Revista LitCult – Vol.8- 1. semestre 2015



JORGE DE SENA: TRANSITANDO EM VIAS DE FATOS – Wellington Alves Toledo





 

Wellington Alves Toledo

 

Universidade Federal do Rio de Janeiro ? UFRJ

 

 

 

Resumo

 

A busca de um lugar onde a liberdade fosse um item primário inevitavelmente não pode deixar de ser associada à biobibliografia do poeta português Jorge de Sena. A relação de amor e abandono de seu país de origem, Portugal, mais as experiências vividas em suas pátrias madrastas, fizeram parte do seu percurso humano e literário. Assim, o presente trabalho, pretende, pois, refletir sobre essa transitoriedade identificada na poética do autor, não só o que concerne às mudanças territoriais em curso, mas, sobretudo, as constantes deambulações que caracterizaram sua escrita, como a transmutação da consciência poética individual para um estado de transnacionalidade, a busca de uma identidade literária nacional contrapondo ao compromisso intertextual universal, além do pensar a própria obra sob a égide de perpassar o extenso legado cultural português.

 

Palavras-chave: Poética. Poesia narrativa. Transitoriedade. Pátrias. Deambulações.

 

Abstract

 

The pursuit of a place where freedom was a primary item should inevitably be associated with the Portuguese poet Jorge de Sena’s bio-bibliography. His love relation to his birth country, Portugal, and later his leaving it, besides the experiences he had in other foster homelands, were part of his human and literary trajectory. Therefore, this paper intends to reflect about the transience that can be identified with the author’s narrative poetry, not only in what concerns the territorial changes in course, but, above all, the constant ramblings that characterized his writing. Among these, the transmutation of the individual poetic consciousness to a state of transnationality, the search for a national literary identity in opposition to the universal intertextual commitment, and the thinking of his own work under the light of the extensive cultural Portuguese legacy.

 

Key-words: Poetics. Narrative poetry. Transience. Homelands. Ramblings.

 

Currículo do autor

 

Wellington A. Toledo é formado em Letras e atualmente termina o Mestrado em Literatura Portuguesa pela UFRJ, com a professora Doutora Gumercinda Nascimento Gonda, sobre a problemática da forma e de gênero da Mensagem de Fernando Pessoa, com defesa prevista para fevereiro de 2015. Essa dissertação foi apresentada no decorrer da disciplina Escrever Portugal, ministrado pelas professoras Cleonice Berardinelli e Gilda Santos, no primeiro semestre de 2013. É professor concursado na rede pública de ensino da Prefeitura de Magé. Tem um livro de poesia com publicação prevista em dezembro de 2014.

 

 

JORGE DE SENA: TRANSITANDO EM VIAS DE FATOS

 

Wellington Alves Toledo

 

Universidade Federal do Rio de Janeiro ? UFRJ

 

 

 

Introdução

 

 

Transeunte inútil de ti e de mim,

Estrangeiro aqui como em toda parte,

Casual na vida como na alma,

Fantasma a errar em salas de recordações,

Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem

No castelo maldito de ter que viver…

 

(PESSOA, 1981, p. 293- 294)

 

 

Comecemos, portanto, com a famosa asserção pessoana da relação de inaptidão do escritor com o espaço cívico. O artista, como um ser contestador do seu tempo, sente-se às vezes incapaz de se enquadrar em qualquer modo institucionalizado de vida. Assim, transfere à arte a responsabilidade de criação de um ambiente no qual possa dar perfeitamente um livre sentido à sua existência. Desta forma, vida e obra se interagem, embora, tumultuosamente.

As somas de toda sua trajetória pessoal obrigaram-no a conviver com os sentimentos de deslocação e de pertencer sempre a um espaço de intervalo. Sentimentos que ajudaram formar uma figura personalíssima, contestadora de seu estado social e, principalmente, um ser que fez da procura por libertação ? talvez utópica ?, do amor à pátria, da incompreensão humana e do resgate da herança literária, veios temáticos de sua vasta produção artística.

Poeta acima de tudo, como se considerava o próprio escritor português, difícil não correlacionar grande parte de seu histórico de vida com o que produziu de mais substancial durante anos de esteta das palavras. Com uma linguagem simples, embora detentor de um elitismo cultural e de um conhecimento literário grandíssimo, Sena fez de sua obra uma espécie de diário íntimo, no qual não só se refletiam dados autobiográficos, mas também versos reveladores de um homem que foi um cidadão do mundo.

 

  1. Peregrinatio ad pátrias infectas

 

Embora Nascido em Portugal, de pais portugueses, sua postura contestadora diante das contingências políticas de seu país reclamará para si ares mais respiráveis, capazes de lhe conferir a liberdade de se expressar contra todo o tipo de repressão humana. O Brasil se afigura então como um terreno fértil para seus inúmeros projetos. Por outro lado, esse espaço alheio e desconfortável instaura no autor um contraponto para a saudade e mágoa para com aquele que o renegou. Nisso, intensifica-se em sua escrita a tentativa de manter vivo, através da arte, o laço à distância com o país que amou e se viu obrigado a abandonar, ao mesmo tempo em que busca não perder as particularidades que o caracterizam como o ser de sua pátria natal, mesmo que contaminado por uma nova unidade sociocultural. Em meio a tanta diversidade de cultura a ele imposta pelas circunstâncias, o sujeito da enunciação lírica se fecha em sua própria consciência individual, manifestando um encontrar fora de si só a povoada solidão mortal. A palavra torna-se então residência fixa de um discurso poético que transita do eu-expatriado para o transnacional e, finalmente, assim pôde a poesia ser hábito de exercício de sobrevivência.

Estabelecido o exílio territorial, a lírica seniana projetará uma poesia emigrante; reflexo de suas muitas peregrinações pelo mundo. Situado entre dois polos ambíguos ? a mãe-pátria renegada e o quarto de hóspede oferecido pelo parente distante ?, o poeta opta por construir um exílio mais profundo e subjetivo, transformando a ausência de “colo” em material lírico por excelência e da existência pessoal senda de superação de uma identidade nacional fragmentada. Sobre essa errância da figura dos poetas, vale a pena destacar o que a poetisa russa Marina Tsvetáieva aponta:

 

Todo o poeta é por essência um emigrante […]. Um emigrante do reino dos Céus e do paraíso terrestre da natureza. O poeta (todos os artistas, mas sobretudo o poeta) leva sempre a marca especial do descontentamento, graças à qual mesmo na sua própria casa é impossível reconhecê-lo. É um emigrante da Intemporalidade no tempo, um exilado do seu céu (TSVETAIEVA,1993. p. 63-64).

 

O exílio, seja ele voluntário ou punitivo, ancorou durante os séculos a poesia, não só portuguesa como também em âmbito universal. É comum notar no lirismo de autores expatriados a presença de um sentimento de consciência ambígua. Um sentir que os fazem mesclar em seus discursos poéticos a repulsa e o desejo pelas paisagens perdidas de sua pátria mãe e o anseio em tomar para si aquilo que se vislumbra com um novo acolher materno. Assim, convém destacar o que Julia Kristeva aponta sobre o ser exilado:

 

No ponto mais longínquo em sua memória remota, ela está deliciosamente magoada: incompreendido por uma mãe amada e contudo distraída, discreta e preocupada, o exilado é estranho à própria mãe. Ele não a chama, nada lhe pede. Orgulhoso, agarra-se altivamente ao que lhe falta, à ausência, a qualquer símbolo (KRISTEVA, 1994, p. 12-13).

 

Porém, nota-se na lírica seniana, embora ornada de um amor passional à terra natal, o testemunho de que ter pátria é um estar no presente de um determinado local, enraizado ou não. Muito mais uma noção do que nação de fato. Ser de Portugal, por que lá nasceu, embora ao mundo pertença.  Como camisa que se despem, / se usam e se deitam fora (SENA, 2006, p. 215-217), irá reforçar a ideia de que a verdadeira nação não é a genética nem a adotada, mas sim aquela fecundada dentro de si mesmo; que nacionalidade não é o que se registra em cartório, mas a que se traz na alma.

Essa espécie de símbolo de transferência, apontado por Kristeva, Sena parece retomar, de forma irônica talvez, no poema Raiz, inserido no livro Jorge de Sena: Ressonâncias e cinquenta poemas. Nele, através de uma viagem temporal por diversos escritores exilados e/ou nômades, o poeta se vale primeiramente do significado atribuído à palavra-título, para em seguida desmitificá-la de toda a conotação comum a ela imposta, na qual se subentende que ter nascido em uma terra não é garantia de patriotismo. A propósito, tomemos emprestada a voz do escritor de Metamorfoses através dos fragmentos do poema acima referido:

 

Raízes

 

Raízes? Nem mesmo todas as plantas têm,

e o termo cheira às gritarias de Barrés

(ou voulez-vous que je m’enracine? ? perguntava-lhe Gide)

ou quejandas companhias galicanas pré-facistas,

quando desejavam ? patriotas ? que francesas fossem

 

[…]

 

Raízes outras há: os mortos que nos dormem

na terra que nascemos, na terra onde morreram,

e nos vivem na vida que não tendes nesta Europa finis ?

pilritos fêmeas de outros mundos machos. (SENA, 2006, p. 228-229)

 

Embora não vivesse em Portugal grande parte da vida, Sena foi um escritor português em todos os lugares em que esteve. Autor de uma extensa produção poética, publicada em vida e/ou póstuma, além de uma gama considerável de estudos críticos a ele creditados, imprimiu à sua poesia uma perseguição ascética de uma escrita lusitana, de cantar a sua terra ? às vezes ácida até ?, da mobilização social através da construção artística e de resgatar o legado literário português, principalmente a herança camoniana; poeta de maior apreço pessoal, ao mesmo tempo em que também refletiu o próprio ato de fazer poesia.

O poeta escreveu num período de verdades garantidas pela polícia e, no que tange à produção textual, num contexto em que o fingimento pessoano causou uma neurastenia na originalidade literária portuguesa. Parecia impossível um merecimento autoral sem o crivo assombroso do fenômeno heteronímico e sem o olhar esfíngico da Mensagem. E, embora Sena não fosse uma presença confortável para Portugal durante o regime Salazarista, tão pouco deixou de incomodá-lo, mesmo quando residia no Brasil. Discutiu o proibido até quando se era proibido discutir, antecipando o tempo de responsabilidade democrática que faltava ao povo de Portugal, silenciado deveras pelo medo de seu representante maior e também pela conivência com a surdez criativa de seus escritores. Porém, mesmo sendo talvez o crítico mais radical do cenário português da segunda metade do século passado, não se deve reduzir sua obra à mera militância política e restringir sua figura à sentinela do vazio poético de sua geração. Ela é demasiado emblemática para isso. Sua gordura filosófica se diluiu em pedaços mil ao longo de seu extenso corpo poético. Como um reflexo corajoso do cotidiano, o humanismo seniano se exerceu sobre o circunstancial de sua nação e sobre o estágio atual de um mundo não muito seguro de se viver, embora ciente de que não houvesse outro possível. Tanto, que fazia questão de datar suas poesias, realçando todo seu comprometimento com a contemporaneidade. Um Drummond português, conjugado no presente imperfeito daquele tempo.

Sena sempre esteve imbuído em refletir sobre o ser português, independentemente de sua residência pessoal, mesmo que para isso tivesse que “atacar” o contexto político de seu país de origem e até o seu idioma. Os constantes ataques rotineiramente aconteciam numa tonicidade canora e belicosa (CAMÕES, 2009, p. 26), como se verifica no poema A Portugal, texto no qual derrama toda sua indiferença e revolta contra a “medeia” pátria. Mas, ao negar seu país, evocado em suas estâncias poéticas como metonímia da incompreensão humana e injustiça, o sujeito da enunciação não estaria fazendo um desabafo amoroso a Portugal? Somente os seres acometidos por uma paixão insistentemente não correspondida seriam capazes de testemunhar tão passionalmente um sentimento. Tomemos então por empréstimo os dizeres de um aviso que, em forma de discurso poético, de Amor e de poesia e de ter pátria se quis retratar:

 

A Portugal

 

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.

Nem é ditosa, porque não merece.

Nem minha amada, porque é só madrasta.

Nem pátria minha, porque eu não mereço

a pouca sorte de nascido nela (SENA, 2006, p. 239-240).

 

Não nos cabe aqui reproduzir o poema por completo, mas, mesmo através de uma leitura superficial, nota-se em A Portugal uma poética de consciência lírica paradoxal que, partindo das vivências do sujeito enunciador, busca captar uma realidade fora delas. Ambos, universo subjetivo e realidade vivida, mesclam-se, transferindo para um mundo distinto e mais amplo do que qualquer nacionalidade específica o espaço ansiado; espaço capaz de abrigar um ser exilado dentro si, antes mesmo de qualquer exílio espacial. A madrasta pátria evocada passa a ser então instância primária da dor da vida finita, exercida, todavia, em toda sua imortalidade, mas não o seu ponto final. Cabe então ao ser mortal a perseguição fiel da dignidade humana e deixar testemunhado sua dedicação à honra de estar vivo.

Mesmo adotando uma violência vocabular, Jorge de Sena não se exime de registrar em sua “cantiga de escárnio” a sua preocupação de resgatar o passado histórico-cultural e literário de sua terra. Principia-o ao alevantar, através de um recorte poético, a figura camoniana ? osso filosofal da literatura portuguesa e de grande parte da escrita de Sena ?, mapeando o seu discurso em uma ordem histórico-evolutiva mais ou menos linear. Perpassa-o por suas origens mais remotas até o que, na terceira estância, identifica-se como sendo um arquétipo do urbanismo moderno. Um cenário de progresso que se contrasta ao mesmo tempo com os porcos transeuntes pelas ruas. Mas, muito além de uma voz denunciadora do atraso estrutural e econômico da nação portuguesa, ecoa em A Portugal o descontentamento daquele que observa estanque em uma morada estrangeira a estagnação secular da literatura de sua terra-museu, dirigindo-se contestadoramente, sobretudo, aos poetas seus contemporâneos. Assim, para melhor reforçar o encontro de uma consciência lírica que protesta contra o “estilo” de vida levado por uma mãe displicente, recortemos um trecho de Jorge de Sena, um poeta sem fronteiras, ensaio de Silvio Renato Jorge, no qual ressalta que:

 

Ao exílio, corresponde uma imagem angustiosa da solidão. Acusa-se uma consciência de que, ao desviver a pátria, na sua materialidade objetiva, é possível contemplá-la criticamente. Por não atribuir à origem o peso que o senso comum atribui, compreende em sentido mais amplo o descompasso entre memória e seu objeto, substituindo a saudade, fórmula recorrente na Literatura Portuguesa, pela mágoa ou pelo desprezo… (JORGE. In: SENA, 2006, p. 113-114).

 

Ainda com relação ao exílio na lírica seniana, acreditamos encontrar, conforme referido anteriormente, traços significativos que ultrapassam uma simples reflexão saudosista da pátria. Embora seja uma temática caríssima ao longo de sua obra poética, sua complexidade impede que nos estacionemos apenas nesse único aspecto. Suas multiressonâncias são, além disso, o testemunho do cotidiano do seu tempo, a busca em dar sentido à existência humana e, acima de tudo, o comprometimento do escritor em fazer da vida um exercício poético.

Indissolúvel às vezes no que escreve, o anseio em ter de volta a pátria furtada e o desejo de se reestabelecer em uma casa alheia servem de primeiro plano para uma escrita que vagueia por múltiplas vertentes. Esse passeio ? entendido aqui por nós como deambulação poemática ? perpassa por questões patrióticas, pela documentação da vida presente, pelo resgate cultural e literário ? transitando do clássico ao moderno, das letras portuguesas à literatura ocidental ? pela reflexão da ação poético-construtiva, pela análise da própria poesia, além das mudanças de matizes no decorrer dessa mesma poesia. Antes de nos debruçarmos sobre esses influxos temáticos, convém registrar o apuro com que o poeta sempre idealizou o ato transformador da palavra escrita:

 

Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia, cuja melhor arte constituirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas, principalmente, de outros que nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o seja de fato. Testemunhar do que, em nós e através de nós, se transforma e por isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas função) de tudo, e de sofrer consciência ou nos afetos tudo, recusando ao mesmo tempo as disciplinas em que outros serão mais eficientes, os convívios em que alguns serão mais prodígios, ou o isolamento de que muitos serão mais ciosos ? eis o que foi, e é, para mim, a poesia (GILDA. In SENA, 2006, p. 165).

 

 

  1. As diversas deambulações de quem muito viu

 

 

Em creta, com o Minotauro

 

I

 

Nascido em Portugal, de pais portugueses,

e pai de brasileiros no Brasil,

serei talvez norte-americano quando lá estiver.

Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,

se usam e se deitam fora, com todo o respeito

necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.

Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de

gerações

nasci. E a do que faço e de que vivo é esta

raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo

quando não acredito em outro, e só outro quereria que

este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,

espero envelhecer

tomando café em Creta

com o Minotauro,

sob o olhar de deuses sem vergonha.

 

(…)

 

III

 

É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado

a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia

aquele pobre diabo que o Minotauro não leu,porque,

como toda a gente, não sabe português.

Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.

Conversaremos em volapuque, já

que nenhum de nós o sabe. O Minotauro

não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,

de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,

cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos

os escravos de outros. Ao café,

diremos um ao outro as nossas mágoas.

 

(…)

 

V

 

Em Creta, com o Minotauro,

sem versos e sem vida,

sem pátrias e sem espírito,

sem nada, nem ninguém,

que não o dedo sujo,

hei-de tomar em paz o meu café (SENA, 2006, p. 215-217).

 

Escrito, convém lembrar, após o golpe militar de 1964, ao nível mais exemplar, o poema parece mexer com o dedo sujo nas origens de velhas feridas. Em outro sentido, Jorge de Sena vê novamente nascer, agora no Brasil, a dor de haver nascido em Portugal. É certo que o convívio em solo tupiniquim não lhe angariaram um abrir e fechar despojados a “geladeira” de todas as intimidades dessa casa alheia. Porém, também furtada essa outra roupagem-asilo, que durante alguns anos vestiu com todo o respeito e aprendeu a amar, o poeta transparece uma vontade máxima em deixar registrada sua decepção, não com o país em si, mas com a sensação de ser vendida a novos donos autoritários a pátria onde prestou serviço à arte de fazer poesia.

Ao debruçar sobre a experiência pessoal da diáspora, o poeta visa transpassá-la a um nível de transnacionalidade.  Elege então em versos uma ilha. Não a Grã-Canária, nem a camoniana Ilha do Amores, nem a de Moçambique, onde Camões dejetava o seu lirismo, mas uma ilha-metáfora, sonhada, poeticamente possível, Creta, mas não a Creta dos gregos que não eram gregos ainda. Esta porção de terra onírica corresponde um lugar capaz de abrigar, sob o olhar de deuses sem vergonha, dois seres híbridos em essência: o Minotauro e o sujeito fragmentado que se apresenta nas primeiras linhas do ato inicial. Essa estruturação formal a partir da tragédia clássica, aliás, ressalta os caracteres sobre-humanos, o pathos da personagem central que, consciente de sua situação labiríntica, prevê no esquecimento e no esquecimento de qualquer sentido de nacionalidade o reencontro de si próprio.

E o Minotauro compreendê-lo-á. Ser mitológico tripartido, fruto de uma simbiose entre o que de humano e de deus lhe constitui, não é semideus. É, antes de tudo, um monstro em sua humanidade em pedaços repartida. Essa coisificação em sua essência o aproxima do eu-lírico, porque ambos, fazendo um eco com Álvaro de Campos em sua Tabacaria, são incapazes de reconhecer no espelho as marcas indistintas de seus próprios rostos enrugados.             Trazendo o Minotauro à contemporaneidade insular das chávenas de café, o poeta busca credenciar ao filho adúltero e zoofílico de Pasifaë a depuração total dos signos catárticos de seu poema-peça, justamente por essa natureza dúplice que os particulariza. O café, um dos símbolos modernos dos escritores do século passado, serve de estreito, ao ligar afetivamente numa linguagem afônica, dois seres sem pátrias e sem espírito, / sem nada, nem ninguém (SENA, 2006, p. 215-217).

O estilo pessoano de representação cênica da linguagem poética parece retomado no poema. Mas, enquanto o criador dos heterônimos suscitava a representação da totalidade do mundo através de personalidades recriadas a partir de si, o poeta expatriado prioriza a totalidade de si por meio das personagens do mundo literário. Obra de cunho dramático, dirigida e representada por quem concedeu a si próprio o conteúdo de vida para a composição do roteiro, Em Creta, com o Minotauro seria a encenação autobiográfica de um poeta que atigira o mais elevado grau de sua maturidade artística.

Quando dizemos que Jorge de Sena realiza um percurso deambulatório em sua criação, sobretudo quando nos valemos exemplarmente do poema referido acima, queremos demonstrar o constante trânsito temático inserido em sua escrita. A problemática do exílio implica às vezes o erro de uma análise simplista de sua obra, justamente por propiciar aos seus leitores de pouca humanidade uma zona de conforto. O caráter intimista inicialmente empregado é, a priori, o rito de passagem de uma viagem iniciática que se quer desembarcar em sentidos muito mais profundos. O próprio poeta nos facilita o trabalho ao credenciar à língua portuguesa o modo único de ser realizar a pátria transformada em matéria lírica.  As outras possíveis, no indivíduo, realizam-se.

Muito além de uma simples canção do exílio portuguesa, há no poema uma tensão discursiva mais substancial e plurissignificativa do que o mero patriotismo ufanista ou um vandalismo vexatório com a imagem do país. Helder Macedo defende a perspectiva de que Sena, pretendendo elevar a questão da expatriação a um nível semântico mais representativo, subverte a tríade “Deus, pátria e família”, propagada pelo ditador português, Salazar, ao redecodificá-la em “amor, poesia e pátria”, suplantando assim seus limites. Pátria, exercida, porém, como forma de vida e não de morte, como requisitaram pra si alguns autores. Portanto:

 

“Pátria” e “poesia” (ou língua) revelam-se assim como o mesmo exercício da livre humanidade na perspectiva definida por Jorge de Sena. E o lugar do Deus imposto na tríada salarazarista é ocupado pelo amor, desde o da carne àquele que só de si se move, como dirá no Aviso de Porta de Livraria. Por isso, no arquétipo de eternidade representado na Creta do Minotauro não há lugar para um Deus que tudo unificasse, há deuses, metáforas plurais (e aliás também camonianas) da infinita humanidade (MACEDO, 2007, p. 191).

 

Em sua complexidade, O estilo seniano condiciona quase tudo o que a literatura portuguesa considera como o modo português de escrever. O pensar o processo de criação antes e durante de realizá-lo, atesta a ética com a qual o autor tratava a palavra transformada em arte, justamente por seu modo característico de buscar o sentido da existência humana através da estetização da vivência, já que, segundo o seu entendimento, a arte não poderia ser deslocada da vida.

Seu olhar indagador incita um questionamento sobre a real capacidade transformadora do artista. Mas, antes de se ater à elaboração metapoética pura e simplesmente, sua espantosa erudição nos condiciona uma leitura que, a partir da interdisciplinaridade de seu interesteticismo poético e de suas experimentações temáticas, aponta para o passado um itinerário infinito de formas de recriação de um presente para o futuro. Objetos de investigação, os acervos artísticos e históricos humanos servem de pilares exemplares para uma escrita que, embora esteja radicalizada no processo testemunhal de seu tempo, vê no regresso consciente ao mitológico e às personalidades marcantes da história um veio de questionar a sociedade de sua época. Próprio da modernidade, o retorno aos cânones literários tem em Sena, talvez, um dos seus maiores porta-vozes. Longe, porém, de incorrer em uma eleição arbitrária, o poeta credencia somente as personagens que melhor dialogam com a temática posta em xeque. Essa seleção consciente permite ao artista adotar por vezes uma postura dessacralizadora do passado mitificado.

Compulsoriamente resgatado na lírica seniana, o fantasma camoniano ressurge então, através do criador de Peregrinatio ad loca infecta, como a voz magoada do memorial português. Contudo, o Camões seniano, é pertinente mencionar, não é o Camões exumado por leitores delicados e de vis propósitos patrióticos, mas, antes mesmo de um busto de bronze, um homem “assinalado” nas dores sofridas de uma língua nova.

Alevantado outro valor da língua portuguesa por entre as colônias, o que o autor busca agora é um novo canto que deponha contra o esvaziamento linguístico do século XX. A condição mítica do Minotauro permite que haja uma correspondência entre ambos, mesmo que numa língua também mitificada, o volapuque. Assim, os dois estariam livres para investigar, com um fálico dedo, as partes íntimas da vida, já que, nessa ilha-metáfora, sem pátria e sem idioma, portanto, liberta de tudo, apenas o café que os ata. E finalmente a paz ? a morte, a velhice ou que seja ? poderá dizer da grandeza de estar vivo.

 

  1. 3. Considerações finais

Dono de um acervo criativo diverso, conflituoso e questionador, Jorge de Sena foi a base tutelar dos poetas da geração de 1970 e, sobretudo, uma senão a mais representativa das figuras da poesia portuguesa no cenário pós-Fernando Pessoa. Criador da poética do testemunho, nela o autor imprimiu à sua arte o compromisso diário de catalogar a experiência humana através da escrita. Essas múltiplas mundivivências, insertas num contexto histórico social tumultuado e na constante fuga da repressão ditatorial, servirão de fonte de arquivo para a gênese de seus textos. Mesclando a vida burocrática de um homem simples com um intelectualismo apurado e o fenômeno do exílio com o reencontro de si próprio, sua obra se nos revelará como um processo criativo em constante trânsito. Vale lembrar que a liberdade formal também teve cadeira cativa em sua vida; novas formulações refletidas, sobretudo, em seus recorrentes diálogos interestéticos; na intersecção entre o histórico e o ficcional; na transição de gêneros literários; na multiplicidade de estudos críticos e ensaísticos; na interlocução entre prosa e lírica; em sua experimentação de uma língua autoral e, principalmente, pela violência verbal, pela qual buscou varrer para fora dos tapetes da psique humana, questões que muitos preferiam esconder.

 

Referências

 

ALVES, Ida Ferreira. Jorge de sena e a ética da poesia: “Um testemunho para os poeta de 70”. In. Jorge de Sena: Ressonâncias e cinquenta poemas”. Introdução e organização Gilda Santos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.

 

BENJAMIN ,Walter (1994). Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura história da cultura. 7ª Ed. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense.

 

CAMÕES, Luís Vaz de (2009). Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM.

 

JORGE, Silvio Renato. Jorge de Sena: “Um poeta sem fronteiras”. In. Jorge de Sena: “Ressonâncias e Ciquenta Poemas”. Introdução e organização Gilda Santos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.

 

KRISTEVA, Julia. Estrangeiro para nós mesmos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

 

MACEDO, Helder. “De amor e de poesia e de ter pátria. In: Trinta leituras. 2ª ed. Rio de Janeiro: Presença, 2007.

 

MACEDO, Helder. Jorge de Sena, a Grã-Canária e a Ilha do Amor. In: Trinta leituras. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editorial Presença, 2007.

 

PESSOA, Fernando. Obra poética: volume único. 2ª ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1981.

 

SANTOS, Gilda (Org.). Introd. a Jorge de Sena: “Quarenta anos de pública servidão poética”. In: Jorge de Sena: “Ressonâncias e cinquenta poemas”. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.

 

SENA, Jorge de. Jorge de Sena: “Ressonâncias e cinquenta Poemas”. Introdução e organização Gilda Santos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.

 

TSVETAIEVA, Marina. O poeta e o tempo. Lisboa: Cosmos, 1993.



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