ESCRITORES



LAÇOS DE FAMÍLIA: CONTOS





Autor: Clarice Lispector
Título: Uma Galinha,The Chicken, Une Poule
Idiomas: port, eng, fra
Tradutor: Jacques et Teresa Thiériot (fra), Giovanni Pontiero(eng)
Data: 28/12/2004

LAÇOS DE FAMÍLIA: CONTOS


Uma Galinha


Clarice Lispector

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou – o tempo da cozinheira dar um grito – e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta hesitante e trêmula escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.
Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração tão pequeno num prato solevava e abaixava as penas enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento despregou-se do chão e saiu aos gritos:
-Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
-Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
-Eu também! jurou a menina com ardor.
A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: “E dizer que a obriguei a correr naquele estado!” A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga – e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho – era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Laços de família: contos. – 11ª.ed. – Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979. p. 31-34.

LIENS DE FAMILLE: CONTES ET NOUVELLES


Une Poule


Clarice Lispector

C’était une poule au pot dominicale. Encore vivante parce que neuf heures n’avaient pas encore sonné.
Elle avait l’air calme. Depuis la veille, elle s’était retatinée dans un coin de la cuisine. Elle ne regardait personne, personne ne la regardait. Même quand ils l’avaient choisie, après avoir palpé son intimité avec indifférence, ils n’auraient su dire si elle était grasse ou maigre. Jamais on n’aurait deviné en elle la moindre velléité.
Ce fut donc une surprise quand ils la virent ouvrir ses ailes peu faites pour le vol, gonfler la poitrine et en deux ou trois essors, atteindre le muret de la terrasse. Un instant encore elle hésita, le temps que la cuisinière pousse un cri, et en un clin d’oiel elle était déjà sur la terrasse du voisin d’où elle s’envola à la va-comme-je-te-pousse pour gagner un toit. Plantée là comme un ornement déplacé, sans savoir sur quelle patte sautiller. La famille, convoquée de tout urgence, consternée, aperçut son déjeuner à côté d’une cheminée. Le maître de maison, se rappelant la double nécessité et de faire de temps en temps du sport et de déjeuner, enfila, la mine radieuse, un caleçon de bain et décida de suivre l’itinéraire de la poule : à petits sauts précautionneux, il atteignit le toit où celle-ci, hésitante et tremblante, choisissait en hâte un autre cap. La poursuite s’intensifia: de toit en toit, plus d’un pâté de maisons fut parcouru. Peu encline à une lutte vraiment sauvage pour la vie, la poule devait décider par elle-même les chemins à prendre, sans le moindre secours de sa race. L’homme toutefois, était un chasseur qui sommeillait. Et si infime que fût la proie, l’heure de l’hallali avait sonné.
Seule au monde, sans père ni mère, elle courait, haletait, muette, concentrée. Parfois elle interrompait sa fuite pour se poser, pantelante, sur la saillie d’un toit, et tandis que l’homme en escaladait d’autres à grand-peine, elle avait le temps de récupérer ses forces un moment. Et alors elle avait l’air vraiment libre.
Stupide, timide et libre. Et non pas victorieuse comme le serait un coq en cavale. Qu’y avait-il dans ses entrailles qui faisait d’elle un être ? La poule est un être. C’est vrai qu’on ne saurait compter sur elle pour quoi que ce soit. Elle même ne comptait par sur elle, comme le coq qui lui, croit en sa crête. Son seut avantage, c’est qu’il existait tant et tant de poules que lorsque l’une mourait, surgissait au même instant une autre toute pareille comme si c’était la même.
Finalement, l’une des fois où elle s’arrêta pour jouir de sa fugue, l’homme l’atteignit. Parmi des cris et des plumes, la voilà attrapée. Aussitôt triomphalement transportée par une aile de toit en toit et déposée sur le sol de la cuisine avec une certaine violence. Encore étourdie, elle s’ébroua un peu avec des gloussements enroués et indécis.
C’est alors que l’événement se produisit. Sous le simple coup de l’affolement la poule pondit un oeuf. Surprise, épuisée. Peut-être avant terme. Mais tout de go, puisq’elle était née pour la maternitée, elle avait déjà l’air d’une vieille mère habituée. Elle s’assit sur son oeuf et garda la pose, reprenant son souffle, boutonnant et déboutonnant ses yeux. Son coeur, si petit dans une assiette, soulevait et abaissait ses plumes, enveloppant de tiédeur ce qui ne serait jamais qu’un oeuf. Seule la petit fille de la maison était là et assista ébahie à la scène. A peine parvint – elle à se détacher de l’événement qu’elle décolla ses pieds et sortit en braillant :
-M’man, m’man, ne tue plus la poule, elle a pondu un oeuf ! Elle nous veut du bien !
Tous coururent de nouveau à la cuisine et firent cercle, bouche bée, autour de la jeune parturiente. Réchauffant son enfant, celle-ci n’était ni douce ni hargneuse, ni gaie ni triste, elle n’était rien, elle était une poule. Ce qui en soi n’inspirait aucun sentiment particulier. Le père, la mère et la fille la regardaient depuis déjà un bon moment, sans la moindre pensée proprement dite. Jamais personne n’a caressé une tête de poule. Le père finit par se décider avec une certaine brusquerie :
-Si tu fais tuer cette poule, je ne mangerai jamais plus de volaille de ma vie !
-Moi non plus, jura la fillette avec ardeur.
La mère, fatiguée, haussa les épaules.
Inconsciente de la vie que lui avait été dévolve, la poule dès lors habita avec la famille. La gamine, de retour de l’école, balançait son sac au loin sans interrompre sa course vers la cuisine. Le père de temps à autre se rappelait encore : « Et dire que je l’ai obligée à courir dans cet était !» La poule était devenue la reine de la maison. Tous, sauf elle, le savaient. Elle continua de partager sa vie entre la cuisine et la terrasse de derrière, utilisant ses deux aptitudes : l’apathie et le sursaut.
Mais quand tous étaient bein tranquilles à la maison et semblaient l’avoir oubliée, elle s’armait d’un petit courage, les restes de sa grande cavale, et elle se baladait sur le carrelage, le corps avançant à la suite de la tête, posément comme dans un champ, bien que sa petite tête la trahît : secouée par un mouvement rapide et vibratile, provoqué par le vieil effroi de son espèce désormais mécanisé.
De temps à autre, mais de plus en plus rarement, elle rappelait de nouveau la poule qui s’était découpée sur le ciel, au bord du toit, prête à caqueter. Alors elle emplissait ses poumons de l’air impur de la cuisine et même si les femelles avaient pu chanter, elle n’allait pas chanter mais s’en trouverait plus satisfaite. Et pourtant, même à ces moments – là, l’expression de sa tête vide ne changeait pas : pendant sa fugue, au repos, au moment d’accoucher ou picorant du maïs, c’était une tête de poule, la même tête qui avait été dessinée au commencement des siècles.
Jusqu’au jour où ils la tuèrent, la mangèrent, et des années passèrent.

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Fonte : LISPECTOR, Clarice. Liens de famille : contes et nouvelles. Traduits du brésilien par Jacques et Teresa Thiériot. Paris [França] : Des Femmes, 1989. p. 43-48.

FAMILY TIES


The Chicken


Clarice Lispector

It was the chicken for Sunday’s lunch. Still alive, because it was still only nine o’clock in the morning. She seemed placid enough. Since Saturday she had huddled in a corner of the kitchen. She looked at no one and no one paid any attention to her. Even when they had chosen the chicken, feeling the intimacy of her body with indifference, they could not tell if she were plump or thin. No one would ever have guessed that the chicken felt anxious.
It was a surprise, there fore, when they saw her spread open her stubby wings, puff out her breast, and in two or three attempts, fly to the backyard wall. She still hesitated for a second – sufficient time for the cook to cry out – and soon she was on their neighbour’s terrace, from which, in another awkward flight, she reached the roof. There the chicken remained, like a displaced ornament, perched hesitantly now on one foot, now on the other. The family was hastily summoned and in consternation saw their lunch outlined against a chimney. The master of the house, reminding himself of the two fold necessity of sporadically engaging in sport and of getting the family some lunch, appeared resplendent in a pair of swimming trinks and resolved to follow the path traced by the chicken, in cautious leaps and bounds, he scaled the roof where the chicken: hesitant and tremulous, urgently decided on another route. The chase now intensified. From roof to roof, more than a block along the road was covered. Little accustomed to such a savage struggle for survival, the chicken, had to decide for herself the paths she must follow without any assistance from her race. The man, however, was a natural hunter. And no matter how a abject the prey, the cry of victory was in the air.
Alone in the world, without father or mother, the chicken was running and panting, dumb and intent. At times during her escape she hovered on some roof edge, gasping for breath and, while the man strenuously clambered up somewhere else, she had time to rest for a moment. And she seemed so free. Stupid, timid, and free. Not victorious as a cock would be in flight. What was it in the chicken’s entrails that made her a being? The chicken is, in fact, a being. It is true that one would not be able to rely upon her for anything. Nor was she even self – reliant like the cock who believes in his crest. Her only advantage was that there were so many chickens that when one died, another automatically appeared, so similar in appearance that it might well be the same chicken.
Finally, on one of those occasions when she paused to enjoy her bid for freedom, the man reached her. Amid shrieks and feathers, she was caught. She was immediately carried off in triumph by one wing across the roof tiles and dumped somewhat violently on the kitchen floor. Still giddy, she shook herself a little with raucous and uncertain cackles.
It was then that in happened. Positively flustered, the chicken laid an egg. She was surprised and exhausted. Perhaps it was premature. But from the moment she was born, as if destined for motherhood, the chicken had shown all the signs of being instinctively maternal. She settled on the egg and there she remained, breathing as her eyes buttoned and unbuttoned. Her heart, which looked so tiny on a plate, raised and lowered her feathers, warming that egg which would never be anything else. Only the girl of the house was on the scene, and she assisted at the event in utter dismay. No sooner had she disengaged herself from the event than she jumped up from the floor and ran out shouting.
‘ Mummy! Mummy! Don’t kill the chicken, she’s laid an egg! The chicken loves us!’
They all ran back into the kitchen and stood round the young mother in silence. Warming her offspring, she was neither gentle nor cross, neither happy nor sad; she was nothing, she was simply a chicken – a fact that did not suggest any particular feeling. The father, mother, and daughter had been standing there for some time now, without thinking about anything in particular. No one was known to have caressed a chicken on the head. Finally, the father decided, with a certain brusqueness, ‘If you have this chicken killed, I will never again eat a fowl as long as I live!’
‘ Nor me!’ the little girl promised with passion.
The mother, feeling weary, shrugged her shoulders. Unconscious of the life that had been spared her, the chicken became part of the family. The little girl, upon returning from school, would toss her school bag down without disturbing the chicken’s wanderings across the kitchen. The father, from time to time, still remembered. ‘And to think that I made her run in that state!’
The chicken became the queen of the household. Everybody, except her, knew it. She ran to and fro, from the kitchen to the terrace at the back of the house, exploiting her two sources of power: apathy and fear.
But when everyone was quiet in the house and seemed to have forgotten her, she puffed up with modest courage, the last traces of her great escape. She circled the tiled floor, her body advancing behind her head, as unhurried as if in an open field, although her small head betrayed her, darting back and forth in rapid vibrant movements, with the age – old fear of her species now ingrained. Once in a while, but ever more infrequently, she remembered how she had stood out against the sky on the roof edge ready to cry out. At such moments, she filled her lungs with the stuffy atmosphere of the kitchen and, had females been given the power to crow, she would not have crowed but would have felt much happier. Not even at those moments, however, did the expression on her empty head alter. In flight or in repose, when she gave birth or while pecking grain, hers was a chicken’s head, identical to that drawn at the beginning of time. Until one day they killed her and ate her, and the years rolled on.

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Family Ties. Translated with an after word by Giovanni Pontiero. Manchester [Inglaterra]: Carcanet, 1985. p. 28-31.

 

 



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