Revista Mulheres e Literatura – vol. 2 - 1998



Imagens de Mulher na Ficção Feminina pós-64





Imagens de Mulher na Ficção Feminina pós-64

Márcia Cavendish Wanderley

Universidade Federal Fluminense

Introdução

No nebuloso período pós-64, quando os véus
negros da repressão e da censura desceram sobre a população
brasileira sufocando-a nos seus mais variados impulsos criativos, uma vereda,
a princípio cautelosa e mais tarde arrojada e caudalosa, foi aberta
pela mulher no campo da literatura. Na prosa de ficção que
se inicia com um discurso quase auto depreciativo e lamuriento e pouco a
pouco se transforma em audacioso e revoltado, a escrita feminina irrompe
a partir desta data, ancorada às vezes em raízes sólidas,
(como as já cravadas pela produção de Clarice Lispector
que, antes disso era festejada como romancista pela crítica oficial)
e terminando por se afirmar como proposta contra-ideológica aos papéis
tradicionalmente desempenhados pela mulher na sociedade brasileira. Entretanto,
e apesar da riqueza que esta contribuição representa para a
literatura brasileira, esta produção permanece inexplorada,
até o momento atual pela crítica, que não realizou ainda
um trabalho de reunião e análise deste material como um todo.
Os trabalhos acadêmicos geralmente rondam em torno de alguns nomes
consagrados pela crítica , pelo setor editorial e pelo público
leitor ( nomes tais como os de Clarice Lispector, Nélida Piñon,
Lígia Fagundes Telles, e alguns outros), permanecendo na obscuridade
a maior parte das escritoras que publicaram a partir daquela data, como se
já tendo sido estabelecido uma espécie de “cânone” da
literatura feminina brasileira, fosse permitido negligenciar o que sobrou
desta escolha.

Não temos notícia sequer de um “catálogo”,
que a exemplo do importante trabalho realizado por Heloisa Buarque de Hollanda
sob o título de Ensaistas Brasileiras: Mulheres que escreveram
sobre Literatura e Arte de 1860 a 1991
(Hollanda,1993), tenha organizado
de forma biobibliográfica toda a produção ficcional
feminina no Brasil, a partir da década de sessenta, marco importante
para esta produção. Sabemos, aliás através desta
mesma publicação, que um dicionário de escritoras brasileiras
desde o século XIX até a atualidade, estaria sendo preparado
pela professora Nelly Novaes Coelho. Entretanto não temos nenhuma
notícia de sua publicação recente. E mesmo que ela exista
não invalida nossa proposta na medida em que ela se debruça
sobre um período bem específico que se inicia em 64, e tem
a pretensão de extrapolar a simples condição de dicionário,
realizando a análise destas autoras sob uma perspectiva histórica
e sociológica que busca as interligações existentes
entre texto e contexto. Este é um trabalho a ser feito e a ele nos
lançamos com a esperança de realizá-lo em duas diferentes
etapas. Na primeira, mais quantitativa, realizando o levantamento, tão
completo quanto possível, da produção ficcional feminina
que se inicia em 1964 até os dias atuais. Nesta etapa, que se configura
como um “work in progress” ( pois a ficção feminina
não se extingue e ao contrário a cada dia cresce mais no panorama
da literatura brasileira ) pretendemos fornecer informações
bio-bibliográficas das autoras, informações estas que
deverão ser publicadas em catálogo anualmente reformulado.
Para isto já contamos com a colaboração da EDUFF em
termos da publicação do mesmo,da REDOR (Rede de Estudos Feministas
do Nordeste) , REDEFEM (Rede de Estudos Feministas) e do NIELM (Núcleo
Interdisciplinar de Literatura e Mulher, da Faculdade de Letras da Universidade
Federal do Rio de Janeiro) que nos darão apoio na coleta dos dados,
além da ajuda de duas alunas da graduação do Curso de
Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal
Fluminense, financiadas pelo projeto PIBICT.

Paralelamente a esta tarefa, e orientados
por critérios
qualitativos, tentaremos uma análise mais aprofundada e sociologicamente
embasada, de autoras cujos textos constituem uma contribuição
representativa para a literatura brasileira como um todo.

Trata-se de projeto que pretende cobrir 34
anos de literatura feminina no Brasil e que portanto deverá lidar com uma fatal heterogeneidade
de assuntos, estilos e posturas ideológicas de autoras que certamente
construíram seus enredos e personagens influenciadas pelo contexto
histórico vivenciado. Contexto que, entretanto, nem sempre veio explicitamente à tona
em grande parte desta produção , principalmente daquela mais
temporalmente aproximada aos traumas do “golpe de 64”, mas que
se faz presente na sintomática recusa em abordá-lo. Uma das
hipóteses razoavelmente explicativas para este fato tem sido a de
que o silêncio (não apenas da literatura feminina) em torno
das perdas e danos sofridos pela sociedade brasileira naqueles momentos críticos,
cumpre, embora inconscientemente, as determinações da ditadura
que condenando toda e qualquer abordagem política feita pela literatura
e pela arte em geral termina por criar uma censura prévia em toda
a comunidade criadora.

Menos dramaticamente que o teatro (que foi
literalmente espancado pela ditadura em 68 na peça Roda Viva de Chico Buarque de
Hollanda) a literatura foi também duramente cerceada. No entanto,
apesar das experiências traumáticas vividas pela cultura brasileira
na época e mais traumáticas ainda ,pelos intelectuais que a
produziam, a literatura escrita pelas mulheres, em sua maioria ignora esta
realidade. Contrastando vivamente com a ação politico participativa
da mulher brasileira, principalmente da geração mais jovem
que deflagra os movimentos de 68, a dicção literária
feminina de então se volta para dentro de si mesma e realiza uma ininterrupta
reflexão autobiográfica na qual as frustrações
sentimentais dão a tônica mais forte sendo que os conflitos,
ocorridos nos espaços internos da família, onde as protagonistas
desta ficção se encontravam geralmente confinadas, se resolviam
sempre de forma negativa para elas. Esta imagem de mulher confinada e sofredora
contrasta ainda com a gritante revolução nos costumes instalada
nas classes médias daquela fase. Revolução que fez eco
a acontecimentos internacionais tais como o recrudescimento da campanha feminista
nos Estados Unidos e a revolta estudantil de maio de 68 na França
onde eram questionados todos os valores estabelecidos, da hierarquia acadêmica
ao casamento burgués, passando pelas questões de gênero,
e adotava-se uma postura política de esquerda que penetrava todas
as áreas da vida social. Até mesmo a incipiente liberação
feminina que acontece a partir desta data no Brasil tem registros muito ténues
na literatura que lhe foi contemporânea. Um romance como As Meninas,
de Ligia Fagundes Telles pode ser indicado como um exemplo de tentativa de
tratamento do tema, mas uma tentativa mal sucedida por sua inautenticidade.
Personagens que não se sustentam no real pois aquela realidade não
parece ter sido vivenciada pela escritora. As romancistas da época
nos dão a impressão de estarem vivendo em redomas que as protegiam
dos acontecimentos turbulentos que caracterizam os anos 60 .

No capítulo da reversão de papéis sexuais
podemos afirmar que uma Leila Diniz foi mais impactante que as representantes
das letras . Não tivemos aqui uma Françoise Sagan que simbolizasse
a nossa rebeldia, e uma Cassandra Rios era o lado marginal da literatura
feminina pois trazia ã tona de maneira descarada, o erotismo vexaminoso.

Nada disso é entretanto de causar estranheza na medida
em que aquela transformação nos costumes, e principalmente
nos papéis sexuais, acontecia apenas em alguns setores da sociedade.
Na verdade escandalizava a classe média, irritava profundamente a
ala mais dura da direita (os militares que chegaram a prender Leila Diniz
por seu comportamento visto como imoral)e até era criticada pelo próprio
PCB que neste caso fazia coro ao moralismo da direita. A ambigüidade
moral daquele momento pode assim ter sido responsável pela presença
recorrente da imagem auto-reflexiva e chorosa da mulher no espelho da literatura
feminina daquela geração. Um certo respeito aos tabus do passado,
o subjetivismo exagerado, o monólogo diante de um espelho que nem
sempre lhe devolve um reflexo apreciável, constitui certamente o discurso
de uma das vertentes com a qual nos iremos confrontar neste trabalho de análise
desta literatura, e do qual podemos já citar alguns exemplos: Rachel
Jardim em O Inventário das Cinzas, O Penhoar Chinés;
e Adélia Prado em Cacos para um Vitral. Uma vertente já,
aliás, identificada por Luiza Lobo em “Dez Anos de Literatura
Feminina” (Lobo, l988; republicada em Crítica sem juizo,
Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992) e também por Constância
Lima Duarte ao comentar que: “inúmeros trabalhos de pesquisa
estão revelando como as mulheres partem sempre do cotidiano, do doméstico
e do subjetivo para realizar sua literatura”. E ao sugerir que “apenas
uma interpretação social e política da literatura poderia
entender e valorizar esta forma de participação” (Duarte,
1996) fornece-nos um incentivo a mais para realizar este trabalho, que busca
compreender as razões desta tendência que embora não
comprometendo a qualidade (Clarice Lispector é exemplo de alta literatura
que toma como matérial simbólico o cotidiano doméstico
e realiza a partir dali verdadeiros saltos epifânicos e filosóficos)
foi uma marca, às vezes, limitante e empobrecedora da imaginação
criadora feminina dos anos 60.

Entretanto esta não é a única face
que a ficção feminina revela neste período. Nem todas
as escritoras desviaram o olhar do contexto envolvente, ou internalizaram
a censura como regra para a criação, ou mesmo se limitaram
a um subjetivismo paralisante em suas criações. Usando o disfarce
da alegoria como forma, algumas romancistas fizeram a critica da sociedade
brasileira de então em todos os seus achaques. Heloneida Studart, é na
década 70 um dos exemplos mais convincentes desta nova postura. Seus
romances O Pardal é um Passaro Azul eEstandarte da Agonia,
que fazem parte da chamada Trilogia da Tortura, reúnem denuncias ao
autoritarismo em todas as suas formas, e as críticas feitas através
de personagens vivendo numa sociedade fictícia atingem não
apenas a a ditadura militar mas tambem o autorismo inerente à sociedade
brasileira como um todo . O paternalismo assumido pelas próprias mulheres
que povoam o romance é contestado pela protagonista de O Pardal é um
Pássaro Azul
(Marina) que encarnando a mulher guerreira irá se
rebelar contra o universo fechado e hierárquico do patriarcalismo
e da ditadura. Mas sem datas ou referências explícitas, como é próprio
das alegorias .

Referências explícitas a 64 e à revolução
fará Marilene Felinto, já na década de 80, em seu primeiro
romance Mulheres de Tijucopapo (Felinto, l987), numa memória
sofrida que é ao mesmo tempo busca de identidade feminina a partir
de uma infância duplamente espoliada: pela situação de
classe e pela condição de gênero.A protagonista Risia, é movida
por raiva e revolta “medonhas”. Humilhada pelo fantasma de covardia
e mudez representadas na figura da mãe, procura redimir-se desta nódoa
através da herança mítico/histórica das “mulheres
de Tijucopapo, mulheres da matéria do tijuco (lama), cabelos grossos,
arrastando pela crina do cavalo, no lombo do bicho sem sela, amazonas”.
Tijucopapo, como nos conta José Antônio Gonçalves de
Melo, historiador pernambucano, é o arraial (reduto) de heroínas
recifenses que rechaçaram , apesar dos parcos recursos, o invasor
holandés daquelas terras alagadas. Amazonas, são mulheres guerreiras
que vivem em bandos, uma espécie de tribo feminina que só aceitava
homens para a concepção. “Freqüentam o mito e a iconografia
grega de onde vieram diretamente para o Brasil onde os descobridores as reconstruiram
milénios depois . Aqui, segundo consta, habitavam a foz do rio Marañon,
por isso rebatizado de Amazonas. Estas são referencias feitas por
Walnice Nogueira Galvão em Gatos de Outros Sacos (Galvão,
1987), ensaio em que dedica todo um capítulo ao ciclo da donzela guerreira
na literatura erudita e popular brasileira. Suas origens são universais
e numerosa pois numerosas são também as fantasias femininas
de apropriação de papéis masculinos, tendo a donzela
guerreira frequentado a epopéia de cavalaria de fins da Idade Média
e do Renascimento, bem como as novelas de aventuras do século VII
para p XIX . No Brasil é herdeira do romance ibérico e dali
passou para a literatura popular e oral (Autos de Chegança e Literatura
de Cordel) e desta para a erudita. A personagem de Marilene Felinto parece
dividir-se entre estes dois arquétipos. É mulher amazonas porque
busca reunir-se à sua tribo, às Mulheres de Tijucopapo para
resgatar sua própria imagem vilipendiada pela fraqueza da mãe. É donzela
guerreira por encarnar a pureza dos que se batem por uma causa justa. Mas
sem revestir-se dos sinais que marcam esse arquétipo. Não se
identifica com o pai nem abandona seus atributos femininos para substituir
filho varão. Sua referência é a mãe cuja identidade
precisa redimir . E resgatar a todas as mulheres e a si mesma, de uma herança
de “desamor, miséria e mutismo”.

Embora distante, a revolução é vista
como marco de perdas pessoais que culminam na perda da própria identidade
da personagem Rísia, protagonista do processo migratório intensificado
a partir de 64. A narrativa literária reescreve a história
desse éxodo em massa de uma geração e de uma classe
na linguagem irada de Rísia que retoma a questão regional do
naturalismo em versão traumática . Por este motivo o romance é uma
história de volta às origens. Origens identificadas com a esperança
de uma vida simbolizada no mito de Tijucopapo. E Tijucopapo é um lugar
de motim não apenas feminista mas de classe e regional. Regional porque
,como já foi dito, retoma a questão nordestina em versão
mais agressiva; de classe porque é o discurso dos que nada tém
contra os que tém tudo.A narrativa é regada com o sangue da
personagem que traduzindo a voz autoral lança neste livro o clamor
de uma geração , região e classe que sofreu os efeitos
mais perversos da já então distante, “revolução”.

A que origens literárias podemos vincular Marilene
Felinto? O ritmo da narrativa, o simbolismo dominante e até um pouco
da ambientação fantasmagórica já estavam presentes
na Nélida Piñon de A Casa da Paixão. A personagem
também ali vaga e cavalga em busca da própria identidade sufocada
pelo universo masculino representada no pai onipresente e onipotente. A rebeldia
se manifesta em todos os gestos e na linguagem desabrida da personagem Marta,
(Piñon) que se revela entretanto tímida diante da espantosa
agressividade linguistica de Risia (Felinto). Não hesitamos entretanto
em colocá-las numa mesma vertente, bem diferente da primeira, onde
as personagens percorrem, conquistam, devastam e subjugam novos espaços
e assumem novas atitudes de mulher na construção da realidade
ficcional.

Outras vertentes irão sendo definidas à medida
em que formos progredindo na pesquisa. E desde já podemos citar muito
mais perto e atual a vertente histórica inaugurada por Ana Miranda,
até agora sua representante mais conhecida. Mas o que pretendemos é exatamente
abrir espaço às menos conhecidas.

Este é o caso de Luzilá Gonçalves,
também pernambucana como Marilene Felinto, que publicou recentemente
dois livros em que a história de Pernambuco em seu capítulo
da invasão holandesa é primorosamente trabalhada. Rios Turvos e A
Garça Mal Ferida
, este último premiado pela Academia Brasileira
de Letras. São romances que buscam em documentos históricos
a matéria prima do enredo e da própria linguagem formal utilizada
na narrativa ficcional, realizada de maneira tal que história e ficção
se complementam com eficiência. Anna Paes D’Altro, a heroína
de A Garça Mal-Ferida é a Senhora do Engenho Casa Forte,
uma pernambucana com forte sentimento de sua terra mas que não resiste
ao encanto dos holandeses que em 1630 invadiram Olinda e Recife causando
grandes prejuízos aos luso-brasileiros ali instalados , mas não
se pode negar, provocando grande interesse pela onda de civilização
e cultura que trouxeram junto com suas espadas e morteiros. Maurício
de Nassau, um dos personagens deste romance, por sua tolerância religiosa
enquanto domina Pernambuco , permite o convívio e a confraternização
amena entre pernambucanos e holandeses. Confraternização esta
que, no caso de Ana D’Altro sempre resulta em amor de uma personagem
apaixonadamente dividida, e que terminará sendo deportada após
a expulsão destes últimos. Rios Turvos conta a história
de Bento Teixeira poeta judeu cristão novo que viveu em Pernambuco
no século XVI e escreveu longo e complicado poema de gosto duvidoso,
a Prosopopéia , mas principalmente conta a história de Filipa
Raposa, sua mulher, que o denunciou ao Santo Ofício, como herege,
naqueles negros anos da Inquisição. Romance com qualidade estética
apreciável e que no entanto permanece na obscuridade. Obras que ultrapassam
a questão do gênero, tanto pela profundidade com que captam
a realidade particular quanto pela capacidade de transmitir esse particular
a outras esferas e que bem merecem que o estreito cânone da literatura
feminina no Brasil se amplie para acolhé-las. Esta é a nossa
intenção ao realizarmos este trabalho. Abrir espaço
para autoras que permanecem inexploradas, apesar do valor e da importância
que possuem como testemunhas e criadoras de uma época e de uma imagem
de mulher que desejamos literariamente conhecer e preservar.Ao trabalho já realizado
por Susan Quilan em The Female Voice in Contemporary Brazilian Narrative (Quilan,1955)
desejamos acrescentar outras vozes que ainda não foram suficientemente
ouvidas e compreendidas pela crítica dentro de nosso universo literário
. Resgatar estas autoras e suas obras e reuní-las em publicação
crítica é o objetivo deste trabalho que é também
projeto de curso que ofereço (Sociologia da Literatura) no Departamento
de Sociologia da UFF onde conto com a participação e ajuda
de alunos interessados que me auxiliam na coleta dos dados necessários à sua
concretização.

II- Critérios Metodológicos

Os pressupostos explicitados na Introdução
deixam bem claro que o tipo de abordagem escolhida é uma abordagem
feminista , na medida em que pretende não apenas resgatar e registrar
a produção literária feminina em determinado período
histórico (l964-1998) como também realizar uma leitura crítica
que valoriza a experiência feminina como um dos critérios que
possibilita a “desconstrução dos modelos e ideologias
que informam a produção de personagens literários da
prosa de ficção feminina do período .Explicando Derrida
e sua teoria da “desconstrução” Jonathan Culler realiza
em On Deconstruction: Theory and Criticism after Structuralism (Culler,
1986) o rastreamento da crítica literária feminista atual,
verificando as diversas possibilidades de desconstrução praticadas
pela leitura feminista em relação ao discurso falocrático.
Segundo esse autor, o primeiro momento da crítica feminista induz
a uma afirmação de continuidade entre a estrutura social e
familiar vivenciada pela mulher e a de sua experiência como leitora.
A crítica, neste postulado de continuidade, tem particular interesse
na psicologia das personagens femininas e procura investigar as atitudes
em relação à mulher, ou seja investigar as imagens de
mulher construídas seja em obras de um autor , de um gênero
ou de um período literário. A principal preocupação
neste momento estaria na identificação e crítica dos
pressupostos que governam os trabalhos literários, linha que alcançou
notoriedade através de livros como O Segundo Sexo, de Simone
de Beauvoir (Beauvoir, 1953) em que são analisados os mitos femininos
criados por autores como Lawrence, Claudel, e Stendhal. Neste momento a linha
feminista da crítica começa a se preocupar com a questão
da mulher como consumidora de uma literatura produzida por homens. Pela primeira
vez, fomos solicitados a ver a literatura em nossa condição
de mulheres (Heilbrun,1976), “pois até então nós
Homens, mulheres e PhDs, sempre a havíamos abordado de um perspectiva
masculina”. E uma leitura feminina não é o que fatalmente
ocorre quando uma mulher lé um texto literário. Ao contrário,
o que tem ocorrido é que as mulheres, por terem sido alienadas de
uma experiência própria à sua condição,
terminam por se identificar com as experiências e perspectivas masculinas
que se apresentam como universais. Já aqui pode-se entrever duas características
dessa crítica: a que desperta para a valorização da
experiência como um dado orientador da leitura e a que vai constatar
que essa leitura não vem sendo efetivada por mulheres. A partir daí a
principal tarefa da crítica feminista é a de realizar uma leitura
inédita que induza os leitores-homens e mulheres- ao questionamento
dos pressupostos políticos e literários que orientaram suas
leituras até então (Showalter, l994).

Num terceiro momento a crítica feminista passa a
questionar os próprios conceitos que fundamentam a crítica
literária na medida em que acredita numa aliança existente
entre estes conceitos e o falocentrismo presente na própria linguagem.
A tarefa desta crítica será a de investigar a cumplicidade
existente entre os pressupostos e metas da crítica, buscando estratégias
que subvertem a estrutura desses conceitos e pressupostos. Uma tarefa difícil.
Um elemento comum reúne estes trés momentos da crítica
feminista: o apelo a experiência do leitor. No primeiro momento essa
experiência é vista como solo firme para interpretações.
No segundo tenta-se tornar isto possível. No terceiro o apélo é velado
mas existe como referência à valorização de elementos
simbólicos que procuram afirmar a superioridade do paternal, e a uma
situação de marginalidade feminina (o outro) que pode dar origem
a novas formas de leitura. O apelo à experiência do leitor,
funciona como uma alavanca que desloca e desconstrói o sistema de
conceitos e pressupostos da crítica masculina, mas é preciso
lembrar que a experiência feminina está em permanente construção,
ou desconstrução, em perpétua mudança, embora
sob a égide de mitos e ideologias naturalizadores das situações
de gênero. Pela valorização da experiência , que é sempre
histórica, a questão política vem à tona e nos
permite vislumbrar a possibilidade de uma análise que vise surpreender
simultaneamente a manutenção e desconstrução
desses mitos e ideologias num determinado período histórico
dessa experiência. É portanto a partir de uma perspectiva feminista,
mas também histórica que se tentará entender a estrutura
das relações sociais de onde fluem aquelas ideologias e estabelecer
os nexos possíveis entre o momento político vivido e a produção
literária feminina que ali surgiu e prosseguiu até os dias
atuais. Para isto será necessário o conhecimento do chamado
período “revolucionário”, ou seja o período
da ditadura militar (tendo 64 como marco mas valorizando o período
a partir de 68 quando acontece o recrudescimento do processo iniciando-se
uma segunda ditadura) em todos os seus seguimentos e as repercussões
provocadas sobre a sociedade civil que lhe foi contemporânea. De como
se comportaram as mulheres diante do paradoxo de uma simultânea abertura
inaugurada pela retomada da luta feminista em plano mundial e o fechamento
provocado pela ditadura local. E de como esse fenômeno irá repercutir
sobre a literatura que produziram naquele momento e posteriormente. Uma visão
sociológica será ainda um subsidio valioso na interpretação
dos efeitos cumulativos que os condicionantes sociais determinam ao autor
e seu texto. As formas literárias são formas de ver o mundo
e como tais tém relação com a forma dominante de ver
o mundo que é a mentalidade social ou ideologia de uma época
(Eagleton, 1977) . Essa ideologia que por sua vez é produto das relações
concretas que os homens estabelecem entre si num determinado período
histórico. Assim o que se pretende surpreender nestas autoras são
as relações entre suas obras e o mundo ideológico que
habitam. Como suas imagens de mulher se constróem ou desconstróem
a partir dos mitos que se incorporam aos gêneros, conferindo-lhes status de
naturalidade, ou de estranhamento. Como este mundo ideológico se transforma
em “temas e preocupações mas também em estilo,
imagem, qualidade e forma” (Eagleton, 1977).

Dentro dessa constelação de interesse (que
explicita o sincretismo da crítica feminista atual) as personagenas
merecerão atenção especial . Delas falaremos não
apenas do ponto de vista de sua fabricação e da expressão
autoral que incorporam , mas tambem de sua recepção, isto é,
da relações entre as leituras que delas vém sendo feitas
durante este período pela crítica e também no plano
da afetividade.

A variedade de propostas pode parecer ambiciosa
mas vemos aqui uma vantagem. A de abrir o leque de interpretações em
direção a um objeto que nunca deveria ser olhado por um único,
o objeto literário. Não são abordagens conflitantes
mas antes se completam permitindo privilegiar a experiência do leitor
que sendo histórica, pretende ver esta mulher como sujeito histórico
da produção literária em vários sentidos: como
ficcionista, como personagem e como crítica de sua própria
história.

Referências Bibliográficas

1.Holanda, Heloísa Buarque, e Araujo,
Lucia Nascimento.
Ensaístas Brasileiras: Mulheres que escreveram sobre literatura
as artes de 1860 a 1991
. Rio de Janeiro, Rocco, l993.
2.Duarte, Constância Lima. “Estudos de Mulher
e Literatura: História e Cânone Literário”, VI Seminário
Nacional, Mulher e Literatura, Rio de Janeiro, Anais,1996.
3. Felinto, Marilene-“Mulheres de Tijucopapo”,Rio
de Janeiro, Ed. 34 Letras, 1992.
4.Galvão , Walnice Nogueira. “Gatos de Outros
Sacos: Ensaios”. São Paulo, Brasilien.
5. Culler, Jonathan. On Deconstruction: Theory and Criticism after Structuralism.
New York, Cornell University Press, 1986.
6. Beauvoir, Simone “The Second Sex”,
New York, Knopf, 1951.
7. Millet, Kate. Sexual/Textual Politics. New York,
Doubleday,1970.
8. Heilbrun, Caroline. “Millet’s Sexual Politics.
A Year Later” Aphra, 2, 192,1971.
9. Eagleton, Terry- Marxism and Literary Criticism. London
Menthuen&Co Ltd.,1977.
10.Quilan, Susan. The Female Voice in Contemporary Brazilian
Narrative
. New York, 1955.

________________________

(*) Resumo
da comunicação apresentada no VIII Congresso da ANPOLL – A
mulher na literatura, em Salvador, Bahia, em setembro de 1999.



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