ESCRITORES



MEMÓRIAS DE LÁZARO: ROMANCE





MEMÓRIAS DE LÁZARO: ROMANCE

Terceira parte

Adonias Filho

Tremem as mãos ainda agora, mas os tijolos se tornaram negros com o fumo do incêndio. Outra, a sua aspereza. Sobre eles tateiam as minhas mãos, tão brutas como outrora, já inúteis como o meu próprio passado. Fosse possível, neste instante, e voltaria sem elas. Deixá-las-ia ficar, pregadas na parede, como pedaços de carne ainda viva. Contudo, o vento não se deteve, o negro céu parece ter baixado, e eu o único ser a respirar no orvalho o ar que só devia pertencer às árvores e aos arbustos. Além dos meus olhos, acesos como os de um animal, apenas a luz da lanterna. Vista do alto, aparecerá como uma estrela no chão.

E da luz que escoa, trêmula e escassa, brotam para mim os laivos de fogo. As chamas emergem simultaneamente de todos os lugares, transparentes, para que veja a conversão de tudo em cinzas, crepitando a madeira, Jerônimo da boca da sua caverna a sentir na fumaça que sobe como os homens não perdoam os inocentes. Invencível fogo que devora, e se alastra, devorando sempre, para apagar-se quando nada há mais o que arder. Um facho do inferno, de enormes labaredas, que poupa as paredes e perdoa sobretudo a terra do chão.

Volta a ser virgem: a terra. Perecem as nódoas dos pés, extinguem-se os rastos humanos, e o que ressurge é a crosta primitiva do vale. Rosália, porém, ainda dorme no seu bojo. Se o calor das chamas a alcança, não sei. Mas sei que desperto e, despertando, pressinto que Jerônimo não tardará em chegar. Debruço-me, apanho a lanterna, fecho os olhos. O ressoar das asas, agora. Breve, muito breve porque logo se ergue, no pequeno círculo da luz, a desolação que me envolve.

Não se vão ainda, eu peço. Vejam que estou procurando, sobre a toalha de carvão, localizar o quarto. Desorientam-se as paredes. Avanço e recuo, o andar lento, a terra sempre igual. Refaço, lentamente, a arquitetura. Tento medir, com os pés, as distâncias. Identifico afinal o lugar da cama e, detendo-me, calculo rigorosamente. Aproximo-me, repetindo os passos de outrora, e não posso evitar que os lábios digam: “Foi aqui”. Sobre a terra, porém, não há a menor cicatriz. Espessa e endurecida é a terra. O ar não penetra, não imerge o eco do vento, não percebe ao menos o peso do meu corpo. Entre ela e eu, neste instante, mais que um conflito absurdo, a luta que se trava é a da insensibilidade contra a humana vontade de um louco. Contenho a respiração, aguço os ouvidos – mas não a escuto pois nada vem de dentro, um verme não se arrasta, não se exala um vapor, monstruosamente inescrutável a sua rigidez. Pudesse falar, e eu indagaria. Exigiria a confissão de tudo, como absorveu o sangue, e escarnou o peito, e poupou os ossos na lenta imolação do extermínio. Se houve aflição, se os braços não se torceram em torno do tronco, fantásticos, tentando abrigar o resto da inexorável podridão. Não lhe foi dada, porém, a voz.

Afasto-me, temendo que o tempo desfaça a noite, já receando me possam ver, a mim, que devia ter sido queimado com a minha casa, os meus porcos, a minha terra. Densas, porém, são as trevas. Longe, a manhã. Possível ainda, único na solidão, contemplar o vale agora sem tamanho, restritas as suas fronteiras, toda sua presença concentrada nas paredes negras. Sei que são fortes as rajadas do vento. Mas o que se arremessa, varando as sombras para encontrar-me, é o grito exasperado de um homem.

Encosto-me à parede para não cair. Fecho os olhos para não ver. Atraiçoam-me as pobres mãos, trêmulas e desgraçadas. E o grito se torna vivo, tão físico quanto as bofetadas de Jerônimo no meu rosto.

(…).

Quarta parte

II

Desfaça-se, no fundo do vale, este eco que já não me pertence – mas ao vento que nos cerca, como combatentes invisíveis, neste pedaço de terra. Fujam, todos, neste instante. Já não preciso de ouvidos humanos, dispenso a compaixão e a misericórdia, que todos se afastem. Estas paredes mudas, que caiam, com estrondo. Apague-se a lanterna. Venha a luz, com a manhã, e sustente no vale a sua cólera. Jerônimo, eu sei, chegará muito tarde.

Agora, unicamente o maravilhoso caminho, aquele caminho que se não pode comparar à estrada do vale, mas o caminho que se abre, aos meus olhos, pela mão de Abílio, meu pai. Vejo-o, na frente, a guiar-me. Em volta, o que resta é o negro. O meu pobre coração já não enxerga, inúteis as minhas mãos – não mais doem, no meu corpo, as feridas. O cérebro não interroga, a língua não fala. Mas andam os pés, vagarosos.

É possível que os vivos já não me possam alcançar. Em silêncio, malditos espectros sem morada nos mundos, é possível que me espreitem os mortos. Rosália, a quem não conheci. Espreitem, esperando, mas sem ânsia. Chegarei a eles, em breves minutos, porque o caminho que me leva não é longo e infinito como a estrada do vale.

Meus pés resvalam, o corpo tomba, a boca sem um grito. É pútrido o último ar. O lodo que me absorve, e asfixia, no canal é viscoso. Ocultam-se, num corte fulminante, o vale e o vento. Tudo se vai fechando, aos poucos, com serenidade e imensa quietude.

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Fonte: FILHO, Adonias. Memórias de Lázaro: romance. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1952. p. 95-96, 165.

MEMORIES OF LAZARUS

Part three

Adonias Filho

My hands tremble even now, but the bricks have turned black with the smoke from the fire. Their roughness is different. As brutal as in the old days, as useless now as my own past, my hands grope over them. If it were possible, at this moment, I would return without them. I would let them remain, nailed to the wall, like pieces of still living flesh. Nevertheless, the wind has not subsided, the black sky seems to have lowered, and I am the only creature who, midst the dew, breathes the air that should belong only to the trees and shrubs. Except for my eyes, shining like those of an animal, there is only the lantern light. Seen from above, it will appear to be star on the ground.

And from the light that floats out, faint and shimmering, I seem to see tongues of fire springing up. The flames, transparent, emerge simultaneously from all sides, so that I may see it all turned to ashes, the wood crackling, Jeronimo from the mouth of his cavern sensing in the rising smoke how men never forgive the innocent. Invincible fire that feeds and spreads, ever devouring, and goes out when there is nothing left to burn. A hellish firebrand, with towering flames, that saves the walls and especially spares the dirt floor.

The earth is virgin once more. Gone are footprints, every human vestige is expunged, and what reappears is the primitive crust of the valley. Rosalia, however, is still asleep in its pit. If the heat of the flames are reaching her, I do not know. But I do know that, awakening and awake, I have a presentiment that Jeronimo will not be long in coming. I bend over, take hold of the lantern, close my eyes. The resounding of the wings, now. Only for a moment, a brief moment, because immediately there arises, in the little circle of light, the desolation that surrounds me.

Do not go away yet, I beg you. Observe that, in the layers of charred rubble, I am attempting to locate the bedroom. The walls keep disorienting me. I go back and forth, walking slowly, over earth unvaryingly even. Slowly I reconstruct the architecture. With my feet, I try to measure the distances. Finally I locate where the bed was and, pausing, make my calculations painstakingly. I draw near, retracing my steps of times past, and I cannot prevent my lips from saying: “Here is where it was”. On the dirt surface there is not the least scar. The earth is compact and hard. The air cannot penetrate it, the wind’s echo cannot sink in, it does not in the least perceive the weight of my body. Between it and me, at this moment, rather than an absurd conflict, the struggle being waged is that of insensibility against the willpower of a madman. I hold my breath, prick up my ears – but I cannot hear it as nothing comes from inside, no worm is crawling, no vapor is being given off, its rigidity monstrously inscrutable. If it could speak, I would ask it questions. I would require a complete confession, how it absorbed the blood and stripped the breast of flesh, and spared the bones, in the slow ritual of extermination. Whether there was pain, whether her arms did not twist around her trunk, grotesquely, trying to protect her remains from inexorable corruption. It was not, however, endowed with voice.

I draw away, fearing that time will rout the night, already afraid lest I be seen, I who should have been burned with my house, my pigs, my land. But the shadows are dense. Morning, far away. Alone in this remoteness, it is still possible for me to contemplate the valley now devoid of magnitude, its boundaries restricted, its entire presence concentrated between the blackened walls. I am aware that the wind blasts are strong. What comes hurtling, parting the shadows to find me, is the anguished shout of a man.

I lean back against the wall, in order not to fall. I close my eyes in order not to see. I am betrayed by my poor hands, trembling and ill-fated. And the shout comes alive, as physical as Jeronimo’s blows on my face.

(…).

Down there in the valley, let this echo fade that belongs not to me but to the wind that encircles us, like invisible combatants, on this piece of ground. Everyone, this moment, flee. I no longer need human ears, I can dispense with compassion and pity. Let everyone stand back. These mute walls – let them come down with a roar. Put out the lantern. Let light shine, white the break of day, and confirm in the valley the wrath of the valley. Jeronimo, I know, will arrive too late.

Now, there is only that marvelous road, the road that cannot be compared to the road in the valley, but the road that opens, before my eyes, at a sign from Abilio, my father. I see him, ahead there, guiding me. All around, the rest is blackness. My poor heart can no longer see, my hands are useless – there is no more pain from the wounds in my body. My brain forms no questions, my tongue is not speaking. But my feet keep on walking, ever so slowly.

It is possible that the living can no longer reach me. Silently, like doomed specters homeless among the worlds, it is possible that the dead have spied me. Rosalia, whom I cannot see. Nathanael, whom I cannot hear. Paula, whom I did not know. Let them observe, in expectation, but without anxiety. I shall reach them, in a few minutes, because the road that takes me is not long and infinite like the road in the valley.

My feet slip, my body falls, my mouth giving no cry. The final air is foul. The mud that absorbs me, and asphyxiates me, in the slough, is viscous. With a lightning suddenness, the valley and the wind are hidden. Everything comes to a close, gradually, with serenity and immense quietude.

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Fonte: FILHO, Adonias. Memories of Lazarus. Translated by Fred P. Ellison. Austin: University of Texas Press, 1969. p. 95-97, 170.



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