Revista LitCult – Vol.8- 1. semestre 2015



LITERATURA FINLANDESA: PROBLEMA DE TRADUÇÃO E DE COLOCAÇÃO NO CÂNONE EUROPEU – Azzurra Rinaldi





 

 

Azzurra Rinaldi

Universidade de Coimbra

 

Resumo: Quando se fala de cânone da literatura há que ter presente que está em causa uma escolha de textos e autores feita por instituições académicas, júris de prémios literários, críticos, escritores de antologias e enfim, as escolhas de alguém que tem um certo peso no interior da sociedade cultural e que detém o poder de decidir qual obra deixar ficar na lista de textos que irão compilar o cânone e quais serão as obras que saem ou que nunca entrarão. Este trabalho quer demonstrar como a escolha de um cânone europeu pode influir e provocar dano nas literaturas de nações que são consideradas marginais, seja por uma questão linguística ou seja por outra, como a geográfica. Em concreto, aborda-se a marginalidade da Literatura Finlandesa, já que a sua particularidade geográfica, linguística e literária explicam a problemática global da criação de um cânone europeu.

 

Palavras chaves: Literatura finlandesa, cânone, tradução, marginalidade.

 

Currículo da autora: Azzurra Rinaldi é Doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa: Investigação e Ensino na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Colóquios: “La Nostra Africa” quinto dia do 1°ciclo de conferências sobre a África Lusófona, 11 de Maio de 2012, Departamento DISUCOM, Universidade da Tuscia (Viterbo); “A questão da Lusofonia e as literaturas de língua portuguesa: estudo de caso”, no Colloque Internacional Langues et Littératures Errantes – Horizontes et Frontières des Espaces Italophone, Lusophone et Hispanophone, 20-21 de Novembro de 2014. Publicações: Tradução de italiano para português do artigo Humanismo Africano e kimbundo em Agostinho Neto, Miguel Pedro Francisco, in «A Noção de ser, Textos Escolhidos sobre a Poesia de Agostinho Neto», Pires Laranjeira e Ana T. Rocha (organizadores), Luanda, Fundação Dr. António Agostinho Neto, 2014.

 


 

LITERATURA FINLANDESA:

PROBLEMA DE TRADUÇÃO E DE COLOCAÇÃO

NO CÂNONE EUROPEU

 

Azzurra Rinaldi

Universidade de Coimbra

 

A marginalidade da Finlândia

A nação finlandesa coloca-se muito a Norte, quase na mesma latitude do Alasca sendo todavia direcionada para o Leste, encontrando-se na mesma longitude da Polónia, da Eslováquia e da Hungria. A capital – Helsínquia – é mais próxima de Mosca, do que de Copenhaga, sendo por isso possível dizer que a Finlândia é uma terra de fronteira entre o Ocidente e a Rússia (McRAE, Kenneth, 1999, p. 9).

A Finlândia é um país multilingue, onde a maioria da população fala finlandês e apenas uma pequena parte fala sueco, sendo que mais ao Norte, na zona da Lapônia, falam-se as línguas Sami. Agora, focando-nos no contexto europeu, a língua finlandesa encontra-se marginalizada. Este idioma não pertence ao grupo Indo-Europeu, mas ao Ugro-fínico. Portanto se acaso as línguas românicas, germânicas e eslavas podem ter uma origem comum, a língua finlandesa e também a estónia já partem de uma situação de exclusão.

O papel marginal da Finlândia não é apenas devido aos fatores em cima descritos. A sua história também traz um peso importante, já que esta nação só conseguiu a independência depois de 1917. Desde a Idade Média, este território fazia parte do Reinado da Suécia tendo depois sido cedido à Rússia em 1809. É uma nação, de facto, bastante jovem. Portanto, a Finlândia passou a maioria da sua história como anexo de outras nações. E isto dá-lhe ainda uma maior carga de marginalidade (McRAE, Kenneth, 1999, p. 30).

Do ponto de vista literário a formação de uma própria literatura começa muito tarde (primeira metade do século XIX) e é um fenómeno único na Europa (THOORENS, Léon, 1977, p. 357). Só a partir do domínio russo é que se começa a fazer despertar uma literatura nacional; antes a literatura que era escrita no território pertencente à Suécia consistia apenas de pequenos textos de pouca importância: hinos religiosos e umas poesias, mas também a literatura em língua sueca era bastante exígua, só obras religiosas, teatro e nenhum romance (LAITINEN, Kai, 1995, p. 48).

O primeiro centro cultural nasceu em 1640, a Academia de Turku, onde se utilizava, como língua o sueco e o latim. A língua finlandesa, dividida em variantes dialetais diferentes, era apenas falada pelas classes baixas (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 21).

O nascimento da literatura finlandesa leva a data de 10 de outubro de 1870. Neste dia foi publicada a primeira obra realmente literária (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 27), ou seja, de criação original e não de tradução. Um texto finlandês, o romance Seitsemän veljestä: os sete irmãos de Aleksis Kivi (1834-1872). Ainda hoje, nessa data, celebra-se o dia da literatura (suomalaisen kirjallisuuden päivä).

Antes deste autor havia uns textos escritos em finlandês, que pertencem ao século XVI e basicamente narram lendas sobre a criação do mundo de origem não cristã. Estes poemas eram acompanhados musicalmente por um instrumento a cordas chamado kantele. O metro utilizado ignora a rima, mas faz um uso abundante da aliteração (LAITINEN, Kai, 1995, p. 23-24). O metro fínico é o runo, ou seja, o octossílabo troqueu com aliteração. Tais líricas eram cantadas por dois laulajat: o primeiro dizia o verso, o segundo repetia-o logo depois para dar ao primeiro cantor o tempo de lembrar ou de inventar o verso seguinte (PAVOLINI, P.E, 1909, p. XV).

Mikael Agricola (c.1510-1557), o primeiro bispo protestante na “Finlândia” foi o pioneiro na normatização do finlandês, tomando como base os dialetos do Sul-Oeste (LAITINEN, Kai, 1995, p. 35) e tendo escrito o abecedário (1537) e traduzido o Novo Testamento (1542-1548). A sua ideia era de reescrever a Bíblia completa em finlandês, mas não conseguiu concluir a obra (MOCCIA, Franco, 1967, p. 10).

Apesar destas poucas compilações, antes do romance Os setes irmãos o texto fundamental que realmente despertou as almas do povo foi o Kalevala de Elias Lönnrot (1802-1884), poema épico, que vê na sua primeira versão editada em 28 de Fevereiro 1835 (Dia Nacional do KalevalaKalevalanpäivä) 32 cantos e 12000. A segunda edição foi ampliada em 22795 versos divididos em 50 cantos e foi editada em 1849 (THOORENS, Léon, 1977, p. 359). Esta obra foi construída tomando como base os cantos populares das zonas de fronteira com a Rússia, a Carélia. Através destas líricas populares o autor conseguiu compor uma épica que constituiu o ponto de partida de uma construção de uma identidade finlandesa e foi uma obra que levou a conhecimento da Finlândia grande parte da Europa, enquanto, logo a partir da sua publicação, o Kalevala foi traduzido em várias línguas, inspirando os textos dos folcloristas estonianos F. K. Fahlman e F. R. Kreutzwald autores de Kalevipoeg e do escritor americano Henry Wordsworth Longfellow para The Hiawantha’s song (DRAGOMIR, Elena, 2005, p.34). Apesar disso, parece que a obra se tenha tornado moda em Paris. (JUTIKKALA, Einto, 1978, p. 238). A sua importância e sucesso deve-se principalmente ao facto de o autor ter deixado a convicção de que a “Finlândia” possuísse uma obra única ao mundo, inspirando confiança nas próprias possibilidades e capacidades intelectuais e artísticas (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 20). O Kalevala espalhou a ideia entre os finlandeses que se um povo “sem letras” podia criar uma obra tão importante como esta, então devia ter uma grande cultura e não podia ser uma raça sem história e tradição (JUTIKKALA, Einto, 1978, p. 238).

É fundamental lembrar que a altura dos primeiros movimentos literários (ou seja a partir do Kalevala) a Finlândia encontrava-se sob o domínio russo. A mudança devida à passagem da Suécia à Rússia, em 1809 criou um choque cultural que alimentou o pensamento independentista. A Finlândia encontrou-se sujeita a um império muito diferente, enquanto a língua e o relativo alfabeto, a religião e até o calendário eram (e são ainda hoje) diversos (McRAE, Kenneth, 1999, p. 30). De facto, já a partir de 1915, os intelectuais tinham como máxima: “Nós não somos suecos, não queremos tornar-nos russos, devemos ser finlandeses” (THOORENS, Léon, 1977, p. 358).

Portanto a literatura finlandesa nasceu sob a dominação russa na metade do século XIX. A influência do Romantismo alemão definiu o nacionalismo finlandês, os autores tomam como temática das suas obras a cultura local da era pagã (MOCCIA, Franco, 1967, p. 11). A partir de 1840 foram fundadas pelas classes cultas (de língua sueca) sociedades culturais onde os participantes se empenhavam a escrever em finlandês. Estes estudavam a língua misturando-se com a gente do povo (JUTIKKALA, Einto, 1978, p. 263). A vontade de escrever em finlandês, uma língua não literária e sem tradição académica (como, pelo contrário, tinha a língua sueca), deve-se ao facto dos intelectuais estarem preocupados com a construção de uma identidade nacional (DRAGOMIR, Elena, 2005, p. 27). Isto não significa que se deixou de escrever em sueco: o poeta Johan Ludvig Runeberg (1804-1877), fundamental para a formação da identidade nacional, escreveu poemas patrióticos sobre a guerra de Finlândia entre 1808 e 1809 (ano em que a Finlândia passou a ser russa) e foi o primeiro a tratar um tal assunto. O canto de abertura Vårt land (em finlandês Maamme – A nossa terra) da obra Os contos do Alferes Stål (Fänrik Ståls sägner – em dois volumes: o primeiro de 1848 e o segundo publicado em 1860) tornou-se hino nacional (MOCCIA, Franco, 1967, p. 48). Como aconteceu pelo Kalevala de Lönnrot, também a obra de Runeberg, mesmo sendo em sueco, oferece ao povo finlandês a ideia de ter um passado glorioso (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 24).

Foi com Aleksis Kivi que a língua finlandesa ganhou dignidade literária. O autor de “Os sete irmãos” conseguiu dar uma forma artística a um idioma que era falado apenas pela classe baixa. Kivi cria assim um estilo próprio que servirá aos sucessores como modelo literário, usando palavras deletais e frases amplas para dar à sua obra um caráter mais épico (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 26-27). Este escritor deu origem também à tradição teatral em finlandês (JUTIKKALA, Einto, 1978, p. 238). A língua de Kivi foi aperfeiçoada por Juhani Aho (1861-1921), que conseguiu levar o novo idioma literário ao nível de prestígio ao par das outras línguas europeias (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 31).

A partir do nascimento de uma literatura de língua fínica, a Finlândia mantém duas literaturas paralelas, em finlandês e em sueco. Muitos autores que escreviam em sueco eram nacionalistas – como Runeberg – e eram apreciados tanto na Suécia como na Finlândia; só que na pátria, por causa da língua utilizada, as obras em sueco eram menos lidas já que só uma pequena parte da população conseguia entender esta língua. No entanto, os textos finlandeses tinham uma maior abrangência no interior da nação em formação.

A literatura de língua finlandesa deu mais importância à natureza, paisagem, animais, vida no campo. Marcou-se marcada pelo realismo e pelo fantástico. As personagens são submetidas às forças elementares sejam estas da natureza, seja do ser humano. Pelo contrário, a literatura de língua sueca focou-se nas descrições de vida burguesa (AHOKAS, Jaakko, 1973, p. 5, 29, 59).

A literatura em língua finlandesa foi fundamental para despertar o Volksgeist e também para o desenvolvimento linguístico que suplantou a língua sueca tornando-a a um estatuto de marginalidade (McRAE, 1999, p. 39), mas que, apesar de tudo, ainda continua a oferecer obras literárias.

Portanto, a literatura nacional finlandesa surge como um produto do Romantismo que, sendo a Finlândia uma zona de periferia, chegou atrasado em respeito a propagação que teve na Europa. As primeiras obras foram escritas em torno de 1830, sendo que nesta altura a Europa já está na fase literária do Realismo (DRAGOMIR, Elena, 2005, p. 31). A nacionalidade, o uso de uma língua popular em vez do sueco implica uma vontade forte de separação e de independência.

A literatura, por sua vez, nesta altura e contexto, sendo a Finlândia ainda apenas uma utopia, funcionou como fronteira geográfica, como afirmou Pascal Casanova: “A tarefa principal dos fundadores da literatura é, em qualquer maneira, a de ‘fabricar diferenças’” (citado por CUNHA, Carlos Manuel, 2002-2005, p. 25).

A literatura torna-se uma cultura literária que abrange as formas imaginativas de uma comunidade, tornando-se um meio de comunicação de crenças, imagens e histórias, e constituindo portanto um imaginário comunitário, revelando o cânone estético e a identidade da sociedade onde a cultura literária nasceu (CUNHA, Carlos Manuel, 2011, p. 48-49).

A literatura é um bem primário comum ao povo inteiro, sendo esta o intérprete de um país e espelho de uma nação; segundo Laitinen (1995, p. 158-159), a literatura na Finlândia tem uma ressecção muito maior do que nos outros países, à causa da sua importância na constituição de uma identidade e, sobretudo, por ter oferecido à língua finlandesa o valor artístico e literário.

 

O problema da Literatura Finlandesa no contexto europeu

Eduardo Lourenço (2005, p.17) no prefácio ao livro “Cartas da Europa. O que é europeu na literatura europeia?” Escreve: “Sempre haverá no coração da cultura europeia esta inescusável ignorância do ‘outro’ tão europeu como os mais conhecidos entre eles”.

Esta citação explica muito bem o contexto literário europeu. A Europa é composta por vinte e sete países, mas muito deles resultam duma marginalidade de tipo literário e também linguístico. Países como a Polonia, a Lituânia, a Roménia entre outros, ficam na União Europeia, mas estão todavia afastados do centro cultural que domina o contexto literário. Nações tipo Alemanha, França e Reino Unido resultam responsáveis de uma espécie de centralização de poder cultural devido à posição (Alemanha), à língua (Reino Unido) e à importância cultural que tiveram no decurso da história (França).

A única maneira de fazer circular as obras mais marginais é a tradução, como dizia Umberto Eco “A língua da Europa é a tradução” (citado por FOCK, Holger, 2010, p.42) e por isso a língua de literatura europeia também deve ser a tradução. O problema é que as versões são feitas basicamente a partir da língua inglesa e só uma mínima parte das obras em outros idiomas tem a sua correspondência em outras línguas. Isto tem a ver também com uma forte circulação de textos norte-americanos e com a formação dos tradutores. Normalmente quem traduz a partir de línguas “marginais” não são tradutores profissionais (FOCK, Holger, 2010, p.42), o que pode criar certos problemas inerentes à originalidade da linguagem utilizada no texto de partida quanto ao estilo do autor e ao valor artístico da obra literária. É verdade que traduzir implica sempre um certo grau de perca, mas é também verdadeiro que um tradutor profissional aprendeu as ferramentas para limitar que a arte do autor se perca completamente.

O facto de traduzir principalmente da língua inglesa é devido à paga dos tradutores que em muitas nações (como a Espanha), resulta ser muito baixa. Portanto, prefere-se traduzir obras que são mais fáceis para que seja possível trabalhar com mais textos, os quais possam ter uma maior abrangência de público. Fazer versões de textos em inglês é mais simples, enquanto a maioria das obras que se escrevem são de língua inglesa (FOCK, Holger, 2010, p. 45).

A jornalista Gabriela Gönczy (2010, p. 51) explica, em poucas palavras, o que acontece quando os textos não forem traduzidos: “Se um autor importante do leste europeu não está disponível em alemão, inglês ou francês, talvez nunca venha a ser lido no país vizinho”. E quando, pelo contrário, estejam traduzidos: “Se o Romance de um homem sem destino não tivesse sido um tal sucesso na Alemanha, nunca o livro teria sido traduzido para inglês, nem Kertész recebido o Nobel da literatura”.

Como confirma Eduardo Lourenço, citado por Cunha (2011, p. 19), existe uma Europa hegemónica, uma “pátria da razão” que se tornou abusiva. Esta Europa, a mais poderosa também sob o fator económico, fundou um ideal de cultura que se identificou como mais universal marginalizando a outra parte de Europa.

Segundo a antologia Um cânone para a Europa, organizada por Helena Carvalhão Buescu, Maria Graciete Silva e Cristina Almeida Ribeiro, o cânone europeu seria composto apenas por uns autores que nem abrangem todos os países europeus: Homero, Shakespeare, Dante, Petrarca, Boccaccio, Camões, Kafka, Tolstói, Dostoiévski, Cervantes, Baudelaire, Proust, Goethe e Joyce. Aqui poderiam faltar, por exemplo, o finlandês Aleksis Kivi e outros autores canônicos das outras nações marginais.

Esta antologia foi uma tradução do original italiano que tem o título Letteratura Europea: il Canone. A colocação do artigo determinado italiano “il” oferece a ideia não da proposta de um cânone literário europeu, mas a de como se este cânone já tivesse sido estabelecido e fosse imutável. Coisa que não aparece na versão portuguesa, onde o artigo indeterminado “um” deixa entender uma certa mobilidade naquela lista de textos e autores que foram escolhidos. O cânone tratado foi proposto em um colóquio na Universidade “La Sapienza” de Roma em 2007 a partir da análise de uma sondagem que envolvia docentes de cerca quinze universidades de cinco países da União Europeia: Alemanha, Espanha, Itália, Portugal e Roménia (BUESCU, Helena, 2012, p. 7).

Uma escolha para um cânone europeu que só toma em consideração obras de apenas nove nações (como a Rússia, com Tolstói e Dostoiévski) mas deixa fora as outras dezoito, faz entender que existe um certo desconhecimento para com tudo aquilo que envolve a literatura dos países europeus. Esta é uma demostração de que no interior da União Europeia as diferentes nações não estão no mesmo nível. Parece pertinente citar, outra vez, Gabriella Gönczy (2010, p.50): “A maioria das obras literárias da Europa é escrita em línguas minoritária” – e isto leva a uma “fraca visibilidade dos textos e a uma dificuldade crescente no contexto da globalização”. Efetivamente, o que se nota é que o património literário e intelectual europeu implica familiaridade com os autores acima citados, mas não um conhecimento profundo da tradição literária polaca, por exemplo. (DONNER, Jörn, 2005, p. 72).

Como afirmou o professor Vítor Manuel Aguiar e Silva (2004, p. 243-244), a criação de um cânone literário sempre prevê autores e textos centrais e outros periféricos que ficam em um estado de subalternidade, mas isto não significa que aqueles escritores ou obras sejam menos importantes. A escolha de textos canônicos reflete o contexto histórico em que a seleção é efetuada, o que significa que o cânone não é fixo, mas muda diacronicamente em base às modas do período. Para a formação de um cânone nacional as obras escolhidas são as que manifestam melhor o sentimento étnico e cultural próprio de cada nação. No caso finlandês: Elias Lönnrot, Aleksis Kivi e Johan Ludvig Runeberg; ou como no caso português Camões, Garrett, Pessoa, Eça de Queirós e daí por diante.

Pode contudo acontecer ainda que quem esteja num lugar periférico consiga influenciar o centro. Donner (2005, p. 72) faz o exemplo de Joyce, que sendo irlandês não pertencia ao centro cultural europeu, mas o escritor finlandês de língua sueca justifica o impacto dele na literatura europeia pelo facto de ter escrito em um idioma importante como o inglês.

A construção de um cânone europeu é mais complexo quando cada nação tem uma sua identidade e a sua cultura. É possível comparar a problemática da criação de um cânone europeu com a de um estado multicultural e multilingue como a dos Estados Unidos. Na Europa, como já vimos, há nações que ficam marginalizadas e no contexto estadunidense existem comunidades minoritárias que são condenadas à subalternidade. A consciência de se ser marginalizado desperta uma voz crítica que faz com que o cânone criado tenha uma maior fragilidade. De facto, isto é o que acontece na sociedade norte-americana que está caraterizada por uma dimensão multiétnica e multicultural (AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel, 2004, p. 246). O continente europeu também tem esta mesma caracterização, sendo ele próprio uma união de nações que têm uma história, uma língua e uma cultura próprias. É importante também indagar sobre a existência do leitor europeu, ou seja, sendo a Europa composta por culturas diferentes, um leitor – por exemplo – de português poderia compreender uma obra de um outro autor finlandês mesmo em tradução? Provavelmente não entenderia os duplos sentidos, ou as críticas sociais, isto porque durante o processo de leitura o leitor constrói categorias para melhor captar e organizar a informação textual e semânticas. Estas mesmas categorias são constituídas a partir do conhecimento prévio do leitor. Se ele estiver completamente sem conhecimento sobre os factos narrados, não compreenderá a fundo a obra literária, no entanto se ele tiver conhecimento do período histórico de um determinado país, por exemplo, será mais fácil entender o texto. Este processo é chamado: “processamento de informação e compreensão do texto” (SCHNEIDER, Ralf, 2001, p. 620).

Portanto, a diferença cultural que se reflete nos textos pode implicar que uma obra de grande sucesso na Finlândia possa ser completamente indiferente em Portugal e vice-versa (IVASKEVICIUS, Marius, 2005, p. 109-115).

Na Finlândia existe uma elevada percentagem de publicação de livros, uma das mais altas do mundo em relação à sua população. Em 1991, cerca de 90% das obras editadas eram traduções, mas os textos que a Finlândia conseguia exportar através da tradução tocava apenas o 8% e a maioria deles eram em sueco (McRAE, Kenneth, 1999, p.332). Portanto a problemática linguística que determina a introdução de obras finlandesas no cânone europeu é efetivamente tangível.

 

Conclusão

A dificuldade em encontrar um cânone europeu depende principalmente da uma má circulação de obras escritas em línguas minoritárias. Tudo isto traz consigo o problema das traduções efetuadas por pessoas não profissionais, portanto os textos perdem o valor artístico original. Um exemplo desta problemática é o de Harold Bloom. No seu conhecido O cânone ocidental, o professor não coloca nenhum texto pertencente à literatura brasileira, mas no livro Génio, apesar de não tratar apenas autores literários mas também filósofos, coloca Machado de Assis como autor canónico.

Ter em conta um texto como o de Harold Bloom pode ser muito significativo para ter uma ideia de quais são os autores que efetivamente passam a ser globais e não há dúvidas que não se encontram patentes autores finlandeses, já que tal como foi abordado, a marginalidade linguística deles faz com que haja poucas traduções e uma grande parte destas seja feita a partir de outras traduções posteriores.

A literatura finlandesa é só um exemplo de como a criação de um cânone literário deve ter em conta fatores muitos diversos e deve tomar por isso grande cuidado. É possível ver a construção de um cânone europeu como um conjunto mais pequeno no interior de um ambiente mais amplo que contém já o cânone ocidental e que, por sua vez, está inserido no maior cânone global que se pode chamar de Literatura Mundial.

O domínio da literatura de língua inglesa, das numerosas traduções que se fazem desta língua para as outras, marginaliza ainda mais as literaturas nacionais que se exprimem numa língua diferente. Osvaldo Silvestre, citado por Cunha (2011, p. 77, nota), fala de “Anglo-Globalism” para identificar as obras que pertencem à lista do cânone mundial, sendo também um termo pertinente para definir a maioria das obras que circulam na Europa que descem de originais em língua inglesa.

Léon Thoorens (1977, p. 364), falando sobre a literatura da Finlândia, afirma que esta tem mais uma importância do ponto de vista histórico, patriótico, do que estético. Sendo a estética de uma obra fundamental para a sua entrada no cânone, uma literatura que talvez tenha pouca originalidade, e que porém seja importante; mas pela nação onde nasceu nunca irá fazer parte de um cânone europeu, ocidental e ainda menos global. Segundo Bloom (2011, p. 14), as obras que tem de fazer parte do cânone são aquelas que mostram uma certa originalidade e cujos “grandes autores” que não entram no cânone não conseguiriam igualar os que são realmente grandes.

Os autores e as obras finlandesas parecem assim estar excluídos porque não alcançam os objetivos da originalidade e da estética. Nenhum autor acima citado toma em consideração o facto de que algumas obras não possam entrar no cânone porque basicamente não há conhecimento da existência destas. Saber que existe uma obra pressupõe a circulação desta, mas sem as devidas traduções uma obra não pode circular.

Seguindo a história literária da Finlândia parece que o cânone finlandês dá mais importância ao ideal romântico da obra, ou seja, são tomadas em consideração as que fazem parte de um “imaginário nacional” de matriz popular para legitimar os valores e o sentido histórico da comunidade independente (CUNHA, Carlos Manuel, 2002-2005, p. 26). A obra de Aleksis Kivi, utiliza uma linguagem que ainda não tem a possibilidade de ser refinada e/ou elegante como as outras línguas que pelo contrário já tiveram uma longa tradição artística. Apesar disso, o autor de Os sete irmãos é a base do cânone finlandês mesmo pela sua importância identitária.

O cânone prevê uma restrição, também porque é impossível ler tudo aquilo que a literatura de uma nação, de um continente nos propõe. A imagem utópica do escritor lituano Marius Ivaskevicius (2005, p. 109) refere bem esta impossibilidade do leitor de ler e compreender todos os textos:

 

O verdadeiro leitor europeu teria de saber mais de trinta idiomas, ter visitado não só todas as capitais europeias, mas também as aldeias mais remotas, ter lido na língua original pelo menos os dez livros mais importantes de cada país europeu e ter lido pelo menos um livro de história e de história da cultura desse país. Sabendo-se tudo isto, tudo quanto o leitor deveria ter feito durante a vida, chega-se à conclusão de que deveria ser muito velho, solitário e um pouco doido.

 

Nota

1  Não existe uma versão em português da obra

 

 Bibliografia

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