN, 1987, p. 199). Fundamentou suas experiências nos conhecimentos que aprendeu na infância sobre sua terra e os juntou com o que ouviu ao longo da vida. Atualmente, ela se apresenta como o guarda-caças baumaniano, responsável pela história oral, por guardar suas memórias e transmiti-las em forma de experiências.

Venha ver que a melhor é essa do pote de barro, dos antigos, que ainda tenho. Aprecie. […] A gente pega as influências, que o mundo é uma grande mistura. Nos modos de falar, sou assim: meio de lá, meio de cá, de maneira bem apurada. Faço frases bem feitinhas, assim, nas boas falas.  Pois eu lhe digo: tive certo estudo, cultivei minhas leituras, uso a voz da experiência. […] O sertão é meu terreiro; e tudo o que o vento traz. Certas coisas a gente aprende pelo viver, não carece de ensino (FONSECA, 2006, p. 12-15).

 

A narradora/personagem conserva e valoriza seus aprendizados ao longo da vida Ao pedir ao seu ouvinte que ele se achegasse, ela lhe traria um copo do pote de barro, que, de acordo com sua experiência, possuí um melhor sabor. Ela faz uso da “voz da experiência”, pois o sertão é o seu terreiro.

Contudo, a sociedade contemporânea vem se adaptando a uma forma de vida individualizada. Apesar de saber como fornecer ensinamentos através de seus aprendizados, os narradores são vitimizados pelo imediatismo. O exemplo benjaminiano e o narrador deste século podem ser relacionados ao guarda-caças baumaniano, destituídos de voz no contexto ágil e “líquido” atual do mundo. A imobilidade do guarda-caças não entra na dança do consumismo. Ao possuir propósitos na vida que vão além da incessante busca pela individualização e do seu recorrente poder, por diversas vezes, mesmo com suas experiências, ele é posto de lado. Pois:

 

Agora somos todos caçadores, ou chamados de caçadores e convocados ou compelidos a agir como tal, sob pena de sermos expulsos da caçada, ou (nem pensar nisso) relegados às fileiras da caça. E o quanto quer que olhemos em volta, provavelmente veremos outros caçadores solitários como nós. […] E precisaríamos realmente nos esforçar para conseguirmos ver um jardineiro que estivesse contemplando algum tipo de harmonia pré-planejada por trás da cerca de seu jardim privado e depois se pudesse a concretizá-la (a relativa raridade dos jardineiros e a crescente profusão de caçadores são o que os cientistas sociais discutem sob o título culto de “individualização”) (BAUMAN, 2007, p. 105).

 

O caçador, assim, é fruto da sede pela individualização, esta que eterniza o tempo presente de maneira que o futuro é não imaginado, ele corre na direção do “ser supremo e completo” que pode ser comprado e encontrado nas lojas e vislumbrado nas propagandas. Vende-se quase que imperceptivelmente uma vida baseada no consumismo e no ilusório poder agregado a ele. Os vazios são cada vez mais preenchidos pelas compras futuras, pelo tempo diretamente ligado à produtividade. Devido à eternização do futuro no presente, há uma despreocupação com a imagem que irá se construir ao longo dos anos, pois o futuro é o aqui e o agora. O narrador está “morto” não pela ausência de suas experiências, mas pelo ouvinte eternizado no agora, que não se preocupa em aprender a formular a vida tendo-a como princípio o passado. Este é esquecido e o envelhecimento é algo que pode ser evitado aos olhos dos caçadores.

O narrador, precursor de memória, vive à margem, desencorajado pelo meio que o cerca. Porém, afirmar que não há nenhuma memória viva ou que não há narradores suficientes seria mortificar os últimos indivíduos sem que estivessem verdadeiramente mortos. Talvez o narrador não esteja morto, mas apenas repousa e descansa em um sono aguardando novos tempos e novos ouvintes. Ele necessita de pessoas que se disponibilizem a lhe dar atenção, pois “a relação que se estabelece entre ouvinte e narrador é mantida pelo interesse em conservar o que foi narrado” (SANTOS, 2001, p. 121). É através desse interesse gerado que o narrador se agarra no fio de esperança de poder repassar sua história. O nosso narrador descansa, pois nós mesmos o afastamos quando o excluímos, menosprezamos e o trocamos pela imediaticidade das informações efêmeras, a busca pela caça definida por Bauman (2007). Diante disso, não é o narrador quem deveria estar no centro do problema, mas nós mesmos que precisamos nos reeducar, aprender a separar e a valorizar o que realmente nos é importante. O narrador, enquanto vivo, porém menos operante do que gostaríamos, está com a sua arte apenas aguardando que alguém pare e o assunte, para que ele possa exercer com maestria sua função, a exemplo do que é apresentado entre os interlocutores na narrativa viva do romance Nhô Guimarães.

 

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Trad. Carlos A. Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In. BENJAMIN,W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BOMBINI, Rosilene F. Rocha. A relação texto-leitor no ato da leitura, IV Simpósio de Letras Neolatinas, Rio de Janeiro, 2011.

DUTRA, Daniel Iturvides. O papel do leitor na construção de sentido do texto: uma análise dos contos “Um som de trovão”, de Ray Bradbury, e “A máscara da morte rubra”, de Edgar Allan Poe, SIGNUM: Estudos de Linguística, Londrina, no 13, jul. 2010: p. 127-138.

FONSECA, Aleilton. Nhô Guimarães. Rio de Janeiro: Bertrand , 2006.

OLIVIERI-GODET, Rita. Aleilton Fonseca: O engenho do faz de conta como aprendizagem da vida. Revista da Academia de Letras da Bahia, Salvador: Academia de Letras da Bahia, n. 49, p. 85-101, dez. 2010.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Trad. Monique Augras, Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 5, no 10, 1992.

RIBEIRO, Carlos Jesus. O território sagrado da alma na obra de Aleilton Fonseca. In. RIBEIRO, C. J. À luz das narrativas: escritos sobre obras e autores. Salvador: EDUFBA, 2009.

SANTOS, Rita A. Coelho. O conto de Aleilton Fonseca: a permanência do narrador. (Posfácio). In. FONSECA, Aleilton. O desterro dos mortos. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.

NORA, Pierre. Entre memória e história: A problemática dos lugares. Trad. Yara Aun Khoury, Projetos História. São Paulo, dez. 1993.

PEREIRA, Rafaela C. Maximiano. O ato da percepção: do enfoque dado ao leitor na estética da recepção ao papel do ouvinte na performance da poesia oral, GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL, Londrina, n. 7, jan-jun. 2009.



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