Revista Mulheres e Literatura – vol. 3 – 1999



Julia Kristeva: para além do simbólico





Julia Kristeva: para além do simbólico

Margaret Anne Clarke
Universidade Federal do Rio de Janeiro

A crítica feminista abrange uma grande variedade de teorias e práticas diferentes, em um estado constante de desenvolvimento e de mudança. Faz sentido, portanto, falar das críticas feministas no plural em vez do singular. Dentre este campo da teoria literária, a relação entre a psicanálise, o feminismo e a escritura feminina é uma questão ainda mais complexa. A crítica literária que surgiu a partir da segunda onda do feminismo na década dos sessenta e princípio dos anos setenta, enfocou, antes de tudo, na marginalização da mulher do cânon literário ocidental, e, a partir daí, a recuperação de um grande corpus da escritura feminina até então desconhecida ou ignorada. Ultimamente, porém, escritoras de vários países, sobretudo da França, começaram a fazer perguntas mais profundas e abrangentes acerca da questão do género, a verdadeira natureza da mulher como sujeito humano e a relação desta com a sociedade e a linguagem. Críticos como Julia Kristeva, Hélène Cixous e Luce Irigaray desafiaram o conceito tradicional de cada gênero – homem e mulher – como categoria única e absoluta, reduzível a uma essência só. As diferenças entre os géneros e, acima de tudo, a experiência da diferença são construídas psicologicamente e dentro de um dado contexto social. Além disso, as diferenças entre os géneros não existem como fenômenos em si, isolados ou independentes. Cada gênero é construído dentro de uma rede complexa de relações humanas e, portanto, não se pode examinar a diferença sexual como fenômeno separado desta rede. Neste contexto, uma abordagem psicanalítica joga um papel de importância capital.

A psicanálise, sendo um estudo completo do desenvolvimento humano desde a infância, é capaz de fornecer também uma teoria sobre as origens e a formação do gênero como categoria separada. Assim, a psicanálise se torna um método emancipador de examinar a construção do sujeito humano em todos os seus aspectos, e pela razão seguinte: o pressuposto mais básico da psicanálise é que o sujeito humano é uma entidade complexa. O pensamento consciente deste é apenas uma só manifestação de uma multiplicidade de estruturas inconscientes que se cruzam e se intersectam para produzir a constelação instável que os humanistas liberais chamam de ”eu”. Estas estruturas abrangem não só os desejos, os impulsos e ímpetos infantis reprimidos, mas também uma legião de outros fatores materiais, sociais, políticos e ideológicos, de que estamos apenas parcialmente conscientes. É esta rede de estruturas contraditórias que forma o ser humano e não o reverso. Isso não quer dizer, é claro, que as experiências do indivíduo sejam menos valiosas nem menos reais, mas significa que tais experiências só podem ser compreendidas através de um estudo minucioso dos seus componentes, de que o pensamento consciente é uma parte só.

É claro, então, que esta perspectiva pode tornar-se muito relevante à crítica feminista, porque claramente nega o puro determinismo biológico; portanto, o conceito de categorias masculino/feminino com determinadas características torna-se muito mais problemático. Qualquer idéia de um ”eu”, unificado e determinado biologicamente, tem que ser muito redutiva.

As teorias francesas do feminismo, baseadas em grande parte na psicanálise e, sobretudo, na leitura pós-moderna de Lacan, contribuíram muito ao debate nos últimos anos, sobretudo àqueles aspectos que tratam da sexualidade da mulher, da construção da diferença sexual, e, mais especificamente, das relações da mulher com a linguagem e a escritura. Entre as várias feministas que trabalham neste campo, destaca-se o nome de Julia Kristeva, cujo trabalho abrange e combina a lingüistica, a literatura e a psicanálise. A obra de Julia Kristeva é, é claro, bem diversa; contudo, o âmago dos estudos dela fica a problemática da linguagem e a questão de como se define, exatamente, a linguagem. Segundo Kristeva, os lingüistas andam ainda descobrindo e formulando as regras que dominam o nosso código social fundamental. Por isso, Kristeva considera a base ideológica e filosófica da lingüistica moderna como fundamentalmente autoritária e opressiva. Num ensaio intitulado ”As éticas da lingüistica” ela diz o seguinte:

”A epistemologia que fica por baixo da lingüistica e dos processo cognitivos conseguintes (o estruturalismo, por exemplo) (…..) parece um anacronismo quando enfrentarmos as mudanças contemporâneas da sociedade”. 1

A saída deste impasse, segundo Kristeva, encontra-se numa mudança radical além do conceito saussuriano de langue para o re-estabelecimento do sujeito falante como objeto central dos estudos lingüisticos. Assim, esta nova abordagem mudaria a lingüistica fora do seu fascínio prevalente com as estruturas monolíticas e monogéneas, para uma análise da linguagem como processo heterogéneo, complexo, num estado de fluxo constante. Esta visão, portanto, pressupõe uma nova énfase na aquisição da linguagem: quer dizer, o processo pelo qual o indivíduo aprende a linguagem desde a infância. Segundo Kristeva, o sujeito humano não pode ser definido como uma unidade. O indivíduo é dividido, decentralizado, superdeterminado e, portanto, ficam num estado fundamental de instabilidade. Para definir com mais precisão a instabilidade inerente ao ser humano, Kristeva formulou o termo ”sujeito em processo”:

”Processo” no sentido do processo mesmo, em curso, mas também no sentido dum processo da lei, onde o sujeito fica em julgamento, porque nossas identidades na vida estão constantemente postas à prova, julgado, rejeitado. Por isso, Kristeva dá énfase no estudo da linguagem porque é precisamente a linguagem que manifesta estes estados de instabilidade. Normalmente, no meio da comunicação e do discurso comum, que é estruturado, organizado e ”civilizado”, tendemos a reprimir estes estados de instabilidade, que são também as fontes de criatividade, de poesia. A criatividade e o sofrimento se compõem destes momentos de instabilidade, quando a linguagem mesma, e os sinais da linguagem são postos neste ”processo”

Para esclarecer as raízes deste processo, Kristeva define duas modalidades, a primeira que ela chama ”o semiótico” e a segunda ”o simbólico”. O semiótico nos retorna às fases da infância pré-linguísticas. A criança balbucia os ruídos que ela ouve, tentando imitar o seu ambiente, ou o mundo ao seu redor. Os processos que podemos ver nesta etapa da infância são os que Freud chamou ”os processo primários” de transferência. Temos um exemplo disto se referirmos à palrice das crianças, que é uma imagem sonora da instabilidade do corpo. Os corpos de crianças e bebés se compõem de zonas erôgenas que são muito excitáveis num estado da mudança constante, e sem uma identidade fixa. Nessa etapa, a criança ainda não possui os sinais lingüisticos necessários, e assim não existe ”sentido” lógico e convencional. O semiótico é um estado de desintegração, dentro do qual vários padrões e quadros aparecem, mas não tém identidade estável nenhuma; são toldados e flutuantes. 2

Embora Kristeva acredite que uma ”identidade fixa” é, ao fim das contas, uma ilusão, podemos alcançar um certo tipo de estabilidade, e existem vários passos no caminho da criança para uma identidade mais estável.

O padrão clássico freudiano do desenvolvimento humano é a crise edipal: o pai é responsável pela cisão, ou separação, entre a mãe e a criança, e proíbe a criança de ter mais acesso à mãe e ao corpo da mãe. A crise edipal representa a entrada da criança na Ordem Simbólica ou o simbólico, segundo a definição de Kristeva. Esta entrada está intimamente ligada com a aquisição da linguagem. Quando a criança aprende a dizer ”eu sou” e distingue esta frase de ”você é” ou ”ele é”, este é o equivalente de admitir que já assumiu sua posição dada na Ordem Simbólica, e abandonou o direito à identidade imaginária com a mãe e com todas as outras posições possíveis. O sujeito se torna capaz de pronunciar frases que se conformam às regras duma sociedade dominada pela Lei do Pai, e de contar também a sua própria história, de exprimir-se plenamente.

Contudo, existe ainda uma falta ou uma perda na consciência do indivíduo, porque é sujeito às várias posições na sociedade que já são definidas para ele ou ela, que ficam fora do seu controle. O sentido de ser um sujeito pleno, realizado e unificado é contradito pelo sentido de ser definido pela lei da cultura humana. Por isso, é nesta fase que o desejo e o inconsciente são também criados. O inconsciente é o repositório de tudo que tem que ser reprimido quando o sujeito assume a sua posição dada na sociedade que são disponíveis na linguagem. Uma das imagens que Kristeva emprega para descrever o conteúdo essencial do inconsciente é a cora. A cora é um vocábulo grego que significa um receptáculo, um espaço fechado, ou um útero. Platão define este conceito no Timeu como ”um ser, ou um ente invisível e sem forma que recebe todas as coisas e, nalguma maneira misteriosa partilha do inteligível e é, sobretudo, incompreensível”. Kristeva adapta e redefine este conceito e conclui que a cora não é um sinal, nem uma posição, mas em vez disso, uma articulação inteiramente provisional que é essencialmente móvel. É o fluxo sem fim de pulsões básicas recolhido na cora.

A cora é uma modalidade que traz consigo as memórias mais arcaicas dos nossos laços com o corpo materno. Na maioridade, reprimimos a inscrição vocal ou gestual desta experiência sob nossas aquisições subsequentes; é uma condição importante para a autonomia. Pois quando o sujeito entra na ordem simbólica, a cora torna-se reprimida, e, a partir de então, só pode ser percebida como uma forma de pressão na linguagem simbólica. É experimentada como contradições sem sentido, transtornos, silêncios e ausências na linguagem simbólica. No obstante, a cora é uma pulsão rítmica; não é uma nova linguagem em si. Em outras palavras, constitui a dimensão heterogénea da linguagem, o que nunca pode ser exprimido dentre o encerramento da teoria tradicional lingüistica.

”Trata-se de abrir, na e para além da cena das representações lingüisticas, modalidades de inscrições psíquicas pré ou translinguísticas, que poderíamos chamar semióticas, ao encontro do sentido etimológico do grego semeion, traço, marca, distintividade. No fundamento da filosofia, antes que nosso modo de pensamento se fechasse no horizonte de uma linguagem entendida como tradução de uma idéia, Platão lembrando-se dos atomistas, falou no Timeu de uma cora-arcaico, móvel, instável, anterior ao um, ao Pai, e mesmo à sílaba, metaforicamente designada como alimentar o maternal”. 2

É neste ponto que percebemos a possibilidade de criação, de sublimação. Kristeva acha que cada tipo de criação, mesmo científica, deve-se a esta possibilidade de abrir as normas. É esta experiência da cora semiótica na linguagem que produz a poesia. A cora pode ser considerada como a fonte de todos os esforços estilísticos, a modificação da ordem banal e lógica, através de distorções lingüisticas como a metáfora, a metonomia e a musicalidade.

Quando à situação das mulheres mesmas na Ordem Simbólica, a questão da linguagem torna-se mais complexa. Kristeva recusa dar uma definição da ”mulher” como tal. Não oferece uma teoria concreta acerca da feminilidade nem da ”fémea”. Em vez disso, propõe uma teoria de marginalização. Já vimos como a semiótica Kristeviana dá a énfase no marginal e no heterogéneo. Kristeva, falando da sua experiência como psicanalista, afirma que muitas mulheres reclamaram da sua própria experiência da linguagem como algo frio ou estrangeiro nas suas vidas, alienado das suas próprias paixões e dos seus desejos 3. Estas queixas são importantes porque põem em causa a linguagem como exercício lógico. A comunicação do dia-a-dia é representativa da código social prevalente. As formas semióticas que ficam latentes na linguagem são reprimidas, não são ouvidas, e não tem seu próprio espaço. Segundo Kristeva, esta repressão é mais outro meio de cortar o laço primordial com a mãe e o reino maternal, e daí surge um sentido fundamental da estranheza e da alienação. Ao expor o alcance da ordem patriarcal, que domina as estruturas da linguagem e da mente mesma, Kristeva critica a rigidez e a inflexibilidade da ordem simbólica, e sugere que as mulheres, uma vez liberadas desta ordem, são capazes de escrever num espaço diferente, mais flexível e mais aberto.

Para concluir, então, o compromisso de Julia Kristeva com a investigação minuciosa dos problemas da marginalidade e da subversão e sua deconstrução radical da identidade do sujeito, abrem novas perspectivas para a crítica feminista. A teoria do sujeito em processo e da cora nos permite examinar a escritura das mulheres a partir duma perspectiva anti-essencialista e anti-humanista. Se aplicarmos esta teoria à questão de gênero e da diferença sexual, temos, então, uma visão feminista duma sociedade dentro da qual o sujeito humano seria livre de exprimir-se livremente, além e fora das oposições binárias, como eu/outro, sujeito/objeto, homem/mulher, que são apenas manifestações de códigos sociais restritos que reprimem a poesia e a criatividade. A tarefa da escritura feminina, portanto não deve ser a adoção dos códigos lingüísticos do poder patriarcal. Porém, as escritoras não devem evitar os encontros com o simbólico, mas, em vez disso, construir textos e poesias que resistem as regras e as regularidades da linguagem convencional, recuperando e afirmando todo o potencial poético sem limites que fica na cora, fonte da todos os nossos desejos e impulsos mais profundos.

 

Notas:

1 KRISTEVA, Julia. ”The Ethics of Linguistics” In: Moi, Toril. Sexual/Textual Politics: Feminist Literary Theory. (London: Routledge, 1995), p. 152. Minha tradução.

2 KRISTEVA, Julia. No Princípio Era o Amor: Psicanálise e Fé. (Trad. Leda Tenório da Motta).( São Paulo: Editora Brasiliense, 1987). p. 14.

3 KRISTEVA, Julia. ”A Question of Subjectivity – and Interview”. Women’s Review, no. 12. (1986) pp.19-21.

In: Philip Rice and Patricia Waugh. Modern Literary Theory: A Reader (Third Edition). (London: Arnold, 1997). Pp.134-135.



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