ESCRITORES



MORTE E VIDA SEVERINA





Autor: João Cabral de Melo Neto
Título: Morte e Vida Severina, Morte e Vita Severina
Idiomas: port, ita
Tradutor: Tilde Barini e Daniela Ferioli(ita)
Data: 28/12/2004

MORTE E VIDA SEVERINA

O Retirante explica ao leitor quem é e a que vai


João Cabral de Melo Neto

 

— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina :
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina :
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: “Ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!”

— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
— Onde a Caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
— E o que guardava a emboscada,
irmãos das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
— E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
— Ter uns hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
dos intervalos das pedras,
plantava palha.
— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente de chumbo
que tem guardada?
— Ao cemitério de Tôrres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.
— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
— Vou eu, que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.
— Mais sorte tem o defunto,
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.
— Toritama não cai longe,
irmão das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
— Partamos enquanto é noite,
irmão das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.
(…)

Fonte: Melo Neto, João Cabral. Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta. 26ª.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989. p. 70-76.

 

MORTE E VITA SEVERINA 

Il retirante spiega al lettore chi e e perché si e messo in viaggio

João Cabral de Melo Neto

— Il mio nome e Severino,
solo questo m’hanno dato.
Sono tanti i Severino
perché e un santo venerato,
e cosí m’hanno chiamato
Severino di Maria;
ma sono tanti i Severino
con madri di nome Maria,
cosí sono diventato di iYaria
del defunto Zaccaria.
Questo ancora dice poco:
nel paese ce n’e tanti,
a causa d’un coronel
di nome Zaccaria
che fu il primo signore
di questa baronia.
Come allora far sapere
chi e che parla a Sua Eccellenza?
Vi diro: son Severino
di Maria di Zaccaria,
là del monte di Costela,
ai confini di Paraíba.
Ma anche questo dice poco :
almeno cinque si chiamavano
di nome Severino
figli di tante Marie
tutte spose di altrettanti,
già defunti, Zaccaria,
paesani della valle
scarna e ossuta in cui vivevo.
Siamo tanti Severino
uguali in tutto nella vita :
con la stessa testa grossa
che a fatica si equilibra,
e la pancia dilatata
sulle gambe tutte ossa,
ed uguali anche nel sangue
cosí poco colorato.
E se siamo Severini
uguali in tutto nella vita,
moriremo d’ugual morte,
stessa morte severina:
che e la morte di chi muore
di vecchiaia sotto ai trenta,
d’imboscata sotto ai venti
e di fame un po’ per giorno
(con sfinimento e malattia
la morte severina
attacca in qualunque età,
anche chi nato non sia).
Siamo tanti Severino
uguali in tutto e nel destino :
di spianare queste pietre
col sudore della fronte,
di tentare di svegliare
questa terra in agonia,
per strappare una radura
alla roccia incenerita.
Ma perché mi conosciate
un po’ meglio Eccellenza
e perché vi sia narrata
la storia della mia vita,
saro solo Severino
che in vostra presenza emigra.

Incontra due uomini che portano un uomo in un’amaca e gridano: « Fratelli in sorte! Fratelli in sorte! Non l’ho ucciso io! »

— Raccontatemi ch’io sappia,
fratelli in sorte,
chi portate avviluppato
nell’amaca?
— Un defunto di niente,
fratello in sorte,
che da molte ore viaggia
verso casa.
— Mi sapete dir chi era,
fratelli in sorte,
sapete come si chiama
o si chiamava?
— Severino Aratore,
fratello in sorte,
Severino Aratore,
ma piú non ara.
— E da dove lo portate,
fratelli in sorte,
da dove e cominciato
il vostro viaggio?
— Dalla Caatinga piú secca,
fratello in sorte,
e una terra che non dà
nemmeno spine.
— E fu morta questa morte,
fratelli in sorte,
guesta fu una morte morta
o fu ammazzata?
— Non fu morta questa morte,
fratello in sorte,
questa fu morte ammazzata
in un’imboscata.
Ma perché l’hanno ammazzato,
fratelli in sorte,
con la lama l’han colpito
o con il piombo?
— Con il piombo l’hanno ucciso,
fratello in sorte,
con la mira e piú sicuro
ec’e piú campo.
— Chi gli ha teso l’imboscata,
fratelli in sorte,
e da dove gli e arrivato
l’uccello piombo?
— E difficile da dire,
fratello in sorte,
sempre c’e del piombo perso
per il cielo.
— Cosa mai aveva fatto,
fratelli in sorte,
cosa mai aveva fatto
contro il fucile?
— Pochi ettari di terra,
fratello in sorte,
di pietra e sabbia possedeva
ecoltivava.
— Ma che campi aveva mai,
fratelli in sorte,
che poteva seminare
nella pietra avara?
— Nelle scarne labbra di sabbia,
fratello in sorte,
degli spazi fra le pietre
piantava paglia.
— Era grande il suo podere,
fratelli in sorte,
tanti erano i filari,
da invidiare?
— Possedeva pochi metri,
fratello in sorte,
sopra il colle arrampicati,
nessuno in piano.
– Ma perché l’hanno amazzato,
fratelli in sorte,
perché allora l’hanno ucciso
col fucile?
— Voleva andare piú lontano,
fratello in sorte,
voleva essere piú libero
l’uccello piombo.
— E ora che succederà,
fratelli in sorte,
ora che succederà
contro il fucile?
— Altro spazio ancora avrà,
fratello in sorte,
resta ancora molto spazio
alle pallottole.
— Ora dove lo portate,
fratelli in sorte,
ora che ha seme di piombo
chiuso in cuore?
— Al cimitero di Tôrres,
fratello in sorte,
oggi detto Toritama,
di mattina.
— Mi potrei unire a voi,
fratelli in sorte,
passero per Toritama,
e la mia strada.
Ci potrai anche aiutare,
fratello in sorte,
benedetto chi raccoglie
il nostro appello.
— Uno di noi puo ritornare,
fratello in sorte,
puo tornare già da ora
a casa sua.
— Vado io che il viaggio e lungo,
fratelli in sorte,
il camino e molto lungo,
ela serra e alta.
— Fortunato il defunto,
fratelli in sorte,
che non deve piú rifare
questa strada.
— Toritama non e lontana,
fratello in sorte,
arriveremo al cimitero
di mattina.
— Su, partiamo finch’e notte,
fratello in sorte,
buon sudario e per i morti
notte oscura.
(…)

Fonte: Neto, João Cabral de Melo. Morte e Vita Severina. A cura di Tilde Barini e Daniela Ferioli. Torino: Giulio Einaudi Editore, 1973. p. 104-17.



Voltar ao topo