Revista Mulheres e Literatura – vol. 9 – 2005



‘NÃO SOU CRONISTA’ : UM ESTUDO DA CRÔNICA DE CLARICE LISPECTOR





‘NÃO SOU CRONISTA’ : UM ESTUDO DA CRÔNICA DE CLARICE LISPECTOR


Darlene J. Sadlier
Indiana University-Bloomington

Ao contrário de seus contemporâneos Raquel de Queiroz e Rubem Braga, que preferiam a crônica a todas as outras formas literárias, Clarice Lispector estava mais apreensiva e era até cética em relação ao propósito de escrever semanalmente para um jornal. Numa das primeiras crônicas que escreveu, intitulada “Ser Cronista,” ela proclama: “Sei que não sou” – embora não esteja claro se essa declaração é simplesmente uma reação a o que o gênero literário deve ser: (“Crônica é um relato? É uma conversa, é o resumo de um estado de espírito?”) – ou se o ato de escrever para um público maior nno fosse antitético ao seu desejo de forjar uma “comunicação mais profundo con[sigo] mesma e com [s]eus leitores.” Apesar das dúvidas sobre a forma e sua própria habilidade como cronista, durante seis anos, entre 1967 e 1973, Lispector escreveu centenas de crônicas para o Jornal do Brasil no Rio de Janeiro. Em 1984, sete anos após sua morte, aproximadamente 500 destas foram colecionadas e publicadas sob o título A Descoberta do Mundo – uma ação que transformou a efemeridade da escrita jornalística em algo muito mais substancial e importante que agora ocupa um espaço na estante ao lado de seus contos e romances mais famosos.
Meu propósito neste estudo é mostrar como um gênero literário que nno tem nenhum parâmetro formal nem temático, com a exceção talvez do foco em assuntos quotidianos, foi um meio ideal para Lispector–apesar de seus protestos ao contrário. Nas suas mãos, a crônica se tornou um veículo para comentários sobre a autoria, a literatura, e os desafios de escrever. Também serviu como um sítio para uma variedade de experimentos formais que abrangeram o que ela classificou como “noveletas” e os vários fragmentos de prosa de poucas ou muitas linhas. O gênero literário foi muito eficaz em capturar a imediação transitória do “aqui e agora” e os momentos epifânicos que Lispector explorou constantemente nos seus romances e contos. Além disso, foi seu mais comprometido modo de escrever. Não quero dizer com isso que a crônica se tornou uma plataforma para as críticas sociais ou políticas em grande escala–algo que teria sido ao contrário do caráter de Lispector, ao mesmo tempo difícil se nno impossível durante a ditadura dos anos 1960 e 1970. Mas algumas de suas crônicas sno inesperadamente diretas na sua crítica da sociedade brasileira, e sua frustração e raiva sno palpáveis. O que segue é um breve comentário sobre cada uma destas características.

Auto-reflexividade:
A Descoberta do Mundo contém um número de metacrônicas, cuja auto-reflexividade é muitas vezes o ponto de partida para uma contemplação sobre algum aspecto da vida quotidiana. Como na ficção de Lispector, que se baseia nos monólogos internos de livres associações, suas observações parecem disconexas–por exemplo, quando ela vai de um comentário sobre gêneros literários para observações sobre dois animais subaquáticos. Na crônica intitulada “Máquina de Escrever”, ela afirma: “Vamos falar a verdade: isto aqui nno é crônica coisa nenhuma. Isso é apenas. Nno entra em gênero. Gêneros nno me interessam mais. Interessa-me o mistério” (375). Logo depois desse comentário, Lispector revela o que chama de “verdades espantosas” sobre o mundo animal, e exprime seu pasmo pelo fato que o siri pode perder a perna e mais tarde regenerá-la como meio de evitar o cativeiro, e que o corpo duma tartaruga sem cabeça, desnudada de sua casca protetora, ainda move como se fosse um fole. Talvez estejamos até de acordo com Lispector que esta nno é uma crônica se aceitamos a opiniao que, embora imprecisa nos seus parâmetros, a forma ainda se baseia em conexões lógicas e na ordem mais ou menos racional do ensaio pessoal e informal. Ao contrário, Lispector adota conexões metafóricas ou poéticas, sugerindo que, como os animais que ela descreve, há algo igualmente milagroso no ato de escrever–sobretudo o tipo de escrita que pode sobreviver (como a tartaruga) e perpetuar-se (como o siri) mesmo quando renuncia ou abandona as regras e convenções e procura “apenas ser”.
Lispector esclarece, em “Máquina de Escrever” e em outras crônicas, que ela está fascinada pelo mistério de sua vida como autora. Na crônica intitulada “Amor Imorredouro,” ela nos diz outra vez que a que está escrevendo “nno pode ser propriamente chamada como uma crônica.” E prossegue, ruminando sobre sua inexperiência como cronista e sua perplexidade com que assuntos deve explorar na coluna. O que mais a preocupa é se o ato de escrever crônicas talvez a conduza a revelar demais sobre si mesma – como se o mistério de sua pessoa, baseado em sua vida algo solitária e seu estilo elusivo e muitas vezes difícil, fosse ser ameaçado pelo jornalismo. Apesar de comentários repetidos sobre a privacidade, ela freqüentemente mina o potencial autobiográfico da crônica de uma maneira às vezes inesperada e intrigante. Por exemplo, um dos fragmentos que aparece na sua crônica do dia 4 de fevereiro de 1968 toma a forma dum breve recado ao linotipista (o título é “Ao Linotipista”) no qual ela se desculpa por seus vários erros tipográficos. Lispector explica que os erros são o resultado duma injúria a sua mno direita que foi queimada num acidente. (Esta é só uma de várias referências que ela faz ao fogo que destruiu seu apartamento quando adormeceu com um cigarro aceso na mão.) A mão prejudicada, fato conhecido por muitos leitores, provoca o seu “pedido” que faz mais tarde ao linotipista para deixar de corrigir sua pontuação nas crônicas. “A pontuação,” ela diz, “é a respiraçao da frase, e minha frase respira assim. E, se vocL me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar” (70) E ela termina o fragmento com a frase: “Escrever é uma maldição” (70).

Experimentação Formal:
Além de ter composto centenas de crônicas que consistem em grupos de fragmentos longos e curtos, Lispector escreveu o que ela chamou “conversas” entre si mesma e outros (sobretudo seus filhos e suas empregadas), diálogos anônimos, e entrevistas nno-convencionais com escritores e artistas quem ela estimou, incluindo Pablo Neruda, Alceu Amoroso Lima e Chico Buarque de Holanda. Uma de suas crônicas mais distintas, intitulada “Sou uma pergunta”, é composta de uma lista de 90 curtas perguntas que abrangem inquéritos pessoais: “Por que escrevo?” “Por que minto?” “Por que digo a verdade?” “Por que acendi o cigarro?” E questões existenciais: “Por que há o infinito?” “Por que há o tempo?” “Por que há flores?” “Por que há uma galinha?” Muitas das crônicas tomam a forma de respostas a seus leitores. Por exemplo, em “Um telefonema”, ela descreve uma chamada de uma leitora anônima que simplesmente quer cumprimentá-la e dizer-lhe que deseja que ela seja feliz. Lispector a cumprimenta, desejando-lhe felicidade também, a aconselha a que nno deva ler tudo que escreve “porque muitas vezes [é] áspera e não quer […] que receba [sua] aspereza (69). Outra crônica toma a forma de seu título: “Cinco relatos de um tema,” que envolve cinco histórias sobre uma mulher cuja casa está cheia de baratas–uma referência B intriga do romance A paixão segundo G.H.. Quatro das cinco versões, cada uma com seu próprio título, começa com a frase: “queixei-me das baratas”. Com cada versão, o plano da mulher para matar os insetos se torna mais complexo e surrealista. Ao contrário dos primeiro quatro segmentos, que descrevem de maneira mais e mais detalhada a preparação do veneno, a morte das baratas, e o trauma psicológico criado pelos insetos mortos que agora assombram a imaginação da mulher, a versão final transforma a história gótica, com suas referências a salas obscuras, assassinatos e formas espectrais, numa piada. Chama-se “Leibniz e a transcendência do amor na Polinésia” e começa: “Queixei-me de baratas” (227).
Outras crônicas sno inspiradas pela mídia: “Dia da Mne Inventada” lL-se como uma reportagem jornalística sobre crianças abandonadas e está cheia de fatos e informações impessoais. “Chacrinha” é uma resenha negativa de um programa na televisão cuja estrela se chama Chacrinha. Outra crônica toma a forma de um anúncio para um assistente que pode organizar seu calendário e seus papéis. A crônica “Faz de conta” consiste em uma única oração de 20 linhas que parodia o jogo de crianças baseado na repetição da ordem: “faz de conta”. Outras crônicas se parecem com os verbetes dos dicionários. Por exemplo, o fragmento intitulado “Saudade” inicia-se com: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas Bs vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida” (105).
Entre as centenas de fragmentos, acham-se as “noveletas” – um tipo de crônica seriada. Muito pouco distingue essas noveletas, como “A Princesa” (que durou 4 semanas), dos contos de Lispector. De fato, “A Princesa” começa com uma cena que evoca seu conto famoso “A Galinha,” de Laços de Família, onde uma família passa por uma epifania quando uma galinha, que vai ser morta para o jantar, de repente bate as asas e pte um ovo. A galinha sobrevive porque a família se dá conta de seu poder para criar a vida. Porém, com o passar do tempo, essa realização importante diminui na consciência da família até que um dia a família a mata e consome. Na noveleta “A Princesa”, o piar dum pinto comprado pela autora durante a Páscoa evoca a lembrança de outro pinto que ela comprou anos atrás e um confronto silencioso entre ela e uma criança/vizinha petulante que se chamava Ofélia. Um dia o comportamento obstinado de Ofélia muda quando ela ouve e logo depois vê o pinto. Mas seu amor e o desejo de possuir o pinto a conduzem a matá-lo clandestinamente.

Sobre as Epifanias:
De certa maneira, todas as escritas de Lispector podem ser descritas como epifanias – não o tipo associado com revelações religiosas, senão aquele momento típico da arte modernista quando a rotina do quotidiano cede terreno a um rápido e mais profundo sentido de ser. Na crônica “A volta ao natural”, que Lispector classifica como “trecho”, ela descreve uma cena na qual uma mulher observa um homem que cuida de um fogo na lareira. A descrição enfatiza os diferentes papéis dados aos homens e mulheres: o papel do homem inclui carregar a lenha, preparar e mexer o fogo enquanto o papel da mulher consiste em julgar se o fogo pegou bem ou se precisa de mais cuidado. A natureza prescrita e automática dessas ações de repente assume um caráter diferente quando a mulher nota a mão livre do homem que fica a seu alcance. A proximidade da mno dele transforma o que até este ponto foi uma atividade comum num momento de desejo e paixão. A descrição da mulher sendo consumida por um “fogo doce [que] arde, arde, flameja” faz o momento até mais intenso e lancinante. E a mulher saboreia o que sabe ser uma sensação que – como o fogo – não vai durar. No fim da crônica, ela pega a mno livre do homem. E aquele ato simples a transforma no “doce fogo” de sua paixão e agora é ela que “doce [que] arde, arde e flameja” (98).
Devo mencionar que esta crônica/trecho, que apareceu ao lado de três outros fragmentos, a 5 de maio de 1968, no Jornal do Brasil, reaparece sob o título “Vida natural” em 5 de maio de 1973. A organizadora da coleção não diz nada sobre esta curiosidade e nno há outro exemplo de duplicação no volume. Parece importante notar que esta crônica reaparece exatamente cinco anos mais tarde no jornal–como se Lispector estivesse escolhendo-a por alguma razão especial que, dada a natureza efêmera das crônicas nos jornais, foi provavelmente só reconhecida por ela. Que foi publicada sozinha nesta segunda versão é outro indício de sua importância. Ao ler-se a coleção do início até o fim, a duplicação tem seu próprio efeito epifânico – como se o texto estivesse chamando atenção para sua própria existência.
Escolhi esta crônica para representar as muitas outras nas quais Lispector descreve os momentos únicos de consciência e reconhecimento que ocorrem inesperadamente no dia-a dia. Uma diferença significante entre suas crônicas/fragmentos e sua ficção mais longa é que nno só há mais insistência explícita na relação entre o ser e o existir nas crônicas, mas também uma maior necessidade implícita – quase um anseio – para que os leitores entendam esta relação.

A Crítica Social:
Em 1968, no meio da ditadura militar, Lispector escreveu o “trecho” intitulado “Estado de Graça”, que é uma meditação sobre o momento epifânico. O “trecho” tem um tom um pouco didático e descreve as diferentes experiências que esse estado mental pode induzir. O texto é muito pessoal: “…eu não quereria ter com muito freqüência o estado de graça. Seria como cair num vício, iria me atrair como um vício, eu me tornaria contemplativa como os fumadores de ópio. E, se aparecesse mais a miúdo, tenho certeza de que eu abusaria: passaria a querer viver permanentemente em graça” (91). Ao mesmo tempo, Lispector é muito explícita que tais momentos sno absolutamente essenciais para contrabalançar “os dias áridos e desérticos” e o sofrimento.
O que é interessante a respeito desta crônica é o pós-escrito que lança esta contemplação sobre as revelações no “aqui e agora” da política brasileira. Numa só oração, que fica separada do resto do texto, Lispector escreve: “Estou solidária, de corpo e alma, com a tragédia dos estudantes no Brasil”. A perseguição governamental do movimento estudantil foi fonte de ansiedade e queixa de muitos brasileiros, e Lispector apoiou o movimento quando participou numa passeata para protestar as ações governamentais. Embora seu comentário nno seja nada extraordinário nem único, seu aparecimento no fim dum texto sobre o poder das epifanias dá-lhe a força e o peso da experiência existencial que está descrevendo.
Em várias outras crônicas Lispector escreveu sobre a falta de Brasil em eliminar a fome. A intensidade com que trata esse assunto nno pode ser subestimada. A primeira crônica da coleção, intitulada “Crianças chatas,” é sobre uma mne e criança esfomeadas que, exaustas pela fome e resignadas à dor, finalmente adormecem. Lispector fica horrorizada com as cenas de fome na rua e escreve que a resignação nno é alternativa e que tem fome da revolta. A crônica “Daqui a 25 anos”, que aparece semanas mais tarde, fala outra vez sobre a fome, mas de uma maneira até mais poderosa e direta. Quem já leu A hora da estrela talvez se lembre que a dedicatória do autor que abre o livro diz que a história que vai ser contada acontece num “estado de emergência e calamidade pública” – embora a autora nno seja explícita em relação à fonte dessa emergência e calamidade. Na crônica “Daqui a 25 anos,” a fonte se torna mais clara: “Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome… milhares de homens, mulheres e crianças sno verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal é a miséria, que se justificaria ser decretado estado de prontidão, como diante de calamidade pública…” (51).
Lispector apóia a causa dos estudantes outra vez numa crônica que toma a forma duma carta aberta ao Ministro de Educação. Nessa carta, Lispector se queixa das cortes das verbas para os alunos que se estão candidatando para vagas nas universidades e se refere B nova legislação em termos de um crime nacional. Em uma das suas crônicas mais conhecidas, intitulada “De como evitar um homem nu”, ela critica a censura que proibiu o lançamento do filme “Como era gostoso o meu francês”, Nelson Pereira dos Santos por causa da nudez das personagens da história. Na sua defesa do filme, que ela viu numa mostra privada, Lispector escreveu: “O filme foi considerado atentatório ao pudor, aos costumes e à moral. Mas a censura implicou verdadeiramente com o nu masculino. Depois de alguma discussão deixaram passar o nu masculino dos índios – mas disseram que o nu do homem branco – o francês – que viveu entre os índios e adotou-lhes os modo de viver–nno seria permitido. Talvez seja inocência minha, mas, por favor, me respondam: qual é a diferença entre o corpo nu de um índio e o corpo nu de um homem branco?” (413).
Na crônica “A matança de seres humanos: os índios”, Lispector protesta contra a venda de terras nacionais pelo governo e advoga a criação de parques para preservar os indígenas e suas terras. Ademais, ela exige a adoção imediata de reformas do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária – reformas que continuam a serem debatidas até agora.
O interesse recente na memória e autobiografia torna a crônica até mais atraente para os estudiosos do gênero literário. As crônicas de Lispector nos revelam muitos coisas sobre seu mundo de escritora e sua paixão pelo que é milagroso na vida quotidiana. Não há nenhuma dúvida que a crônica lhe deu a liberdade de experimentar com o estilo e de tratar de certos assuntos que foram apresentados indiretamente em sua ficção. E ela ganhou um novo público e uma popularidade maior como autora. Apesar de suas dúvidas em escrever para um jornal e suas preocupações com a crônica como gênero literário, ela conseguiu manter aquela aura de mistério que temeu perder ao escrever explicitamente sobre si mesma. Ao mesmo tempo, atingiu uma intimidade e uma solidariedade com seus leitores que vão muito além daquilo que se encontra no resto da sua obra.

Bibliografia
Lispector, Clarice. A Descoberta do Mundo. Org. Vera Queiroz. 3ª ed. São Paulo: Francisco Alves, 1992.
—. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.



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