Revista Mulheres e Literatura – vol. 19 – 2017



MULHERES E SUAS REPRESENTAÇÕES: A IDEALIZAÇÃO DO FEMININO EM GEORGE SAND – Daiane Basílio de Oliveira





 

Daiane Basílio de Oliveira

Universidade Federal de Viçosa

 

Resumo: A literatura ocupa-se do social e liga-se diretamente a ele. O Romantismo apresentava a discussão sobre a realidade, na qual se inseria a mulher, naquela sociedade patriarcal. O romance Indiana, de George Sand, publicado em 1832, surge  como um dos inauguradores do discurso feminista na forma literária, evidenciando a situação da mulher, denunciando as opressões e rompendo com paradigmas da ideologia dominante. Aqui observaremos como esses aspectos se apresentam como traços presentes no caráter e na ação das mulheres nessa obra de modo a idealizá-las.

 

Palavras-chave: Literatura de autoria feminina, feminismo, mulher, George Sand.

Minicurrículo: Mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Letras – Estudos Literários – pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com ingresso em 2015, Daiane Basílio de Oliveira é formada em Letras – Português/Francês (UFV, 2015), possui experiência na área de revisão de textos e no ensino de língua portuguesa, francesa e redação. Atualmente, desenvolve pesquisas no campo literário, sobretudo em literatura francesa e crítica feminista.

 

 

 

MULHERES E SUAS REPRESENTAÇÕES: A IDEALIZAÇÃO DO FEMININO EM GEORGE SAND

 

Daiane Basílio de Oliveira

Universidade Federal de Viçosa

 

Introdução

Até o século XIX, a representação da mulher nos cânones literários era marcada pela subserviência. Neste momento, começa-se a emergir a escrita literária feminina, que adentra os portões da arte, colocando em questão as circunstâncias sócio históricas nas quais as mulheres se encontravam.

Nos romances de autoria masculina, assim como no círculo literário, as mulheres ocupavam posição secundária. As personagens femininas se encontravam vinculadas a papéis social e culturalmente construídos, moldados às convenções patriarcais. Zolin (2009) menciona que além de tradicionalmente construídas, as personagens eram “submissas, dependentes, econômica e psicologicamente do homem”, o que muda ao ser retratadas nas obras literárias de autoria feminina, nas quais são “engendradas como conscientes de sua condição de inferioridade e como capazes de empreender mudanças em relação a esse estado de objetificação” (ZOLIN, 2009, p.222).

Neste contexto, em 1832, desponta a francesa George Sand com Indiana, seu primeiro romance, no qual a autora empreende com sensibilidade uma trama repleta de sentimentalismo, estruturada por meio de uma linguagem eloquente e realista, cujo pilar principal é a crítica à sociedade patriarcal, mais notoriamente à forma com que a mulher era tratada no matrimônio. “Romance dentro da história, romance de 1830, Indiana é muito mais que um romance de tese que denuncia a opressão das mulheres dentro do casamento” (BORDAS, 2004, p.147, tradução minha) ¹.

George Sand (1804-1874), pseudônimo masculino de Amandine-Aurore-Lucile Dupin, foi uma das principais representantes da literatura francesa do século XIX. Romancista, crítica e ensaísta, cumpriu um significante papel na vida política de sua época, sobretudo pela representatividade dos ideais feministas em seus romances. A autora é considerada uma das precursoras do movimento pela igualdade de gênero e emancipação feminina no meio artístico.

Nas palavras de Madame de Staël, “a arte é a expressão da sociedade”. Candido (2006) também articula que a estilização da linguagem está disposta para fins de representação, “a arte, e, portanto, a literatura, é uma transposição do real para o ilusório por meio de uma estilização formal, que propõe um tipo arbitrário de ordem para as coisas, os seres, os sentimentos” (CANDIDO, 2000, p. 47). Concentrados nessas premissas, cabe-nos refletir sobre as conjunturas sócio-históricas como coeficientes deliberativos da produção literária, assíduos em Indiana. Assim, a proposta deste estudo do romance Indiana sob a perspectiva da crítica feminista é analisar a representação da mulher na sociedade de século XIX tendo em vista sua luta pela liberdade e capacidade de alcançar a emancipação.

 

Indiana, um romance de aprendizado: De mulher-objeto à mulher-sujeito

Inseridos no quadro de produção, a política e a história, elementos constitutivos do romance, oferece-nos a dimensão temporal e o contexto a que a autora prima referir-se, a fim de afirmar aquilo que se passava e como o extrato social acaba por sujeitar os indivíduos àquilo que lhe era de interesse, a exemplo das mulheres. Visto que a autora ocupa-se em discutir questões de ordem social, pode-se afirmar que o contexto político e histórico, na obra referidos, tende a incidir diretamente sobre o comportamento e caráter de cada personagem, ao mesmo tempo em que se torna, também, um dos objetos de crítica dentro da obra.

Antônio Candido (2006) reitera que a dimensão histórica e a construção artística coabitam em união dentro das obras literárias. Versando sobre o âmbito de Indiana, percebemos a expressão de uma época, do século XIX. Narrado com copioso realismo, a realização da escritora enseja alinhar os fatores estéticos e sociais na obra, em tal grau que o elemento social não se configura unicamente como um elemento exterior, mas “como referência que permite identificar, na matéria do livro, a expressão de uma certa época ou de uma sociedade determinada; nem como enquadramento, que permite situá-lo historicamente; mas como fator da própria construção artística” (CANDIDO, 1965, p. 7).

O modelo de estado na França do século XIX, viabilizava e atestava o primado masculino na sociedade. Neste cenário, a mulher era delineada como domesticada e subalterna. O papel das mulheres estava limitado ao círculo familiar, sua existência era totalmente atrelada aos representantes do sexo masculino. Hunt (1991) afirma que o pensamento da época engessava as mulheres em uma estrutura caracterizada por uma suposta debilidade intelectual, eram tidas como o inverso do homem, identificadas por sua sexualidade e corpo.

Faz-se presente, assim, a desconstrução das definições tipológicas das personagens femininas conforme os protocolos sociais e a universalização das experiências das mesmas, as quais, eram, anteriormente, esboçadas em perfis legitimados pelo modelo patriarcal, silenciadas na vida pública e privada e em estereótipos negativos e/ou inferiorizados. Passam a transitar com consciência do estado em que vivem, não sendo mais personagens secundárias, mas heroínas e idealizadas nos romances. Dessa forma, nos ateremos a discutir como são representadas duas das personagens centrais da obra, a protagonista, Indiana, e Laure de Nangy, esposa do amante da figura central, sob o olhar da mulher sobre a mulher, no desvencilhar da forma tradicional de representação do feminino.

A obra de Sand dedica-se a contar a história de Indiana, uma jovem que subsiste em um sistema que é repressor de sua individualidade. O prólogo sobre a protagonista se dá no tecer de sua relação com seu marido, retratada primariamente como “sua mulher” e não em sua identidade individual. Em uma autêntica descrição, apreende-se o propósito da autora em evidenciar a marginalização da mulher, ao passo que sua admissão social deve-se, diretamente, à figura masculina. Sua existência, assim como das demais mulheres da época, só é possível através do laço matrimonial.

Mas suas vagas e passageiras distrações não impediam que o Coronel, a cada tour de seu passeio, lançasse um olhar lúcido e profundo sobre os dois companheiros de sua velhice silenciosa, reportando de um a outro esse olhar atento que cobria há três anos um tesouro frágil e precioso, sua esposa. Pois sua esposa tinha dezenove anos, e si você tivesse a visto afundada sob o manto dessa vasta chaminé de mármore branco com cobre dourado; se você a tivesse visto, toda franzina, toda pálida, toda triste, o cotovelo apoiado sobre o joelho, ela toda jovem, em meio a esse lugar antigo, ao lado de seu velho marido, semelhante a uma flor nascida ontem que cresce em um vaso gótico (…) (SAND, 1991, p. 8-9, tradução minha).2

 

A beleza, juventude e fragilidade de Indiana são enaltecidas em primeiro nível, todavia, contemplamos em seu silêncio o tédio e a angústia. Criada por um pai violento e bizarro, jamais conhecera a alegria e afeição por parte de outra pessoa para consigo. Apesar do isolamento e da dependência, Indiana é descrita como alguém que possui uma resistência de ferro contra tudo que escopa oprimi-la e uma bondade para com aqueles que necessitam (SAND, 1991). A exposição feita sobre a figura central da obra, tende à percepção da exaltação da mulher, enquanto negligenciada na vida doméstica, mas que discorda do estado de tutela a que está sujeita.

– Eu sei que sou sua escrava e você o meu senhor. A lei desse país vos faz meu dono. Você pode comandar meu corpo, prender minhas mãos, governar minhas ações. Você possui o direito do mais forte, e a sociedade confirma isso; mas sobre minha vontade, senhor, você não pode nada, somente Deus pode a curvar e reduzir. Procure uma lei, um calabouço, um instrumento de suplício que vos dê poder sobre mim! (…) Você pode me impor o silêncio, mas não pode me impedir de pensar (SAND, 1991, p. 221, tradução minha).3

 

De acordo com Zolin (2009), as obras canônicas, em grande parte, representavam a mulher sob a ótica dos estereótipos culturais, a mulher sedutora e imoral, a megera, a indefesa e incapaz, a mulher como anjo, e outras diversas definições. “A representação da mulher como incapaz e impotente subjaz uma conotação positiva; a independência feminina vislumbrada na megera e na adúltera remete à rejeição e à antipatia” (ZOLIN, 2009, p.226). Embora a obra edifique o estereótipo do homem mais velho, educado e experiente em detrimento da mulher mais jovem, inocente e ignorante, a representação da mulher no romance de George Sand subverte os princípios da ideologia dominante, lançando a figura feminina em um contexto que desmascara as opressões e que lhe atribui superioridade.

Na primeira fase da narrativa, contemplamos uma Indiana, totalmente envolta em um contexto que lhe impunha passividade. No entanto, essa imagem transita no sentido emancipatório da personagem. Indiana é a personificação da mulher como ser social lançada ao silenciamento, é ela a porta voz de um discurso contestador, é por meio dela que se denuncia a condição das mulheres no lar e no meio público, pois ela é a tipificação da mulher do século XIX.

A forma com que a mulher é tratada na sociedade é apenas o alargamento daquilo que ocorre no âmbito doméstico. O que ocorre neste meio privado é ilustrado pelo narrador como prisão que condiciona a mulher à solidão e à obediência cega. Trata-se da insistência do patriarcado em manter a mulher em uma posição subalterna, condição essa que Indiana reconhecia e experienciava, pois era impedida de agir fora dos limites posto sobre si.

Desposando Delmare, ela apenas trocou de dono, vindo morar em Nagny, apenas trocou de prisão e de solidão. Ela não amava seu marido, pela única razão talvez que fazia amá-lo um dever e resistir mentalmente à toda espécie de limitação social havia se tornado para ela uma segunda natureza, um princípio de conduta, uma lei do consciente. Não haviam procurado prescrever à ela outra coisa a não ser a obediência cega (SAND, 1991, p. 79-80, tradução minha). 4

 

Indiana é uma mulher que não teve opções a seguir, reveladora da vida privada, estava limitada ao ambiente doméstico e à reflexão dos indivíduos que estão alheios à história. É por meio de Indiana que se conta a impossibilidade da participação pública e da identidade histórica e política. “Ela havia sido ensinada por Sir Ralph, o qual havia uma opinião medíocre quanto à inteligência e raciocínio das mulheres (…). Ela sabia somente a história resumida do mundo e toda dissertação séria a sobrecarregava de tédio” (SAND, 1991, p. 235-236, tradução minha)5. Nela, percebemos a mulher que envolta em um contexto que não lhe sugeria outra coisa senão a passividade, quebra com o mesmo através do adultério, o qual alude ao rompimento com o sistema de leis e à queda da moral. Ela não consegue uma fuga física imediata, mas impugna seu matrimônio pelo viés do adultério.

No ideal sandiano, a idealização dos personagens tem muito em comum com a política, Indiana é um tipo, é a mulher carregada de paixões suprimidas pelas leis e moral, com sentimentos e desejos que almejam romper com os limites da civilização. É por esse fato que a protagonista é ímpar na obra, em meio a várias figuras femininas, vemos Indiana como sendo a mais nobre de todas, apesar das limitações sociais, lembrando-nos do que Beauvoir (1980, p. 224) diz sobre a ingenuidade do homem “quando imagina que submeterá facilmente a mulher às suas vontades e a ‘formatará’ como quiser”.

É possível engendrar que o nome Indiana tem seu significado inserido no campo dos desejos e realizações que se encontram na liberdade do sujeito, no viver sem rótulos e demandas sociais. Indiana remete à desconstrução, à alteridade, à autonomia, à descolonização da mente e do corpo, representa a transição do estado de tutela à existência autêntica, pois a mesma, no fim da obra; depois de diversos acontecimentos que incluem o engano do amante, a violência física e simbólica sofrida em seu matrimônio, a morte de seu esposo e uma tentativa de suicídio; retorna à sua terra natal, ilha de Bourbon, colônia da França, e passa a viver distante da civilização em uma existência autentica e libertadora.

De acordo com Zolin (2009), as obras canônicas encarnavam a mulher em meio a repetições de estereótipos culturais, a mulher sedutora e imoral, a megera, a indefesa e incapaz, a mulher como anjo, e outras diversas definições. “A representação da mulher como incapaz e impotente subjaz uma conotação positiva; a independência feminina vislumbrada na megera e na adúltera remete à rejeição e à antipatia” (ZOLIN, 2009, p.226).  A representação da mulher na obra de George Sand subverte os princípios da ideologia dominante, lançando a figura feminina em um contexto que desmascara as opressões e que lhe atribui superioridade.

Se pode afirmar-se que há anacronismo na obra de Sand, este se apresenta claramente na figura de Laure de Nagny, esposa de Raymon, a qual é a única dentro do romance que se contrapõe à máquina de opressão misógina, subvertendo o modelo matrimonial e a relação amorosa imposta. Para ela, o casamento é uma necessidade social e a felicidade ilusão. Repleta de bom senso, conhecimento do mundo em que vive, é uma mulher moderna, consciente histórico e politicamente. Segundo Bordas, “Laure de Nagny é a mulher do século, mulher que reúne consciência histórica e política” (BORDAS, 2004, p.43, tradução minha),6 é a possibilidade de ser no mundo, aquela que é independente financeiramente e livre, de certa forma, da opressão masculina, de modo a guiar ao seu bel prazer sua existência, ainda que tenha que responder às convenções sociais.

Menos generosa que Mme Delmare, mas mais inteligente, fria e lisonjeira, orgulhosa e prevenida, era a mulher que devia subjugar Raymon; pois ela era superior nas habilidades que ele mesmo havia tido com Indiana. Ela havia compreendido bem que a cobiça de seu admirador era mais sobre sua fortuna do que por ela. Mlle de Nangy estava resolvida a sofrer o casamento como uma necessidade social; mas ela sentia prazer de usar essa liberdade que lhe pertencia ainda, e fazer com que o homem que aspirava tirá-la sentir sua autoridade. […] Para ela, a vida era um cálculo estóico, e a felicidade uma ilusão pueril, da qual é necessário de defender como de uma febre e do ridículo (SAND, 1991, p. 445-446, tradução minha).7

 

De acordo com Bourdieu (1998), o corpo é o meio pelo qual nos identificamos desde o nosso nascimento e é onde estão inscritos todos os significados e informações sociais e culturais. É neste ponto que podemos considerar a marca da sujeição e submissão inscritas também no corpo feminino, visto que o romance trata do drama da mulher cuja sociedade onde se encontra produz sobre ela significações que se supõem coerentes com o seu gênero, trata-se do corpo que sofre pelo enfraquecimento e dominação que, segundo Foucault (1988) é o gesto essencial e repressor da história.

As personagens femininas de Sand compreendem essa marca cultural que constitui as referências às suas identidades; no entanto, dessas mulheres emana um discurso interior e inábil que escopa subverter a ordem dominante. O discurso dessas mulheres, que são as porta-vozes da autora, buscam romper com as práticas reguladoras imposta ao corpo pelo poder.

Estamos diante de identidades dispares e deslocadas conforme o senso comum, as personagens aqui analisadas são mulheres abastadas, embora esse status deduza maior acesso ao capital cultural, pondera-se a conjuntura de que o jugo social recaía sobre todas as representantes do sexo feminino.

 

Considerações finais       

As relações de poder entre os sexos são preeminentes nos textos literários canônicos. Considerando-se que essas correspondências são concatenadas em conformidade com a orientação política e do poder, para Zolin (2009: 328) “a crítica literária feminista (…) trabalha no sentido de interferir na ordem social. Trata-se de um modo de ler a literatura de modo confessadamente empenhado, voltado para a desconstrução do caráter discriminatório das ideologias de gênero, construídas, ao longo do tempo, pela cultura.” Dessa forma, a escrita literária feminista transcorre o campo de reivindicações e construção da identidade da mulher como sujeito de sua existência, em uma vivência marcada pela luta pela liberdade e igualdade, assim como os movimentos feministas   desde sua primeira onda.

Com o olhar da mulher sobre a mulher, George Sand traça sua crítica à sociedade patriarcal, colocando suas personagens em um contexto que explana a situação de submissão em que vivia, ao mesmo tempo que arquiteta perfis de mulheres conscientes e combativas, diferenciando-as daquelas retratadas anteriormente. As posturas delineadas em Indiana são contra ideológicas, posto que se colocam em oposição à máquina misógina do poder, representando a história da mulher silenciada e outremizada no meio patriarcal a qual rompe com o normatização imposta ao seu corpo e com as estruturas sociais, apoiando-se na descolonização de seu corpo e subjetividade.

 

Notas ao Texto

¹ Roman dans l’histoire, roman de 1830, Indiana est bien autre chose qu’un roman à thèse dénonçant l’oppression des femmes dans le mariage (BORDAS, 2004, p.147).

² Mais ces vagues et passagères distractions n’empêchaient pas que le colonel, à chaque tour de sa promenade, ne jetât un regard lucide et profond sur les deux compagnons de sa veillée silencieuse, reportant de l’un à l’autre cet œil attentif qui couvait depuis trois ans un trésor fragile et précieux, sa femme. Car sa femme avait dix-neuf ans, et, si vous l’eussiez vue enfoncée sous le manteau de cette vaste cheminée de marbre blanc incrusté de cuivre doré ; si vous l’eussiez vue, toute fluette, toute pâle, toute triste, le coude appuyé sur son genou, elle toute jeune, au milieu de ce vieux ménage, à côté de ce vieux mari, semblable à une fleur née d’hier qu’on fait éclore dans un vase gothique, vous eussiez plaint la femme du colonel Delmare, et peut-être le colonel plus encore que sa femme (SAND, 1991, p. 8-9).

3Je sais que je suis l’esclave et vous le seigneur. La loi de ce pays vous a fait mon maître. Vous pouvez lier mon corps, garotter mes mains, gouverner mes actions. Vous avez le droit du plus fort, et la société vous le confirme ; mais sur ma volonté, monsieur, vous ne pouvez rien, Dieu seul peut la courber et la réduire. Cherchez donc une loi, un cachot, un instrument de supplice qui vous donne prise sur moi! (…) Vous pouvez m’imposer silence, mais non m’empêcher de penser (SAND, 1832, p.221).

4 En épousant Delmare, elle ne fit que changer de maître ; en venant habiter le Lagny, que changer de prison et de solitude. Elle n’aima pas son mari, par la seule raison peut-être qu’on lui faisait un devoir de l’aimer, et que résister mentalement à toute espèce de contrainte morale était devenu chez elle une seconde nature, un principe de conduite, une loi de conscience. On n’avait point cherché à lui en prescrire d’autre que celle de l’obéissance aveugle (SAND, 1991, p.79-80).

5 Elle avait été élevée par sir Ralph, qui avait une médiocre opinion de l’intelligence et du raisonnement chez les femmes […]. Elle savait donc à peine l’histoire abrégée du monde, et toute dissertation sérieuse l’accablait d’ennui (SAND, 1832, p.235-236).

6 Laure de Nangy est la femme du siècle, femme qui réunit conscience historique et sens politique (BORDAS, 2004, p.43).

7 Moins généreuse que Mme Delmare, mais plus adroite, froide et flatteuse, orgueilleuse et prévenante, c’était la femme qui devait subjuguer Raymon ; car elle lui était aussi supérieure en habileté qu’il l’avait été lui-même à Indiana. Elle eut bientôt compris que les convoitises de son admirateur étaient bien autant pour sa fortune que pour elle. Sa raisonnable imagination n’avait rien espéré de mieux en fait d’hommages ; elle avait trop de bon sens, trop de connaissance du monde actuel pour avoir rêvé l’amour à côté de deux. Mlle de Nangy était donc bien résolue à subir le mariage comme une nécessité sociale ; mais elle se faisait un malin plaisir d’user de cette liberté qui lui appartenait encore, et de faire sentir quelque temps son autorité à l’homme qui aspirait à la lui ôter. Point de jeunesse, point de doux rêves, point d’avenir brillant et menteur pour cette jeune fille condamnée à subir toutes les misères de la fortune. Pour elle, la vie était un calcul stoïque, et le bonheur une illusion puérile, dont il fallait se défendre comme d’une faiblesse et du ridicule (SAND, 1991, p. 445-446).

 

6. Referências bibliográficas

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