ESCRITORES



Mano Rosario





Autor: Coelho Netto
Título: Mano Rosario, Mano Chapelet
Idiomas: port, fra
Tradutor: Georgina Lopes(fra)
Data: 28/12/2004

Mano Rosario

Coelho Netto

Como tal ou qual a quem se houvesse rebentado um collar de preço e se puzesse a procurar as perolas uma a uma por frinchas e taliscas, assim vivemos nós reunindo recordações a ver se recompomos, no fio da memoria, todos os episodios da sua existencia ephemera, desde a hora feliz do seu nascimento, a perola menor, até a cruz do doloroso instante.

Cada vez que, a um de nós, occorre um facto ajuntamo-lo as embranças.

Uma perola, porem, a maior, rolou no abysmo e não ha como rehavê-la. As outras mesmas que recolhemos quando as tentamos engranzar logo se dissolvem em lagrimas.

Toda a riqueza que se perdeu, por mais que a busquemos ajuntar, foge-nos em bagas de pranto, perolas que nos cahiram no coração, com as quaes, se não refazemos o collar de outrora, formamos o rosario em que rezamos por elle a oração da saudade.

Sombras

Que resulta da nossa aliança com a luz? sombra, nada mais.

Alegria é luz e assim como na maior claridade as sombras tornam-se mais negras, mais a tristeza se aggrava se della, em volta, a alegria exulta.

O silencio é allivio: calma. Na quietude em que me refugío chego a não acreditar na tua morte porque te sinto em mim, commigo, como se vivo fôras.

À noite as sombras não apparecem; todas se recolhem aos corpos que as expuzeram. De dia, porém, destacam-se, prolongam-se com a terra.

No apogeu meridiano, não supportando a claridade fúlgida, acolhem-se ao de que sahiram, como se concentra na dor um coração ferido se, em torno delle, ha expansões de vívida alegria.
Felizmente, porém, o sol pouco se demora no zenith e logo que declina projectam-se, de novo, as sombras, até que todas se fundem em uma unica, que é a noite.

Isolo-me, não porque aborreça a vida e inveje a felicidade alheia, mas para forrar-me ao alvoroço da alegria.

Que o coração adormeça tranquillamente, no silencio, e sonhe, como quem dorme.

Sonhando, ainda que em vigilia, – porque recordar é sonhar d’olhos abertos – vê o que foi, reconstitue, um a um, os dias venturosos até aquelle que ficou eterno na memoria, como jazem immoveis sobre as horas que não sôam mais os ponteiros de um relogio cuja machina parou.

Fonte: Netto, Coelho. Mano. Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora, 1924. p. 111-112, 133-134.

Mano Chapelet

Coelho Netto

Comme si un collier s’était rompu, et que nous en cherchions les perles une à une, dans les moindres fissures, – ainsi nous vivons, réunissant nos souvenirs et recomposant tous les épisodes de son existence éphémère, depuis l’heureux moment de sa naissance jusqu’à sa douloureuse fin.

Une perle cependant, la plus grosse, roula dans l’abîme d’où nous ne pouvons la retirer, et les autres, trouvées à grand’peine, s’égrènent en larmes lorsque nous tentons de les rassembler.

Toute la richesse perdue, malgré nos efforts, nous fuit, se transforme en pleurs, perles tombées en nos coeurs et avec lesquelles, si nous ne refaisons pas le collier d’autrefois, nous formons pieusement le chapelet sur lequel nous prions pour lui l’oraison du souvenir.

Ombres

De notre union avec la lumière, il ne nous reste que de l’ombre.

La joie est pleine de lumière, et ainsi que la clarté souligne les ombres, la tristesse devient plus profonde lorsque le bonheur l’entoure.

Le silence nous apaise, nous calme. Dans la quiétude où je me trouve, j’ai de la peine à croire à ta mort, mon fils, car je te sens en moi, avec moi, comme si tu étais encore en vie.

La nuit, les ombres se confondent, disparaissent. Le jour elles se détachent, s’allongent sur la terre, puis, dès que le soleil se couche, se fondent dans les ténèbres.

Je m’isole. – La vie ne m’est pas indifférente, et je ne crains pas le bonheur d’autrui, mais je fuis la joie exubérante.

Comme endormi, je veux tranquillement rêver dans le silence, revoir un à un les jours d’autrefois, et jusqu’à celui qui restera toujours en ma mémoire, aussi immobile que, sur les heures, les aiguilles d’une montre dont le mouvement s’est arrêté.

Fonte : Coelho Netto (Paulo). Mano. Traduit du portuguais par Georgina Lopes. Paris : Roberto Corréa editeur, 1929. p. 91-92, 107-108.

 

 

 

 



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