RESENHAS



Resenha: Luiza Lobo – resenha sobre Elogio do gozo (2013), de Ida Vicenzia





RESENHA – LITERATURA E CULTURA

14 de janeiro de 2017

POR Luiza Lobo

 

Vicenzia, Ida. Elogio do gozo. Contos. Rio de Janeiro, Ponteio, 2013. 88 p.

 

Ida Vicenzia tem uma ampla experiência de jornalista e crítica teatral (atualmente mantém o blog idavicenziablogspot.com). Publicou O teatro católico de Octavio de Faria (RJ, Ponteio, 2013), várias biografias e obras teatrais, e tem vários livros e projetos em andamento.

Elogio do gozo (2013) é seu primeiro livro de contos. Antes, minicontos. 28 em 88 páginas, a maioria de uma a três páginas, além de uma homenagem inicial a Lygia Fagundes Telles. É certo que minicontos são bem diferentes de contos, e mais ainda de novelas. Para começar, minicontos não compõem uma atmosfera completa, com princípio e meio (deixemos o fim para a Poética, de Aristóteles; não é necessário chegar a tanto. Podemos ter uma “obra aberta”, sem final, na expressão de Umberto Eco). Mas é claro que esses insights de situações nos deixam curiosos sobre os personagens, e até sobre os desfechos. Ressentimo-nos bastante de um contexto mais estendido e delineado.

Seus minicontos são em geral escritos em Ich-Erzählung (narrativa em primeira pessoa). Por exemplo, em “Feiticeiro do lago” (p. 57), a narradora se refere a dois homens amados trancados numa chácara – mas não sabemos quem são nem quem é esta narradora. Neste, como em outros contos, o Ich-Erzählung fica muito preso na cabeça da autora/narradora, e o texto só faz sentido como poesia, pela beleza das imagens e palavras escolhidas. Excesso de memória e de imaginário são traiçoeiros; podem se transformar num monólogo ou num solilóquio. Frequentemente não sabemos quem fala, pois é claro que o narrador em Ich-Erzählung não pode realizar todos os papéis. O Ich-Erzählung reforça a ideia de que os contos são escritos como se fossem um diário.  “Cosa nostra” (p. 69-70), passado em Nova York, embora em terceira pessoa do singular. Refere-se ao musical Os Miseráveis, baseado em Victor Hugo. Mas a emoção da West 46th Street, um sequestro, a Broadway… tudo marca a emoção daquele momento. Quase desejaríamos que fosse datado, uma vez que hoje há mais chineses que italianos em Nova York, e há mais Máfia russa que a Cosa Nostra.

Pelo fato de serem tão curtos, com forte eixo metafórico, os minicontos funcionam, portanto, como poesia: à p. 65, “Cena obscena”, temos, realmente, um poema; “a grande orquestra”, p. 71; à p. 54, o miniconto “O garoto” termina com um poema; “Tempo refletido”, p. 55, é um poema. Curioso que nos poemas a narradora é externa, dirige-se a uma personagem que não é ela, ao contrário de nos minicontos. Em meio a esse “O livro dos excessos” (p. 19-22), o/a leitor/a pode perder um pouco o norte, sem entender o enredo, e se perguntar: Mas, afinal, quem é tio Ranulfo?  Quem é Paulo? Lisa Maria? Pedro Borges? (Ver o conto “Pra dizer que te amo, (Lembrando Octavio de Faria)”, p. 43-p. 44). Quem é Paulo louco? O amor é louco? (p. 37). Quem é o “cruel Fernando Lobo?” e quem é o “talentoso jornalista”? – em “La historia de un amor”, p. 35-37). Alguns textos são minúsculos minicontos, como “Álcool ou Prozac?”, de apenas quatro linhas, no qual a narradora assume a ilusão, quem sabe até a poesia diante da vida e do texto, concluindo-o: “Nem álcool, nem prozac: o que a alimenta são as grandes doses de autoengano que toma todos os dias” (p. 61). Aqui a narradora não usa o Ich-Erzählung, mas antes se refere a uma personagem que não é ela mesma, e a opção parece ser, mais uma vez, pelo eu lírico poético.

O ponto positivo dessa narradora que fala em tom de diário é ser sempre uma voz de mulher. Nós nos acostumamos por décadas a ouvir a monocórdia voz masculina nos textos literários. Agora mesmo temos o tonitruante Pablo Neruda no cinema, recitando seus poemas com sua voz empostada que tinham os poetas do passado. A mulher veio, a partir da década de 1970, principalmente, no Brasil, romper com esta formalidade acadêmica e introduziu uma poesia pessoal, subjetiva, minuciosa, cotidiana, até doméstica (por que não?). Talvez por isso a epígrafe do livro é dirigida a Lygia Fagundes Telles, uma pioneira na afirmação da literatura de autoria feminina e a dissertação de Ida Vicenzia versa justamente sobre Cecília Meireles. Mas aqui, como entre as pioneiras da literatura de autoria feminina, presenciamos o uso de um feminismo ligado ao feminino, à delicadeza, que em geral é atribuída à mulher, de forma essencialista, o que é falso, já que tais atributos de feminilidade também podem ocorrer independentemente do gênero, devendo-se mais à cultura e ao contexto de vida do que a uma categoria intrínseca do ser humano. Freud mesmo se inclinou a atribuir à mulher a histeria e ao homem a ação, a racionalidade – armadilha já denunciada por Simone de Beauvoir no pioneiro O segundo sexo, mostrando que tendências de comportamento devem ser atribuídas principalmente à cultura, e não à biologia (ou ao DNA, palavra muito em moda hoje em dia, que é aplicada a torto e a direito em referência a racismo, homofobia ou outras escolhas ideológicas pessoais, jamais herdadas no código genético!). O traço poético feminino da primeira fase da literatura de mulheres do século XX e fins do século XUIX tem mostrado mulheres impreterivelmente gentis e delicadas, com uma sensibilidade à flor da pele. Essa imagem de sensibilidade delicada ocorre em Ida num miniconto que parece valorizar a mulher oriental e seu gozo solitário, num passado remoto (p. 63) – transmitindo uma imagem de equilíbrio e harmonia. À p. 77 há também referência a uma mulher sufi, um poço… Num movimento contrário, nesse livro de Ida algumas mulheres parecem ter envolvimento político, participar de ação, rompendo com o estereótipo do imanentismo feminino como delicado e gentil. A imagem da mulher feminina também habita as páginas de Ida Vicenza sob a forma de um grand jetté, passo elaborado de balé (ver “Nuvem passageira”, p. 67). Mas, ironicamente, é um passo de balé masculino, e se trata de um roubo….

Quase ao final da obra, o conto se pergunta se o é e afirma que é mesmo um conto… (p. 81). A própria autora propõe, em metalinguagem, a definição sobre suas opções literárias, ao recorrer a Mário de Andrade quando ele “diz que conto é tudo o que chamamos de conto”. Mas este apelo a Mario deve-se, claramente, ao fato de que a autora tem consciência de que se trata de um livro que oscila entre a poesia e a prosa poética.



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