Revista LitCult – Vol.9 - 2. semestre 2015



MÚSICA POPULAR BRASILEIRA EM FOCO: O POETA DO BLOCO E SEU POBRE BLUES – Lucimar Simon





MÚSICA POPULAR BRASILEIRA EM FOCO:   O POETA DO BLOCO E SEU POBRE BLUES

Lucimar Simon

Universidade Federal do Espírito Santo

 

Resumo: Trata-se de uma análise simples e resumida sobre aspectos da Música Popular Brasileira e a histórica e conturbada carreira do músico capixaba Sérgio Sampaio, artista caracterizado como um dos “malditos” da MPB. Nesse texto buscamos destacar dentro da trajetória pessoal do cantor e compositor capixaba uma assimilação com o momento histórico brasileiro no que tange alguns aspectos gerais da música a partir da década de 1960.

 

Palavras-Chaves: Sérgio Sampaio, Música, Cultura, Política.

 

Resúmen: Es un análisis simple y breve de aspectos de la Música Popular Brasileña (MPB) y la histórica y conturbada carrera del cantante Sérgio Sampaio, artista destacado como uno de los “malditos” de la MPB. En este texto se busca resaltar dentro de la trayectoria personal del cantante y compositor de Estado de Espíritu Santo (capixaba) una asimilación con el momento histórico de Brasil y con algunos aspectos generales de la música desde la década de 1960.

 

Abstract: This is a simple and brief analysis of some aspects of Brazilian Popular Music (MPB) and the historic and troubled career of the musician Sérgio Sampaio, born in Espírito Santo State (capixaba), an artist considered as one of the “damned” in MPB. In this text, we try to highlight the personal story as singer and songwriter of Sampaio and his assimilation of some aspects of Brazilian history since the 1960s.

 

Currículo: Lucimar Simon nasceu em Linhares – Estado do Espírito Santo em 1977 e vive em Vitória desde 2001. Possui, pela Universidade Federal do Espírito Santo, graduação (Licenciatura e Bacharelado) em História em 2011; graduação (Licenciatura) em Letras – Português e Espanhol – em 2015; pós-graduação lato sensu, em nível de Especialização, no curso Ensino e Interdisciplinaridade – História e Literatura: Texto e Contexto, em 2013 e pós-graduação lato sensu, em nível de Especialização, em Artes Corporais para Educação Integral, em 2014.

 

MÚSICA POPULAR BRASILEIRA EM FOCO:

O POETA DO BLOCO E SEU POBRE BLUES

 

Lucimar Simon

Universidade Federal do Espírito Santo

 

Introdução

Desde o final dos anos 50 o Brasil lutava para se libertar do complexo de “país de segunda classe”. Nossas culturas, populares e musicais resultantes de miscigenação das culturas europeia, africana e indígena estavam tomando seus primórdios caminhos ao reconhecimento nacional e internacional. De fato a música é considerada uma expressão artística que contém um forte poder de comunicação, principalmente quando se difunde pelo universo urbano, alcançando ampla dimensão da realidade social.

Se de fato essas condições, já identificadas são reais e se estabelecem dessa maneira, aparentemente a música poderia constituir-se em acervo importante para se conhecer melhor ou revelar zonas obscuras das histórias do cotidiano dos diversos segmentos sociais. A música pode ser encarada como uma rica fonte para compreender certas realidades da cultura popular e desvendar a história de setores da sociedade pouco lembrados pela historiografia.

Todavia, tais investigações raramente têm ocorrido e por diversas razões os trabalhos historiográficos que tratam de desvendar as relações entre história, música e produção do conhecimento enfrentam uma série de intermináveis dificuldades. Estas são a dispersão das fontes, a desorganização dos arquivos, a falta de especialistas e estudos específicos, escassez de apoio institucional, por isso, as pesquisas, não raro, acabam resumindo-se a trabalhos individuais de campo e de arquivos isolados de investigações sistemáticas e de longa duração.

Com relação à música popular urbana moderna, os problemas ganham nova e grave dimensão, ampliando e dificultando em todos os sentidos o desenvolvimento das pesquisas. As universidades e agências financiadoras tradicionalmente menosprezaram as pesquisas em torno dessa temática. Ao cederam espaços às investigações sobre a música popular, sempre o fizeram quando havia relações ou com a música erudita ou a folclórica, delimitando-se estas exclusivamente a esses respectivos departamentos e núcleos.

Infelizmente, a bibliografia da história da música, como mais um elemento da história da arte, de modo geral apenas reforçou essa postura e pouco contribuiu para ultrapassar esses limites e restrições. Ao contrário, suas linhas e tendências predominantes quase sempre serviram para reforçar limitações e preconceitos. O universo popular, por exemplo, geralmente é esquecido pela historiografia da música, e quando se refere a ele, reforça apenas as perspectivas românticas, nacionalistas ou folclóricas.

Isto ocorre porque, de modo geral, ela está fortemente marcada por um paradigma historiográfico tradicional, normalmente associado àquela concepção de tempo linear e ordenado, em que os artistas, gêneros, estilos e escolas sucedem-se mecanicamente, refletindo e reproduzindo, assim, uma postura bastante conservadora no quadro da historiografia contemporânea.

 

Momento histórico

A canção é porta-voz do Brasil, tão importante como a História, a Literatura, o Teatro, o Cinema e as Artes plásticas. A música brasileira tem recebido alguns estudos e análises, embora a escassez de títulos venha sendo revertida ultimamente e a maioria deles priorize a biografia de cantores e compositores. A música nos dias atuais tem sido objeto de estudo de cientistas políticos, historiadores, sociólogos entre outros grupos de atuação. É com esse empenho que ela chega a uma verdadeira reformulação com objetivo de concretizar-se e harmonizar-se entre os diversos campos dos saberes.

O sucesso da bossa nova com aceitação internacional e outras conquistas de afirmação nacional fizeram da década de 60 um período de grande exacerbação de nacionalismo. Além disso, também aumentou o grau de conscientização política dos problemas e carências do povo brasileiro acirrando as disputas ideológicas entre os vários segmentos da população. Após o desastre da administração do presidente Jânio Quadros e com a ascensão de João Goulart em 1961 aumentaram os conflitos sociais, resultando no golpe militar de 1964.

Historicamente, 1964 foi um ano profundamente marcante para o Brasil. O golpe militar de 31 de março anularia de vez o sonho modernizante que vinha do governo Juscelino Kubitschek e as possibilidades de reformas sociais que foram propostas na época por João Goulart. O país deixava de olhar o futuro e passava a acompanhar o ritmo soturno da Ditadura Militar que se prolongaria por mais de 20 anos.

No início, o general Castelo Branco deu surpreendentes concessões aos setores culturais, permitindo assim que as vanguardas pipocassem e formidáveis arranjos artísticos se realizassem. Em 1968 é o ano mais importante da década de 60 e um período divisor de águas para o século 20. Nesse período, a juventude do Ocidente passava a exigir mudanças, rupturas e atitudes arrojadas. Em maio de 1968, milhares de pessoas saem às ruas de Paris, em protestos que misturavam política, ideologias e traçavam novos rumos de pensamentos.

 

A cultura musical brasileira

A cultura musical brasileira acompanhou todas as mudanças ocorridas no país, com a afirmação da bossa nova e o surgimento das músicas de cunho social apresentadas principalmente nos “Festivais de Música Brasileira”, principalmente os da TV Excelsior e TV Record surgiram composições de diversos artistas como Sérgio Ricardo, Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Torquato Neto, Heraldo do Monte, Hilton Acioli e muitos outros. Marcos Napolitano afirma que

Apesar de combatida pelos críticos mais exigentes, a música popular, cantada ou instrumental, se firmou no gosto das novas camadas urbanas, seja nos extratos médios da população, seja nas classes trabalhadoras, que cresciam vertiginosamente com a nova expansão industrial na virada do século XIX para o século XX (NAPOLITANO, 2005, p. 16).

 

Compositores não engajados nos movimentos sociais também passaram a compor músicas de cunho social em função da censura imposta pelos governos militares da época.  A grande divulgação de cantores americanos de rock através do cinema e gravadoras ajudou também para o nascimento do rock brasileiro que contou com ampla divulgação da mídia nos anos 60.

Um dos principais incentivadores, o compositor e radialista Carlos Imperial fundou em 1958 o Clube do Rock, no Rio de Janeiro, onde se apresentavam e se reuniam os amantes do rock; nesse clube iniciaram suas carreiras Roberto Carlos e Erasmo Carlos. A parcela de público que preferia músicas oriundas do rock passou a ter seu espaço musical com programas específicos na televisão cujo ápice foi o programa “Jovem guarda” iniciado em 1965 com Roberto, Erasmo e Vanderleia permanecendo no ar pela TV Record durante vários anos.

Sob a influência da Jovem guarda e dos Beatles nasceu em 1967 o Tropicalismo, movimento de vanguarda liderado por Caetano Veloso, Rogério Duprat, Gilberto Gil, Júlio Medaglia e outros; suas principais composições foram “Tropicália”, “Domingo no parque” e “Alegria, alegria” onde era incentivada a universalização da música brasileira inclusive com utilização de guitarras elétricas e absorção de vários gêneros musicais: pop-rock, música de vanguarda, frevo, samba, bolero, etc.

Assim na década de 60 três novas grandes vertentes musicais podem ser identificadas: “Bossa nova, músicas sociais de festivais e rock da jovem guarda”; evidentemente músicas com ritmos tradicionais como samba, samba canção, músicas de carnaval e músicas regionais continuaram a ter seu espaço, mas com menos divulgação e menor sucesso que as três citadas.

 

Os representantes

A música popular brasileira também reservou aos cantores e compositores ditos “marginais” os capítulos mais interessantes de sua história. Donos de carreiras irregulares e, não raros, com existências trágicas, os “artistas malditos” sempre estiveram no acostamento do sucesso. Embora o folclore que os cerca sirva para torná-los figuras ímpares, quase míticas, a realidade para esses artistas não teve o mesmo lirismo que se costuma creditar a eles:

 

A uma certa altura da década de 70, virou lugar-comum chamar de “maldito” todo artista com aura de louco e contestador, de comportamento extravagante, fora dos padrões, apresentando um trabalho hermético, “difícil”, anticomercial. Lutávamos dentro da ditadura. Nossas palavras, atitudes e nossas músicas nos levaram a um ponto que a indústria fonográfica não sabia como catalogar. Maldito naquela época era elogio. O Brasil era um país amaldiçoado (MOREIRA, 2003, p. 206).

 

O carioca Jards Macalé foi um dos agraciados com o rótulo de maldito. Junto a ele acrescenta-se Tom Zé, Sérgio Sampaio e outros como Luiz Melodia e Jorge Mautner.

 

Sérgio Sampaio

Sérgio Sampaio foi um desses artistas, ditos “malditos”. Marginalizado pelas gravadoras, pelo público e, talvez, até por ele mesmo, chegou a passar fome. Mas, se não conseguiu sucesso e reconhecimento imediatos, ao menos Sampaio agregou em torno de si, poucos, mas fervorosos seguidores que ainda hoje carregam seu nome e suas músicas.

Assumindo uma postura de “maldito” numa época em que nomes importantes da MPB estavam no exílio, trabalhando sob o impacto esmagador da extraordinária geração surgida nos festivais de canção da segunda metade dos anos 1970, Sérgio Sampaio estreou com um álbum que combinava samba, rock e marcha-rancho, entre outros gêneros, e que resumia com perfeição o clima de baixo-astral do momento histórico.

Embora a faixa-título tenha sido o único sucesso obtido pelo autor em toda sua carreira, “Eu quero é botar meu bloco na rua” contém um punhado de canções notáveis, como “Filme de terror”, “Pobre meu pai” e “Eu sou aquele que disse”. Elas retomam alguns dos principais temas do momento, o elogio da loucura, a sensação de marginalidade, a paranoia generalizada, o estranhamento entre as gerações:

 

Antes de sua morte prematura, Sérgio Sampaio ainda pôde lançar dois outros discos, deixando inacabado um quarto, lançado postumamente; mas sua obra-prima é sem dúvida seu trabalho de estreia, de importância fundamental para a compreensão do período da história da nossa música popular entre o fim da era dos festivais e a eclosão do rock – Brasil dos anos 1980 (BRITTO, 2009, p. 96).

 

Houve um ápice na obra e na carreira do cantor e compositor Sérgio Sampaio (1947-1994), mas quase tudo acabou sufocado pelo sucesso estrondoso da marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua”, lançada em 1972. Avesso à superexposição e às exigências da indústria fonográfica, Sampaio meteu os dois pés na jaca e, às margens da fama do conterrâneo Roberto Carlos e do parceiro Raul Seixas, construiu uma carreira pouco sólida, embora muitíssimo rica e feita de canções que tratavam sem meias-palavras das angústias, dos amores, dos desafetos, dos desejos e das frustrações que o artista capixaba colecionou em 47 anos de vida.

Uma delas, “Eu sou aquele que disse”, dá nome ao livro que celebra os 60 anos de nascimento deste botafoguense fanático que fez troça da própria loucura, desprezou tanto a ditadura militar quanto a luta armada que se propunha a derrubá-la, Sérgio Sampaio, elegeu o “desbunde” como solução política e existencial num mundo paranoico e destrutivo:

 

Sérgio experimentou uma grande identificação com o estilo de vida dos poetas românticos do século XVIII, que viviam intensamente a arte, o amor e as madrugadas a céu aberto, e morriam jovens quase sempre de tuberculose. Ele até mesmo acreditava que morreria jovem como eles. Mas tarde, seriamente interessado em literatura escreveria seus próprios contos, herméticos e kafkianos, de difícil interpretação. Fazia uns contos que ninguém entendia (MOREIRA, 2003, p. 23).

 

Sérgio Moraes Sampaio (Cachoeiro de Itapemirim, 13 de abril de 1947-Rio de Janeiro, 15 de maio de 1994) foi um cantor e compositor brasileiro e, no dizer do cantor Lenine, um nome marginalizado que equipara a Tim Maia e Raul Seixas. Como um dos “malditos” da música popular brasileira. Suas composições permeiam vários estilos musicais, indo dos folclóricos samba e choro, ao rock’n roll, blues e balada.

Sobre a poética de suas composições presenciamos elementos de Kafka e Augusto dos Anjos, autores que ele lia e apreciava. Declarou num estudo Jorge Luiz do Nascimento:

A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio, possui a fúria modernista. Porém, o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices e ícones da paisagem urbana contemporânea (NASCIMENTO, 2007, p. 41).

 

Filho de Raul Gonçalves Sampaio, dono de uma tamancaria e maestro de banda, e de Maria de Lourdes Moraes, professora primária, era primo do compositor Raul Sampaio Cocco (autor de sucessos na voz do conterrâneo Roberto Carlos). Assistiu o pai compor a canção “Cala a boca, Zebedeu”, quando tinha 16 anos e que veio a gravar mais tarde. Tocando violão, era um artista nato que buscava mostrar seus trabalhos. Segundo João Moraes Machado, Sérgio Sampaio estava sempre sedento para mostrar suas músicas, precisava de uma orelha e nunca fez doce para tocar entre os amigos:

 

Sempre que posso aplico alguém no mundo Sampaio, sempre que deixam, ou não, toco suas canções. Vivo redescobrindo sua obra e lembrando de tempos já escorridos na vazante da história, nossa história de família e de amizade. Lembro do bar do Auzílio, do Sérgio lendo Kripta, Kafka e Alan Poe, no quartinho dos fundos da velha casa em Marataízes, das muitas canções compostas em minha casa, o velho gravador, a risada e os olhos sem mais tamanho (MACHADO, 2007, p. 7).

 

Aficcionado pelos programas de rádio, onde acompanhava os cantores da época como Orlando Silva, Sílvio Caldas ou Nelson Gonçalves, que o inspiravam, veio a tornar-se imitador de radialistas como Luiz Jatobá e Saint-Clair Lopes, conseguindo trabalho numa emissora da cidade natal, a XYL-9. Em 1964 tentou trabalhar no Rio de Janeiro na Rádio Relógio, retornando para sua cidade natal após quatro meses.

Em fins de 1967 muda-se definitivamente para o Rio, inicialmente para tentar a carreira como radialista, embora não tenha conseguido firmar-se em nenhum trabalho por frequentar a vida boêmia carioca, atraído pela música e a bebida; morou em pensões baratas e até na rua, chegando a mendigar comida. Sérgio tinha passado a cantar na noite, em bares, até que em fevereiro de 1970 demite-se da Rádio Continental para dedicar-se integralmente à música.

Nos primeiros anos na cidade maravilhosa Sérgio Sampaio viveu intensamente as noites cariocas. Tão intensamente que não se firmou em emprego nenhum, por “nunca recusar um convite, a qualquer hora do dia ou da noite, para um programa envolvendo música e bebida” (MOREIRA, 2003, p. 26). Sérgio Sampaio sempre pautou sua força criativa na palavra. Escrevendo em primeira pessoa, fazia de suas letras uma espécie de crônica musicada do seu mundo, visto a partir de um olhar lírico, melancólico, irônico, crítico, revoltado.

Enfim, um olhar diferenciado, de um artista indócil que jamais se encaixou em rótulos e em modelos preestabelecidos, no fundo, a obra de Sérgio Sampaio gravita em torno do amor e de suas desventuras. Fazia-o ao seu modo, sem sentimentalismo, porém com intensidade, humor, originalidade. E o ritmo e ou gênero musical funcionavam, para ele, como veículos para expressar seus sentimentos em forma de canção; daí a razão pela qual jamais se prendeu a um único estilo, passeando pelo choro, samba, marcha-rancho, rock, blues etc.

A trajetória errática do capixaba Sérgio Sampaio sempre desafiou explicações. Depois de sacudir o país em 1972 com a marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua”, um sucesso estrondoso, que realmente marcou época, o compositor viu pouco a pouco sua carreira estagnar.

Difícil de entender porque um artista de evidente talento, melodista sensível, poeta inspirado, expressivo cantor, violonista competente acabou por não alcançar, em seu tempo, a popularidade e o prestígio devidos. Há quem diga que o sucesso foi da música, não do cantor e compositor, uma análise um tanto simplista, mas não desprovida de certo fundo de verdade. 

Apesar de suas músicas primarem pela simplicidade harmônica e suas letras pela linguagem cotidiana, Sérgio nunca conseguiu popularizá-las. Essa culpa o perseguiu durante toda a vida: “Quem faz um Bloco na Rua só pode ser povão”, dizia ele, um típico homem do povo que podia ser visto nos botecos, tomando em pé a sua pinga (Moreira, 2003, p. 79). O rótulo de “maldito” que as gravadoras e a mídia pregaram-lhe na testa acabou atravancando sua carreira, antes mesmo que ela pudesse realmente começar.

Na verdade, é a partir do Festival Internacional da Canção de 1972 que Sérgio Sampaio vislumbra seu ingresso no clube fechado da MPB. Feita em dezembro de 71, a marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua” acabou sendo, segundo Rodrigo Moreira, “uma síntese artística e existencial de tudo o que o compositor viu e viveu; uma projeção de anseios tão pessoais quanto identificados com a coletividade naquele momento histórico”. Vale lembrar que o Brasil atravessava seu pior momento político nas mãos do regime militar.

 

Conclusão

O altar da cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, não é habitado apenas pelo trono do rei Roberto Carlos. Existe outro importante nome da música popular brasileira, que reina como o mais maldito entre os malditos da MPB. O capixaba Sérgio Sampaio foi daqueles artistas não reconhecidos, ou melhor, não adequadamente avaliados em seu tempo. Em plena ditadura Médici, estourou nacionalmente com “Eu quero é botar meu bloco na rua”, histórica marcha-rancho, considerada um dos mais eloquentes protestos da MPB contra a ditadura. Ainda jovem e imaturo demonstrou toda sua categoria e versatilidade como cantor e compositor, mas parecia estigmatizado por aquela música tão marcante. Viva Sampaio!

Em síntese, as questões realçadas no texto alcançaram pelo menos três aspectos relevantes para a reflexão do pesquisador que pretende trabalhar com a canção popular: a linguagem da música, a visão de mundo que ela incorpora e traduz, e, finalmente, a perspectiva social e histórica que ela revela e constrói. Essas questões, levantadas de modo introdutório, também servem, de certo modo, para recolocar alguns temas na discussão das relações entre história e música, literatura e música entre outros pontos de abordagens gerais.

E, tentando ultrapassar a tradicional concepção de estudo sobre a história da música procuramos refletir e organizar alguns elementos para compreender melhor as múltiplas relações entre a música popular e o conhecimento histórico, pois é bem provável que as músicas possam esclarecer muitas coisas na história contemporânea que às vezes se supõem mortas ou perdidas na memória coletiva.

 

Referências

BRITTO, Paulo Henriques. Eu quero é botar meu bloco na rua. De Sérgio Sampaio/Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009. 96 p.

MACHADO, João de Moraes, Eu sou aquele que disse. João Moraes Machado (Org.). Vitória: PPGL/MEL, 2007. 103 p.

MOREIRA, Rodrigo. Eu quero é botar meu bloco na rua: a biografia de Sérgio Sampaio. 2ª

  1. Niterói: Muiraquitã, 2003. 240 p.

NAPOLITANO, Marcos. História e Música: história cultural da música popular. 2ª ed. rev. pelo autor. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 117 p.

NASCIMENTO, Jorge Luiz do. Lugares suspeitos, terras de ninguém: alguns territórios de Sérgio Sampaio. In: MACHADO, João de Moraes. Eu sou aquele que disse. João Moraes Machado (Org.). Vitória: PPGL/MEL, 2007. p. 31-49.



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