Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



DA CRISE À METANOIA: A TENSÃO DIALÉTICA ENTRE O SAGRADO E O PROFANO NA POESIA DE JORGE DE LIMA E MURILO MENDES – Sergio Carvalho de Assunção





 

 

Sergio Carvalho de Assunção

Universidade Estácio de Sá/UFF/Unifeso

 

 

Resumo: Este artigo propõe-se abordar a poesia de tonalidade espiritual em Jorge de Lima e Murilo Mendes partindo do princípio de que suas respectivas experiências poéticas foram potencializadas efetivamente por um estado de estado de crise e inquietude vivenciados pelo sujeito do início do século XX. Embora o fato religioso tenha proporcionado uma transformação que perpassa a esfera ética até o plano estético, suas produções serão abordadas sob a perspectiva do dilaceramento do sujeito, através da tensão entre a negatividade órfica e a espiritualidade cristã, vivenciadas tanto ao nível do corpo quanto no plano da poesia.

 

Palavras-chave: Poesia; Murilo Mendes; Jorge de Lima; Sagrado; Crise.

 

Abstract: From Crisis to Metanoia: the Dialectical Tension between the Sacred and the Profane in the poetry of Jorge de Lima and Murilo Mendes proposes to approach the poetry of spiritual tone in Jorge de Lima and Murilo Mendes assuming that their respective poetic experiences were leveraged effectively by a state of crisis and anxiety which are experienced by the subject of the early Twentieth century. Although religion  has provided a transformation in their poetry that permeates the ethical sphere until the aesthetic level, their works will be addressed in the perspective of a subject torn off by tension between the Orphic negativity and Christian spirituality, experienced both at body as in poetic levels.

 

Keywords: Poetry; Murilo Mendes; Jorge de Lima; Sacred; Crisis.

 

Minicurrículo: Possui graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2000), mestrado (2002) e doutorado (2008) em Estudos de Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com dissertação sobre o artista Jorge Mautner e tese sobre o poeta Waly Salomão, e concentra linha de pesquisa sobre Poesia, Contracultura, Música e Vanguardas. Atualmente é docente e pesquisador do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá e pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal Fluminense, com projeto de pesquisa sobre o surrealismo e o sagrado na poesia de Jorge de Lima e Murilo Mendes.

 

 

 

 

 

DA CRISE À METANOIA: A TENSÃO DIALÉTICA ENTRE O SAGRADO E O PROFANO

NA POESIA DE JORGE DE LIMA E MURILO MENDES

 

Sergio Carvalho de Assunção

Universidade Estácio de Sá/UFF/Unifeso

 

 

As harpas da manhã vibram suaves e róseas.

O poeta abre seu arquivo – o mundo –

E vai retirando dele alegria e sofrimento

Para que todas as coisas passando pelo seu coração

Sejam reajustadas na unidade

 

Murilo Mendes

 

Durante as primeiras décadas do século XX, no auge da modernidade industrial, o ocidente viveu um período de grande euforia desenvolvimentista científica, tecnológica e com os meios de comunicação. Porém, diante das guerras, do colapso socioeconômico e da eclosão do nazifascismo, o sujeito se viu mergulhado em uma crise que o esvaziava psíquica e espiritualmente, na medida em que seu futuro era colocado em cheque, que seu papel social era reduzido a uma função maquínica, e os valores culturais eram transformados em bens de consumo por uma poderosa macroestrutura econômica e sua lógica materialista.

Se por um lado a crise obrigou o sujeito a lidar com os novos meios de produção, reinventando, assim, outros modos e condições capazes de resistir ao utilitarismo e de intervir sobre a lógica cultural massiva, por outro, o avanço técnico e tecnológico possibilitou diversas experimentações e expansões no campo da linguagem e da arte, como o rádio, a fotografia e o cinema, apenas para citar alguns exemplos.

Em meio a essa crise, as potências criadoras eram severamente abaladas pelo materialismo da lógica industrial, promovendo uma descrença e um esvaziamento espiritual, além da liquidação dos sonhos e afetos culminada pelas guerras e pela ameaça atômica. Podemos dizer que o mesmo sujeito que teve a sua experiência cultural empobrecida desde a virada do século XIX para o século XX, consequentemente, teve sua sensibilidade e psiquismo esboroados pelo tédio e pelo desencanto, pela melancolia e pela angústia.

Mais do que uma experiência estética, a poesia moderna assumiu-se como um lugar crítico, proporcionando ao sujeito uma experiência através da linguagem, ao ressignificar e reinventar, efetivamente, sua perspectiva como um ato de resistência e transgressão contra a lógica massiva, utilitarista e alienante da modernidade industrial. Em face dessa realidade, pergunta-se, então, de que maneira é possível pensar essa crise do sujeito através da poesia, enquanto experiência transformadora do sujeito?

A partir dessa questão, propõe-se abordar a poesia de tonalidade espiritual em Jorge de Lima e Murilo Mendes partindo do princípio de que suas respectivas experiências poéticas foram potencializadas efetivamente por esse mesmo estado de crise e inquietude vivenciado pelo sujeito do início do século XX. Decerto que, muito embora o fato religioso tenha proporcionado uma transformação que perpassa a esfera ética até o plano estético, suas produções serão abordadas sob a perspectiva da crise e dilaceramento do sujeito moderno, em meio à tensão permanente entre a negatividade órfica e a espiritualidade cristã, vivenciadas tanto ao nível do corpo quanto no plano da poesia:

 

A igreja toda em curvas avança para mim,

Enlaçando-me com ternura – mas quer me asfixiar.

Com um braço me indica o seio e o paraíso,

Com outro braço me convoca para o inferno.

Ela segura o Livro, ordena e fala:

Suas palavras são chicotadas para mim, rebelde.

Minha preguiça é maior que toda a caridade.

Ela ameaça me vomitar de sua boca,

Respira incenso pelas narinas.

Sete gládios sete pecados mortais transpassam seu coração.

Arranca do coração os sete gládios

E me envolve cantando a queixa que vem do Eterno,

Auxiliada pela voz do órgão, dos sinos e pelo coro dos desconsolados.

Murilo Mendes (1994, p. 303)

 

Ao considerar que as experiências poéticas de Murilo Mendes e Jorge de Lima foram deflagradas por esse estado de crise, seja ele existencial, moral e espiritual, vivenciado pelo sujeito do início do século XX, pode-se dizer que o livro Tempo e Eternidade – escrito a quatro mãos em 1934, e logo após a conversão ao cristianismo pelos dois poetas –, além de simbolizar esse momento emblemático da vida pessoal, ele foi determinante para o rumo de suas respectivas poéticas. Este livro tornou-se o ponto divisório na obra de cada um, uma vez que este momento consolidou a busca de ambos pela essência sagrada, analógica e beatífica e compreensão de sua experiência vivencial, como um saber adquirido por meio da poesia.

Em entrevista a Gastão Pereira da Silva, Jorge de Lima comenta sobre o papel do poeta moderno no Brasil:

 

Veja que apesar dos retrocessos de cultura e civilização em que o mundo periodicamente se debate, a presença da poesia é mais sensível e mais real que os terroristas e as guerras. Nós, os poetas brasileiros, devemos nos integrar na imensa floração espiritual que brotará da terra mais salgada de sangue e de lágrimas; reconciliarmo-nos com a nossa dignidade de poetas, com a nossa força de poetas, com a nossa eternidade de poetas. O nosso passado milenar é tão profundo que não podemos enxergar em nossa trajetória o pequeno episódio dos régulos que impelem os homens a se entrematar. É possível que este continente americano, ou mesmo que esta humanidade brasileira cujo homem fraterno vai adquirindo uma longitude e uma latitude de alma só conseguidas por outros povos com o domínio da força bruta polarizada para o mal, é possível que seus poetas sejam amanhã os eleitos para inaugurar e não para rememorar. Poderemos elevar o nível dos corações, projetar as nossas mãos para consolar o distante companheiro aturdido pelas decepções da vida nos quatro pontos cardeais. Podemos projetar nossas mãos, não com estes gestos tão gratos aos bombardeadores-mores que pretendem sobre os cemitérios imensos plantar a nova desordem, do mundo, mas impor nossas mãos no gesto suave dos primitivos cristãos sobre os ombros e sobre os peitos dos próximos e longínquos companheiros precisados da nossa mensagem como pão de cada dia. Só assim os nossos campos e as nossas minas serão mais férteis e seremos olhados através das cordilheiras e dos antípodas (LIMA, 1997, p. 72).

 

 

Percebe-se que a modernidade de suas respectivas poéticas está determinada pela radicalidade expressional que cada um constrói, à sua maneira, segundo suas respectivas soluções formais do sujeito marcado por um estado de permanente tensão. Seja a expressão de inquietude movida pelos instintos que se confrontam com a cultura e com o outro, ou seja ela movida pelo desejo de transcender essa mesma cultura, visando, ao mesmo tempo, consolidar um sentido à existência sob a perspectiva do homem em relação com seu próximo e, ao mesmo tempo, com relação a Deus.

Ainda que Murilo ou Jorge assumissem claramente sua conversão religiosa – o que implicou, consequentemente em uma profunda transformação ética e estética –, em nenhum momento este fato comprometeu o caráter moderno, crítico e experimental de suas poesias, e tampouco assumiu uma expressão ascética ou proselitista. Ao contrário, essa transformação tornou-se evidente na medida em que a perspectiva espiritual se amalgamava à visão crítica diante da degradação humana na era industrial, sobretudo a partir das guerras, e à medida que a consciência artesanal do poeta passou a fundir o tom profético e apocalíptico com a plasticidade surrealista, o que deu às respectivas poéticas sua radicalidade expressional e projetiva da realidade inefável do sagrado.

 

É preciso falar-se das criaturas,

verdadeiras criaturas animadas,

das vivências totais, arbítrio e tudo,

alma, corpo funesto e essa imortal

 

perpetuidade além, Deus nas alturas,

nomes de terra e nomes eternados,

anjos, demônios, sonhos acordados

e as profecias, fúrias, posses, tudo

 

que um poema pode ter: esse clamor,

essa indefinição, esses apelos,

– sonho de rei Nabucodonosor,

 

que depois de refeito e decifrado

é a condição do bicho: carne, pelos,

e sangue breve do homem desgraçado.

(Jorge de Lima, 1997, p. 678)

 

 

Historicamente, é possível afirmar que esta polarização entre a negatividade pagã e a espiritualidade cristã assinala uma profunda cisão no ocidente, e que por sua vez marcou certa linhagem moderna da poesia do romantismo ao século XX, voltada para a gnose, para o ocultismo, e para o agnosticismo. Esta linhagem trouxe à tona o antagonismo cada vez mais evidente entre a negatividade pagã e a transcendência cristã, tal como demonstrou Raul Antelo (s.d.) a partir de um ensaio sobre Murilo Mendes, ao trazer, inclusive, um significativo trecho de uma entrevista do poeta, que alinhou as bases históricas e filosóficas da negatividade profana desde o século XVIII até sua influência no surrealismo francês do século XX.

Com o passar do tempo, a disseminação do gnosticismo no ocidente tomou grande proporção, acentuando a negatividade na poesia moderna em detrimento do cristianismo, que se viu enfraquecido como instituição. Esse processo assumiu proporções substanciais desde o Iluminismo à era industrial, sendo, mais tarde, determinantemente corroborado pelo pensamento de Nietzsche, e pela crítica de Marx, Freud e Durkheim às instituições religiosas, principalmente o catolicismo apostólico romano.

Some-se a esse processo o surgimento de uma mentalidade progressista forjada pela lógica materialista e tecnocrata, o que acentuou ainda mais o estilhaçamento e a descontinuidade do tempo eterno e do espaço infinito, visando desmontar a concepção da existência do sujeito fundada na totalidade metafísica do homem, do mundo e do cosmos em unidade com o sagrado. Eis então que o sujeito se vê deslocado dessa concepção cosmogônica e transcendente do sagrado, ao perceber a existência sob a perspectiva do corpo, pela potencialidade instintiva do desejo e em imanência com o mundo.

Para George Bataille, no momento em que esta totalidade se rompe, o indivíduo se redescobre a partir de uma dupla acepção de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto, quando é separado da natureza e devolvido à imanência das coisas finitas, de maneira que essa percepção o angustia, deixando-o terrificado. Acuado em sua finitude e desespero, o sujeito passa a criar sentido para sua existência integrando-se ao mundo das coisas por meio do trabalho, em tensão com a ordem íntima das coisas que é por onde se passa sua relação com o sagrado.

 

Em outras palavras, o trabalho e o medo de morrer são solidários, o primeiro implica a coisa e vice-versa. Na verdade, sequer é necessário trabalhar para ser em alto grau a coisa do medo: o homem é individual na medida em que sua apreensão o liga aos resultados do trabalho. Mas o homem não é, como se poderia acreditar, uma coisa porque tem medo. Ele não teria angústia se não fosse o indivíduo (a coisa), e é essencialmente ser um indivíduo o que alimenta sua angústia. É para responder à exigência da coisa, é na medida em que o mundo das coisas colocou sua duração como a condição fundamental de seu valor, de sua natureza, que ele aprende a angústia. Ele tem medo da morte desde que entra no edifício de projetos que a ordem das coisas é. A morte bagunça a ordem das coisas, e a ordem das coisas nos mantém. O homem tem medo da ordem íntima que não é conciliável com aquela das coisas (BATAILLE, 2015, p. 44).

 

Por outro lado, ainda que o processo de industrialização tenha provocado efeitos irreversíveis na concepção do homem moderno do século XX ao acelerar o tempo e desdobrar os espaços, mantendo-os imanentes e interconectados, a poesia de Jorge e Murilo superou a concepção que reduzia a poesia moderna brasileira a um paradigma que a colocou a serviço da forma, como apenas como ‘produto para consumo’, como uma fragmentação da realidade que visa desmontar a dimensão metafísica, contrapondo-se ao sentimento órfico, antropófago e profano de Oswald de Andrade.

Ao expressar os dramas do homem moderno em busca do sagrado, a poesia de Jorge e Murilo superou o paradigma oswaldiano, ao fundir a imanência e a transcendência, ao expandir a visão culturalista a uma perspectiva sobrenatural e supra real, além de produzir uma poesia de absoluta radicalidade plástica e expressional, além de extremamente crítica, empregando procedimentos formais absolutamente inovadores em suas respectivas linguagens poéticas.

Mais que uma luta entre o desejo de liberdade e reconciliação com Deus em confronto com a instintividade da condição carnal e animalesca que se abre ao pecaminoso, o que se passa no plano de suas poesias é um mergulho na natureza paradoxal humana, tentando alinhar a ordem de intimidade com o sagrado à ordem das coisas, para usar os termos de Bataille, no plano da poesia.

No caso de Jorge de Lima e Murilo Mendes, é sob a perspectiva cristã que suas respectivas poéticas devem ser compreendidas, considerando que, no plano de suas poesias, ao mesmo tempo em que a relação entre o sujeito e o sagrado se eleva a uma perspectiva transcendente e gloriosa proveniente do sobrenatural, essa dimensão é confrontada pela violência que se inscreve ao nível do corpo e dos afetos, como se tais violências configurassem não somente a condição humana em face da finitude terrena, mas, sobretudo, as tribulações pelas quais o sujeito deve vivenciar em seu processo de reconciliação com Deus pela fé, desde a queda adâmica:

 

Abandonarei as formas de expressões finitas,

Abandonarei a música dos dias e das noites,

Abandonarei os amores improvisados e fáceis,

Abandonarei a procura da ciência imediata

Serei a testemunha de um mundo que caiu,

Até que te manifestes na tua parusia.

 

Aceitarei a pobreza para que me dês a plenitude,

Aceitarei a simplicidade para que me dês a multiplicidade,

Descerei até o fundo da mina do sofrimento

Para que um dia me apontes o céu da paz.

 

Minha história se desdobrará em poemas:

Assim outros homens compreenderão

Que sou apenas um elo da universal corrente

Começada em Adão e a terminar no último homem.

(Murilo Mendes, 1994, p. 255)

 

Seja sob o tom agônico e escatológico que vai da sensualidade à devoração do outro, seja sob angústia ou desespero humano diante do flagelo da fome ou da guerra, ambos expressam a experiência conflituosa do sujeito que se equilibra entre a negatividade da queda e o desejo de elevação, como se essa tensão consubstanciasse sua experiência sacrificial e, ao mesmo tempo, como algo que só pode ser compreendido na ordem íntima em que se passa a relação de intensidade vivencial com o sagrado.

Segundo Bataille:

 

O sagrado é essa efervescência pródiga da vida que, para durar, a ordem das coisas encadeia e que o encadeamento transforma em desencadeamento, ou, em outros termos, em violência. Sem trégua, ele ameaça romper os diques, opor à atividade produtiva o movimento precipitado e contagioso de um consumo de pura glória. O sagrado é precisamente comparável à chama que destrói a madeira ao consumi-la. É o contrário de uma coisa, um incêndio ilimitado que se propaga, irradia calor e luz, queima e cega; e aquele que ele queima e cega, por sua vez, de repente também queima e cega. O sacrifício abrasa como o sol que lentamente morre da irradiação pródiga cujo brilho nossos olhos não podem suportar, mas ele nunca está isolado e, num mundo de indivíduos, convida à negação geral dos indivíduos como tais (BATAILLE, 2015, p. 44-5).

 

Em outras palavras, antes que a relação entre o sujeito e o sagrado possa ser vista apenas pelo ângulo analógico ou beatífico da poesia, considera-se, primordialmente, que a poesia de Jorge de Lima e Murilo Mendes visa substancializar a transformação espiritual (metanoia) no próprio fazer poético (poiesis), tomando-a como uma intervenção real que visa tocar a verdade que se passa na intimidade com Deus pela ordem das coisas.

Assim, na medida em que este estado de crise era trazido à tona, a experiência poética deixava de ser para estes poetas apenas um modo de resistência e intervenção a essa lógica massiva, maquínica e desumana, tornando-se, sobretudo, o meio pelo qual ambos passaram a cultivar a aproximação e busca da unidade com o sagrado como uma experiência ética, substancial e impessoal.

Para Georges Bataille, em A literatura e mal, a poesia moderna é marcada por um paradoxo que corresponde à natureza humana mais profunda, ao expressar a essência dualista e dinâmica de nossa condição, configurada pelo duelo entre o bem e o mal, como ele exemplificou em vários poetas, com destaque para William Blake e Charles Baudelaire.

Segundo Bataille:

 

O Mal, nessa coincidência de contrários não é mais o princípio oposto de uma maneira irremediável à ordem natural que ele é nos limites da razão. A morte sendo a condição da vida, o Mal, que está ligado em sua essência à morte, é também, de uma maneira ambígua, um fundamento do ser. O ser não está destinado ao Mal, mas deve, se assim pode, não se deixar encerrar nos limites da razão (BATAILLE, 2015, p. 26).

 

Bataille defende que a significação do Mal se configura a partir de uma autocondenação da própria condição humana, seja na inclinação para a morte, para a guerra ou para o erotismo, o que poderia forjá-lo para um estado de angústia, de raiva e repugnância. O Mal é tomado como um impulso, uma paixão ou uma atração irrefletida, diferentemente de uma intencionalidade calculista, crapulosa e egoísta, como diz Bataille, ao deslocar o Mal de um lugar moral, sujeito à lei, mas sob a espessura humana e passional, já que, segundo ele, “A literatura mais humana é o alto lugar da paixão”, isto é, como se esse embate apaixonado fosse absolutamente necessário ao homem para se reconhecer como sujeito:

 

Nem por isso a paixão escapa da maldição: só uma “parte maldita” é reservada àquilo que, numa vida humana, tem o sentido mais carregado. A maldição é o caminho da bênção menos ilusória. Um ser altivo aceita lealmente as piores consequências de seu desafio. Por vezes até precisa ir ao encontro delas. A “parte maldita” é a parte do jogo, da álea, do perigo. É ainda a parte da soberania, mas a soberania se expia (BATAILLE, 2005, p. 27).

 

Diante da evidência de uma existência em crise, a poesia expõe a impotência do sujeito em meio às macroestruturas econômicas e sociais que propiciam seu esvaziamento espiritual e a desvalorização humana, em meio ao progresso industrial e beligerante. Ao mesmo tempo, dentro da ótica de Bataille, é preciso que o sujeito vá ao encontro dessa paixão que o move, e que ao mesmo tempo é sua expiação, aceitando-a como a “parte maldita” que proporcionará sair do lugar comum, ou seja, desse vazio que o imobiliza e o definha.

Mais uma vez, no caso de Jorge e Murilo, essa negatividade humana não deve ser vista apenas sob a perspectiva da instintiva imanência órfica e pagã, ao passo que ela pode ser configurada dentro do contexto adâmico do cristianismo, isto é, da queda e expulsão do Éden. Deste modo, na medida em que a poesia naturaliza a irracionalidade insólita dessa paixão e negatividade trágicas para o nível da vida comum do sujeito, ela visa, dessa maneira, libertar o imaginário do racionalismo materialista e ordinário, lançando-o ao maravilhoso que transcende, isto é, consagrando esta tensão e anseio pela da promessa da vida eterna, sob a égide da natureza infinita de Deus.

O fato é que para Jorge e Murilo, o cristianismo se passa, antes de mais nada, na individualidade do sujeito e de sua prática cotidiana com o outro, independente de uma institucionalização que determine suas ações, desde a leitura do Evangelho até a incorporação do texto pelo sujeito, como uma ética vivenciada no dia a dia.

 

Sim, creio numa única, imensa, geral e verdadeira revolução: que é a Revolução de Cristo, que apenas começa e em que as outras revoluções sociais sejam elas quais forem, francesa ou russa, serão unicamente minutos dentro dessa eterna revolução, que só terminará no dia do Juízo Final. (…) Trazendo à Humanidade, muitas vezes distante da verdade, atrações momentâneas da vida, a realidade da Dor, a realidade da Morte, que jamais será afastada da realidade de Cristo, que a todo o instante nos espera, no final de todos os momentos (LIMA, 1997, p. 96).

 

Como disse Jorge de Lima, ao contrário de uma mobilização massiva, a revolução cristã se passa, primordialmente, ao nível da consciência, como uma transformação (metanoia) pela fé, e do próprio corpo, isto é, da própria experiência, ao ampliar sua ação da esfera existencial e pessoal para a esfera social e impessoal com o próximo, isto é, com o outro, sendo ao mesmo tempo transcendente e imanente. Como distingue Eugene Webb:

 

Uma linha de abordagem que pode nos ajudar a esclarecer esse problema é a que o considera nos termos de seu aspecto experiencial. De acordo com esse ponto de vista, uma das formas pelas quais o teísmo de tipo ortodoxo, o panteísmo e o ateísmo podem ser distinguidos encontra-se em sua relação com o senso do sagrado. Em sua forma hebraica, o teísmo ortodoxo apresenta um grande sentimento do sagrado como algo transcendente; em sua forma cristã, ao menos de maneira ideal, ele vem caracterizado tanto como imanente quanto transcendente, tendo ambos os polos em equilíbrio. O panteísmo, por sua vez, se diferencia por um senso de sagrado preciso, mas com um predomínio relativamente forte do polo imanente; o senso do sagrado transcendental precisa existir em alguma medida – caso contrário, não haveria qualquer sentimento de sacralidade –, mas no panteísmo ele geralmente parece quase eclipsado. Quando totalmente obscurecido, não há mais qualquer senso de sagrado, o que então gera uma perspectiva que pode ser adequadamente chamada de ateísta (WEBB, 2012, p. 294).

 

Verifica-se, deste modo, que, muito embora a religião cristã tenha sido determinante nas poéticas de Jorge e Murilo, isso não significou que suas poesias adotassem uma expressão puramente panfletária, prosélita ou ascética. Ao contrário, ambas as poéticas se valeram essencialmente do caráter transcendente e da tonalidade metafísica e espiritual, mas sempre colocados sob permanente tensão com a imanência da desordem material da vida cotidiana dos afetos e paixões, vivenciando este acirramento através da experiência poética inscrita ao nível do corpo.

 

Junto de ti, homem, ser processional que só vês tua sombra,

pousa a mão no teu ombro o Anjo que te proteja.

Mas, ora esvoaça à direita, ora esvoaça à esquerda

o grande e belo Anjo exilado da Luz.

Adiante de ti – perfurada e sangrando,

a mão do Redentor te aponta o caminho certo;

dentro de ti – seres anteriores a ti, – luminosos ou negros

vão contigo e tua sombra.

Quando adormeces e ficas durante o sono – invisível e inocente,

e o livre arbítrio voa de teu cadáver,

a estranha procissão espera que tu te acordes

para prosseguir a marcha.

Por isso é que te cansas sem motivo nenhum.

Por isso é que andas de costas para o caminho certo.

Por isso é que tropeças e tateias como um ser sem leme.

Por isso quando pensas estar sobre o abismo do Inferno,

a mão perfurada e sangrenta te conduz para cima.

(Jorge de Lima, 1997, p. 429)

 

Para o pensador e teólogo cristão Sören Kierkegaard, é justamente tal dinâmica conflituosa que condiciona o sujeito, de modo que este é, por sua vez, movido por uma permanente inquietação diante da vida, constituída de três esferas que se confrontam permanentemente, como a esfera estética, a ética e a espiritual. Segundo ele, a melancolia, a angústia, o desespero e a depressão, que histórica e atavicamente atormentam o ser humano, são apenas fluxos de um processo existencial do sujeito em sua relação com o mundo, de modo que este confronto, isto é, esta crise, deve ser vista como um processo de edificação da sua consciência ética e libertação por meio da fé e elevação espiritual acima da finitude da matéria:

 

Todo conhecimento cristão, por estrita que seja de resto a sua forma, é inquietação e deve sê-lo; mas essa mesma inquietação edifica. A inquietação é o verdadeiro comportamento para com a vida, para com a nossa realidade pessoal e, consequentemente, ela representa, para o cristão, a seriedade por excelência; a elevação das ciências imparciais, muito longe de representar uma seriedade superior ainda, não é, para ele, senão farsa e vaidade. Mas sério é, eu vô-lo afirmo, aquilo que edifica (KIERKEGAARD, O desespero humano, 1979, p. 189).

 

Em seu livro O conceito de angústia (2013), Kierkegaard afirma que a origem do pecado se deve a uma escolha consciente do pecado e afastamento de Deus, de modo que a inocência é, por sua vez, tornada uma ignorância. Sendo assim, resta-nos saber que nossa relação original com Deus foi substituída pela consciência histórica de nossa condição humana, fundada pelo pecado e pela ignorância.

Em outras palavras, Kierkegaard não reconheceu a proibição dos instintos como aquela que despertasse a concupiscência e causa a queda, sendo que, tanto na experiência pagã quanto na cristã, o homem sempre fora atraído pelo proibido. Ele admite, sim, que a inocência/ignorância, em seu estado de paz e repouso – uma vez que não há nada pelo que lutar – e em sua ausência de sentido, produz o efeito de vaziez e angústia. Logo, a sensualidade é tornada pecaminosa após a queda, ou seja, quando é tornada consciência, uma vez que se caso Adão não tivesse pecado ou transgredido os limites de Deus, o sexual jamais seria um instinto.

 

A narrativa do Gênesis sobre o primeiro pecado tem sido, sobretudo em nosso tempo, considerada de maneira um tanto ou quanto negligente como um mito. Isso tem um bom motivo, já que o que foi posto em seu lugar era justamente um mito, e ainda por cima um mito ruim, pois quando o entendimento decai no mítico, raramente daí resulta algo além de conversa fiada. Aquela narrativa é a única concepção dialeticamente consequente. Todo o seu conteúdo está concentrado propriamente nesta proposição: o pecado entrou no mundo por meio de um pecado. Se não fosse assim, o pecado teria entrado como algo de casual, que seria melhor não tentar explicar. A dificuldade para o intelecto constitui precisamente o triunfo desta explicação, sua consequência lógica profunda está em que o pecado se pressupõe a si mesmo, que ele entra no mundo de tal maneira que, ao ser, já é pressuposto (KIERKEGAARD, Temor e tremor, 1979, p. 34).

 

Em outro livro, O desespero humano, Kierkegaard define o sujeito a partir de uma tensão agônica ou acirramento que produz, dialeticamente o desespero e a liberdade. Segundo ele, se por um lado o sujeito é a síntese entre finito e infinito, entre a possibilidade e a necessidade, desesperamo-nos ou por não querermos ser quem somos, ou por querermos desesperadamente descobrir quem somos, o que nos impossibilita de atingir repouso e equilíbrio. Logo, nos desesperamos pelo que nos tornamos e pelo eu que não deveio. Para Kierkegaard:

 

O homem é espírito. Mas o que é espírito? É o eu. Mas, nesse caso, o eu? O eu é uma relação, que não se estabelece com qualquer coisa de alheio a si, mas consigo própria. Mais e melhor do que na relação propriamente dita, ele consiste no orientar-se dessa relação para a própria interioridade. O eu não é a relação em si, mas sim o seu voltar-se sobre si própria, o conhecimento que ela tem de si própria depois de estabelecida. O homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e se eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma uma síntese. Uma síntese é a relação de dois termos. Sob este ponto de vista, o eu não existe ainda (Kierkegaard, O desespero humano, 1979, p. 195).

 

Ainda segundo Kierkegaard, é possível reconhecer que a angústia e o desespero humanos são parte da natureza e da condição humana, conforme a herança adâmica após a queda do paraíso. Logo, para que o homem não se desespere é preciso aniquilar em si a cada instante essa possibilidade virtual e frequente, evitando que essa virtualidade recaia sobre a realidade psíquica e física. Deste modo, não desesperar é evitar a queda ou, ainda, elevar-se, tomando consciência de nossa natureza agônica da qual deriva nossa essência, já que se fôssemos uma síntese e não uma contradição, não haveria razão para nos desesperar, “e tampouco o poderíamos se esta síntese não tivesse recebido de Deus, ao nascer, a sua firmeza”.  E, por último, desesperamo-nos por relegar nossa perspectiva temporal ao agora, sem projetarmos a existência sob a perspectiva da eternidade:

 

Vem em primeiro lugar o desespero do temporal ou duma coisa temporal, em seguida o desespero de si próprio quanto à eternidade. Depois vem o desafio que é, no fundo, desespero, graças à eternidade, e no qual o desesperado, para ser ele próprio, abusa desesperadamente da eternidade inerente ao eu. Mas é precisamente por se servir da eternidade que esse desespero a tal ponto se aproxima da verdade, e é por estar próximo dela que vai infinitamente longe. Esse desespero, que conduz à fé, não existiria sem o auxílio da eternidade; graças a ela, o eu consegue a coragem de se perder, para de novo se encontrar; pelo contrário, recusa-se a começar por se perder, e quer ser ele próprio (Kierkegaard, O desespero humano, 1979, p. 233-234).

 

Em suma, Kierkegaard afirma que, após o pecado original, o homem está condicionado à sua natureza animal, determinada pela queda do paraíso (ou afastamento de Deus), e assim luta intensamente para reconciliar-se com Deus, mas para isso, é necessário elevar-se espiritualmente e renunciar ao instinto, sendo que, dessa luta, resulta o seu desespero. O homem não tenta livrar-se da carne, mas deseja ser tocado espiritualmente pelo sagrado e, deste modo, ao ser tocado pelo eterno e imortal de Deus, o espírito prevalece sobre o instinto, e não ao contrário, já que o instinto é devorador e, ao suprir seu desejo, ele revela sua própria vaziez de sentido:

 

Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio; tal como os médicos dizem de uma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade, da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna. E de qualquer maneira jamais alguém viveu ou vive, fora da cristandade, sem desespero, nem ninguém na cristandade se não for um verdadeiro cristão; pois que, a menos de o ser integralmente, nele subsiste sempre um grão de desespero (KIERKEGAARD, p. 203).

 

Enquanto para Freud e a psicanálise a crise do sujeito moderno foi definida pelo signo da repressão e neurose (FREUD, 2006), para Kierkegaard, ela passa pela angústia e desespero. Kierkegaard aponta a crise, ou seja, inquietude, a angústia, ou, mais determinantemente o desespero (porque este enlouquece) como a própria condição humana, uma vez que ele jamais pode ser superado inteiramente, mas só pode ser controlado e suspenso pela fé em Cristo.

Se para a filosofia nietzschiana (2004, p. 87-88), fundada na negatividade pagã, e para a psicanálise de Freud, o sujeito é movido por impulsos instintivos e desejantes, para Kierkegaard, o sujeito cristão é aquele que tem a consciência de que desejar é a essência fulcral da vida, desde que o foco do desejo não seja a satisfação de nossos instintos, mas sim pela busco do sentido primordial sobre nossa condição e existência através de Deus.

Evidentemente que isto implica em um paradoxo, já que a consciência e desejo de uma existência com Deus só pode ser alcançada por um salto sobre, pois, ao mesmo tempo em que se caminha pelo desconhecimento de Deus, é como se para cada passo da consciência fosse necessário um salto inconsciente em direção ao abismo e ao vazio pela fé.

Em outras palavras, só se chega a Deus por um salto sobre a queda do instinto, e sobre o abismo e a vaziez da consciência materialista, ou seja, é um salto sobre a escuridão, movido pela fé e absoluta crença de que este mesmo salto pisará o rochedo mais firme e seguro, ao passo que este vazio da razão angustiada, só pode ser preenchido por Deus. Ao mesmo tempo, este salto exige uma convicção, que é precedida por uma consciência, e que deseja ser transformada pelo poder sobrenatural de Deus:

 

Não nasci no começo deste século:

Nasci no plano eterno,

Nasci de mil vidas superpostas,

Nasci de mil ternuras desdobradas

Vim para conhecer o mal e o bem

E para separar o mal e o bem.

Vim para amar e ser desamado.

Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos

Não vim para construir a minha própria riqueza

Nem para destruir a riqueza dos outros.

Vim para reprimir o choro formidável

Que as gerações anteriores me transmitiram.

Vim para experimentar dúvidas e contradições.

 

Vim para sofrer as influências do tempo

E para afirmar o princípio eterno de onde vim.

Vim para distribuir inspiração às musas.

Vim para anunciar que a voz dos homens

Abafará a voz da sirene e da máquina,

E que a palavra essencial de Jesus Cristo

Dominará as palavras do patrão e do operário.

Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,

Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.

(Murilo Mendes, 1994, p. 248-249)

 

O lugar do sagrado que funda a poesia cristã de Jorge e Murilo não se constitui pela suspensão etérea e liberta do desespero, mas sim sob o prisma dramático e conflituoso da existência terrena, vivenciada pelo sujeito a partir de sua consciência diante da negatividade demoníaca e da transcendência divina. Ou seja, para o cristão a queda é, paradoxalmente, como um peso que cada vivente carrega em si até hoje, e que pode nos levar ao abismo do desespero e à angústia do vazio, como o signo de uma crise e condenação, mas que deve, ao mesmo tempo, servir como uma força propulsora a nos mover em direção a Deus pela fé.

Logo, não se trata de uma fé puramente impulsiva e irrefletida, mas de uma fé consciente da decisão espiritual do sujeito e visando a transformação ética ao nível de suas práticas cotidianas, ou seja, a partir de uma metanoia. Do contrário, uma fé sem consciência dessa escolha e decisão seria um mero fideísmo, e os poetas têm plena consciência disso. Em face desse desejo grandioso, a consciência cristã está em saber que tal movimento será posto à prova todos os dias, como modo de fortalecimento da fé pelas tribulações e compreensão de que esta luta engendrada no corpo e na consciência corresponde à nossa própria experiência íntima da ordem de Deus:

 

O mundo atual, como sempre, é um grande campo de batalha, onde se digladiam constantemente as forças do Mal e do Bem. Muitas vezes pensamos, devido a circunstâncias fortuitas e à curta visão do homem, pensamos que o Mal está ganhando terreno, como atualmente é a impressão que nos dá a imensa tragédia universal dos tempos presentes. Mas não! O Bem está à frente, o Bem conquista, mesmo sem nós percebermos, terreno para o Reino de Deus, dia a dia, hora à hora, minuto a minuto (LIMA, 1997, p. 96).

 

Decerto, ao colocar Jesus Cristo no centro de sua existência, o cristão deseja que o espaço esvaziado de sua identidade em desespero seja preenchido primordialmente pelo sagrado. Do contrário, a crença e opção pelo cristianismo não tornam o sujeito imune à sua natureza pecaminosa ou isento da malignidade, uma vez que essa é sua natureza terrena e animalesca.

Em outras palavras, o cristianismo é a consciência de uma luta permanente entre o bem e o mal ao nível do corpo e da mente, sob a crença na promessa de libertação e vida eterna de Cristo através do amor. E essa é a perspectiva cristã que compõe a poíesis de Jorge de Lima e Murilo Mendes, ao passo que ambos reconhecem e expressam a condição humana sendo marcada pela dualidade e acirramento entre a negatividade profana, instintiva e devoradora das paixões, e a elevação de uma consciência espiritual cristã que transcende e liberta-se da devoração do outro pelo amor ao próximo e a Deus, acima de tudo, como na Carta de Paulo aos Gálatas 5:13-17:

 

Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros. Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis (Bíblia sagrada, 2011).

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ANTELO, Raul. “Murilo, o Surrealismo e a religião” disponível em:

<http://www.cce.ufsc.br/ñelic/boletim8-9/raulantelo.htm>.

BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

BATAILLE, Georges. Teoria da religião. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

BÍBLIA SAGRADA. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2a ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos (1927-1931). Tradução Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 2006. (ESB, v. XXI).

KIERKEGAARD, Sören Aabye. Diário de um sedutor; Temor e tremor; O desespero humano. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

KIERKEGAARD, Sören Aabye. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes, 2013.

LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

NIETZSCHE, Friedrich W. Aurora. São Paulo: Cia Letras, 2004.

WEBB, Eugene. A pomba escura – o sagrado e o secular na Literatura Moderna. São Paulo: Realizações Editora, 2012.

 

 



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