Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



HOMERO NÃO ERA UM MERO HOMEM: A LEITURA DE CABRA DAS ROCAS, SOB A PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS – Maria José Gomes





 

 

Maria José Gomes

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

 

RESUMO: Homero Homem, escritor potiguar e autor do romance Cabra das rocas, é o objeto de estudo desse artigo que tem como um dos propósitos analisar a obra à luz dos Estudos culturais, buscando identificar o sujeito e suas intersubjetividades. O seu livro provoca reflexões acerca do papel da literatura como instrumento de denúncia das incoerências e injustiças sociais, especialmente em comunidades marginalizadas, situadas geograficamente em locais periféricos. A função de Cabra das rocas é também sugerir reflexões políticas com vistas a mudanças de paradigmas incorporados pelo sujeito “marginal” através de uma relação de poder estabelecida pela classe dominante. Para tal, consultamos Raymond Willians, Stuart Hall, Maria Elisa Cevasco, Antônio Candido, entre outros, além do próprio autor da obra analisada, Homero Homem.

 

PALAVRAS CHAVES: Homero Homem, Estudos culturais, Literatura marginal

 

ABSTRACT: This article will study the novel Cabra das Rocas, written by Homero Homem, a potiguar Brazilian writer (born in Rio Grande do Norte State). Its purpose is to analyze the work in the light of Cultural Studies in order to identify the subject and point out its intersubjectivities. His book provokes reflections on the role of literature as an instrument for the denouncement of social injustices and inconsistencies, especially in marginalized communities, which are situated in peripheral locations. Cabra das rocas also suggests political thoughts on the paradigms that are incorporated into the idea of a marginal subject due to the relations of power established by the dominant class. For the writing of this article, we consulted Raymond Williams, Stuart Hall, Maria Elisa Cevasco, Antonio Candido, among others, and also the author of the work now analyzed, Homero Homem.

 

KEY WORDS: Homero Homem, Cultural Studies, Marginal Literature

 

MINICURRÍCULO: Formada em Letras pela UFRN- Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Especialista em Literatura Luso-brasileira pela mesma universidade, sob a orientação de João Antônio Bezerra Neto, é professora da rede pública do estado do Rio Grande do Norte, poetisa e escritora potiguar com livros publicados e participações em revistas literárias.

 

HOMERO NÃO ERA UM MERO HOMEM:

A LEITURA DE CABRA DAS ROCAS,

SOB A PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS

 

 

Maria José Gomes

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

 

Sou (fui) um oceano.

Homero Homem, in Canto do mar

 

 

UM DEDO DE PROSA SOBRE O AUTOR

O presente artigo pretende propor uma reflexão frente às situações de desigualdades, fios temáticos analíticos daqueles estudos. O romance tem como ambiente ficcional o bairro das Rocas, subúrbio de Natal, e suas adjacências. O sujeito verossímil, metaforizado em João, um garoto de onze anos que sonha em estudar no Colégio Atheneu, instituição frequentada pelos filhos da elite natalense, é o principal elo que vincula a temática à unidade textual do romance, uma vez que a personagem principal perpassa pelos capítulos narrando a sua história e a dos demais moradores como forma encontrada para denunciar, refutar ou colidir com uma sociedade que exclui.

Poeta nascido das águas potiguares e canguleiro por vocação, Homero Homem de Siqueira Cavalcanti representou significativamente o povo potiguar através de sua lírica acentuada nos textos poéticos e em narrativas que redesenham a realidade social dos que moram no antigo bairro das Rocas, ambiente que inspirou a tessitura do seu romance consagrador: Cabra das rocas.[1]

 

O escritor segue o fio ancestral de Manuel Mascarenhas Homem, capitão-mor da capitania de Pernambuco e um dos heróis da história da fundação de Natal.  Neto do desembargador, jornalista, poeta e ensaísta Joaquim Homem de Siqueira Cavalcanti. Nasceu em Canguaretama, RN, em meio às águas robustas que rodeavam o Engenho Catu, de propriedade de seu pai Joaquim Homem de Siqueira Cavalcanti Filho.

Instalado na capital, junto à família, o poeta lapidava suas expectativas em relação ao modo de viver dos moradores nordestinos, habitantes nativos das Rocas: pescadores, marinheiros, salineiros, mulheres, crianças, idosos, analfabetos, enfim, todos os tipos humanos “marginais”.

A região que delimitava o espaço geográfico onde situavam as Rocas e as comunidades ribeirinhas, às margens do Rio Potengi, “Canto do mangue”, “Limpa” e “Chama-maré”, denominada de parte baixa da cidade, abrigava, com toda a maresia, a falta de estrutura e condições inadequadas de habitação, de moradores ávidos pela chegada da modernização, antecipada com o plano diretor que organizaria a estrutura urbana de Natal. Esse contato com os habitantes da região praieira instigou o pensar criativo, ponto de partida para uma sequência de textos literários que vieram, a posteriori, configurar a obra de Homero Homem.

Em 1954, aos 33 anos, Homero Homem engendrou a sua certidão de nascimento artístico literária com uma prosa poética intensamente lírica: A cidade suíte de amor e secreta esperança, uma obra que acendeu o brilho e a inspiração para a produção de seus escritos, resultando em um conjunto de 15 publicações, número que compõe o acervo homeriano. Após esse, veio o Calendário Marinheiro, obra que lhe rendeu os prêmios Alphonsus de Guimarães, pelo INL – Instituto Nacional do Livro – e Paula Brito. Posteriormente, uma sucessão de prêmios banhava a confluência literária de Homero Homem a caminho dos grandes braços de mar que o poemário da praia permite a quem se diz feito de águas: “Há 51 anos, eu trago em mim o mar”. Afirmou numa entrevista para o Jornal do Brasil, no dia 12 de setembro de 1975.

Não apenas na prosa, mas, sobretudo na poesia, seu primeiro amor, Homero revelou-se poeta lírico e telúrico com a produção dos títulos: Tempo de amor; Um doido e sua canção; O país do não chove; Tábua de marés – ganhador do Prêmio Olavo Bilac; Rei sem sono; Canto nacional e Abecedário da Transamazônica – também premiado, desta vez pelo Ministério dos Transportes – e o Livro de Zaíra Kemper. Este era chamado pelo autor de ‘o livro da minha viuvez’ que abriga poemas produzidos entre 1968 e 1972, cuja linha temática diz respeito ao relacionamento do casal.

O mar é um dos eixos temáticos de sua extensa obra lírica. A sua relação subjetiva e profundamente abstrata com este elemento natural esparrama-se sobre as águas metafísicas que fluem de sua imaginação. “Meu mar é existencial. Aos 11 anos comecei a escrever poesia. E nunca mais parei”, profere o poeta do mar naquela mesma entrevista.

 

SENTIDOS ENTRE PERIFÉRICO E MARGINAL

Cabra das rocas é o objeto de estudo selecionado para a produção desse artigo por enquadrar-se nas características apontadas pelos Estudos culturais e por ser uma prosa poética com versos profundamente líricos. Além disso, uma obra rica em elementos linguísticos autenticamente potiguares como forma de valorização de um patrimônio cultural intangível: a linguagem.

A razão que nos levou analisa-la sob a perspectiva dos Estudos culturais está pautada na leitura de um personagem que subverteu os padrões sócio-culturais vigentes no contexto existencial do propagonista. Isso porque, João, a figura verossímil, que simboliza a classe oprimida, rompe com o paradigma instituído pelo sistema de classes, que exclui e assola o homem. Essa ruptura ocorre no momento em que ele é admitido como aluno do colégio Ateneu Norte-riograndense cuja acessibilidade era limitada aos filhos da classe burguesa que habitavam o bairro da Cidade Alta.

A divisão de classes imposta pelo sistema estimulava a criação de novos conceitos que delimitavam o espaço urbano caracterizando os seus moradores através das alcunhas de “canguleiros” e “xarias” que, ao modo dos moradores do bairro das Rocas e da Cidade Alta, eram ofensas graves. No capítulo II da narrativa, temos os conceitos ficcionais que designam os termos utilizados durante as demarcações territoriais:

 

Em nossa cartilha de palavrões, xarias era o supremo xingamento. Designava o morador da Cidade Alta, urbano e próspero, comedor de xaréu, peixe proibido à fome humilde do povo das Rocas […] Na boca dos xarias éramos assim canguleiros, comedores de cangulo.

 

Podemos suscitar uma analogia utilizando os termos “xarias” e “canguleiros”, respectivamente, para metaforizar a ideia de literatura canônica e não canônica uma vez que essas terminologias possuem sentidos equivalentes na perspectiva histórica dos bairros Rocas e da Cidade Alta.

É possível que Homero Homem ao escrever Cabra das rocas tenha como objetivo tratar os temas apenas como forma de denunciar incoerências e, através da sua singularidade poética, trazer ao avesso disparidades sociais escamoteadas pela classe dominante.

Essa página da realidade dos que habitavam os espaços ribeirinhos e marginais, locais adjacentes ao centro nervoso da capital potiguar, não é virada, pelo contrário, é consubstancializada na narrativa com o sentido intersubjetivo das personagens nas falas em que ocorre um diálogo entre Seu Geraldo e João: “E os outros, seu Geraldo? Eles me chamaram de xarias. – Não, menino, você é mais canguleiro do que eles (…). Você é um canguleiro que vai à aula. Ao passo que os outros, que jamais irão à escola, esses nunca serão canguleiros”.

Nessa conversa, especificamente, nota-se que pela educação acontece a vitória da minoria sobre a condição existencial de pobreza dos grupos menos assistidos pelas políticas públicas nos levando a refletir sobre a importância do conhecimento como propulsor do avanço humano.

Além disso, nada impede de investigarmos a possibilidade do autor inferir os termos “canguleiro” e “xarias” associando-os às terminologias literatura canônica e não canônica, a fim também de instigar o leitor a questionar tais classificações, uma vez que a primeira é obrigatória nas grades de disciplinas das escolas públicas, tornando-se requisito imprescindível nos exames escolares. Seria esta uma outra reflexão a cerca dos motivos que levam a literatura local a amalgamar-se nas estantes das bibliotecas como mero instrumento simbólico?

Essa leitura é feita por enxergarmos em Homero Homem um sujeito conectado com o mundo das letras, não somente do ponto de vista literário, sobretudo no que diz respeito às exigências próprias da sua profissão de jornalista, cargo que exerceu em quase toda a sua vida laboral. É cabível vê-lo como um cidadão que, antes de ser autor, era primeiramente leitor do mundo. Essa condição lhe permitia acessar o universo cultural, no eixo da região sudeste, local onde ocorriam as mais notáveis efervescências artísticas. Logo a realidade para ele era muito mais palpável a ponto de influenciá-lo na criação de uma obra que refletia as condições sociais do seu povo, por isso mesmo, Homero refere-se a esse livro como um trabalho literário regionalíssimo.

A ligação com os Estudos culturais, que tinham como meta promover uma reflexão a respeito dos currículos escolares estabelecidos pela burguesia cuja hegemonia era mantida há séculos, é ponderada pelo fato da obra ancorar-se nas questões humanas urgentes como moradia, saúde e educação.

Um dos precursores dos estudos citados, o professor Raymond Williams, sugeria que a grade de disciplinas contemplasse a classe operária inglesa introduzindo uma literatura capaz de atender as expectativas dos trabalhadores com temas sociais voltados para os problemas da classe.

No caso de Homero, entendemos classe como a população ribeirinha que tem, nas imediações, o rio Potengi, locus periférico e existencial, assim como recordamos Antônio Candido no seu livro Os parceiros do Rio Bonito, uma abordagem sobre a mudança do modo de viver do caipira onde o campo também é o seu espaço periférico, e a análise sobre a sociedade rural inglesa em O campo e a cidade, de Raymond Williams cuja discursão promove a abertura de novos olhares para o homem do campo britânico que, como ocorreu com o caipira paulista, acabou ‘perdendo’ seus aspectos culturais primitivos em detrimento a um modo de vida diferente influenciado pelo processo de industrialização.

O discurso do personagem de Cabra das rocas é congruente com a proposta de valorização do homem oprimido servindo de referência para a construção do universo subjetivo do sujeito por ele apresentado na narrativa.

Na sua tessitura poética vê-se, nitidamente, a preocupação com os seus iguais, especialmente neste romance, cujas temáticas são focos discutidos pelos Estudos Culturais como a desigualdade social, geradora da miséria e da desinformação, e o acentuado preconceito com as minorias.

Seria esta uma literatura periférica denunciadora das incoerências analisadas sob o ponto de vista das produções literárias denominadas marginais? Para isso faz-se necessária a compreensão do conceito de periférico e marginal. Segundo Érica Peçanha do Nascimento, o termo literatura marginal serviu para classificar as obras literárias produzidas e veiculadas à margem do corredor editorial; que não pertencem ou que se opõem aos cânones estabelecidos; que são de autoria de escritores originários de grupos sociais marginalizados; ou ainda, que tematizam o que é peculiar aos sujeitos e espaços tidos como “marginais”.

A primeira característica não se enquadra no perfil de Homero Homem, uma vez que Cabra das Rocas fora publicada por uma editora de renome nacional, cuja divulgação estendeu-se amplamente no eixo Rio-São Paulo. Ou seja, recebeu suporte editorial, tornando-se uma obra conhecida nacionalmente, não se restringindo a um grupo de obras meramente regionalistas.

Do ponto de vista do conceito de periférico, a articulista Rejane Pivetta, em seu artigo “Literatura marginal: questionamentos à teoria literária”, comenta: “Periférico diz respeito à linha que define o limite de uma superfície, demarcando, portanto, a forma e a configuração de um espaço ou objeto” (PIVETTA, 2011, p. 32).

Nesse caso, podemos considerar o ambiente no qual ocorre a construção da teia narrativa como periférico, uma vez que o autor se inspirou no bairro das Rocas, subúrbio de Natal, tornando-o elemento geográfico básico para a edificação do romance.

Vale destacar que a literatura marginal surgiu nas periferias das metrópoles com o intuito de discutir e democratizar temáticas referentes às minorias, principalmente no tocante a grupos sociais marginalizados como os negros, os homossexuais e as mulheres. Portanto, trata-se de uma vereda literária que expressa olhar político sobre as condições de sobrevivência humana. A literatura torna-se não apenas um instrumento estético da arte de escrever, mas um veículo emancipador das ideias comuns.

 

Hart Preston, Revista Life, época da guerra.jpg [2ª Guerra mundial].

 

Os conceitos, agora aclarados, nos fornecem subsídios para o argumento de que é possível que a narrativa esteja dentro das perspectivas esperadas pelos Estudos culturais, tendo em vista um corpus artístico literário dotado de marcas analíticas próprias, tais como: versões distintas sobre determinado tema, produção literária com temáticas que dizem respeito às minorias e questões sociológicas, históricas ou geográficas.

Os termos marginal e periférico não são vias de mãos duplas, todavia estão intimamente relacionados. Contudo, o primeiro refere-se àquele que está à margem de posições estabelecidas. No caso da literatura, a oposição se faz ao cânone. O segundo denota o espaço onde àquela literatura se configura, mesmo sendo obra ficcional, especialmente porque, de acordo ainda com a articulista Rejane Pivetta, o texto não é um produto final da atividade criativa, mas um ato de intervenção e participação na vida da comunidade onde ele se produz e circula.

 

A REDE ANALÍTICA DE CABRA DAS ROCAS

Cabra das rocas foi o primeiro romance de Homero Homem embrionado em meados de 1940. A obra de caráter ficcional inspirada na realidade social do bairro onde passara sua infância e adolescência é a leitura prosaica denunciadora das injustiças, do preconceito, da discriminação com aqueles de classes sociais menos favorecidas, da descrença na capacidade humana de superação, da miséria e do analfabetismo.

Lançado em 1966, a peça literária transitava entre as manifestações sociais de um Brasil em processo de mudanças políticas com a vitória quase unânime de Artur da Costa e Silva, a determinação das eleições indiretas para governadores nos estados e prefeitos nomeados na capital pelo AI3, a decisão compelida ao Congresso para a votação na constituição de Castelo Branco pelo AI4 e os Festivais de Música que classificaram canções de protesto ao sistema ditatorial brasileiro. O mundo efervescia: Indira Gandhi, a primeira-ministra na Índia, a VIII Copa do Mundo de Futebol, na Inglaterra, Ronald Reagan eleito governador da Califórnia e demais fatos que marcaram a história servindo de subsídio para impulsionar a produção laboral jornalista do poeta, especialmente pelo fato de que, neste período, ele trabalhava como redator em jornais cariocas, logo vivenciava os acontecimentos que permearam a década de 1960.

 

Acervo Sylvio Pedroza, década de 1940.jp

 

 

Traduzido para o italiano, em 1977, por Danuza Garcez Ourique e Laura Draghi, com o título Gente delle Rocas, a obra ganhou visibilidade internacional, provocando alegria em alguns e desagrado a outros, como os esquerdistas que destilaram críticas ferrenhas, argumentando que o conteúdo estava conivente com as desigualdades sociais e integração à direita, uma vez que, segundo eles, a ambição do protagonista era uma forma de aceitação do sistema. Magoado, Homero rompeu definitivamente com o seu partido, o PSB. Em carta, endereçada ao escritor potiguar Manoel Onofre Júnior, o autor de Cabra das Rocas, comenta indignado as críticas que lhe foram dirigidas.

 

 

Cabra das rocas é um livro regionalíssimo, humilde, potiguar, brasileiro e universal, que não está circulando por todos os idiomas da terra porque me recusei a mudar o seu fim e assassinar o personagem, símbolo da vitória do nosso homem sobre a miséria e o analfabetismo, que não se tratam nem curam literariamente com ideologia (apud PEIXOTO, 2013, p.115).

 

No seu desabafo Homero expõe as ideias centrais de Cabra das rocas enfocando a miséria e o analfabetismo, umas das temáticas que confluem para a proposta de análise dos Estudos Culturais. A narrativa desde sempre se debruça sobre temas que aludem a graves questões da sociedade brasileira.

O forte lirismo telúrico serve de modelo para o que se discute em termos de literatura marginal, tema relevante para os Estudos Culturais, parte da ciência que se preocupa em propagar uma literatura que dê vez à minoria.

Do ponto de vista intrínseco a tessitura de Cabra das rocas se utiliza de elementos da natureza como o mar, que tece uma malha expressiva conectada com o tecido metafórico bem articulado pelo detalhamento das imagens que se consubstancializam. O mar é a principal simbologia aplicada ao corpus temático no qual toda a obra homeriana se configura.

Tem-se uma narrativa intensa que denuncia as injustiças sociais através do personagem principal, a voz representante do povo das Rocas. Sobre esses assuntos Homero Homem faz um comentário pertinente: “Literatura e política são elos da mesma cadeia que impele o homem a abordar as questões coletivas ou individuais” (apud PEIXOTO, 2013, p. 84).

Mesmo sem pertencer à geração de 45 ou seguir as vertentes literárias estabelecidas pela crítica mais apurada e seletiva, Cabra das rocas possui um olhar regionalista com a inferência do léxico regional, cheio de expressões próprias cunhadas no seio da ancestralidade linguística do povo potiguar.

Segundo Manoel Onofre Júnior, no que diz respeito à estética literária, toda a obra homeriana está impregnada de valores românticos: comunhão com a natureza (o mar, especialmente); exaltação da mulher amada; crítica social e política.

A trama se ambienta em um espaço social humilde tendo o mar de Natal, especialmente as praias adjacentes ao bairro das Rocas, como pano de fundo para a construção do romance que, apesar de ter sido classificado assim, apresenta em sua forma extrínseca, características nítidas do gênero Novela por conter no seu corpo literário capítulos enumerados cujas saídas e entradas dos enredos instigam o receptor a gerar expectativas, em um diálogo interativo entre leitor e texto, definido por Roland Barthes

como texto de prazer: “Texto de prazer é aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura”. (BARTHES, 1987, p. 49).

Em oposição à ideia desse tipo de texto, Cabra das rocas desvirtualiza a reação confortável do leitor a partir do momento em que promove reflexões sobre a natureza político-social enfocada no enredo, provocando nele a reavaliação da realidade. Ocorre, nesse caso, o fenômeno da inversão de papeis que Barthes chama de contra- herói: “Ora, este contra herói existe: é o leitor de texto no momento em que experimenta o seu prazer” (BARTHES, 1987, p. 36)

O leitor ávido e atento lança-se sobre a ficção como os banhistas das praias potiguares ao avistarem, maravilhados, os azuis que se misturam pela extensão do mar. Jogam-se, desprendidos, feito olhar astucioso de menino vislumbrado com o primeiro encontro amoroso.

Os retratos construídos sob o olhar atento do prosador e poeta, não apenas detectam incongruências sociais, como apontam as veredas pelas quais transformam o contexto vivido pelas comunidades que tem a periferia como o seu locus existencial.

O corpo físico da obra é dotado de uma estrutura padrão que obedece a reza da produção de livros na categoria infanto-juvenil, cuja linearidade pauta-se na lógica da unidade linguística, ou seja, um texto coerente e coeso no qual esteja sequenciado o começo, o meio e o fim.

Esse olhar não se restringe apenas à forma, mas, sobretudo à temática na qual os ramos textuais se fundamentam ancorados na figura de um menino que almeja, através da educação, romper os paradigmas perpetuados ao longo da história das sociedades, cujo modelo de conduta divide os homens entre dominantes e dominados, além de discutir questões circundantes nas comunidades onde residem os menos assistidos pelas políticas públicas.

Notamos que a segmentação em capítulos foi o meio pelo qual o autor procurou organizar o pensamento conduzindo-o a um desfecho positivo metaforizando a ruptura com a realidade.

Lúdica e poeticamente, a teia narrativa vai se consolidando de maneira sequenciada através dos capítulos que veremos a seguir: o primeiro é “A inscrição”.  Aqui, o leitor tem o contato com o motivo que promove o desenvolvimento da ficção; o desejo de estudar em uma escola da elite. O segundo, “Rocas da frente”. Esse capítulo busca detalhar o ambiente real que serviu como base inspiradora para as ações que se desenrolam ao longo da tessitura. O terceiro é Um homem do mar, onde está descrito o pai de João, referência na formação do caráter do personagem.

Os demais vão amarrando a tessitura de forma que não há como lê-los individualmente.

“As cinco partes do mundo” é o capítulo dedicado aos estudos enquanto mecanismos de reação em prol das mudanças da realidade. É nele que o personagem João se revela um sujeito decidido, com objetivos definidos, focados para o futuro.

Como toda ficção voltada para o público jovem, não poderia deixar de compor o tecido narrativo, “A boca de Dora e Rabicho”, os capítulos sobre as primeiras descobertas amorosas do personagem adolescente. É interessante saber sobre esses capítulos que o texto original de Cabra das Rocas de 1966, especialmente na página onde está detalhada a boca de Dora, há conteúdo sexual, mas que algumas passagens foram suprimidas na versão posterior para adequar à linha editorial da editora que lançara a obra na linha infanto-juvenil.

Após estes se seguem “A briga”, “Xarias e canguleiro” e “Papa ovo”. São essas as partes nas quais o personagem vive momentos ora de tensão, por conta dos desentendimentos comuns entre jovens dessa idade, ora de extrema sensibilidade lírica com a narração detalhada sobre a vida dos animais naquele chão de maresia, sal e mau cheiro.

“A Cerca”, “Correio do mar”, “Carnaval”, “Azul e branco”, “Tatu morrendo de medo” e “Chispa humana” são capítulos que incluem temas sobre as relações sociais entre brancos e negros, o analfabetismo, festas carnavalescas, cultura popular por meio da transmissão oral e os artistas de circos, grupo social também marginalizado.

Como partes que se conectam, a fim de prender a atenção de quem lê, temos “Vintém ou tostão?”, “Um dia muito especial”, capítulo onde se instaura o clímax da narrativa, “Farda cáqui” e “Cabra das rocas”. Esses últimos enobrecem a trama na qual o sentimento de patriotismo se configura com o desejo de ver João, o garoto da periferia do bairro das Rocas, adentrando o ambiente físico sofisticado do Ateneu onde só frequentavam os meninos xarias.

O resumo do corpus nos possibilita uma visão global de Cabra das rocas, mas a leitura intensa e atenta nos permite descobrir muito mais nas entrelinhas a começar pelo lirismo pelo qual o autor se lança elaborando parágrafos como estes:

 

Alto e robusto, ostentava uma força maciça e lenta de marinheiro. Tinha mãos enormes, duras, servidas de dedos curtos. De tão grossos até pareciam inchados os dedos de meu pai. Recordo bem o seu físico agigantado, mas por mais que me esforce não consigo reter as suas feições. Lembro-me bem dos seus olhos. Eram pardos, de uma tonalidade que nunca vi reproduzida em ninguém mais.

 

A escrita homeriana, não apenas neste livro, mas nos demais, especialmente na sua obra poética fortemente telúrica, caracteriza-se pela inferência constante de elementos que compõem a sua terra de origem como a linguagem, realçando a variedade linguística nordestina e o cenário natural em passagens como esta:

 

A noite tombava com a força da copa dos coqueiros. Desci o morro com o primeiro clarão da lua cheia subindo do mar. Minha sombra se destacava na areia frouxa, ainda quente do sol. Lagartos corriam por entre os tufos de cardeiros pontilhados de frutos vermelhos rachados pelo calor da tarde.

 

O autor apropria-se de recursos poéticos fortes e singulares, como figuras de estilo que dão realce às cenas, predominando a personificação. Influenciado pela estética de vanguarda notamos que em grande parte da narrativa, Homero utilizou esta figura de linguagem com o intuito de aproximar o texto do leitor assim como reza a Cartilha do Movimento modernista, como nesta passagem da narrativa: “(…) jogara seu olhinho amarelo como um pequeno sol triste em cima de mim”.

Além dos vários recursos estilísticos, o autor de Cabra das rocas, talvez como forma de declarar seu amor à terra natal, recorreu ao patrimônio cultural intangível, a linguagem própria do povo potiguar, a fim de tornar a obra autenticamente potiguar.  Nota-se um vocabulário “subversivo” em oposição à linguagem clássica literária, como lemos: “Também o bicho era feio mesmo; feio de doer. Até Dona Clara se assustara quando a fera parou à sua frente, roncou forte e fez mungangas, pedindo dinheiro”.

O vocabulário que recheia a narrativa é composto de um universo linguístico próprio que anuncia e conceitua ao mesmo tempo, de acordo com o contexto no qual se insere.

No estudo A construção do pensamento e da linguagem, Vygotsky assegura que signo e significado coexistem, porque se trata de uma ideia que vem do cognitivo. “ Não podemos falar de significado da palavra tomado separadamente. O que ele significa? Linguagem ou pensamento? Ele é, ao mesmo tempo, linguagem e pensamento porque é uma unidade do pensamento verbalizado”. (VYGOTSKY, 2001, p. 10)

Podemos associar essa ideia à palavra Cabra, que faz parte do título deste livro, pois esse termo comporta um significado semanticamente forte com uma conotação abrangente e contextual. Partindo disso, o autor se apropria de um termo que metaforiza o protagonista, sugerindo a constituição de um personagem forte, decidido, capaz de reagir às imposições advindas de um sistema político-social dominante e historicamente perpetuado não se submetendo, portanto, às regras estabelecidas, culturalmente. João, o protagonista, pode ser visto como esse ‘cabra’ resiliente, representante de uma minoria cujo acesso ao universo da elite lhe é ponderado através da visão de mundo difundida pelos ancestrais, de submissão e assolamento.

Todavia, pelo caráter regional e por abranger vários sentidos, tornando-se, pois, uma palavra polissêmica, interpretamos o termo ‘cabra’ levando em consideração os aspectos metafóricos como figura estilística capaz de mostrar antíteses, embora, o personagem João proponha ao leitor a caracterização subjetiva de um sujeito singelo, cordial, generoso e autêntico. Mas, também, corajoso, destemido, certo de suas convicções e, sobretudo, decidido a transformar seu estado social, através da educação.

É um ‘cabra’ também construído sob a ótica da força, não no que se refere à força bruta, mas àquela oriunda das intersubjetividades, das abstrações e dos questionamentos existenciais. Homero é o genitor de um personagem inteligente, reflexivo, questionador, ativo, estudioso, atento, sensível e revolucionário por sair vitorioso nos exames de admissão para cursar o secundário no Ateneu natalense.

A voz verossímil, que se alimenta dessas características para a configuração do personagem principal, é simbolizada por um jovem adolescente de nome João, 11 anos, filho de pescador, morador do bairro próximo ao manguezal e que busca incessantemente tornar-se aluno do Colégio Ateneu, uma instituição que, nas décadas passadas, voltava-se à elite natalense, aos filhos dos provincianos nobres.

Entre rivalidades, bairrismos e ufanismos o personagem é a metáfora mimética da realidade social enredada no tecido narrativo. Essa mesma voz narra e experimenta, por isso a tessitura tem substância, especialmente porque a história possui o foco narrativo ancorado na primeira pessoa. Todavia, há determinadas situações em que o narrador onisciente “salta” do texto, como se estivesse pedindo o direito à voz, como é possível perceber nesse fragmento: “Dona Laura chegou [sic] o bule de flandres, virou o líquido escuro e fumegante na xícara, um quase sorriso se insinuando em seu rosto. Eu me espantava. Aquilo era raro, nela. Talvez fosse alegria pela volta de meu pai”.

Homero Homem escreve como se estivesse saboreando um ensopado de camarão, caminhando pelas ruas do bairro das Rocas ou elaborando trocadilhos com o linguajar próprio do povo potiguar em uma amistosa conversa de calçada que se materializa entre os personagens que dão robustez à narrativa – João e os moradores.

O macrodiscurso solta as amarras do “eu” verossímil dando carta branca à liberdade de ser autêntico, sugerindo que ele navegue pela obra e vislumbre um passeio de jangada sobre as águas verde azuladas do fértil rio Potengi. Esses “eus”, entendidos como vozes que denunciam, mas que também se orgulham da beleza natural da terra estão implícitos nas circunstâncias temáticas que dão corpo à narrativa libertando-os dos vínculos comuns à obras fechadas, ou seja, os micro discursos tem espaço para se desenvolverem no cerne da ficção, mostrando a que vieram, ocupando espaço nas ações e dando os recados propostos  pelo enredo. A narrativa torna-se uma obra aberta, repleta de brechas para o leitor explorar dada a variação de ideias e sugestões temáticas.

De acordo com a análise de discurso, o sujeito pode surgir em determinados lugares da obra, dispersando-se e cumprindo com a sua função social e política. Sobre esse aspecto da análise, Eni Orlandi reflete: Ele é atravessado por várias formações discursivas e isso pode ser entendido dizendo-se que, no texto, o sujeito pode aparecer em várias posições (ORLANDI, 1988, p. 112).

Personagens como Seu Brás, pai de João, e Isaura, a madrasta, são algumas das alegorias que podem representa os “eus” verossímeis analfabetos, uma vez que são seres ficionais cujas funções na narrativa mostrarão ao leitor a realidade histórico-social pela qual viviam os moradores do bairro das Rocas e estimular a reflexão sobre possíveis mudanças de paradigmas implantados no inconsciente do homem nordestino de que, por questões de ordem cultural, devem permanecer submissos. A figura metafórica que representa essa submissão é a da Isaura. No seguir percebemos, de imediato, a mulher na condição de subserviviente. Vejamos: “– Como vai, minha velha? Tem rezado muito? / – Por vosmecê, Seu João, por vosmecê”.

Notemos que além do uso da linguagem corrente, sem refinamento, mostrando que a personagem não passou pelo saber sistematizado da escola, a figura feminina se mostra submissa como alegoria importante para a reflexão do paradigma arraigado há séculos. Todavia, não se trata de uma submissão assoladora da figura feminina, mas uma demonstração amorosa, ingênua e comovida da obediência entendida por ela como parte inerente à mulher.

Vimos outro fragmento substancial que rodeia o tema Analfabetismo onde a personagem dona Clara denuncia-se iletrada. A metáfora preenche a proposta do processo criativo de instigar a reflexão acerca da problemática que circunda todo aquele que não sabe decodificar palavras, simbolizado por um “eu” que se angustia perante a sua condição, mas que tem humildade em reconhecer-se daquela forma:

 

Levantei-me, ganhei o corredor, voltei com o envelope. Pelo caminho, vim lendo. ‘Inselentíssima sinhora Clara dos Santos. Por ispicial obzsequio de mestre Antonho Braz, a bordo do Esperança III’.  Entreguei a carta à Dona Clara. Ela olhou o endereço um tempão, virou e revirou o envelope fechado com muito grude, apalpou-o, e de súbito decidiu-se.

– Quer ler para mim, Joãozinho?

O conjunto temático que costura o enredo possui vários pontos de fuga, abrindo uma palha de coqueiro para outras interpretações, logo, Cabra das rocas oferece ao leitor virtual, aquele construído pelo autor, um discurso polissêmico que agrega situações do cotidiano de uma realidade periférica, mas que também representa um contexto social que não se aplica apenas ao localista, ao ambiente onde a tessitura se propõe concretizada, mas se espraia pelo universal.

Ainda considerando o aspecto estrutural e significativo da obra, vale lembrar o que disse Foucault a respeito do sujeito e do texto à luz da análise do discurso: “O sujeito é visto como descontinuidade e o texto como espaço de dimensões múltiplas” (apud FOUCAULT, 1969).

Em sua teoria da identidade cultural na sociedade moderna chamada por ele de modernidade tardia, Stuart Hall aponta três concepções de identidade que definem o homem enquanto sujeito em determinados tempos e espaços históricos: sujeito do Iluminismo, sujeito Sociológico e sujeito Pós-moderno. O primeiro se baseia em alguém individualizado, um sujeito masculino cujo centro essencial do “eu” é a sua identidade. O segundo reflete uma pessoa que entende a relação entre outros sujeitos como necessária para mediar as conexões entre valores, sentidos e símbolos. E o terceiro é o resultado desse processo de mudanças de posturas e de posições dentro da sociedade em que ele vive. Um processo no qual o sujeito passa a ser fragmentado e envolto em várias identidades.

Considerando as definições de Hall, visualizamos em Cabra das rocas um sujeito sociológico capaz de interagir e “passear” entre os vários tipos de sujeitos que consubistanciam entre si no enredo. São personagens de uma mesma realidade ficcional, mas que possuem características sociais peculiares, indispensáveis na construção da narrativa:

 

A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e autossuficiente, mas era formado na relação com “outras pessoas importantes para ele” que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura- dos mundos que ele/ela habitava (HALL, 1992, p. 11).

 

 

Portanto, enxergamos Cabra das rocas como uma narrativa polissêmica tanto do ponto de vista dos sentidos quanto das identidades representadas pelos tipos humanos, muitas vezes sujeitos culturalmente influenciados pela tradição, mas cientes da importância das relações sociais na construção da sociedade, ou seja, uma obra aberta às variadas formas de leituras, especialmente porque se evidencia ou se espera do leitor que ele traga no seu matulão um contexto de experiências outras capazes de alicerçar a interpretação do texto lido.

 

REFLETINDO O CÂNONE NACIONAL

A literatura canônica está em posição privilegiada sobre a ‘não canônica’ porque existe um sistema editorial que apadrinha, que estabelece, que reforça e que perpetua. Essa posição social, propagada há séculos pelos especialistas e estudiosos, acaba por tolher a possibilidade de literaturas outras, muitas vezes com excelente nível artístico, de receberem a devida atenção de leitores ávidos e de uma crítica independente.

Refletir a superioridade canônica não significa dizer que estamos propondo comparações entre as literaturas. A pretensão é sugerir reflexões acerca da relevância que o acervo canônico exerce sobre aquele que lê. Curiosamente, nem toda obra consagrada pelos parâmetros estabelecidos pelo cânone é acessível, prazerosa e de fácil entendimento. Questões importantes emergem: a sociedade moderna carece de um conhecimento clássico como obrigatoriedade escolar? As obras canônicas não poderiam ser lidas paralelamente às não canônicas? Não seria mais apropriada uma leitura contextualizada, enriquecida por realidades com as quais há identificação sem, contudo, isolar os cânones? A respeito dessa relação contextual Antônio Candido comenta:

 

Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo (CANDIDO, 2000, p. 6).

 

 

Nas instituições escolares é práxis a leitura dos livros que compõem o acervo literário nacional como tarefa obrigatória para quem está disposto a prestar exames vestibulares ou o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Todavia, alguns professores de literatura propõem leituras de outras obras não canônicas, geralmente produzidas em regiões que correspondem ao sul e ao sudeste do país, cujas obras encontram-se nas estantes das escolas, vindas através dos programas do Ministério da Educação como fonte de incentivo à leitura. No entanto, a descontextualização desencanta o leitor, pois em sua grande maioria são jovens de lugares periféricos, estudantes das escolas públicas brasileiras.

O fenômeno ocorre porque o conteúdo foge à compreensão do aluno, uma vez que a realidade que ele conhece é destoante daquela ilustrativa oferecida pela escola, através de uma literatura de cunho exclusivamente didático na qual o estudante deve apenas interpretar o conteúdo (o sentido pelo sentido) e responder aos questionamentos elaborados sem interagir com a obra contra argumentando. Essa prática utilizada pelas pedagogias tradicionais tem sofrido pouquíssimas alterações no decorrer da história educacional brasileira, mesmo com a moda das propostas progressistas ganhando visibilidade neste setor.

Conhecer os cânones universais e nacionais é bastante profícuo, todavia, é imprescindível ler as obras que dizem respeito ao espaço local do aluno. Cabra das rocas, de Homero Homem é um exemplo de que é possível começarmos a introduzir literatura nacional partindo de obras produzidas por autores locais. Como diz o pedagogo brasileiro Paulo Freire: “A primeira leitura deve ser a de mundo”.

É o contato com a sua realidade que propõe ao ser humano essa leitura simbólica que o aluno conhece e que está ao seu alcance, contextualizando, aproximando, propondo releituras, decodificando pensamentos. Antônio Candido se referiu a integridade da obra como a ação que só se concretiza quando texto e contexto se fundem numa interpretação dialeticamente íntegra.

Para o teórico Raymond Willians que preconiza uma literatura abrangente e que atenda às expectativas da classe operária desvirtualizada do universo cultural da elite, os Estudos culturais consistem numa forma de oposição às práticas e disciplinas vigentes. O autor faz referência à cultura comum em detrimento a uma cultura em comum em que haja participação efetiva na construção dos processos de transformação causados pelas mudanças históricas. Segundo ele se a cultura é tudo o que constitui a maneira de viver de uma sociedade específica, devem-se valorizar, além das grandes obras que codificam esse modo de vida, as modificações históricas desse mesmo modo de vida. (Apud CEVASCO, 2003).

Ainda de acordo com Willians Raymond, as formas culturais devem estar à mão de todos os sujeitos sociais, uma vez que essas culturas podem e devem ser renovadas pela participação de todos, ou seja, a necessidade de reinterpretar a realidade pauta-se na ideia de que a cultura não se planeja porque ela advém das intersubjetividades.

 

Devemos planejar o que pode ser planejado, de acordo com a decisão comum. Mas no que diz respeito à cultura, a atitude certa será a que nos lembre de que uma cultura é, por essência, insuscetível de planejamento. Devemos assegurar os meios de vida e os meios para a comunidade constituir-se. Mas o que será a vivência, com base em tais meios, não podemos conhecer e nem traduzir. A idéia de cultura apóia-se numa metáfora: o velar pelo crescimento natural. E é sem dúvida no crescimento, como fato e metáfora, que se deve colocar a ênfase final. Em nenhuma outra área é maior a necessidade de reinterpretação (Williams, 1969, p. 343).

 

Entendemos que Cabra das rocas reverencia essa cultura local e aposta no respeito aos valores culturais como bens intangíveis, mas também que assume a função de instrumento denunciador de uma realidade específica capaz de acompanhar as modificações que o processo de globalização proporciona à sociedade contemporânea.

É uma obra que representa toda a pompa que a literatura potiguar deve ter. Parafraseando o mestre Cascudo: “Quando eu viajar, mais cedo ou mais tarde, a Universidade vai acabar comprando dos meus herdeiros a minha biblioteca. Ninguém é tão burro para dispensar livros tão incríveis.” A nossa expectativa é que aconteça o mesmo com a obra de Homero que não era um mero Homem.

 

 

REFERÊNCIAS

  • BARTHES, Roland. O prazer do texto. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1987.
  • CANDIDO, Antônio. Crítica e sociologia. In.: ______Literatura e sociedade. 8  São Paulo: T. A. Queiroz, 2000; Publifolha, 2000. (Grandes nomes do pensamento brasileiro). P. p. 5 – 16.
  • CEVASCO, Maria Elisa. A formação dos estudos culturais. In ______. Dez lições sobre estudos culturais. São Paulo: Boitempo, 2003.
  • DUARTE, Constância Lima – MACEDO, Diva Cunha Pereira de. Literatura do Rio Grande do Norte. EDUFRN – Editora da UFRN, Natal, 2001.
  • HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tadeu da Silva, Guaraeira Lopes Louro. 11 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
  • HOMEM, Homero. Cabra das Rocas. 14ª ed. Ática: São Paulo, SP. 2003.
  • NASCIMENTO, Érica Peçanha do. Vozes marginais na literatura. Ed. Aeroplano. Rio de Janeiro, 2009.
  • ONOFRE JR, Manuel. Salvados: livros e autores Norte-rio-grandenses. 2ª ed. Sebo Vermelho: Natal, 2000.
  • ORLANDI, EniPulcinelli. Discurso e leitura. Ed. Cortez. São Paulo, 1996
  • PEIXOTO, Alexis. Canguleiro: ensaio biográfico sobre Homero Homem. Caravela Selo Cultural: Natal/RN, 2013.
  • PIVETTA, Regina. Revista Ipotesi, Juiz de Fora, v.15, n.2 – Especial, p. 31-39, jul./dez. 2011.
  • WILLIAMS, R. Cultura e sociedade. São Paulo: Nacional, 1969.
  • WILLIAMS, R. O campo e a cidade: na história e na literatura. Companhia das letras. São Paulo, 2011.

 

NOTA AO TEXTO

1 A primeira versão de Cabra das rocas foi publicada em 1966, mas a selecionada para essa análise é a 14ª edição de 2003, que sofreu pequenas alterações por solicitação da editora Ática para adaptá-la à linha temática e editorial da série Vagalume.

 



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