Revista Mulheres e Literatura – vol. 5 – 2001



Inscrições femininas na História e na Literatura: Mulheres em destaque nestes 500 anos de Brasil






Sônia Maria Dornellas Morelli

PINCELADAS DE INSCRIÇÕES FEMININAS NA HISTÓRIA:
Antes de nos atermos a fatos, dados contemporâneos, é preciso resgatar alguns dados históricos.

Roberto Sicuteri, no seu livro Lilith, a lua negra, ao relatar fatos históricos a respeito de Lilith (primeira companheira de Adão de acordo com os escritos judaicos), afirma que as origens dos fatos conhecidos agora remontam a milênios e emanam de lendas, mitos, sagas, alegorias e usos folclóricos.

Na realidade, os fatos baseiam-se mais nas palavras dos rabinos ou nos sonhos dos discípulos do que em documentos.

Estes grandes testemunhos depositários do Torah (o Ensinamento) e dos Midrash (a Procura) contidos na Misnach coleção de Códigos) são certamente dos rabinos iluminados pelo carisma e pela fé, mas são também os testemunhos de lendas, mitos, sagas, alegorias e usos folclóricos populares, que os Rabis usavam como reflexão viva baseada em analogias para estabelecer a verdade hermenêutica sobre as origens do mundo e do Homem.
(…)

E Lilith, para nós, nasce, talvez, do sonho ou da narrativa dos rabinos, nasce de uma necessidade ou de uma fantasia coletiva (p. 23, 25).

Um estudo recente da bíblia, feito por teólogas, lingüistas, historiadoras, arqueólogas e críticas literárias feministas mostram, neste final do milênio, surpreendentes revelações a respeito das mulheres na Bíblia. Afirma o teólogo católico David Tracy, em entrevista à Revista Cláudia de maio de 1999: “O encontro do feminismo com a religião será a próxima revolução intelectual.”

A mesma revista publicou comentários adaptados do livro The World According to Eve, de Cullen Murphy, lançado o ano passado, nos Estados Unidos. Nestes, alguns episódios bíblicos femininos mostram este novo enfoque.

O papel de Dalila, Eva, Maria surgem sob um novo prisma, uma nova concepção. Questões como: o papel exercido pelas mulheres, a condição de inferioridade, a sociedade igualitária, as mulheres seguidoras de Jesus, estão sendo debatidas, reavaliadas, pesquisadas e os resultados têm sido surpreendentes.

Carol L. Meyers, professora de Estudos Bíblicos e Arqueologia na Universidade Duke, nos Estados Unidos, revela que os livros “Josué” e “Juízes”, ambos do Antigo Testamento, mencionam a existência de uma estrutura familiar relativamente igualitária entre os israelitas.

Outra pesquisadora, Phyllis Trible, vai mais longe. Afirma que a palavra hebraica ha-‘adam, da qual deriva a palavra Adão, é um termo genérico para humanidade, usado no início do segundo capítulo do Gênesis para descrever uma criatura de sexo indefinido. Quando Deus tira uma costela de ha-‘adam, aí sim, acontece a separação dos sexos e esta nova realidade é assinalada por novas palavras. A criatura da qual foi tirada a costela passou a chamar-se ‘ish (homem) e a criatura surgida a partir da costela recebeu o nome de ‘ishshah (mulher). Sendo assim, o mesmo ato deu origem ao homem e à mulher.

Cita ainda a revista, que um antigo tratado cristão que foi incorporado numa carta do apóstolo Paulo aos gálatas, poderia ser chamado de “Carta Magna do Feminismo Cristão”. “Não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher. Todos vós sois um só em Jesus Cristo” (Gál 3,28).

 

UM OLHO NA REALIDADE ATUAL:
Se reivindicamos direitos iguais, por que ainda muitas brasileiras acham natural a dupla jornada (ser também responsável pelo trabalho doméstico e pela educação dos filhos), depois do fim do expediente de trabalho?

Se lutamos por um lugar ao sol por que aceitamos o preconceito dos homens? (Em muitas fábricas, a operária era obrigada a mostrar o absorvente higiênico manchado de sangue para provar que não estava grávida.). E o que dizer dos empregadores que só admitem mulheres solteiras?

Não é à toa que a participação das mulheres nos centros decisórios políticos e econômicos, no Brasil, ocupamos o 58º, de acordo com a ONU, em 1995.

De acordo com este mesmo órgão, no que diz respeito a desenvolvimento ajustado ao sexo (saúde, educação e salários), ficamos em 63º.

O jornal Gazeta do Povo, no dia 27 de agosto de 1995 publicou um ranking dos salários no mundo, em porcentagem. No Brasil, de acordo com esta fonte, as mulheres recebem 58% do salário dos homens. Se os homens acham que seus direitos trabalhistas não estão sendo respeitados, o que dizer em relação às mulheres ?

De acordo com o relatório do Desenvolvimento Humano de 95 da ONU, 22,1% dos homens e 46,7% das mulheres recebiam até um salário mínimo. Em contrapartida, 11,3% de homens e 6,5% de mulheres recebiam acima de 10 salários mínimos..

Ainda , com base neste relatório, é válido relatarmos alguns dados.

Nos Estados Unidos, a cada 18 minutos uma mulher é espancada e a cada 6 minutos uma mulher é estuprada.

Na Bolívia, por lei, lesões causadas por maridos em brigas domésticas, são punidas apenas se a mulher ficar incapacitada por mais de 30 dias. O país tolera maus tratos às mulheres praticados por parentes(pai, marido, irmão, tio, cunhado, filho…) desde que as “feridas não sejam graves”.

No Pasquitão, em casos de estupro, quatro homens religiosos precisam testemunhar para dizer que houve penetração. Se as acusações não forem comprovadas, o depoimento feminino pode ser considerado “sexo ilícito” e a mulher pode ser condenada à morte.

Na Romênia, o índice de analfabetismo entre mulheres é o dobro do dos homens.

A Albânia tem a maior taxa de mortalidade materna da Europa (de cada 100 mulheres, 57 morrem).

Na Rússia, em 1993, 14 mil mulheres morreram por causa da violência familiar e 56 mil ficaram feridas.

Na Índia, a história sexual da mulher é considerada prova pertinente em casos de estupro. A maioria dos casamentos é arranjada tendo em vista interesses materiais. (acompanha a noiva o seu dote como pagamento por ficar com a mulher. As mulheres já são educadas para obedecerem e sabem que só poderão voltar à casa paterna, mortas. O infanticídio de crianças do sexo feminino, logo ao nascer, é praticado em grande escala. O número de abortos de fetos do sexo feminino é altíssimo devido à amniocentese (técnica médica destinada a determinar desde cedo o sexo do feto).

No Reino Unido, as mulheres ganham o equivalente a 70% dos salários dos homens.

No Paraguai, a lei perdoa maridos que matam mulheres quando praticam adultério. Esta mesma lei não se aplica ao homem nestas mesmas condições.

A chance de uma grávida morrer, na África, é 180 vezes maior que na Europa Ocidental.

No Brasil, 50% dos assassinatos de mulheres são cometidos por maridos ou companheiros. Em 80% dos casos, o assassino alega “defesa da honra”.

Na zona rural, na China, entre outras barbáries, as mulheres ainda são vendidas a maridos que elas nunca viram.

O que dizer da Uganda onde o “direito” de o marido de espancar a mulher é reconhecido por lei ?

Na França, em 95% dos casos policiais registrados, as vítimas são mulheres. Em 51% dos casos, os agressores são os maridos.

Por que chegamos a esta situação? O que houve, no percurso tortuoso da História, com o ser humano feminino?

Por que a sociedade se omite, aceita, vende a idéia de que mulher é um ser “inferior”?

Há espaço para esperanças nas bases emergentes de novos tipos de unidades estabelecidas através dos princípios de raça, gênero e classe?

Afirma Donna Haraway:

Há mais espaços para esperanças se nos detivermos nos efeitos contraditórios da política destinada a produzir leais tecnocratas norte-americanos, mas que produziu também grande número de dissidentes, do que se nos concentrarmos nas derrotas presentes (p.272).

E continua:

Toda história que começa com inocência original e privilegia o retorno ao todo inventa o drama da vida como um exemplo de individuação, separação, o nascimento do eu, a tragédia da autonomia, a queda na escritura, a alienação, isto é, a guerra, temperada com a suspensão imaginária no seio do Outro (p. 277).
MULHERES EM DESTAQUE NESTES 500 ANOS DE BRASIL:
O que sabemos sobre o início da nossa colonização, em relação às mulheres? Muito pouco ou quase nada. Que imagem nos tem passado a escola durante estes 500 anos?

Pela reportagem da Revista Cláudia de abril de 2000, o papel de índias, negras, brancas que escreveram nossa História até o momento, para nossas escola, continua no ostracismo. Alguns fatos sobre a História do feminino, no Brasil, que os livros didáticos não dizem, essa revista leva a público. E há surpresas. Lançando mão de intensa pesquisa sobre o assunto, eis algumas conclusões.

As primeiras mulheres que para cá vieram, a pedido do Missionário Manuel da Nóbrega ao rei de Portugal, eram moças solteiras, virtuosas, órfãs, filhas de nobres – quase sempre ricos- mortos a serviço da Coroa. (A herança ficava para os herdeiros do sexo masculino). Essas mulheres ficariam trancafiadas em conventos ou cruzariam os mares para unirem-se a desconhecidos.

A Princesa Isabel, filha de D. Pedro II, que assinou a Lei Áurea, foi a única mulher até a presente data a administrar o Brasil.

No século XVII, era normal às mulheres, o casamento aos 12 anos. Aos 15, já era considerada solteirona. Segundo o historiador Emanuel Araújo, em artigo publicado no livro História das Mulheres do Brasil, de Mary Del Priore e Carla Bassanezi, era normal que o marido, ao sair em viagem, trancafiasse a esposa em algum convento para salvá-las das tentações do adultério.

Em 1888, um jornal da cidade de Desterro, capital de Santa Catarina, na época, publicou os dez mandamentos para a mulher. Dentre eles , havia: “amai o vosso marido sobre todas as coisas”; “não o atormenteis com exigências, caprichos e amuos”.

Nos anos 50, as revistas femininas aconselhavam a mulheres a tolerarem as infidelidades dos maridos e tentassem reconquistá-los agindo como gueixas.

Apesar destas repressões, quando podiam, elas iam à luta. No ciclo do ouro, em Minas Gerais, enquanto os homens trabalhavam nos garimpos, o comércio era tocado pelas mulheres e 70% das vendas em Vila Rica, atual Ouro Preto, eram efetuadas por mulheres. No Sul, comandavam estâncias. Foi só em meados de 1997 que a organização não governamental carioca Rede de Desenvolvimento Humano, decidiu iniciar um trabalho de resgate desta história perdida no tempo. Deste trabalho surgiu o projeto multimídia Mulheres 500 Anos Atrás dos Panos, incluindo o dicionário Mulheres do Brasil, com 600 verbetes, abrangendo desde o período colonial até 1975, que deverá chegar às livrarias ainda esse ano.

Consultando desde a Torre do Tombo e o Conselho Ultramarino em Portugal, os livros dos inquisidores que passaram pelo Brasil, até os documentos históricos de doze estados brasileiros, chegou-se a incríveis e extraordinários relatos. Vamos a alguns deles.

A baiana Maria Quitéria, em 1822, fugiu de casa com o uniforme do cunhado e, usando o sobrenome deste, participou da luta da consolidação da Independência do Brasil no Recôncavo Baiano.

Em 1918, a bióloga paulista Bertha Lutz liderou o movimento decisivo para a conquista do voto feminino.

A primeira mulher eleita governadora de um estado brasileiro, o Maranhão, (ainda está no cargo, já pela segunda vez), é Roseana Sarney. Ficou famosa não só por ser a primeira governadora mas também por desbaratar uma quadrilha de roubo de carga e tráfico de drogas e promover uma reforma administrativa no seu Estado que deu o que falar.

Maria Déa ou Maria Bonita como é conhecida foi a primeira mulher a pertencer a um bando de cangaceiros.

A professorinha primária que se tornou atriz talentosa, Leila Diniz chocou os banhistas das praias cariocas, ao mostrar sua barriga de grávida.

Graças à persistência, coragem e destemor de Chiquinha Gonzaga, surgia a primeira maestrina brasileira , no início do século.

A primeira sul americana a participar das Olimpíadas, em 1932, a nadadora Maria Lenk, ainda viva, é recordista mundial dos 50 metros borboleta na categoria até 80 anos. Treina uma hora por dia.

Elis Regina, a Pimentinha, foi grande intérprete e reveladora de talentos na música popular brasileira.

A gaúcha Yolanda Pereira venceu pela primeira vez o concurso de Miss Universo, em 1930, no Rio de Janeiro. Também foi destaque nas passarelas, a Miss Brasil de 1954, Marta Rocha. Uma das mulheres mais lindas dos anos 50.

Ana Pimentel era esposa de Martim Afonso de Souza, o português que trouxe a cana-de açúcar para o Brasil. O marido vivia comandando expedições exploradoras. Em 1534, ao saber que as coisas iam mal em São Vicente, terras que o marido recebera em doação do rei de Portugal, não teve dúvidas: mudou-se para cá e, pouco mais que uma adolescente, enfrentou o sertão sem saber uma única palavra que os índios diziam. Morava numa choupana e nunca havia visto uma cobra. Mandou buscar bois e vacas em Portugal bem como sementes de arroz, cana, laranja e trigo. Era reverenciada como autoridade absoluta da vila

A miss Brasil 1969, Vera Fischer, virou estrela de novela, posou nua aos 49 anos e provocou furor. Ainda luta contra a dependência química e é reverenciada como uma das mulheres mais lindas do Brasil.

Mulheres como Hortência de Fátima Marcari, “a estrela do basquete brasileiro”, Maria das Graças Meneguel, a Xuxa, “a rainha dos baixinhos”, Marília Grabriela, grande repórter, Astrid, repórter e apresentadora de televisão fazem com que o feminino brasileiro tenha o brilho que lhe é devido.

Apesar de a mulher, em 1929, não poder nem se aproximar das urnas, Alzira Soriano, aos 32 anos, fazendeira e mãe de três filhos, elegeu-se prefeita na cidade de Lages (RN). Para que isso acontecesse, o governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine, concedeu o direito do voto às mulheres do seu estado, numa resposta ousada ao Congresso, que vinha rejeitando tal direito.

“O fim do século XX marca uma ruptura com a história de invisibilidade das mulheres e com o que a elas se refere. Não tenho dúvida de que a luta da mulher está ligada à democracia plena.” Estas são palavras da psicanalista, ex-deputada federal e presidente do Instituto de Políticas Públicas Florestan Fernandes Marta Suplicy.

Estas são algumas. Outras, muitas há que melhoraram e lutam por este país. O reconhecimento do feminino como parceria vai muito além da partilha de território masculino ou feminino. Durante muito tempo confundiu-se assimetria com desigualdade. Afirma Lídia Aratangy, psicoterapeuta de casal e de família, que é preciso livrar-se de algumas tiranias que são alimentadas: a balança, a moda, os modelos de juventude e beleza. Só seremos parecidos quando as diferenças não servirem como motivo de opressão, afinal “partilhamos ainda e sempre do medo da morte, da solidão. E comungamos da esperança de um mundo melhor, onde o compromisso maior seja com a ternura.”

Que o próximo milênio seja uníssono para homens e mulheres na dança harmoniosa do prazer de con-viver.

 

Para comentarmos um pouco do feminino na literatura, nada melhor que refletirmos dois contos de Marina Colasanti , do seu livro Contos de Amor Rasgados.

 

A BELEZA FANTÁSTICA NOS CONTOS DE MARINA COLASANTI:
Relances de uma Análise Literária

Estudando, enquanto saboreio o livro de Marina Colasanti “Contos de Amor Rasgados” relaciono-o a todos os dados, fatos, teorias citadas neste pequeno ensaio. Por quê? Ora, os mesmos são delicados, perturbadores. Minicontos cheios de histórias “rasgadas de amor” que despertam emoções e um olhar crítico. Vamos a eles.

Quando já não era mais necessário

Marina Colasanti

“Beije-me”, pedia ela no amor, quantas vezes aos prantos, a boca entreaberta, sentindo a língua inchar entre dentes, de inútil desejo.

E ele, por repulsa secreta sempre profundamente negada, abstinha-se de satisfazer seu pedido, roçando apenas vagamente os lábios no pescoço e rosto. Nem se perdia em carícias, ou se ocupava de despir-lhe o corpo, logo penetrando, mais seguro no túnel das coxas do que no possível desabrigo da pálida pele possuída.

Com os anos, ela deixou de pedir. Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás, não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.

Mão na maçaneta, hesitou porém. Toda a sua vida passada parecia estar naquela sala, chamando-a para um último olhar. E, lentamente, voltou a cabeça.

Sem grito ou suspiro, a começar pelos cabelos, transformou-se numa estátua de sal.

Vendo-a tão inofensivamente imóvel, tão lisa, e pura, e branca, delicada como se translúcida, ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.

E com excitada devoção, começou a lambê-la.

O significado ostensivo deste conto salta aos olhos, é o mais óbvio possível, pois corresponde ao enunciado que, por sua vez, não apresenta qualquer dificuldade de compreensão. Não é preciso dicionário.

Por outro lado, é preciso entender, a caracterização dos personagens além de intertextualizar com realidades outras diversas.

A personagem feminina é passiva (de início), carente, solícita, insistente, procura novos caminhos: “Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo…”, mas insegura, teme o desconhecido, a mudança. O ato de voltar a cabeça, olhar para trás demonstra isso.

Onipotente, ativo, apresenta-se o personagem masculino. Quer o prazer rápido, pois teme o que pode provocar a nudez, a carícia da e na mulher. É inseguro. Só vai adorá-la ao vê-la inofensivamente imóvel .

O narrador cria o fantástico: “Sem gritos ou suspiros, a começar pelos cabelos, transforma-se numa estátua de sal”.

A estátua de sal reporta-nos à passagem bíblica, quando Lot e sua família teriam que abandonar Sodoma o mais rápido possível, pois a cidade seria destruída por Deus. A esposa de Lot, ao deixar a cidade, por arrependimento, ou tristeza, olha para trás e transforma-se

numa coluna de sal. “E a mulher de Lot, tendo olhado para trás, ficou convertida num coluna de sal”(Gênesis 19,26).

A estátua lembra a imagem, a adoração, a reverência e, ao mesmo tempo, a passividade, a ausência. O sal dá o sabor. Foi valioso, pois chegou a valer como moeda corrente.

Para mostrar o envolvimento do personagem masculino e do feminino, após tal fato, termina dizendo que: “… com excitada devoção, começou a lambê-la”.

Numa macro-estrutura podemos afirmar que algumas idéias podem ser lidas “nas entrelinhas”, “nas lacunas”:

– Muitas vezes, só se valoriza algo, alguém, quando se perde. “… ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.”

– Quando se toma uma decisão, é importante não vacilar. “… decidiu abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás , não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.”

– Às vezes, a mulher não pede a separação, num relacionamento, porque teme o desconhecido: “Com os anos, ela deixou de pedir.”

Há homens que, no ato sexual, procuram ser rápidos como se tal fosse pecaminoso ou imoral. “nem se perdia em carícias, ou se ocupava de despir-lhe o corpo…”

Para concluir, a simplicidade de expressão na narrativa, traz implícita a alegoria, o fantástico como disfarce da condição verdadeira.

O refinamento do emissor do discurso, o disfarce poético, envolvem o destinatário e levam-no a questionar a simples e trágica situação real ali escancarada.

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Nunca descuidando do dever

Marina Colasanti

Jamais permitiria que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças. E a poder de ferro e goma, envolta em vapores, alcançava o ponto máximo da sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide.

Impecável, transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou sub-repticiamente a marcar seu avanço na pele do rosto. Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos.

Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz até a boca tornou-se inegável. Sem nada dizer, ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.

Este miniconto, numa leitura primeira, chama-nos a atenção o próprio título, além de outros itens que, logo abaixo, analisaremos.

É uma macabra-fantástica-ironia, podemos afirmar após uma leitura superficial.

Neste, em oposição ao miniconto “Quando já não era mais necessário”, a personagem feminina é ativa, atenta a tudo: “Jamais permitiria que o marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada..” “… dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças”.

Além disso, percebe-se também, a personagem feminina preocupada, temendo a opinião alheia “…não dissessem os colegas que era esposa descuidada”; procurando a perfeição “…alcançava o ponto máximo de sua arte…”

Mas numa análise mais atenta, é preciso nos questionarmos. Por que tanta preocupação em mostrar-se perfeita? Seria preocupação ou apreensão, medo? A roupa, enquanto visual, teria influência na sua conduta enquanto esposa? Aonde (e não onde) está a condição Ser-Feminino? Talvez, perdida na missão de servir, obedecer ao esposo (questões tão ironicamente incrustada na Mulher-Esposa) como se apenas para tal existisse. Já o personagem masculino é passivo. “Impecável transitava o marido pelo tempo.”

Analisando o vocabulário, há uma palavra (“sub-repticiamente”) que nos remete à idéia de réptil (troca de pele, se arrasta…) e o prefixo “sub” (embaixo) faz-nos questionar que tipo de personalidade tem este homem.

A personagem feminina vive envolta em vapores. Consegue seu apogeu a poder de ferro e goma. Lembra-nos a expressão popular que quer dizer com muita dificuldade: “a ferro e fogo”.

O conto transcende o real e passa ao plano fantástico quando “Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.”

O mesmo ato – passar a ferro para alisar – é usado nos sentidos denotativo e conotativo. “Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos.

Analisando as estruturas profundas deste conto, subentendem-se as idéias:

– Quem é responsável por tudo, tem o direito de tomar decisão para resolver qualquer problema.” Tendo finalmente certeza… ligou o ferro.”

– Toda perfeição é um pouco neurótica. “Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras,… afiando o vinco das calças.”

– Para conquistar seu espaço a mulher tem que lutar “a ferro e fogo”.

– O instinto “Medéia” (vingativo e calculista) perpassa as lacunas da história. “Sem nada dizer ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.”

Sabiamente, Marina Colasanti consegue seu intuito. É como se, através de pequenos contos, poucas palavras, nos reafirmasse o que Eduardo Galeano, um escritor uruguaio, no seu livro Vozes e Crônicas:

Ao se escrever, é possível oferecer o testemunho de nosso tempo e de nossa gente, para agora e para depois, apesar das perseguições e da censura. Pode-se escrever como que dizendo, de certa maneira:” Estamos aqui, aqui estivemos; somos assim, assim fomos (p.13).

 

ÚLTIMAS PALAVRAS:
Perante o ceticismo da realidade do intelecto humano, é preciso nos posicionarmos como pessoas conscientes .

Hoje, enquanto vemos despontar tantos questionamentos a respeito das nossas origens e fins, concluímos que apenas sobreviverão plenamente (em corpo e espírito) aqueles que aprenderem a conviver e souberem responder aos questionamentos: “De onde viemos?” “Para onde vamos?” “O que faço neste planeta, neste tempo?”

Estudando, colocando-se em prontidão para absorvermos novos conhecimentos e assimilá-los em nossa vida – eis a nossa postura.

Diante de uma sociedade patriarcal e capitalista, faço minhas as palavras de Donna Haraway, em Um Manifesto para os Cyborgs: Ciência, Tecnologia e Feminismo Socialista na década de 80: “Ainda que ambos tenham sido engedrados na mesma dança espiralada, prefiro ser um cyborg a seu uma deusa” (p.283).

É tempo de buscas, questionamentos. É preciso encontrar o “elo perdido” do ser-estar-feminino.

Diante de teorias tão comprometidas com a realidade, neste ensaio apresentadas, urge que se propaguem tais estudos e conhecimentos.

Perante a enxurrada de textos que nos rodeiam, é preciso ir além. É preciso aprender e ensinar a ler as “lacunas”, as “entrelinhas”. É preciso analisar o presente sem desprezar todo o conhecimento histórico-social veiculado até então.

Linda Hutcheon, em sua obra Poética da pós-modernidade: história, teoria, ficção, ao falar da situação do feminino, cita Foucault, afirmando que “…precisava incluir seu próprio discurso nesta dúvida radical, pois tal discurso é, inseparavelmente dependente da própria suposição que procura revelar” (p.81).

Trabalhando na divulgação destas idéias contidas neste ensaio, é preciso não esquecer que sem resgatarmos a espiritualidade que existe em cada ser humano, dificilmente conseguiremos alcançar qualquer objetivo.

Mesmo que demorem anos, séculos, mesmo que não sejamos capazes de transpor as montanhas, ainda que estejamos apenas caminhando sem vislumbrar uma luz no túnel, cremos, lutamos. Afirma Dom Helder Câmara: “Não serás digno da criação se a considerares acabada e feita e não entenderes que a glória de tua espécie consiste em concluir o que o Pai, propositadamente, apenas começou…”. É tempo de caminhada. À luta agora.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

GALEANO, Eduardo. Vozes e crônicas. São Paulo: Global/Versus, 1978.

GAZETA DO POVO. Curitiba: 27 agosto 1995.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.) Tendências e impasses – o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

HUTCHEON, Linda. Poética da pós-modernidade: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO. São Paulo: 26 agosto 1996.

REVISTA CLÁUDIA. Ano 38, n. 5, maio 1999, São Paulo: Abril, 1999.

REVISTA CLÁUDIA. Ano 39, n. 4, abril 2000, São Paulo: Abril, 2000.

SICUTERI, Roberto. LILITH A lua negra. 4ª ed.. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.



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