Revista Mulheres e Literatura – vol. 18 - 2º Semestre - 2016



JANE AUSTEN E O USO DA IRONIA NA LITERATURA INGLESA – Janaina Cardoso de Mello





JANE AUSTEN E O USO DA IRONIA NA LITERATURA INGLESA

 

Janaina Cardoso de Mello

Universidade Federal de Sergipe (UFS)

 

Resumo: Jane Austen foi uma escritora inglesa que obteve sucesso com seus romances, publicados no século XIX. Neles, faz uso da ironia em sua construção narrativa. Nascida em 1775, Jane Austen é uma mulher do seu tempo e como tal sua escrita não está imune a ele. Ao escrever para as mulheres oitocentistas sobre o modo de vida delas, fazendo-as enxergar sua realidade através do espelho literário, promove um ato de desconstrução de ideias ou pelo menos de questionamento de perspectivas vigentes na sociedade.

 

Palavras-chave: Jane Austen; ironia; romance; costumes.

 

Abstract: Jane Austen was an English writer who published successful novels in the 19th century. They make use of irony in their narrative construction. Born in 1775, Jane Austen is a woman of her time, therefore her writing is not exempt from it. While writing to her contemporary women about their way of life, she made them realize their reality as if seen through a literary mirror. Thus, she promotes an act of deconstruction of ideas, or at least questions some perspectives existing in her time and society.

 

Keywords: Jane Austen; irony; novel; customs.

 

Minicurrículo: Janaina Cardoso de Mello é doutora em História Social (UFRJ), professora do Mestrado em História (PPGH-UFAL) e do Mestrado em Ensino de História (ProfHistória – UFS).

 

 

 

 

JANE AUSTEN E O USO DA IRONIA

NA LITERATURA INGLESA

 

Janaina Cardoso de Mello

Universidade Federal de Sergipe (UFS)

 

 

“She opened her mouth with wisdom and in her tongue is the law of kindness”[1]

(James Edward Austen-Leigh, 1871)

 

 

Nascida em 16 de dezembro de 1775, no condado de Hampshire, Jane Austen foi uma escritora inglesa responsável por romances de sucesso que fizeram uso da ironia em sua construção narrativa. Foi ainda representante da época georgiana, que defendia o romance como um gênero literário e de qualidade (KELLY, 1992, p.3-35).

Para Ian Watt (2001) o “renascimento do romance” nesse período ocorre em razão do momento de transição dos códigos de amor da Corte (institucional, estilizado, aristocrático) para códigos românticos de amor da classe média (individual, particularizado, burguês). Além disso, a classe média enquanto receptora/leitora de obras literárias não possuía a mesma erudição da nobreza (domínio do latim e do grego), deixando de lado a bibliografia clássica.

Jane Austen era a sétima filha de um pastor anglicano, George Austen. Ela e sua irmã Cassandra eram as únicas meninas da prole de oito irmãos. A educação das duas, fora da tutela do pai, residiu numa breve estada na casa da Sra. Cawley, em Southampton, e posteriormente, entre 1785 e 1786, num internato em Reading. Recusou duas ofertas de casamento e viveu  em grande parte de sua vida com os proventos da comercialização de seus escritos. Morreu em Winchester aos 41 anos, em 1817, solteira.

A obra de Jane Austen se dedicou a descrição da sociedade rural do período da Regência de George IV, príncipe de Gales, durante a enfermidade de seu pai – o rei George III. Foi um momento histórico-político de turbulências à exemplo das Guerras Napoleônicas (1804–1815), da expansão do colonialismo, das campanhas de abolição da escravidão, da reforma das prisões, de críticas à ausência de uma justiça social, da defesa de políticas de bem-estar social por intelectuais (HIBBERT, 1973).

Sendo a educação das crianças feita nas escolas dominicais ou fornecida por tutores, no caso das famílias mais abastadas, Jane Austen apresenta em seus romances um discreto clamor por uma educação liberal para a mulher. Dentre suas obras destacam-se Sense and Sensibility (1811), Pride and Prejudice (1813), Emma (1815) e Persuasion (iniciado em 1815, mas só publicado após sua morte, em 1817).[2]

Seguindo essa tendência, as escritoras inglesas Charlotte Brontë (1816-1855) e Anne Brontë (1820-1849), autoras de Jane Eyre e Agnes Grey, obras publicadas em 1847, também integraram o cenário literário oitocentista que usou o romance como uma porta para denúncias sociais da opressão do mundo feminino cujo foco muitas vezes centrou-se na solidão e melancolia de professoras e governantas (SOUSA; DIAS, 2013, p.149).

Ressalte-se que alguns dos mais relevantes escritos protofeministas produzidos por iluministas inglesas como Mary Wollstonecraft, Mary Hays e Mary Robinson foram publicados entre 1792 e 1799. Assim, “A Vindication of the Rights of Woman[3], de Wollstonecraft, reivindicando que a mesma Educação destinada aos homens fosse concedida às mulheres. Amiga íntima de Wollstonecraft, Mary Hays publicou em 1798 o tratado “Appeal to the Men of Great Britain in Behalf of Woman[4], no qual refutava a ideia de inferioridade das mulheres em relação aos homens e também propunha a inclusão das mulheres num sistema educacional mais amplo. Mary Robinson, atriz e poeta na Inglaterra setecentista, affair de George IV, escreveu seu tratado “Letter to the Women of England on the Injustice of Mental Subordination[5], de 1799, abordando a opressão feminina e suas possibilidades concretas de emancipação (MIRANDA, 2013, p.1-4). Talvez alguns ares dessa atmosfera tenha sido respirado por Jane Austen, mesmo que Edward Austen-Leigh (1871) tenha propalado seu isolamento.

Os estudos da intertextualidade nas obras de Jane Austen, à exemplo de Steiner (2016), buscando as referências citadas em seus romances, contrariam a assertiva de Austen-Leigh e apontam a leitura de obras de: Fanny Burney,  Maria Edgeworth,  Ann Radcliffe,  Daniel Defoe,  Henry Fielding,  Laurence Sterne, e Samuel Richardson; ensaistas como Joseph Addison e Richard Steele, e contos de poetas como William Cowper e George Crabbe, demonstrando seu interesse em autores que tergivessavam suas obras.

Alguns críticos consideraram Jane Austen como um símbolo do “antifeminismo”, uma vez que as personagens de seus romances são “moças casadoiras” em busca do “príncipe encantado” bonito, charmoso e rico, atribuindo seus escritos à uma chick-lit, ou “leitura de mulherzinha”.[6] Mas se sua obra não é um tratado reivindicatório ou uma bandeira militante direta, ao escrever para as mulheres sobre o modo de vida delas, fazendo-as enxergar através do espelho literário sua realidade, promove um ato de desconstrução de ideias ou pelo menos de questionamento das perspectivas vigentes na sociedade. Observa-se que

 

(…) the Regency conduct book tended to judge a woman by how she conducts herself – that is, by how she acts, by how she seems. The novel, by contrast, was concerned with what women are really like, admitting – perhaps for the very first time – that women too have a fulsome interior life, with thoughts and feelings that are as crucial to get right as the actions that follow from them… And Jane Austen was at the forefront of it all, presenting to the Regency world a host of real women – so determined to do so, indeed, that she invented her very own narrative style, which gives the reader almost unrestricted access to the internal life of her female characters (MURPHY, 2014, p. 4).[7]

 

 

É provável que Jane Austen tenha tomado conhecimento da história pessoal de Mary Wollstonecraft, cujo ativismo contundente em prol da Educação das mulheres levou-a a receber inúmeras críticas, incluindo de seu marido, que publicou uma biografia póstuma relatando infidelidades e comportamentos sociais vistos como inadequados naquele tempo e maculando a reputação da escritora. Buscando proteger a si mesma, é possível que Austen tenha adotado uma estratégia literária distinta, mais sutil.

Quiçá a ironia mais perfeita de Jane Austen seja a forma como concebeu a escrita de sua obra, cuja aparência para muitos remeteria à tradição, conformismo e limites do feminino, quando para leitores sagazes as “entrelinhas” possam dizer muito mais da época, da autora e de seus pensamentos. Conforme afiança Beth Brait, a ironia romântica carrega consigo

 

(…) a ideia de contradição, de duplicidade como traço essencial a um modo de discurso dialeticamente articulado; o distanciamento entre o que é dito e o que o enunciador pretende que seja entendido; a expectativa da existência de um leitor capaz de captar a ambiguidade propositalmente contraditória desse discurso (1996, p. 29).

 

 

Jane Austen escolhe abordar, em seus romances, poucas famílias dos vilarejos do interior da Inglaterra, o que torna a leitura mais centrada em poucos mas densos personagens, permitindo à autora desenvolvê-los em seus relacionamentos sociais, suas complexidades internas e dramas do período. Embora não ocorra uma preocupação em delimitar datas e fatos históricos, o ambiente retratado em suas minúcias deixa claro as posições hierárquicas, as ocupações militares, a aquisição de fortunas, as tipologias de mobilidade social conferindo uma carga de historicidade as obras.

Jane Austen é uma mulher do seu tempo e como tal sua escrita não está imune a ele. A religiosidade esteve presente em sua formação, os ditames sociais patriarcais dos séculos XVIII e XIX preconizavam moças ingênuas, responsáveis, virtuosas e fiéis.

Entretanto, os costumes sociais da sociedade inglesa são tratados de forma cômica, agressiva e ácida ao mesmo tempo como se pode observar em Sense and Sensibility, nas palavras da personagem Marianne sobre a idade das mulheres para o casamento:

 

Uma mulher de vinte e sete anos (…) não pode mais esperar sentir ou inspirar amor, e se sua casa não for confortável ou se suas posses forem modestas, acho que deva oferecer os serviços de enfermeira, em troca de sustento e da segurança de uma esposa. Casar com uma mulher assim, portanto, nada teria de inadequado. Seria um pacto de convivência, e a sociedade ficaria satisfeita. A meu ver, não seria absolutamente um casamento, não seria nada. Para mim, seria só uma troca comercial, em que cada um pretende lucrar à custa do outro (AUSTEN, 2012, p. 29-30).

 

 

A “sociedade de corte” inglesa possuía cores muito liberais nesse período, levando a valsa para seus salões, apreciando as composições de Mozart, Bach, Beethoven, Paganini, Rossini e Schubert, reforçando o contraste entre o glamour da nobreza e a pobreza dos outros segmentos sociais. Nesse contexto, os romances de Jane Austen abordam sua própria experiência de vida como mulher pertencente à baixa nobreza, a classe nomeada como gentry. Conservadora e patriarcal, a sociedade inglesa destinava às mulheres a invisibilidade na sombra do marido, por isso

 

A ironia é uma das características mais importantes de Austen e ela faz uso de tal recurso para criticar a sua sociedade contemporânea. Através da narrativa, além da ironia, outros aspectos da obra são ressaltados, tais como, o senso de humor que permeia as descrições no romance, comentários ou atitudes das personagens e a constante preocupação com o bom senso, a conveniência e a moralidade (SONEGO, 2015, p. 1).

 

 

Essa perspectiva está presente no capítulo 8 da obra Pride and Prejudice, na conversa entre o Sr. Darcy, o Sr. e a Sra. Bingley sobre as mulheres serem “prendadas”. Para Charles Bingley, todas as mulheres pintavam mesas, forravam biombos e faziam bolsas se malha, tendo a oposição de Darcy que não concordava com essa avaliação generalista das mulheres, afirmando que não podia dizer conhecer mais de meia dúzia de mulheres realmente prendadas. Elizabeth Bennet o confronta dizendo que deveria ser muito exigente quanto as mulheres. Ao que é replicada por Darcy que além do conhecimento de música, canto, desenho, dança, idiomas modernos, era essencial que a mulher “prendada” mantivesse “o cultivo da inteligência pelas amplas leituras”. Logo, Elizabeth mostra sua ironia fina, dizendo estar surpresa que ele conhecer “tantas” mulheres assim (referindo-se às seis mencionadas antes) e afirma nunca ter visto uma mulher assim que juntasse bom gosto, capacidade, aplicação e elegância como ele descrevera (AUSTEN, 2012, p. 259).

Ao mesmo tempo, a própria personagem de Elizabeth Bennet é descrita como uma “boa leitora”, preferindo os livros ao jogo de baralho, ocupando sua mente com instrução como deleite e não obrigação. Essa mesma mulher, em vários momentos coloca em xeque a autoridade masculina e os comportamentos de subserviência femininos que lhes são exigidos. Desse modo, como afirma Camila da Silva Alavarce

 

(…) o estudo da ironia exige o reconhecimento de um sentido literal e de outro figurado, uma vez que esse “recurso” se constitui de um significante para dois significados contraditórios ou incompatíveis. Aquele que pratica a ironia qualifica o enunciatário, pois o julga capaz de perceber os índices que sinalizam esse procedimento, participando, assim, da construção da significação irônica (2009, p. 29).

 

Grosso modo, o termo “ironia” provém do grego antigo εἰρωνεία (transl. eironēia), significando “dissimulação”, presente no cotidiano como uma arte capaz de provocar distintas reações.

A percepção da ironia envolve certa complexidade, pois há diferentes tipos de ironia, sendo necessário ter atenção ao desdobramento da construção narrativa, pois “irony depends on context since it springs from the relationships of a word, expression or action with the whole text or situation” (MATEO, 1995, p. 172).[8] Em sua obra, Jane Austen utiliza a ironia como um recurso para criticar as frivolidades da sociedade burguesa do período. Assim:

 

(…) uma construção de linguagem dotada de subjetividade e liberdade criativa, manifestada pelo autor enquanto consciente do poder de agir, refletir e produzir. É, ainda, uma manifestação do coletivo histórico enquanto percebida a relação entre sujeitos, a interação e o contexto sócio-histórico em que é criado (reinterpretado) o discurso (SANTOS, 2009, p. 2).

 

 

Em Persuasion a autora descreve em detalhes a sociedade inglesa do século XIX, usando a ironia para discutir pontos comuns a época, como o preconceito, a elitização e o desnível social.  Assim, logo no capítulo 1, o personagem de Sir Walter Elliot dispõe da leitura de uma única obra – o Baronetage – onde encontra “consolo para as horas amargas” contemplando a biografia com elogios à antiga nobreza e encontrando ali mesmo a sua própria história (AUSTEN, 2012, p. 471).

A vaidade que reduzia o homem ao bem que possuía e o definia por sua condição social, por seu status, por seu sucesso econômico e seu prestígio político. Características que ordenavam os casamentos, destruíam amores e postergavam ressentimentos perpétuos. Embora os personagens de Persuasion busquem a felicidade, é ao contrário a tristeza que confere a profundidade de suas vidas:

 

No caso de Austen, a “agressão cômica” pode ser de três tipos: social, que envolve os diferentes modos de revidar os limites impostos pela vida em sociedade; interpessoal, que apreendemos nas situações de conflito entre duas personagens; e interno, quando o conflito é internalizado por uma personagem e sua invectiva se dirige a si própria (VASCONCELOS, 2014, p. 146-147).

 

 

Desse modo, é possível observar a agressão cômica social na fala de Marianne em Sense and Sensibility, a agressão cômica interpessoal nos diálogos entre Sr. Darcy e Elizabeth Bennet em Pride and Prejudice e a agressão cômica interna no autoelogio de origem por parte de Walter Elliot na obra Persuasion. Evidentemente, outras personagens ao longo das três obras assumem essas características de forma distinta, não tornando-as uma exclusividade de um só livro (VASCONCELOS, 2014).

O casamento, ambicionado por moças e seus familiares, se no plano romântico se constitui como o triunfo do amor, no plano real retrata o jogo de interesses, acordos, competição social e dependência feminina numa sociedade patriarcal e excludente.

Na obra “A sociedade de corte”, o autor  Norbert Elias (2001, p.27), ao retratar as tramas em torno do antigo regime e a formação burocrática dos Estados nacionais, chama a atenção para as alianças e rivalidades familiares, as amizades e inimizades pessoais que permeavam assuntos de governo e demais momentos oficiais. Os demais extratos da sociedade buscavam refletir-se no espelho de suas dinastias, recriando em seus microcosmos os comportamentos sociais da vida nobre almejada, mesmo que na maior parte das vezes terminassem por constituir-se como simulacros distorcidos do modelo original.

Se Norbert Elias (2001) estuda pelo viés sociológico o estudo da corte dos reis franceses entre Francisco I e Luís XIV, em seus códigos de etiqueta, rituais de ostentação e interdependência social, Jane Austen em seus romances expõe os vícios, as intempéries e contradições da sociedade inglesa georgiana com a mesma maestria, todavia, através da linguagem literária de um romance irônico e inserido em seu contexto de produção.

Mas afinal, qual o valor do romance como gênero literário? O que é o romance? Nascido de de estilos híbridos, como o romance medieval, narrativas orais, epístolas e textos de retórica, apresenta-se sobre a forma de uma narrativa ficcional em prosa, apresentando grande flexibilidade tanto no número de páginas quanto na longevidade de alcance de seus personagens muitas vezes retratados no percurso de várias gerações. Cronologias e linearidades são flexíveis em sua disposição.

O acesso à alfabetização de pessoas à margem das classes privilegiadas criou uma demanda por narrativas “mais fáceis” na Europa do setecentista. Se outrora, as epopéias e tragédias compunham as bibliotecas das famílias abastadas, o romance alcançou públicos mais amplos dada a disseminação das obras pela imprensa e a profissionalização dos autores.

De acordo com Mikail Bakhtin, a representação dialógica entre autor e personagens personificam a “imagem da linguagem de outrem e de sua visão de mundo, que é representada ao mesmo tempo em que representa, é extremamente típica do romance” (1998, p. 367).

Como afiança Hannon (2016), os personagens dos romances de Jane Austen se permeiam de características como autocomando e senso de propriedade [decoro],  mas estas não são suficientes para compor uma narrativa atraente, pois a elas devem ser acopladas mente  e línguas rápidas, senso de humor, boas maneiras e uma vontade forte, como se pode observar em Elinor, Elizabeth Bennet (Pride and Prejudice) e Anne Elliot (Persuasion).

Através de uma leitura de mundo semiótica, nas obras de Jane Austen a realidade e a linguagem se fundem numa relação de intersubjetividade na qual:

 

(…) “la réalité” correspond au monde empirique à travers sa phénoménalité, (…) par opposition, “le réel” se réfère au monde tel qu’il est construit, structuré, par l’activité signifiante de l’homme à travers l’exercice du langage en ses diverses opérations de nomination des êtres du monde, de caractérisation de leurs propriétés, de description de leurs actions dans le temps et dans l’espace et d’explication de la causalité des ces actions (CHARAUDEAU, 2007, p. 50-51).[9]

 

Por isso a leitura das obras de Jane Austen requer acuidade na percepção das armadilhas discursivas, ambiguidades e sutilezas da enunciação nas narrativas desenvolvidas. Nada em seus escritos é ingênuo ou insípido.

À mulher britânica do século XIX estava destinado o “reino doméstico”, a dependência financeira, as qualidades servis, dóceis e talentosas para satisfazerem ao patriarca na relação matrimonial. Era essa a premissa cultural construída para orientar corpos e mentes. Jane Austen, vivendo nesse cenário, escreveu sobre isso de modo inteligentemente crítico, usando a ironia como capa protetora para alfinetar uma sociedade que tentava colocá-la nas margens como escritora e como mulher. Seus romances ora dramáticos, ora cômicos, revelavam o modo de ser e de sentir da sociedade inglesa, bem como as brechas encontradas para fugir aos arquétipos de dominação do masculino sobre o feminino.

Mais do que a imagem de “Cinderelas frívolas”, assoladas pela passionalidade, as protagonistas dos romances de Jane Austen evidenciavam em suas falas mordazes a racionalidade feminina que compreendia seu lugar naquele mundo e buscava usar os próprios códigos de cerceamento para negociar sua sobrevivência com algum luxo, afinal, “todo homem solteiro, rico e bonito, naquela época, também precisava de uma esposa para ser bem quisto na sociedade vigente”, não é mesmo?

 

Referências

ALAVARCE, Camila da Silva. A ironia e suas refrações: um estudo sobre a dissonância na paródia e no riso [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 208p. Disponível em: http://static.scielo.org/scielobooks/5dcq3/pdf/alavarce-9788579830259.pdf, Acesso em: 15 ago. 2016.

AUSTEN, Jane. Razão e sensibilidade; Orgulho e preconceito; Persuasão. São Paulo: Martin Claret, 2012.

AUSTEN-LEIGH, James Edward. A Memoir of Jane Austen. Londres: Bentley, 1871.

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: A teoria do romance. São Paulo: EDUNESP, 1998.

BRAIT, Beth. Ironia em perspectiva polifônica. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996.

CHARAUDEAU, Patrick. Les stéréotypes, c’est bien, les imaginaires, c’est mieux. In: BOYER, Henri. Stéréotypage, stéréotypes: foncionnements ordinnaires et mises en scène. Langue(s), discours. Paris: Harmattan, 2007. v. 4, p 49-63.

HANNON, Patrice. Austen Novels and Austen Films: Incompatible Worlds? In: A publication of Jane Austen Society of North America. Pp. 24-32. New York: JASNA. Disponível em: http://www.jasna.org/persuasions/printed/number18/hannon.htm. Acesso em: 18/08/2016.

HIBBERT, Christopher. George IV, Regent and King, 1811–1830. Londres: Allen Lane, 1973.

ELIAS, Norbert. A sociedade de corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

KELLY, Gary. Jane Austen in Dictionary of Literary Biography. v. 116: British Romantic Novelists, 1789-1832. Edited by Bradford K. Mudge. Denver: University of Colorado at Denver, Gale Research, A Bruccoli Clark Layman Book, 1992.

MATEO, Marta. The Translation of Irony. In: Meta: Journal des Traducteurs, v. 40, nº 1, 1995. pp. 171-177.

Disponível em: http://www/erudit.org/revue/meta/1995/v40/n1/003595ar.pdf, Accesso em: 24 mar. 2006.

MIRANDA, Anadir dos Reis. Escritos protofeministas na Inglaterra setecentista: entre razão e sensibilidade, teoria e ficção. In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013.

Disponível em:

http://www.fazendogenero.ufsc.br/10/resources/anais/20/1384800932_ARQUIVO_AnadirdosReisMiranda.pdf, Acesso em: 15 ago. 2016.

MURPHY, Sinead. The Jane Austen Rules: A Classic Guide to Modern Love. Newport: Melville House, 2014.

SANTOS, Waniamara J. As funções da ironia na obra literária Orgulho e preconceito, de Jane Austen. Monografia de Graduação em Letras. Diamantina: Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina, 2009.

SONEGO, Fatima Ines. Ironia em Orgulho e Preconceito. Disponível em: http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/4mostra/pdfs/343.pdf, Acesso em: 10 jul. 2015.

SOUSA, Dignamara Pereira de Almeida; DIAS, Daise Lilian Fonseca. Quando a Mulher Começou a Falar: literatura e crítica feminista na Inglaterra e no Brasil. In: Gênero na Amazônia, Belém, n. 3, jan./jun., 2013, pp.143-168.

Disponível em:

http://www.generonaamazonia.ufpa.br/edicoes/edicao-3/Artigos/Artigo7-Dignamara%20e%20Daise.pdf.

Acesso em: 18/08/2016.

STEINER, Enit Karafili. Jane Austen:  Northanger Abbey/Persuasion. New York: Palgrave, 2016.

VASCONCELOS, Sandra Guardini Teixeira. O Gume da ironia em Machado de Assis e Jane Austen. Machado Assis Linha [online]. 2014, vol.7, n.14, pp. 145-162. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/mael/v7n14/1983-6821-mael-7-14-00145.pdf, Acesso em: 11 jul. 2015.

WATT, Ian. The Rise of the Novel. Studies in Defoe, Richardson and Fielding. Berkeley/Los Angeles: University of California Press, 2001.

 

NOTAS AO TEXTO

 

[1] “Ela abria a boca com sabedoria e sua linguagem exibia a lei da bondade” (tradução livre).

[2] “Razão e sensibilidade”, “Orgulho e Preconceito”, “Ema” e “Persuasão” (tradução livre).

[3] “Uma defesa do direito das mulheres” (tradução livre).

[4]  “Apelo para os homens da Grã-Bretanha em favor da mulher” (tradução livre).

[5] “Carta para as mulheres da Inglaterra sobre a injustiça de subordinação mental” (tradução livre).

[6] Talvez por isso a obra de Jane Austen, apesar do apelo junto à um grande número de leitores, tenha sido por anos sistematicamente negligenciada nos Departamentos de Inglês das universidades, como informa Patrice Hannon (2016).

[7] “O livro de conduta da Regência tendeu a julgar a mulher pela forma como ela conduz a si mesma – isto é, pela forma que ela age, pela forma que ela parece. O romance, por outro lado, estava preocupado com o que as mulheres eram realmente, admitindo – talvez pela primeira vez – que as mulheres também têm uma vida privada excessiva com pensamentos e sentimentos que são tão cruciais para obter direito como as ações que decorrem destes… E Jane Austen estava na vanguarda de tudo isso, apresentando para o mundo regencial uma série de mulheres reais – tão determinada a fazê-lo, na verdade, que ela inventou seu próprio estilo de narrativa, o que dá ao leitor acesso quase irrestrito ao vida interna de seus personagens femininos” (tradução livre).

[8] “Ironia depende do contexto, uma vez que brota das relações de uma palavra, expressão ou ação com todo o texto ou situação” (tradução livre).

[9] A “realidade” corresponde ao mundo empírico por meio de sua fenomenalidade, (…) por oposição, “o real” refere-se ao mundo tal qual ele é construído, estruturado, por atividade significante do homem através do exercício da linguagem em suas diversas operações de nomeação dos seres do mundo, de caracterização de suas propriedades, de descrição de suas ações no tempo e no espaço e de explicação da causalidade dessas ações” (tradução livre).



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