Revista Mulheres e Literatura – vol. 18 - 2º Semestre - 2016



MME CHRYSANTHÈME E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA DÉCADA DE 1930 – Maria de Lourdes da Silva, Helena Maria Alves Moreira , Luciana Maria da Conceição Vieira





MME CHRYSANTHÈME E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA DÉCADA DE 1930

 

Maria de Lourdes da Silva

Helena Maria Alves Moreira

Luciana Maria da Conceição Vieira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

 

RESUMO: Mme Chrysanthème é o pseudônimo de Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos (1869-1948), figura pouco conhecida dentro do próprio país. Fez de suas crônicas espaço de defesa das causas femininas, escreveu para os mais importantes periódicos do Brasil entre fins do século XIX e as primeiras décadas do XX. Dentre eles, destacamos O Correio Paulistano, objeto desse artigo que procura investigar como as crônicas da autora apresentavam seus conselhos às mulheres, desenhando uma ética própria para o comportamento feminino, negociado a partir das convicções construídas nas alianças que fez ao longo da vida com a Igreja, a elite letrada conservadora e a oligarquia paulista.

PALAVRAS-CHAVE: Mme Chrysanthème; Cecília Moncorvo Bandeira de Mello; Correio Paulistano; feminismo; Década de 1930.

ABSTRACT: Mme Chrysanthème was the pen name adopted by Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos (1869-1948), a literary figure little known even in Brazil. She took advantage of her newspaper chronicles to defend women’s causes. She published in the main Brazilian newspapers between the end of the 19th century and the first decades of the 20th, especially the Correio Paulistano. This will be the object of this article, examining the advice the author gave to women, while drawing ethics to their behavior, based on her religious convictions learned from the Church, the conservative literate elite and the São Paulo oligarchy.

KEYWORDS: Mme Chrysantheme; Cecília Moncorvo Bandeira de Mello; Correio Paulistano; feminism; the 1930’s.

MINICURRÍCULOS: Maria de Lourdes da Silva é Professora Adjunta da História da Educação na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Helena Maria Alves Moreira é Mestranda do Programa de Pós-Graduação de Ensino em Educação Básica do Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Luciana Maria da Conceição Vieira é Graduanda do Curso de Pedagogia na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

MME.  CHRYSANTHÈME E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA DÉCADA DE 1930

 

Maria de Lourdes da Silva

Helena Maria Alves Moreira

Luciana Maria da Conceição Vieira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

  1. INTRODUÇÃO

Durante a leitura do manual infantil História de São Paulo (1926)

 

[1], chamou-nos a atenção neste romance, não somente o tom pedagógico da obra e sua história memorialista do estado de São Paulo contada às crianças, como também a fidelidade demonstrada pela autora à oligarquia paulista e a exaltação desta, no momento em que cresciam, nacionalmente, as críticas às bases de sustentação da política do café-com-leite e do poder oligárquico. Decidimos, então, investigar sua contribuição no periódico Correio Paulistano, para verificar se havia como verificar esta hipótese e se era possível identificar as motivações da aproximação desta carioca ao grupo paulista.

Dos mais de vinte anos que escreveu para o referido jornal, selecionamos para este estudo, as crônicas publicadas entre os anos de 1929 e 1930, porque representam o período que antecede a derrocada da oligarquia paulista. Ela escreveu, ao todo, 58 crônicas para o jornal Correio Paulistano nestes dois anos.  O contexto histórico aqui retratado, também retirou fatos noticiados nas mesmas páginas onde as crônicas da autora foram publicadas para entender a permeabilidade desta aos eventos de seu cotidiano. Geralmente publicadas entre as páginas 2, 3 e 4, suas crônicas figuravam entre as notícias sobre os despachos políticos dos presidentes da república e da província de São Paulo e o cotidiano de eventos protagonizados por políticos e ilustres da época aliados a esse grupo de oligarcas.

Nas crônicas deste periódico, constatamos que nossa autora mantém o tom de exaltação aos paulistas, para os quais fala, muitas vezes, de modo pejorativo sobre a Capital Federal e suas gentes, incluindo a elite carioca, da qual faz parte. Tais crônicas mostram uma autora absolutamente conservadora, voltada à defesa dos valores dos grupos e instituições que defende abertamente: a Igreja, seus amigos intelectuais de matiz conservador e a oligarquia paulista.

Dada às dificuldades de trabalhar como jornalista e romancista, considerando ser o universo literário dominado, essencialmente, por homens, nossa autora conseguiu estabilidade e longevidade no ofício, muitas vezes, escrevendo para mais de um periódico ao mesmo tempo. Assim como as crônicas que escrevia, seus romances eram recebidos com cautela e sob críticas, principalmente, pela escolha de seus temas e pela caracterização de suas personagens, as quais, em sua maioria, apresentavam o lado decadente e “desglamourizado” da sociedade carioca, Capital Federal.  Suas crônicas no jornal paulista informavam àqueles sobre os modos de vida desta “metrópolis”, como ela costumava referir-se à Capital Federal. Mas havia nelas, ainda, um desejo de agradar aos editores e de reafirmar a superioridade do estado produtor de café e de sua gente, já retratados como heróis pela autora no manual citado.

Ou seja, o que está no centro da análise é o próprio agir da autora e a forma que dá a sua arte. Pensando que este agir, que institui a autora enquanto sujeito, é de todo modo relacional e resulta na construção negociada do sentido, observando como a composição instituinte da identidade de Chrysanthème atende à tríade necessária e condicionante do estar do ser no mundo, o eu para mim, o eu para o mundo e o outro para mim. Dessa forma, acompanhando Bakhtin, entendemos que só é possível se formar um “eu” entre outros “eus”, porque o sujeito se define a partir do outro e elabora sua singularidade diante do outro. Ainda e necessariamente é o outro no essencial que condiciona a identidade à dialogia e à atitude responsável e responsiva de cada sujeito.

Portanto, não é possível pensar o sujeito sem pensar o contexto instituinte do sujeito e sem considerar o princípio dialógico que orienta a elaboração do discurso e seus interdiscursos. A situação social e histórica concreta dos sujeitos é a matéria que conforma a realidade matizada de seus discursos por seus valores. Assim, o agir do sujeito é resultado de uma decisão ética, tomada a partir da forma como elabora, interage e constitui os outros e o eu próprio

 

[2]. Este eu individual se manifesta no discurso e no estilo autoral, mas

Todo estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciado e às formas típicas de enunciados, ou seja, os gêneros do discurso. Todo enunciado – oral e escrito, primário e secundário e também em qualquer campo da comunicação discursiva – é individual e por isso pode refletir a individualidade do falante (ou de quem escreve) isto é, pode ter estilo individual (BAKHTIN, 2011, p. 265).

Pela filosofia bakhtiana, o enunciado reflete a individualidade de quem o profere, mas o essencial dele é ser capaz de organizar o seu discurso através de decisões inteligíveis.  Com isso, queremos dizer que Chrysanthème é, como todo ser permeada pelo seu tempo, mas seu registro desse tempo resulta das decisões tomadas ao longo da vida ora mais numa direção, ora noutra. Assim, como as mudanças também nos caracteriza e humaniza, pois não nos constituímos pelo imperativo categórico transcendente, mas pelas inúmeras experiências no mundo, podemos ver o conjunto de seus atos discursivos pelo filtro dos valores que os orientaram.

 

  1. DO CONHECIMENTO À OBSCURIDADE: QUEM FOI CHRYSANTHÈME?

Chrysanthème era o pseudônimo da escritora Cecília Moncorvo Bandeira de Mello, carioca da freguesia de São José – capital do Rio de Janeiro, nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1869; filha do casal, Dr. Jeronymo Bandeira de Mello e Emília Moncorvo Bandeira de Mello, também jornalista e escritora que se apresentava pelo pseudônimo de Carmem Dolores – uma notável escritora do período da Belle Époque brasileira.

Aos 19 anos, em 10 de abril de 1888, casou-se com o bacharel em línguas, professor Horácio Rebello de Vasconcellos, passando, então, a assinar como Cecília Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos. Desta união, nasce o único filho do casal, Henrique Rebello de Vasconcellos, em 1889.

Sua primeira crônica de que temos registro foi para o jornal A Imprensa no ano de 1907. Ela começou a escrever não muito jovem. Temos indicativos de que isto ocorre após a viuvez, mas ainda não conseguimos confirmá-lo. Na época em que enviuvou, em 1907, aos 38 anos, ainda não havia aposentadoria para o funcionalismo público[3] e, portanto, supomos que o marido não tenha deixado pensão ou pecúlio confortável. E mesmo que tal provento não fosse a única renda da família, a ausência do provedor da família, aliada ao exemplo da mãe, certamente a impulsionaram a iniciar nas letras.

Assim como outras escritoras da época e da própria mãe, ela também fez uso de um pseudônimo – um artifício necessário em um período em que as mulheres eram discriminadas pela sociedade por exercer alguma profissão que não a de professora. Os pseudônimos funcionavam como uma proteção à verdadeira identidade destas autoras. Era prática internacional as escritoras adotarem nomes masculinos para depois provarem que o exercício da escrita literária também cabia às mulheres. Cecília opta por um nome que não contraria sua identidade de gênero. Ao adotar como pseudônimo o nome do livro de Pierre Loti, “Madame Chrysanthème”, ela já mostra sua disposição para polêmicas mediadas pela pena, provocando os contemporâneos. Este livro, que fez enorme sucesso na virada do século XIX ao XX, tem como mote o casamento do autor, um oficial da marinha francesa, com uma “gueixa” japonesa. Um casamento arranjado, muito comum no Japão da época, cuja narrativa está focada nas reflexões sobre a vida enfadonha do militar durante os três meses que viveu no Japão. Madame Chrysanthème, a esposa negociada de Loti, é o arquétipo da submissão e, enquanto “gueixa”, abarca os devaneios ilimitados dos desejos masculinos.

Apesar desta ironia inicial, as crônicas da autora no jornal Correio Paulistano, publicadas nos anos selecionados para esta pesquisa, são farto material de cultivo da opinião dos leitores no sentido mais conservador do termo. Seus escritos, quando versavam sobre os dilemas femininos, expunham a faceta da conselheira polêmica por não ter medo de criticar as novidades, a modernidade e tudo o que considerava exemplo de decadência nos costumes, na mentalidade e que expunham a mulher às armadilhas da falta de decoro e compostura, próprias do modo de adesão das cariocas aos novos tempos. É certo que tal posição é fruto de sua trajetória de vida. Oriunda de uma família distinta, culta, pertencente à alta sociedade carioca, ela cresceu entre os ilustres, frequentou desde sempre os salões letrados e conviveu com as elites política e econômica de seu tempo. Sobretudo, cresceu entre os escritos também eles ácidos e irônicos da mãe, no ambiente irreverente da produção literária da virada do século, pelo qual circulou, fez amigos e desenvolveu seu estilo de escrita.

A obra de Cecília não sobreviveu ao tempo, mas em sua época, fim do século XIX e primeiras décadas do século XX, suas crônicas e romances conseguiram agitar leitores e pares, provocar acalorados debates, conseguindo, inclusive, retorno dos leitores, que escreviam aos jornais[4]. Diz-nos Maria de Lourdes Melo Pinto, que suas crônicas são irônicas e mordazes, pois esta autora comentava, com larga franqueza, sobre diversos assuntos[5]. Supomos que Melo Pinto refira-se às crônicas da escritora mais jovem, certamente mais audaciosa do que as crônicas com as quais nos deparamos no Correio Paulistano no período mencionado. Adiante, retornaremos a este ponto.

Em função disto, nossa hipótese arrisca que seu apagamento progressivo tenha resultado, além da ação da história, sobre quem, em seu inexorável processo, mostrou estar equivocada em muitos aspectos, mas também pela ajuda não casual dos mediadores da política cultural de seu tempo, com os quais Chrysanthème colaborou com suas crônicas. Afinal, uma autora que escreve com tamanha liberdade sobre os costumes de seu grupo social, denunciando sem meias palavras suas vilanias, vícios, inescrúpulos e amoralidades é geradora de muitos incômodos. Chrysanthème parecia ser do tipo que perdia o amigo, mas não a boa oportunidade da crítica. Junte-se a isso textos de baixo apreço estilístico, uma personalidade que receita moralidades sem economia e cerimônia, que dispara juízos e valores católicos contra os costumes da vida moderna e talvez possamos entender algumas das motivações para lentamente silenciar seu trabalho e sua voz.

Isto porque, à Chrysanthème jovem ou madura, ninguém intimidava. Não é que seus valores e posições políticas fossem progressistas ou de vanguarda. Falando da Chrysanthème das crônicas do jornal Correio Paulistano nos anos 1929-30, vemos que suas defesas são bastante antiquadas até para os seus dias e seu estilo de escrita, além de monótono e enfadonho é ultrapassado. Mas, certamente, não foi graças a estas posturas que a autora foi relegada à obscuridade, assim como tantas outras escritoras que não estão arroladas nos registros literários oficiais. Cremos mesmo, que sua contribuição não a qualifica a estar no panteão dos grandes talentos. A crítica, contemporânea da autora, tratou de sublinhar seus limites como é exemplo o livro Crítica (1933), de Humberto de Campos[6] e, até mesmo, ignorá-la por completo, como em História da literatura brasileira (1931) e Panorama da literatura brasileira (1940); ambos de Afrânio Peixoto. Sua predileção pela crítica dos costumes de seu grupo social de origem talvez tenha sido um dos fatores a contribuir para o seu apagamento do cenário literário brasileiro.  É provável que suas alianças com setores conservadores da sociedade, tenham dificultado sua sobrevivência na “nova ordem” varguista. Contudo, é quase certo que a estilística de qualidade duvidosa e pouco apreciada de seus escritos tenha determinado a fortuna de sua obra.

Não obstante, Chrysanthème sobreviveu na vida pública do país através de sua arte por longo tempo – ficou ativa na imprensa e no mercado editorial por quase quarenta anos consecutivos.  Tal longevidade parece sustentar-se menos pela forma dura e direta com que critica os comportamentos da sociedade e mais por suas posições políticas, graças as quais, consegue o emprego no diário Correio Paulistano, um jornal que era, sabidamente, a mídia oficial do PRP, Partido Republicano Paulista, o qual autora defende e divulga:

Como sempre enquanto traço essas linhas para a colunna dominical deste jornal, outros periódicos esvoaçam sobre o papel que escrevo. É a Gazeta de Notícias com seu feitio irônico   e   curioso   zombando   da oposição   em   phases   e   desenhos sarcásticos. E o Correio Paulistano, combativo, vigoroso   e   certo   do triunpho final da causa que tão bem defende… e são outros e outros que se agitam ao vento como borboletas trazendo notícias, vários annuncios, muitos   annuncios   sobre   suas   asas abertas (O PAIZ, 29/09/1929).

É bastante curiosa sua trajetória na vida literária, porque, ao apontar as mazelas das elites, a não temer criticar os seus pares, ela revela o que poucos queriam ver exposto nos diários. Cecília pôde, como poucas, falar sobre as coisas que elegeu. Ela expôs as vísceras dos costumes que considerava vis de seu grupo social, especialmente o das mulheres, embora não poupe os opróbrios das mulheres pobres. Sua defesa é a da mulher educada, tenha ela que posição social tiver, nutrida pelos altos valores da moralidade cristã, que saiba resistir aos atrativos pouco decentes e prejudiciais da vida moderna. Por isso, não perdoa o ócio, a futilidade, a vaidade inconsciente e as torpezas femininas.

Consideramos que seu maior legado é o registro contínuo, sistemático, incansável, ao longo dos quase quarenta anos dedicados à escrita dos costumes da cidade e às suas personagens. Seu destemor ou desprezo por certo conjunto de condutas sociais e seu olhar tão aguçado quanto a sua pouca disposição para seguir composturas as quais não acreditava, tornam sua obra um conjunto documental primoroso de narrativas sobre a Capital Federal e seus habitantes, escrito por uma mulher que o tempo curvou e domesticou. A Chrysanthème destas crônicas não lembra a escritora de outrora, crítica e desafiadora. Nestes aspectos, aliados à longevidade de sua permanência na imprensa, reside a maior potência de seus escritos. Neles, vemos com clareza suas alegrias e vaidades, sua mágoa, sua ira, seu deboche, sua tristeza, sua derrota. Essa marca é seu diferencial e sua obra reflete uma mulher solitária defendendo seu ponto de vista, empenhando todos os seus esforços para contribuir à nova ética social com o personalismo de seus pressupostos morais, adequados aos projetos de grupos político-econômicos aos quais se alinhou.

Apesar de sua vasta produção literária, seus escritos não tiveram reedições. Os exemplares sob a guarda dos arquivos públicos que tivemos acesso, aparentam pouco manuseio e estão se perdendo pela ação do tempo. Chrysanthème deixou um acervo bibliográfico de aproximadamente 1.500 crônicas, e, ao menos, 26 livros computados, sendo alguns, reunião dos folhetins originariamente escritos para os diários (Pinto, 2006), como era comum à época[7]. Seus escritos conformam, pois, um conjunto etnográfico singular sobre o Brasil e seu povo, porque resultado do olhar de uma mulher que tratava de temas que não se esgotam, mas que são mediados pelas questões do tempo ao qual pertence e com o qual interage com decisões e opiniões que nos permitem ver o contraditório das críticas que enceta, sem que caiamos no anacronismo. Chrysanthème apoia a oligarquia paulista e é pouco permeável às novidades estilísticas em ebulição na literatura. Embora os temas de seus romances sejam picantes e desconcertantes, sua narrativa envelhece, seu ponto de vista é mantenedor do status quo, suas defesas políticas são derrotadas e a força dos escândalos que provocava com seus romances fenece, apesar da nova ética do(a) cidadão(ã) trabalhador(a) da Era Vargas, mas este é um assunto para outro artigo. Nestas linhas, nos limitaremos a analisar seu ocaso juntamente à República Velha por seus escritos no Correio Paulistano entre 1929 e 1930.

Nossa escritora falece em 22 de agosto de 1948, aos 79 anos. Em sua certidão de óbito[8] consta como profissão “doméstica”, não tendo reconhecimento do cargo que exerceu como jornalista, ou da profissão de escritora, reduzindo e apagando os seus feitos na tradição da história literária do país em razão, talvez, da “(…) franqueza, talvez perigosa, que ponho em todos os meus artigos(…)”, como a própria supunha (Chrysanthème, O Paiz, 1924).

 

  1. CRÔNCIAS DE CHRYSANTHÈME NO CORREIO PAULISTANO

Considerado por muitos autores como um gênero transgressor nos periódicos, a crônica torna-se o espaço ideal para que nossa autora escreva.  Concisa e cotidiana, a crônica permite ao seu autor opinar sobre fatos e eventos de modo breve e sem aprofundamento, já que sua matéria é a realidade social imediata. Sustentar uma crônica nos jornais naqueles dias indica que nossa autora possuia prestígio e proximidade com os centros de decisão editorial – no Correio Paulistano, como vimos, suas crônicas ocupavam espaço privilegiado, o que pode conotar também certa proteção dos paulistas. Por outro lado, o tom de suas críticas foi mitigado, seus temas foram reduzidos a alguns poucos e, no caso específico de 1930, ela recusa oferecer investidas mais contundentes quanto às questões políticas que atravessam o país.

O jornal Correio Paulistano, um períodico de grande circulação foi lançado em 26 de junho de 1854:

Primeiro diário da então província de São Paulo e o terceiro do Brasil, o Correio Paulistano, foi fundado pelo tipógrafo Joaquim Roberto de Azevedo Marques e circulou de 1854 a 1930, e depois, com intervalos, até 1963. Este jornal, que, ao ser lançado, prometeu total imparcialidade aos seus leitores, estava destinado a fazer história na imprensa paulista. (…) A partir de 1855, e em seguida a uma de suas numerosas crises financeiras, o Correio passou a atuar como órgão oficial de partidos políticos em troca de patrocínio, a despeito de sua promessa inicial de “oferecer uma Imprensa Livre”. (Arquivo Público do Estado de São Paulo).

Foi relativamente fácil oferecer imparcialidade naquele período, pois o ano de lançamento do jornal corresponde ao ano inicial da “Política de Conciliação” (1853-68), período em que liberais e conservadores se aliaram no governo. Por causa disto, afirma-se que a imprensa perdeu um pouco de sua força, que estava nos debates e contendas políticas. Contudo, como o Correio Paulistano apresentava-se como imprensa livre, quando os demais jornais eram mantidos como representação de grupos políticos[9]. Mas isto não durou. Os anos de maior prestígio do jornal correspondem aos anos de prestígio do PRP (Partido Republicano Paulista), para quem o jornal funciounou como orgão de divulgação oficial a partir de 1873, quando foi comprado por Leôncio de Carvalho.[10] Nesta linha, defendia o federalismo, que muito interessava aos paulistas:

Ainda nos tempos da Monarquia, o jornal foi um grande formador da opinião pública. Divulgou cartas do leitor na sua “seção livre”, participou da abolição da escravatura, lutou pela construção da Estrada de Ferro Santos⁄Jundiaí, e defendeu a Proclamação da República. Logo após tomar posse, em 1930, Getúlio Vargas ordenou o fechamento das instalações do jornal. Depois disso o Correio Paulistano permaneceu por quatro anos sem ser publicado. Ao retornar, manteve sua ligação, inclusive financeira, com o Partido Republicano Paulista, até 1955. A última publicação do periódico foi em 31 de julho de 1963 (Arquivo Público do Estado de São Paulo).

Chrysanthème trabalhou para o Correio Paulistano de 1920 a 1930. Em 1934, encontramos duas crônicas suas. Uma intitulada “Modas e modos”, publicada na página 5, na qual se não distingue uma temática específica, e uma segunda, “Vida moderna”, na página 10, que, sob o título genérico de “Página Feminina”, publica matérias sobre moda, decoração, comércio de sapatos etc. Definitivamente, o lugar de honra no jornal havia sido perdido.

As crônicas que analisamos no presente artigo foram escritas por uma mulher madura, entrando na casa dos 60 anos, em 1929. Embora este não seja o foco deste artigo, convém pontuar nossa percepção de uma sensível mudança no tom e no teor das críticas que profere no jornal Correio Paulistano, quando comparamos tais crônicas com aquelas escritas nos anos 1910, por exemplo.

Seu olhar acompanha o da oligarquia que, voltado para fora do país, empreende esforços para colocar o Brasil entre “as grandes nações”, ignorando quase sempre os demais estados e a população. Em nenhum dos artigos deste período, ela se ocupa das questões do povo. Ela escreve em paralelo também para o Jornal O Paiz, onde, entre 1914 e 1930, ininterruptamente, dedica-se à coluna A Semana. Mas neste jornal, ela aparece mais ousada. Na crônica escrita para a esta coluna no dia 29/09/1929, ela faz uma crítica à falta de apoio do governo aos estudantes de pouco poder aquisitivo. Também critica os outros jornais por noticiarem fatos policiais que chocam.  Já na crônica do dia 21/04/1929, ela fala da proximidade do dia dos encarcerados (28/04) relatando, após uma visita sua à penitenciária, as condições insalubres em que vivem os encarcerados, sem água e sem esgoto, e o fato de pessoas doentes dividirem os espaços com pessoas sãs. Chrysanthème faz uma súplica ao então presidente Washington Luiz para intervir na reforma das penitenciárias cariocas, assim como fez em São Paulo. No jornal Correio Paulistano, ela aparece mais comedida.

Na crônica intitulada “O Dia da Cidade”, publicada em 26/01/1930, no Correio Paulistano, ela conta aos paulistas sobre a derrubada do Morro do Castelo. Nele, lamenta que os brasileiros não preservem sua memória e história, resgata a importância “da colina” nas conquistas portuguesas, que contaram com o protagnismo dos índios – convencidos do acerto de lutar em prol dos portugueses na expulsão dos franceses –, lastima a demolição da igreja sede da Companhia de Jesus, e ignora, completamente, o despejo criminoso das famílias pobres que ali moravam, destacadamente, imigrantes portugueses e italianos, sem que lhes tivesse sido dada qualquer opção decente de moradia.[11]

Embora mantenha sua disposição para polêmicas, a Chrysanthème sexagenária, que acompanhou as bruscas e profundas mudanças pelas quais passou o mundo nos anos 1910 e 1920, inclusive, pela Grande Guerra, era católica fervorosa, ferrenha crítica dos modismos modernos e seu seus indicativos de etiqueta às mulheres possuíam um tom antiquado para sua época, mas que resistiu ao tempo e hoje constela na complexidade de questões que envolvem os debates feministas, como exploraremos adiante.

Nesses anos que aqui estudamos, 1929-1930, ela viveria ainda outros eventos de magnitude mundial e importância histórica profunda, como o crack da bolsa de Nova York, o crescimento das ideologias nazi-fascistas e a Revolução de 1930. As crônicas destes anos, neste jornal, nos apresentam uma escritora endurecida, nem mesmo o gosto pela ironia mantém o vigor de antes. Sua crítica agora é rascante e seu humor curto. Seu envolvimento com os eventos políticos assumem um sentido metafórico que exige mais sagacidade da autora e mais conhecimento da parte dos leitores de suas técnicas de escrita.

 

3.1     As Crônicas

As crônicas de Chrysanthème publicadas no jornal Correio Paulistano cumprem a função de apresentar aos paulistas o cotidiano da Capital Federal. Porta-voz do cotidiano fluminense, aos paulistas, quase sempre, ela maldiz a capital, apontando as falências da modernidade, os incômodos da rotina da cidade, os percalços que vão desde o clima à convivência com suas gentes. Quase sempre começa retratando a situação climática através de descrições sobre o estado do sol, do vento ou da chuva. Não é uma exaltação à exuberância da natureza da cidade, trata-se de um estilo de introdução ao qual recorre quase sempre; outras vezes, constitui uma forma de trazer a onipresença divina como testemunha dos eventos por entre o céu, o firmamento, o horizonte. Nas crônicas intituladas “Canícula” e “Canto da chuva em Petropólis”, publicadas respectivamente em 26/01/1930 e 05/02/1930, a autora mostra, na primeira, como o calor da capital e a movimentação de suas gentes torna-a insuportável e, na segunda, conta como é confortável e diferente a chuva da cidade serrana se comparada a chuva das metrópolis, pois “Em Petropólis, a chuva é símbolo de frescura, limpeza e poesia”.[12]

Até o início de 1930, a autora ainda ensaia investidas nos assuntos políticos, sempre em defesa das instituições republicanas, do governo e seu sucessor, acusando a oposição de “inveja e despeito contra o belo estado de São Paulo”[13], de traição, de mentir e enganar o povo com promessas que jamais poderá cumprir. Para responder aos ataques da Aliança Liberal, em diferentes crônicas conclama o mais puro civismo e patriotismo, especialmente às mulheres, para que se possa continuar na ordem e na paz que o governo do “glorioso governo do Dr. Washington Luis”[14] impigiu ao país, além de tudo fazer para que o Brasil pudesse figurar entre as grandes nações. Ao longo do ano de 1929 e ainda no início do 1930, ela arriscava crônicas com algumas investidas sobre a situação política do país, como na crônica “Opinião de mulher”, publicada em 19/02/1930, na qual comenta o atentado sofrido pelo vice-presidente em Montes Claros, Minas Gerais, por ocasião da campanha presidencial. Ela ataca ferozmente a oposição, a quem acusa de ultrapassar “os limites da educação e da lógica” recorrendo a “pedras e balas que ferem e matam” e, como sugere o título da crônica, opina:

Se as mulheres, no Brasil, ainda não têm direito ao voto, elas possuem – pelo menos as que escrevem – direito a emitir sua opinião sobre um fato que manchou o caráter nacional, dando à luta política uma forma negra e lamentável de covardia resguardada e protegida  (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 19/02/1930, p. 2).

Convém mencionar que o evento de Montes Claros contou com a participação ativa de D. Tuburtina Andrade Alves, esposa de João Alves, aliancista e organizadora, junto com este, do evento de campanha em que o atentado ocorreu. Tuburtina recebeu grande atenção na imprensa, tendo sido acusada de mandante do atentado. Sobre ela, Chrysanthème nada disse. Na crônica seguinte, do dia 22/02/1930, intitulada “O crime passional”, ela comenta as declarações do psiquiatra Henrique Roxo quanto à insanidade momentânea que por vezes acomete os criminosos passionais e ao fato de este tipo de crime ser mais individual do que social. Discordando do “sábio Dr.”, afirma que “ninguém mais admite a contrariedade e a dor como se estes não fizessem parte integrante de toda existência humana” e que o criminoso é escravo do ambiente onde respira e imitador do semelhante. E pergunta: “Qual a profilaxia a usar nessa época de atentados, ditos, passionais, e tornados tão banais que jamais espantam?” e conclui, adiante: “E nessas horas de rebelião às vontades de Deus, o mal e a dor humanos aumentam todo dia como nocivas sementes jogadas por eles no seio maldito de uma terra sem Messias”.

Esse tom de incredulidade perante as atitudes de uma gente que não segue os mandamentos católicos atravessa as crônicas dos anos estudados. Mas sua defesa da Igreja vai além da adoção de uma compreensão dos fatos pelo viés religioso. Ela faz propaganda da Igreja. Suas crônicas pontuam as festas religiosas: carnaval, quaresma, semana santa, natal e dias santos, além de dedicar crônicas às personagens santificadas. Divulga livros de escritores católicos e defende a Igreja das críticas, como na crônica do dia 26/03/1930, “A Igreja e as modas”, na qual defende os padres por repreenderem as mulheres que não se vestem adequadamente para ir à missa, condenando os excessos modernos e “a moda feminina tão abusiva e excêntrica”, que deixa à mostra pernas e braços de mulheres e meninas. Diz tratar-se de uma “crise de caráter” e conclui afirmando que as mulheres estão confundindo “o esporte, a higiene e a saúde com excessos de maneiras livres”.

Além da defesa da Igreja e da oligarquia paulista, condena as novidades que põem em risco a família. Na crônica “Os soi disant perigos do feminismo na Inglaterra e alhures”, de 11/01/1929, onde comenta uma carta encaminhada à agência americana, onde Peter Street lamenta os rumos e os caminhos trilhados pelas mulheres inglesas, que não se contentam em desafiar os homens pregando a igualdade com ele, mas ainda ridiculariza o casamento e a sua concepção. E finaliza: “e a mulher, aqui, ao contrário da inglesa, combate os homens e os casamentos de palavras, mas ama os primeiros subservientemente e realiza os segundos… inconscientemente…”.

De fato, mesmo considerando suas ousadias n’O Paiz, Chrysanthème mudou ao longo dos anos. Como já mencionamos neste artigo, as crônicas desta autora no periódico e no período sob estudo, em nada lembram a autora de outras épocas. Veja-se o exemplo do trecho de um artigo da autora falando sobre a situação das mulheres na sociedade:

(…) gritam os homens, no seu patriotismo de cinema (…), que nós, mulheres, nada temos que ver com esses acontecimentos sérios do mundo e que o nosso papel na vida é preparar-lhes xícaras de camomila (…), talvez assim fosse há alguns anos passados; agora, entretanto, em todas as partes da Europa, a mulher venceu o homem, pela sua energia no trabalho (jornal O PAIZ, Palestra Feminina, A Paz, 30/06/1919, p. 4).

 

E esta outra crônica, intitulada “Ainda e sempre os Concursos de Beleza”, publicada no Correio Paulistano, onze anos depois:

Tudo o que a mulher atual alcançou de prerrogativas e de privilégios termina e esbarra numa linha: a sua feminilidade, que põe restrições a certos exageros, a excessivas originalidades. Entre a xícara de camomila que ela não mais quer preparar para o marido e o “maillot sem mangas”, há uma determinada estação em que ela deve parar e refletir. (Chrysanthème, Correio Paulistano, 13/03/1930, p. 4).

A despeito do que disse no artigo d’O Paiz, acima, ela antagonizou com as lutas feministas do início do século, como o encetado pelo grupo de Berta Lutz[15], além de outras feministas da época[16]. Lima Barreto, com quem também antagonizou, afirma, que ela queria “a plena liberdade do seu coração e dos seus afetos para as mulheres”[17], uma espécie de liberdade emocional que a livraria dos martírios do amor, seu principal infortúnio. Tal aspecto parece ter sido preservado entre as crenças da autora, pois em outra crônica do Correio Paulistano, intitulada “Onde está a felicidade?”, de 26/04/1930, ela afirma que “felicidade para as mulheres é o amor. Sem ele, muda de nome”. Apesar do tom “libertário” de outra ou da denotação “libertina” que dá no avançado da idade à ideia da ausência de controle da mulher sobre os próprios sentimentos, persiste a vontade de poder da mulher sobre si própria.

A linha tênue que Chrysanthème sugere às mulheres não ultrapassarem, constitui o núcleo do seu argumento acerca da condição e do papel da mulher na sociedade em que vive. Segundo ela, as mulheres estão sendo vítimas das liberalidades frouxas da modernidade, que em nada ajudam na formação da mulher moderna. Antes, lhe têm feito perder o rumo da elegância, decência e do caráter. A autora é muito rígida com relação às mulheres, não lhes perdoando vulgaridades e inconsciência quanto às implicações de suas atitudes.

Tema recorrente entre suas crônicas, os concursos de beleza merecem atenção especial. Percebemos em suas avaliações sobre os concursos de beleza um tom de ponderação necessário e um contraponto sensato à euforia pouco lúcida que envolvia as argumentações daquelas que promoviam tais eventos. A defesa do que considera feminino ao invés da filiação ao chamado feminismo, revela uma concepção do papel da mulher moderna conservador para os seus dias, mas que está presente hoje na articulação dos valores organizadores da educação das mulheres. Na crônica “Como na Grécia Antiga…” de 25/04/1929, ela afirma que a única superioridade alcançada pela mulher brasileira, à semelhança, da Grécia, era a da beleza, enquanto as mulheres de outros países já eram ministras e governadoras. Na crônica do ano seguinte, publicada em 13/03/1930, “Ainda e sempre os Concursos de Beleza” ela declara novamente porque é contrária aos concursos: “certames pejorativos para o sexo de delicadeza e pudor que é o nosso”, pois considera indecorosa e aviltante a exposição das mulheres nestes concursos ao julgamento público: “Para as donzelas familiares, para aquelas que são educadas a fim de serem esposas e mães, essas superioridades esgazeadas não convém de maneira alguma”.  E respondendo às organizadores que se defendem das críticas alegando inveja e  despeito, responde:

Sem cair no feminismo enragé que tantos lares tem destruído e desgraças tem causado, glorifico a dma que trabalha, que auxilia a sua família na dura luta pelo pão cotidiano, mas combato continuamente aquela que, mesmo nessa conquista, tenta igualar-se ao homem que ela menospreza, esquecendo a missão para que foi criada (CORREIO PAULISTANO, 13/04/1930, p. 4).

 

Quando fala de educação, fala de condutas numa perspectiva moral. Sua única crônica do ano de 1930 que toca no tema da educação escolar, comemora o retorno do ensino religioso às escolas, mas o tom metáforico deixa ver uma melancólica ironia pela derrubada da oligarquia paulista. Sob o título de “Therezinha, a Eleita!”, este foi último artigo da cronista no ano de 1930, publicado no dia 03/10/1930, quando já marchavam, rumo à capital, os tenentes vindos do Rio Grande do Sul para tomar o poder, entre eles Getúlio Vargas. Em sua curta crônica da 01 de março de 1930, dia das eleições presidenciais, intitulada “As Urnas”, ela conclama as mulheres, que não podiam votar, a se fazerem presentes no coração e na mente dos homens, guiando-os ao acertado voto em Júlio Prestes, esse homem que “conserva a mentalidade e o espírito que fazem desses homens os chefes indispensáveis” e continua:

Na hora exata, no momento preciso, lá estaremos em mente, e justo às urnas, como o coração repleto de patriotismo, sugestioraremos esse nosso povo, uma mínima parte, felizmente, si abrasada pelas frases retóricas da Aliança – do que ele deve fazer para que a Pátria o reconheça como o seu salvador e o seu servo útil e devotado. Às urnas, pois senhoras, pelo coração e pelo patriotismo, auxiliando o nosso irmão na escolha do homem que nos defenderá do mal e do maligno (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 01/03/1930, p. 2).

 

Sem questionar o fato de as mulheres não poderem votar, ela não reivindica esta pauta ao governo. Somente encontra um meio de afirmar que as mulheres, mesmo impossibilitadas de chegarem às urnas, ainda têm poder para intervir no destino do país como mães e esposas:

As mulheres, esses espíritos guiadores e que a Natureza dotou de sugestão poderosa cabe agora demonstrar aos homens, qual a segura e verdadeira estrada a seguir, o leme a obedecer, a luz a vislumbrar.(…). E embora sentimentaes e poéticas, elas compreendem melhor a gratidão, o reconhecimento e o que se deve a um governo que lhes deu paz, nos lares, a harmonia no existir, a garantia no porvir. Elas não são eleitoras, mas sempre, em todos os tempos, as damas, em segredo ou às claras, conduziram os seus companheiros à vitória, tendo melhor do que eles a compreensão do judicioso, do bem e do indispensável. (Chrysanthème, Correio Paulistano, 01/03/1930).

 

Chrysanthème assumiu um caráter responsável e compreensivo sobre as questões da mulher, de sua profissionalização, saúde, família, valores. Sempre advogando pela melhoria de sua condição, desde que considerada a diferença que guarda com relação ao homem tanto biológica, quanto político-cultural. A educação feminina e sua profissionalização era um dos temas principais de que Chrysanthème se ocupava, pois, para ela um dos caminhos mais promissores para a mulher alcançar a sua libertação era o mercado de trabalho, mas nega que isto seja uma postura feminista, conforme afirma na crônica “O trabalho feminino ou o credo moderno”, de 24/07/1930: “não dou o título de feminismo a essa natural e necessária disposição das damas modernas, porquanto, os tempos mudaram, e elas tiveram que mudar com eles”. Para ela, o trabalho é um antídoto contra a preguiça, os vícios, a ociosidade e enervações mórbidas. Adiante afirma:

Sou adepta da lei bolchevista que ao ente que nada produz e que em nada contribui para o bem da sociedade de que faz parte, o direito de viver, visto como ele sempre será um corpo morto a impedir o luminosos desenvolvimento dos outros entes (CHRYSANTHÈME, Correio Paulistano, 24/07/1930, p. 3).

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Madame Chrysanthème que escreve no Correio Paulistano nos anos 1929 e 1930 é diferente daquela que acompanhamos nos anos 1910 no jornal O Paiz. Comedida nas polêmicas e provocações, católica fervorosa, ela se torna, a partir de meados do ano de 1930, indiferente aos dilemas políticos que vivia a sociedade, em suas crônicas neste jornal. Em seu papel de quadro ideológico do PRP, atuava com função formadora das mulheres leitoras do jornal, investindo na defesa da família, da tradição e dos proprietários paulistas. Seletiva quanto à modernidade, criticava o que julgava inadequado às mulheres e lhe corrompia a essência delicada, pois defendia a desigualdade essencial entre homens e mulheres, sem que isto implicasse em subordinação destas àqueles.

Em plena efervescência dos debates em torno da institucionalização do voto feminino, suas crônicas defendem a mulher que trabalha para conquistar sua autonomia, sem abandonar sua missão nobre de mãe e esposa, sem se deixar perverter pelas falsidades do modernismo, que ela tanto criticava, contornando aquele impedimento como se fosse dificuldade menor.

Chrysanthème negocia com a oligarquia até onde pôde e pagou o preço. De fins de outubro de 1930 até outubro de 1933, ela não escreveu para jornal algum e nem publicou qualquer romance.

 

  1. BIBLIOGRAFIA

Arquivo Público do Estado de São Paulo.

In: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/memoria/pginterna.php?jornal=cp.

Bakhtin, M. (2011). Estética da Criação Verbal. 6ed. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Coelho, N. N. (2001). Dicionário crítico de escritoras brasileiras. Rio de Janeiro: Saraiva.

Crhysanthème, Mme. Crônicas diversas. Jornal Correio Paulistano, 1929-1930.

Elias, N. (1995). Mozart. Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: J. Zahar.

Lopes, Maria Margaret. Proeminência na mídia, reputação em ciências: a construção de uma feminista paradigmática e cientista normal no Museu Nacional do Rio de Janeiro, Revista História, Ciências, Saúde, Rio de Janeiro, Manguinhos, v.15, suplemento, jun. 2008: p.73-95.

Memória da Imprensa. O Correio Paulistano: primeiro diário paulista. Disponível em: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/memoria/pginterna.php?jornal=cp. Acessado em: 18/02/2016.

Paixão, CMQ. A reforma urbana e os moradores do morro do Castelo: estratégias e disputas de populares no Rio De Janeiro (1904-1922), Anais do XII Encontro Regional de História ANPUH-RJ, 2006. Disponível em:

http://www.rj.anpuh.org/resources/rj/Anais/2006/conferencias/Claudia%20Miriam%20Quelhas%20Paixao.pdf

Rosso, M. Dueto em torno da mulher: Machado e Lima, Germina – Revista de Literatura & Arte. Março, 2014. Disponível em:

http://www.germinaliteratura.com.br/2014/lettera_brasilis_mar14.htm

Silva, M. L.; Moreira, H. M. A.; Vieira, L. M. C. (2015). Movimento feminista e educação no “Manual” História de São Paulo, de Mme. Chrysanthème: feminismo, feminino e feminice no final da Belle Époque brasileira. Trabalho apresentado no VII Seminário Internacional As Redes Educativas e as Tecnologias: Movimentos Sociais e Educação. Rio de Janeiro, Brasil. Disponível em:

http://www.seminarioredes.com.br/adm/diagramados/TR121.pdf. Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Sobral. A. Ato/atividade e evento. In: Brait, B. Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2013. p. 11-36.

Thalassa,  Ângela. Correio Paulistano: O primeiro diário de São Paulo e a cobertura da Semana de Arte Moderna. PUC-São Paulo, 2007. Dissertação de Mestrado. Disponível em: http://livros01.livrosgratis.com.br/cp029341.pdf.

NOTAS AO TEXTO

 

[1] SILVA, M. L.; Moreira H.M.A,;Vieira, L. M. C.  Movimento Feminista e Educação no “manual” História de São Paulo, de Mme. Chrysanthèe. Trabalho apresentado no VIII Seminário Internacional As Redes Educativas e as Novas Tecnologias- Movimentos Sociais e Educação – UERJ – De 08 a 11 de junho de 2015.

[2] Sobral, A. 2013, p. 21-5.

[3] A aposentadoria como a conhecemos hoje tem uma história muito recente no mundo. No Brasil, os fundos de pensões privados e montepios nasceram antes do estatal, graças às iniciativas dos trabalhadores. No que diz respeito ao funcionalismo público, os funcionários dos Correios foram os primeiros a terem este benefício, através da organização do Fundo de Pensão da categoria, ainda no século XIX. Somente a partir de 1923, com a Lei Elói Chaves, este benefício foi estendido às outras categorias – são os primeiros passos da Previdência Social. In: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/30344-31376-1-PB.pdf

[4] Pinto, MLM. 2006.

[5] Pinto, MLM. 2006.

[6]  Este ponto foi comentado no texto “Diálogo sobre a mulher entre Madame Chrysanthème e Afrânio Peixoto na década de 1930 – fronteiras”. Revista Educação/Unisinos, 2016.

[7] Por alguns títulos de seus romances, tais como Flores modernas (1921); Enervada (1922); Gritos femininos (1922); Uma paixão (1923); Memórias de um patife aposentado (1924); Mãe (1924); Vícios modernos (1926) Almas em desordem (1928); entre outros, pode se observar o caminho escolhido pela autora para conduzir a suas questões sobre a mulher e o feminino.  Mas Madame Chrysanthème escreveu literatura infantil – Contos para crianças (1906) e Contos azuis (1910), além dos romances históricos e manuais pedagógicos – História de São Paulo (1926); Minha terra e sua gente (1929); e A infanta Carlota Joaquina (1937).

[8] Pinto, MLM. 2006 p.113 – Memória de autoria feminina nas primeiras décadas do século XX: a emergência da obra periodística de Chrysanthème.

[9] Thalassa, A. 2007, p. 12-14.

[10]http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CORREIO%20PAULISTANO.pdf

[11] Claudia Miriam Quelhas Paixão informa: “Um documento da Coleção Carlos Sampaio no IHGB, indica que em setembro de 1921 havia no morro do Castelo 408 prédios onde habitavam 4200 pessoas”. Sobre o destino da população afirma que seus moradores foram expulsos para barracões na Praça da Bandeira, construídos de improvisos e sem infraestrutura alguma. (Anais ANPUH-Rio,2006).

[12] “Canto da Chuva em Petrópolis”, Correio Paulistano, 05/02/1930, p. 2.

[13] “Lições de Civismo”, Correio Paulistano, 21/03/1930, p. 3.

[14]  “A Gratidão da Pátria”, Correio Paulistano, 21/08/1930, p. 3.

[15]  A luta das mulheres pelo direito ao voto ganha força com a chegada do exterior da bióloga Bertha Lutz. Ela foi uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização que fez campanha pública pelo voto, tendo inclusive levado, em 1927, um abaixo-assinado ao Senado, pedindo a aprovação do Projeto de Lei, de autoria do Senador Juvenal Larmartine, que dava o direito de voto às mulheres. Direito este que foi conquistado em 1932, quando promulgado o Novo Código Eleitoral brasileiro. Fonte: Pinto, C.R.J. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, v.18, n.36, p. 15-23, jun. 2010

[16]  Lopes, MM. 2008, p. 79.

[17]  Rosso, M. 2014.



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