Revista LitCult – Vol.12 – 2º semestre 2016



HISTÓRIAS DE MULHERES DE UMA FAVELA – Natália de Campos Tamura





Natália de Campos Tamura

Universidade Presbiteriana Mackenzie

  

Resumo: O presente artigo reúne breves histórias de mulheres que vivem na única favela que resta no centro de São Paulo.

 Palavras-chave: mulheres, memórias, histórias de vida, favela.

 Abstract: This article aims to reflect about women´s life histories. They live in the latest slum located at Central region of São Paulo City.

 Keywords: Women, memories, life histories, slum.

Minicurrículo: Mestranda em Educação, Arte e História da Cultura, pela Universidade Mackenzie, Especialista em Gestão da Comunicação pela USP e Bacharel em Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Atuou em Comunicação Corporativa na Indústria Farmacêutica Mantecorp e em Sustentabilidade com Projetos de Voluntariado, Desenvolvimento de Comunidades e Redes de Apoio nas empresas Unimed e Porto Seguro. Hoje é Consultora nas áreas de Comunicação e Sustentabilidade e leciona Responsabilidade Social Corporativa no MBA da Aberje.

 


 

HISTÓRIAS DE MULHERES DE UMA FAVELA

 

Natália de Campos Tamura
Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

 

 

Por que ouvir mulheres de uma favela?

Existe, em nós, uma diversidade de mundos diferentes que nos rodeia. Ainda assim, por mais que sejamos capazes de reconhecer o diferente, talvez, dificilmente o aceitamos como parte da nossa existência, da nossa completude como humanidade. Temos uma capacidade rarefeita de compreender que o outro, mesmo tratando-se de um outro completamente avesso ao que temos por normal, é apenas diferente de nós, não desigual.

Assim, entre todas as imagens que percebemos do mundo, não podemos deixar de considerar que somente temos visões parciais e subjetivas da realidade e que, esta mesma realidade, transcende a visão que podemos ter dela. Como afirma Eclea Bosi,

 

O nosso círculo de experiência é limitado. O nosso espaço vivido no mundo é pequeno. Embora tenhamos a ilusão de participar intensamente desse mundo único que encerra os seres viventes, conhecemos, na verdade, um reduzido espaço dentro dele, e um caminho familiar pelo qual nos guiamos e onde repetimos nossos passos, entre a infinidade de caminhos oferecida a outros seres (BOSI, 1977, p. 97).

 

 

Neste sentido, é tão instigante compreendermos a vastidão do comportamento humano, que sob tantas e diferentes perspectivas influencia e é influenciado por aspectos como a cultura, os estereótipos e preconceitos que transpassam gerações, linguagens verbais e não verbais, memórias, emoções e um dos aspectos que tornam o ser humano único e irreplicável, ao mesmo tempo em que pode o alienar – o cotidiano, como disse Heller (1987).

Dentro deste universo formado por relações complexas, conhecemos algumas pessoas, algumas coisas, alguns pedaços de paisagens, de ruas e alguns livros. Mas não podemos dizer que nosso repertório contempla e testemunha tudo que acontece. Conforme Bosi (1977, p. 97), “presenciamos alguns fatos, mas não a maior parte dos fatos sobre os quais conversamos. Confiamos, porém, nas pessoas que viveram e presenciaram esses fatos”. Com isso, formamos o que a autora chama de confiança social – confiar naquilo que as pessoas contam que viveram – base que forma nossos pensamentos e discursos cotidianos.

Somos formados, assim, da soma de histórias individuais e cada pedaço da cidade tem focos sugestivos que amparam nossa identidade, percepção e memória. Se não podemos dizer que conhecemos a maior parte dos fatos que nos circundam, não podemos afirmar saber como se formam as percepções sociais de pessoas que vivem uma realidade especificamente diferente daquela entendida pela opinião pública, mesmo morando na mesma cidade.

Segundo Milton Santos,

 

O modelo cívico forma-se, entre outros, de dois componentes essenciais: a cultura e o território. O componente cívico supõe a definição prévia de uma civilização, isto é, a civilização que se quer, o modo de vida que se deseja para todos, uma visão comum do mundo e da sociedade, do indivíduo enquanto ser social e das suas regras de convivência. (…). Quando aceitamos que sejam pagos salários de fome a uma boa parte da população, é certo que estamos longe de possuir uma verdadeira cultura (SANTOS, 1989, p. 5).

 

No Brasil permanece firme a ideia de que pessoas com menos condições sociais devam ficar à mercê da sociedade. A afirmação, à primeira vista, parece do século passado, mas quando analisamos o significado da configuração geográfica da cidade de São Paulo – lugares centrais e periféricos denotando boa parte da condição econômica das pessoas que ali habitam – entendemos que ela ainda se faz realidade. Ofertas de emprego costumam ditar esta regra nos centros urbanos, em geral, cobiçados, e dando nome às periferias também como cidades- dormitórios. A periferia, costuma denotar um local onde, em geral, estão pessoas menos favorecidas financeiramente, contraponto do centro, local onde os imóveis costumam ser mais caros, por conta de toda infraestrutura pública consolidada.

No centro da cidade de São Paulo, a cidade mais rica do Brasil temos controvérsias bastante visíveis. Seu centro velho, a parte antiga da região central, compreende entre seus distritos o de Santa Cecília, que, por sua vez, abriga o bairro de Campos Elísios, o primeiro bairro nobre da cidade, onde moraram diversos fazendeiros de café. O bairro, fundado em 1879, e que teve seus tempos áureos e sua elegância, hoje abriga dois grandes problemas crônicos urbanos, indissolúveis, até então, pelos poderes público e privado – em uma das extremidades do bairro a Cracolândia, apelido derivado de crack, dado para uma região onde circulam e até residem, cerca de 2.000 usuários de drogas, além do intenso tráfico delas; e na outra a favela do Moinho, conhecida por ser a única comunidade que resta no centro de São Paulo.

As contradições já começam por tal fato – a cidade de São Paulo, entre as grandes megalópoles do mundo, ser a única que, apesar de ter tantas estruturas culturais interessantes no seu Centro antigo, como Pinacoteca de São Paulo, Museu de Língua Portuguesa, Parque da Luz, Fundação de Energia e Saneamento, Sala São Paulo, o Teatro São Pedro, apenas para citar os mais conhecidos, tem a região abandonada pela falta de segurança e pelo apoderamento da população que evita transitar por medo da violência e da vulnerabilidade a que se sentem expostos. E, por mais que se tenha tentado revitalizar este espaço público, seja por meio de iniciativas públicas de várias instâncias, seja pela privada (impulsionada pelas empresas da região que investem em qualidade de convivência para seu público interno e moradores da região), ainda não se conseguiu vencer o caráter marginalizado e aparentemente abandonado dessa parte de São Paulo.

Ao atravessarmos o Elevado Costa e Silva em direção ao centro da cidade, chegamos a Avenida Angélica que, em seguida, vira alameda Eduardo Prado. Se seguirmos o curso na contramão da via, chegamos a uma rua que parece sem saída, mas dá num trilho de trem da Companhia de Transportes Metropolitanos de São Paulo. Este trilho, que passa embaixo do viaduto Rio Branco, ao ser atravessado, nos leva à porta da comunidade do Moinho, a última favela localizada no centro de São Paulo.

A favela é rodeada por grandes prédios residenciais do bairro de Campos Elíseos, pertencendo ao distrito de Santa Cecília, subdistrito da Sé. O terreno particular foi ocupado, segundo publicações do jornal O Estado de São Paulo em 2002, tendo como área, um pouco mais de 30.000 metros quadrados, o equivalente a três campos de futebol.

A comunidade abriga cerca de 750 famílias (por volta de 2.000 moradores) – onde já moraram mais de 1.200 famílias em 375 imóveis de madeira, conforme os dados da Secretaria de Habitação de São Paulo. O local não tem saneamento básico (água, esgoto ou luz regularizados) e é cenário de diversas vulnerabilidades como a disputa entre a especulação imobiliária e as promessas públicas de regularização fundiária do terreno.

No terreno, em 1949 era inaugurado o Moinho Central, empresa que compunha o grupo Moinho Santa Cruz, também conhecida como Moinho Fluminense, por conta da grande unidade em funcionamento no Rio de Janeiro desde 1887. Segundo a ONG São Paulo Antiga, o Moinho Central, mesmo pouco conhecido do paulistano atual, foi o maior moinho da capital. A empresa operou, segundo relatos da Bunge até meados dos anos 1980. Dos anos 1980 ao final dos anos 1990, nem mesmo o Centro de Memória da Bunge soube nos dizer o que foi feito do terreno desativado. Em 1999, o local foi adquirido por duas empresas particulares durante um leilão da antiga Fepasa (empresa ferroviária paulista). Sem ocupação pelos proprietários, o terreno, em área prevista para ser adensada pela operação urbana, começou a ser invadido por volta de 2002, principalmente após a retirada de moradores da Favela do Gato, localizada nas margens do Rio Tamanduateí.

Entre 2011 e 2012, dois incêndios destruíram centenas de barracos e mataram algumas pessoas – número que ainda gera divergências: a imprensa noticiou duas pessoas, os moradores dizem que foram 30. Apesar da falta de laudos oficiais, esses incêndios são apontados pelos moradores como criminosos que o entendem como um recado para deixarem o terreno.

A favela do Moinho sobreviveu ao adensamento da cidade ao redor. Ainda assim, sentem a força da opinião contrária a sua continuação no terreno em acontecimentos como o citado.

Após o incêndio de 22 de dezembro de 2011, o então prefeito Gilberto Kassab (PSD) disse que todos os moradores seriam removidos para uma Cohab na Vila Leopoldina. No entanto, como o terreno é particular, estudantes de psicologia da PUC, além de promoverem encontros com as mães da comunidade para atendimentos, movem processo para destinar a propriedade aos invasores por usucapião. A prefeitura, impedida de desapropriar a área, durante a campanha para prefeitura de São Paulo de 2012, o então candidato a prefeito Fernando Haddad (PT) propôs a urbanização da região e a regularização fundiária. Há registros gravados pelos moradores da promessa realizada pelo prefeito que não foi cumprida desde então. Para os moradores, o descaso das autoridades também é uma forma de pressioná-los a saírem do terreno.

Uma proposta com mais de dez anos na favela é a Aliança de Misericórdia, uma frente da Igreja Católica, cujos padres construíram diálogo com os moradores e acolheram as crianças em um projeto bem recebido por parte da favela: o Oratório São Domingos Sávio, local de contra-turno escolar que recebe diariamente 120 crianças (60 pela manhã e 60 pela tarde) com atividades culturais, almoço e atendimento psicológico. Além do Oratório, a Aliança de Misericórdia construiu uma creche, fora da favela, em uma das ruas ao lado, e recebe diariamente quase 150 crianças, todas do Moinho, entre zero e cinco anos.

No entanto, os projetos não conseguem beneficiar todas as crianças que moram ali. O público infantil e jovem é quantitativamente expressivo, testemunha diária de experiências carregadas de significados que passam despercebidos pela comunidade do entorno. As crianças são afetadas diariamente por diversos discursos (seus pais ou responsáveis, instituições escolares e religiosas, voluntários, amigos e conhecidos da própria comunidade) e assim vão formando seu “eu”, suas relações interpessoais e seu olhar sobre o mundo.

Também compõe o espaço da favela o tráfico de drogas instalado na região. Crianças e jovens são assediados pelo tráfico de drogas e muitas delas são usuárias desde muito cedo. Outra grande questão é a violência diária que sofrem, muitas vezes de suas próprias famílias, como espancamentos e brigas entre si. Soma-se a tudo isso falta de acesso escolar de qualidade, desvalorização da sua cultura pela sociedade e desconhecimento da riqueza cultural disponível no bairro onde moram.

É nesta favela que moram as mulheres cujas histórias de vida relatamos abaixo. Entrevistei-as entre julho de 2015 e julho de 2016, gravei e transcrevi seus depoimentos, a partir dos quais apresento os textos sobre cada uma:

:

 

UM POUCO DA FÁ…

Fa não sabe ao certo onde nasceu. Talvez seja mineira, como sua mãe diz, talvez não. Não conheceu seu pai, nem por foto. A figura masculina da sua infância traz breves imagens do seu padastro, caminhoneiro que bebia muito, por isso batia em todo mundo e colocava todos para fora de casa até que viesse a polícia e o levasse. Conhecida como maria macho, quando criança, porque gostava de brincar de bolinha de gude, pipa, rodar peão e brigava feio se precisasse. Não era chegada em encosta de menina não. Brincar de boneca era a coisa mais difícil. Saiu de casa aos nove anos, para dormir fora e passar uns dias longe usando drogas.

Quando caiu de vez na rua, aos 11, sabia que só tinha amigo que não prestava. Drogas já faziam parte do seu dia a dia. Até chegar o momento da prisão. Ficou presa um ano e cinco meses por porte de drogas. Mas a maior surpresa foi se descobrir grávida, de um menino ao qual não sabia quem era o pai. Aí ela resolveu tomar um rumo na vida. A convivência conflituosa com o filho ela traz até hoje, quando deixa claro que o ama, mas não se dá com ele. Tem dia que tem vontade de “encher ele” de porrada.

Lembra dos seus passos na prisão, fazendo paralelos com os acontecimentos políticos. Em 1999 Mário Covas, então governador do estado de São Paulo, inaugura a prisão feminina para as portadoras de HIV. Morre em 2001, um mês antes da Fá deixar a prisão e correr direto de volta às drogas, lembrando somente de deixar seu filho aos cuidados da mãe. Na rua, você sabe quando é dia e noite porque escurece e amanhece. Mais nada te importa. Se você marcar algo com alguém, você fura. Só não se esquece de dinheiro. Resolve um dia, por conta própria, parar de usar drogas. E fica limpa dez anos, de pensão em pensão, até ter uma recaída forte, depois de mais dois filhos nascidos.

Chega ao Moinho indicada por uma amiga. Já havia arrumado tanta briga nos albergues por conta da sua personalidade irritante. Era um cômodo pequenininho, não tinha nem banheiro. Pagou 1.000 reais em prestações de 100 por mês. Hoje, um cômodo no Moinho pode chegar a 10.000. Depois de um tempo, compra o barraco ao lado, faz a parte de cima e constrói dois banheiros.

Nunca teve muita paciência pra morar com homem. Quando eles bebem, ela se enche. Nem pensa em namorar. Hoje não. Um sonho é ir ao programa do Rodrigo Faro e conseguir uma casa. Tira o sustento dos filhos puxando carroça. Às vezes passa “uns apertinho”. E, se o armário fica vazio, pede “pras amiga chique” que tem loja no Bom Retiro. Pedir pra quem tem igual ela não resolve. E tem que pagar direitinho porque senão o povo fala.

Chique é pessoa branca, pessoa bonita, bem vestida. Se fala até que é rica. Se bem que as vezes só parece e não é. Uma das “suas amiga chique” tem uma loja de lingerie no Bom Retiro, quando fez tratamento de câncer ficou careca. Fá rapou o cabelo pra ficar que nem ela – linda. Uma amiga que gosta tanto dela que até a chamou pra ir no aniversário do filho, em Guarulhos. Só que Fá se diz bicho do mato, acha que as pessoas vão ficar olhando, então ela nunca vai. Ela até diz que vai pra pessoa não ficar triste, mas onde ela se sente feliz e bem é com sua carroça.

Medo ela só tem de perder os filhos. De mais nada. Caguetar alguém na favela leva para o debate de quem manda nela. Então, não indique onde alguém mora, mesmo se você souber disso. Em favela a gente tem que saber como agir. A coisa pode estar feia, mas isso não quer dizer que você pode chamar a polícia. Um dos seus filhos disse ter vontade de conhecer a Disneylandia, nos Estados Unidos. Mas nunca foi nem à praia, no Brasil.

 

SOBRE A D. ZÉ…

  1. Zé veio da Paraíba, andando, sem destino, com uns sete anos. Quando ela e os irmãos roubavam coisas da casa dos outros pra comer a mãe quebrava eles na madeira. Quando ela dizia que ao crescer ia cair no mundo a mãe dizia que “matava ela”. Ignorância do povo antigo antiga, ela afirma. Quando soube de um homem que pegava gente de menor pra trabalhar nas casas, lá foi ela, vindo parar no Rio de Janeiro, com 18 anos.

Conheceu o pai dos seus filhos, mas logo vieram para São Paulo, onde passou os maiores apertos. Só tinha peixe salgado pra comer quando o marido roubava dos bares, escondendo “nos casco” [dentro de cascos vazios de garrafas?]. Roubava lenha para fazer folha de abóbora pros filhos. Como o marido não arranjava emprego e ela não tinha como trabalhar com 7 crianças, morava um mês em cada lugar para não pagar o aluguel. Quando morava num barraco no Jardim Peri, soube que seu marido estava com outra. Perdeu a cabeça. Expulsou o marido de casa, fez curso e cinco inscrições no “Ticket leite” pra dar pros filhos.

Um dia, tomou umas pinga e foi discutir com o marido na casa da outra. Mas como eles puseram um guarda-roupa na porta, ela não teve forças para entrar. Na semana do Natal ele entrega uma galinha viva pra ela. Ela deu nele com a ave. Ele quase passou com o fusquinha em cima dela, deixando-a toda rasgada, mesmo grávida de um dos filhos dele. Depois de dar queixa na polícia, o marido foi intimado a depositar a pensão dos filhos. A justificativa para ter largado D. Zé é que ela era uma mulher cheia de filho. A vida só com os filhos seguiu bem por um tempo até um dos meninos arranjar treta [arrumar briga] com o pessoal do Jardim Peri.

Quando soube que um dos filhos estava marcado pra morrer, ela foge, carregando seis dos sete filhos do jeito que deu. O mais velho ficou pra trás empinando pipa, o bendito, motivo de desespero de D. Zé por meses até conseguir trazer o filho. Na fuga, D. Zé deixa pra trás os álbuns de fotos dos aniversários dos filhos. Trabalhou em vários lugares temporariamente, mas arrumava treta [briga] porque as mulheres enroscavam com ela. Um dia uma amiga teve a ideia de roubar umas roupas no Brás porque não tinha o que vestir. Foi pegá e apanhou muito.

Algumas vezes foi necessário colocar os filhos pra pedir esmola no farol [sinal de trânsito, em São Paulo]. Às vezes tem que aprender a pedir. Foi parar no Moinho depois de acabarem com a favela no Brás. Boa parte dos filhos arrumou confusão com os donos da favela. Então eles moram longe.

Homens na sua vida, foram só tranqueiras [estorvos]. No começo eles parecem educados, cuidadosos, depois, batem e xingam sem dó. Hoje ela se diz feliz. Tem seu barraco reformado e faz a vida com os cambalachi que consegue. Compra geladeira e TV velha e revende. Conseguiu até ajudar alguns filhos a comprar seus barracos. Mas de todos os filhos, a menina Tá, a caçula, é a que mais merece porque “ajudou ela” a puxar muita carroça. Os outros filhos, apesar “dela” ajudá-los, às vezes roubam dela, ainda mais quando saem sem nada da prisão. Porque roubar da mãe pode. Ela não vai denunciar filho nenhum mesmo. Na verdade já falaram pra D. Zé que os filhos dela não estão todos mortos porque ela vale. E olha que ela não guarda roubo, droga e nem arma. Mas dá pão e café pra quem precisar. Roupa então, boa parte do que ganha manda pra Bahia.

  1. Zé gosta de se recolher às 15 horas. A neta leva até bolacha na cama pra ela. Pra quem nunca imaginou ter uma TV já teve até duas. Seu sonho era comprar um pedacinho de terra longe dali. Plantar couve e coentro pra comer com polenta. Ela ama polenta bem fresquinha. Quando ela mudar, vai a quadrilha – ela e os três netos. Os netos gêmeos da outra filha ela também gostaria de levar porque eles apanham muito dela.

Realizou seu sonho em 2016. Foi embora do Moinho com os três netos que moravam com ela para um pedacinho de terra que comprou num terreno invadido na Zona Sul. Só que perdeu os netos gêmeos para o Conselho Tutelar.

 

A VIDA DE LÔ…

Lô, não gosta de falar a idade. Com quase quarenta anos, nasceu em Minas Gerais. Sua mãe a colocou pra fora de casa com nove anos. Foi aos 17 que ela foi morar definitivamente na rua porque era dependente química, alcoólatra compulsiva e puta. Não tira a razão da mãe. Lidar com dependente químico 24 horas é difícil.

O primeiro filho nasceu em Minas e foi adotado por um casal. Apesar de ter uma vida muito melhor do que Lô poderia lhe dar, ele é revoltado. Tem tudo que quer, mas reclama muito – e a culpa por tê-lo abandonado.

O segundo filho foi roubado dela no parto. Sob efeito de drogas, ela lembra que a anestesia não pegou e que fizeram a cesária e a costuraram daquele jeito mesmo. Depois disseram que ela não tinha tido um filho. É a máfia que pega crianças, ela diz. Hoje, com 12 filhos, quatro dela e oito que adotou da rua, reza a Deus que alguém cubra seu filho como ela cobre o filho dos outros. Dos filhos de rua que moram com ela todos sofriam abuso ou eram espancados pelos pais e padrastos. Morou muitos anos em uma maloca, debaixo do viaduto da avenida São João onde cozinhava na rua, era louca de tanto cheirar cola e fumar crack e muita gente a chamava de mãe. Nunca passou 24 horas na Cracolândia. Fumava sempre longe dali. Acredita que tinha que respeitar a sociedade pra ser entendida como sociável. Mesmo muito louca, não deixava de cozinhar pra quem tinha fome e abraçar os filhos que precisam de aconchego

Está há 13 anos limpa [sem usar drogas]. É porque o que a gente quer, a gente consegue. O negócio é não ficar reclamando. Homem? Ela viveu mais de 16 anos com o pai de seus filhos e foi muito feliz. Só que ele regrediu – fumou tudo que conquistaram. Homem na verdade só serve pra te dar filho e encher o saco. Não teve infância porque pobre lá tem infância? Não estudou porque não teve cabeça pra isso. E apesar de ter sido muito espancada pela mãe, não tem dúvidas: sua mãe é a mais guerreira das mulheres e a melhor mãe do mundo. Mas não tem contato com ela há anos.

Lô se diz maloqueira [favelada], mas tem facebook e mantém contato com seus irmãos – todos têm estabilidade. Um é professor de hip hop, outro tem carro próprio e tem uma irmã que está se formando. Mas, mesmo seus irmãos indo à igreja, não conseguem dizer aos filhos que os ama, diferentemente de Lô que diz isso a toda hora aos seus. Leva os filhos à Cracolândia e mostra as opções: estudar e ser alguém na vida ou viver naquela escolha.

Ficou presa um ano por comercializar drogas. Depois se envolveu três anos com um portador de HIV. Quase enlouqueceu os agentes do posto de saúde. Todo mês aparecia para fazer os exames e se certificar que não estava bichada. Quando sua filha lhe pediu uma calça de R$ 150,00 – não que ela se importe de comprar no Brás – fez questão de levá-la ao shopping para escolher a que queria. Vaidade? Diz que não. É uma questão que se ela quer, ela pode. Lô tinha duas ratazanas de estimação, quando morava no Moinho. Às 22 horas, bastava chamá-las. Reconheciam a voz da dona. Eram muito inteligentes. Descascavam até banana. Alguém fez maldade e sumiu com o Tico e o Teco.

Outra mágoa é terem vendido seu cavalo. Foi o último marido viciado em drogas que vendeu pra fumar umas. Por isso ela não o perdoa e não volta pra ele. Em um dos projetos do bairro do qual fazia parte, um senhor, de classe, comentou que queria conhecer seus filhos. Quando os apresentou, o homem se surpreendeu com a educação das crianças. Lô, mesmo maloqueira, como se diz, fala com orgulho da educação que deu aos filhos e preza pelas roupas limpas das crianças. Mesmo quando morava debaixo do viaduto, ariava toda semana suas panelas e não podia secar com pano para não perder o brilho. Também trocava roupa de cama e toalhas todos os dias.

Seu sonho é ver os filhos crescerem, se formarem e terem oportunidades melhores na vida do que ela. Sem contar a luta pela moradia digna na qual ela acredita e a motiva a levantar todos os dias. Um dos seus filhos pequenos quer ser policial – pra fazer as coisas certas na vida, como ele diz.

 

AS MEMÓRIAS DE MI…

Mi chegou ao Moinho quando tinha 18 anos e estava grávida do primeiro filho. Já tinha passado por várias casas na periferia de São Paulo antes de chegar a morar na favela. Ficou um ano trancada no seu barraco porque tinha medo e não sabia como conviver com a nova realidade. Já trabalhou em firma, bar, lavando carro em estacionamento e até com drogas, que ela nunca usou. Por conta disso, foi acusada de coisas que não fez e chegaram até a colocar uma arma na sua cabeça.

Da infância ela não lembra muito. Aprontava bastante na escola e batia nos meninos. Era muito mulher macho. Que ela saiba é filha única e tem enorme apreço pela mãe que batalhou muito para criá-la. Se precisasse daria seu coração pra salvar sua mãe. Pra salvar seus filhos também. Desde que eles estivessem certos. Se estiverem errados…

Mi sente vontade até hoje de ter conhecido o seu pai e ter perguntado por que a abandonou. Não o conheceu nem por foto. Tem quatro filhos, um de cada pai, e nenhum dos pequenos convive com o pai porque [cada] um vale menos que o outro, segundo ela. Para o futuro, ela deseja que os filhos se formem, façam uma faculdade e construam suas famílias depois de estudar. Porque a gente tem que ter uma aprendizagem pelo futuro pra ter uma posição melhor. Namorar agora não dá futuro. Ensina para os quatro filhos homens que em mulher não se bate, nem se ela for a pior puta. É melhor [se] separar. Ela já apanhou muito de homem, mas sempre deu de volta. Já arrancou até dente deles, conta com orgulho.

É feliz onde vive, mas sonha em pagar as dívidas, juntar dinheiro e ir embora dali. Porque quem mora numa favela tem dificuldade até de arrumar emprego. É mal visto. Pra educar os filhos vale tudo. Até quase enforcar o mais velho, ela já tentou. Porque se ela não educar agora, polícia mata ele amanhã. Acredita que ser mãe não é só cuidar e pôr comida ou lavar roupa. Mas é aquela que ensina, que explica e que mostra a realidade pros filhos. É ser dura na hora certa. Dizer não e não e acabou. Acredita em Deus e reza pelas poucas amigas que conta nos dedos.

 

Referências bibliográficas

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