ESCRITORES



MISSA DO GALO





Autor: Machado de Assis
Título: MISSA DO GALO
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 16/03/2005

MISSA DO GALO

 

Machado de Assis

Nunca pude entender a conversa??o que tive com uma senhora, h? muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos ? missa do galo, preferi n?o dormir; combinei que eu eria acord?-lo ? meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escriv?o Meneses, que fora casado, em primeiras n?pcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Concei??o, e a m?e desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparat?rios. Vivia tranq?ilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas rela??es, alguns passeios. A fam?lia era pequena, o escriv?o, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. ?s dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; ?s dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasi?es, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam ? socapa; ele n?o respondia, vestia-se, sa?a e s? tornava na manh? seguinte. Mais tarde ? que eu soube que o teatro era um eufemismo em a??o. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Concei??o padecera, a princ?pio, com a exist?ncia da combor?a; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Concei??o! Chamavam-lhe ?a santa?, e fazia jus ao t?tulo, t?o facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes l?grimas, nem grandes risos. No cap?tulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um har?m, com as apar?ncias salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O pr?prio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simp?tica. N?o dizia mal de ningu?m, perdoava tudo. N?o sabia odiar; pode ser at? que n?o soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escriv?o ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu j? devia estar em Mangaratiba, em f?rias; mas fiquei at? o Natal para ver ?a missa do galo na Corte?. A fam?lia recolheu-se ? hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ningu?m. Tinha tr?s chaves a porta; uma estava com o escriv?o, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
? Mas, Sr. Nogueira, que far? voc? todo esse tempo? perguntou-me a m?e de Concei??o.
? Leio, D. In?cia.

Tinha comigo um romance, Os Tr?s Mosqueteiros, velha tradu??o creio do Jornal do Com?rcio. Sentei-me ? mesa que havia no centro da sala, e ? luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me ?s aventuras. Dentro em pouco estava completamente ?brio de Dumas. Os minutos voavam, ao contr?rio do que costumam fazer, quando s?o de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas ? de jantar; levantei a cabe?a; logo depois vi assomar ? porta da sala o vulto de Concei??o.

? Ainda n?o foi? perguntou ela.

? N?o fui, parece que ainda n?o ? meia-noite.

? Que paci?ncia!

Concei??o entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roup?o branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de vis?o rom?ntica, n?o disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canap?. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

? N?o! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos n?o eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam n?o ter ainda pegado no sono. Essa observa??o, por?m, que valeria alguma cousa em outro esp?rito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez n?o dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me n?o afligir ou aborrecer J? disse que ela era boa, muito boa.

? Mas a hora j? h? de estar pr?xima, disse eu.

? Que paci?ncia a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! N?o tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

? Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.

? Que ? que estava lendo? N?o diga, j? sei, ? o romance dos Mosqueteiros.

? Justamente: ? muito bonito.

? Gosta de romances?

? Gosto.

? J? leu a Moreninha?

? Do Dr. Macedo? Tenho l? em Mangaratiba.

? Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances ? que voc? tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Concei??o ouvia-me com a cabe?a reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as p?lpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a l?ngua pelos bei?os, para umedec?-los. Quando acabei de falar, n?o me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabe?a, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos bra?os da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

?Talvez esteja aborrecida?, pensei eu.

E logo alto:

? D. Concei??o, creio que v?o sendo horas, e eu…

? N?o, n?o, ainda ? cedo. Vi agora mesmo o rel?gio, s?o onze e meia. Tem tempo. Voc?, perdendo a noite, ? capaz de n?o dormir de dia?

? J? tenho feito isso.

? Eu, n?o, perdendo uma noite, no outro dia estou que n?o posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas tamb?m estou ficando velha.

? Que velha o qu?, D. Concei??o?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranq?ilas; agora, por?m, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impress?o singular. Magra embora, tinha n?o sei que balan?o no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa fei??o nunca me pareceu t?o distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posi??o de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o c?rculo das suas id?ias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto ?, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e n?o queria perd?-la.

? ? a mesma missa da ro?a; todas as missas se parecem.

? Acredito; mas aqui h? de haver mais luxo e mais gente tamb?m. Olhe, a semana santa na Corte ? mais bonita que na ro?a. S. Jo?o n?o digo, nem Santo Ant?nio…

Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no m?rmore da mesa e metera o rosto entre as m?os espalmadas. N?o estando abotoadas as mangas, ca?ram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos bra?os, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista n?o era nova para mim, posto tamb?m n?o fosse comum; naquele momento, por?m, a impress?o que tive foi grande. As veias eram t?o azuis, que apesar da pouca claridade, podia, cont?-las do meu lugar. A presen?a de Concei??o espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da ro?a e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo ? boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para faz?-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela n?o eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

? Mais baixo! mam?e pode acordar.

E n?o sa?a daquela posi??o, que me enchia de gosto, t?o perto ficavam as nossas caras. Realmente, n?o era preciso falar alto para ser ouvido: cochich?vamos os dous, eu mais que ela, porque falava mais; ela, ?s vezes, ficava s?ria, muito s?ria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta ? mesa e veio sentar-se do meu lado, no canap?. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi s? o tempo que ela gastou em sentar-se, o roup?o era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Concei??o disse baixinho:

? Mam?e est? longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, t?o cedo n?o pegava no sono.

? Eu tamb?m sou assim.

? O qu?? ? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canap? e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincid?ncia; tamb?m ela tinha o sono leve; ?ramos tr?s sonos leves.

? H? ocasi?es em que sou como mam?e, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, ? toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.

? Foi o que lhe aconteceu hoje.

?  N?o, n?o, ? atalhou ela.

N?o entendi a negativa; ela pode ser que tamb?m n?o a entendesse Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto ?, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma hist?ria de sonhos, e afirmou-me que s? tivera um pesadelo, em crian?a. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa Quando eu acabava uma narra??o ou uma explica??o, ela inventava outra pergunta ou outra mat?ria e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

? Mais baixo, mais baixo.

Havia tamb?m umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, n?o sei se apressada ou vagarosamente. H? impress?es dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas ? que em certa ocasi?o, ela, que era apenas simp?tica, ficou linda, ficou lind?ssima. Estava de p?, os bra?os cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; n?o consentiu, p?s uma das m?os no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canap?, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

? Estes quadros est?o ficando velhos. J? pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal neg?cio deste homem. Um representava ?Cle?patra?; n?o me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo n?o me pareciam feios.

? S?o bonitos, disse eu.

? Bonitos s?o; mas est?o manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas s?o mais pr?prias para sala de rapaz ou de barbeiro.

? De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

? Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de mo?as e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de fam?lia ? que n?o acho pr?prio. ? o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, n?o gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Concei??o, minha madrinha, muito bonita; mas ? de escultura, n?o se pode p?r na parede, nem eu quero. Est? no meu orat?rio.
A id?ia do orat?rio trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis diz?-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com do?ura, com gra?a, com tal moleza que trazia pregui?a ? minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devo??es de menina e mo?a. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminisc?ncias de Paquet?, tudo de mistura, quase sem interrup??o. Quando cansou do passado, falou do presente, dos neg?cios da casa, das canseiras de fam?lia, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas n?o eram nada. N?o me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

J? agora n?o trocava de lugar, como a princ?pio, e quase n?o sa?ra da mesma atitude. N?o tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar ? toa para as paredes.

? Precisamos mudar o papel da sala, disse da? a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da esp?cie de sono magn?tico, ou o que quer que era que me tolhia a l?ngua e os sentidos. Queria e n?o queria acabar a conversa??o; fazia esfor?o para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a id?ia de parecer que era aborrecimento, quando n?o era, levava-me os olhos outra vez para Concei??o. A conversa ia morrendo. Na rua, o sil?ncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, ? n?o posso dizer quanto, ? inteiramente calados. O rumor ?nico e escasso era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela esp?cie de sonol?ncia; quis falar dele, mas n?o achei modo. Concei??o parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: ?Missa do galo! missa do galo!?

? A? est? o companheiro, ? disse ela, levantando-se. ? Tem gra?a; voc? ? que ficou de ir acord?-lo, ele ? que vem acordar voc?. V?, que h?o de ser horas; adeus.

? J? ser?o horas? ? perguntei.

? Naturalmente.

? Missa do galo! ? repetiram de fora, batendo.

? V?, v?, n?o se fa?a esperar. A culpa foi minha. Adeus, at? amanh?.

E com o mesmo balan?o do corpo, Concei??o enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Sa? ? rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Concei??o interp?s-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto ? conta dos meus dezessete anos. Na manh? seguinte, ao almo?o falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Concei??o. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversa??o da v?spera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em mar?o, o escriv?o tinha morrido de apoplexia. Concei??o morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.

 

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Fonte: Machado de Assis, J. M. ?Missa do galo?. In: Obra Completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2; reimp. de Nupill, N?cleo de Pesquisas em Inform?tica, Literatura e Ling??stica. Apoio CNPq. UFSC / PRPG / Funpesquisa.



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