ESCRITORES



EXPEDIÇÃO MONTAIGNE





Autor: Antônio Callado
Título: EXPEDIÇÃO MONTAIGNE, EXPÉDITION MONTAIGNE
Idiomas: port/fra
Tradutor: Jacques Thiériot
Data: 23/12/2004

EXPEDIÇÃO MONTAIGNE

CAPÍTULO X

Antônio Callado

Desde a morte de Maria Jaçanã ninguém mais tinha procurado Ieropé para fumigação, massagem, receita, conselho, consolação e nem mesmo papo, companhia, mexerico, nada, como se ele, feito a Jaçanã, já tivesse morrido e sido enterrado na beira da lagoa. O único sentimento que ele ainda parecia capaz de despertar era o da suspeita, da desconfiança, não alguma suspeita de susto e medo, como ele inspirava, e gostava de inspirar, antigamente, e que se devia a suas ligações evidentes, profissionais mesmo, com o mundo dos espíritos, dos mortos, com alma dos que adormecem pra sempre e que está ainda sem pouso certo. Ele tinha sido quando moço homem de grandes có1eras e cegas iras que levantavam até as pálpebras dele, redondas e hirtas feito batoque de pau de beiço de suiá, e, quando se passavam muitos dias nem nada enraivecer ele, Ieropé de repente fingia que estava furioso e aterrava a aldeia inteira, pra não perder o pique e o respeito geral entre os vivos e entre as almas também, que, amedrontadas, ficavam mais dóceis, mais submissas, boas de arregimentar, aperfeiçoar, na medida do possível, e trancar de novo, em seres de concepção recente. Gostava de dominar e até de humilhar, naquele tempo, as almas experientes, ávidas de atividade, mandonas, mas sem membros, no momento, sem ferramentas, e de pôr ordem entre as almas rebeldes, preguiçosas ou apenas brincalhonas, que, em lugar de aceitarem logo nova encarnação, achavam engraçado cair na vagabundagem, atormentando os vivos ou se divertindo à custa deles, pregando sustos, se enfiando em cana de taquaras pra gemer feito flauta, ou, o que era mais grave, invadindo pessoas ainda vivas e ocupadas, que ficavam assim com duas almas, o que quando não dava em doidice visível dava em bobeiras sem razão e extravagâncias.

Agora, sem a veneração e o pavor dos vivos, Ieropé sentia que as almas de folga, disponíveis, começavam também a não ligar pra ele, ao ponto de, durante um tempo, terem passado a obedecer muito mais ao aprendiz que ele tinha tido, o menino Javari, muito talentoso e severo na lida com alma destrambelhada e metida a valente e emancipada. Mas o que balançava mesmo de vez a oca e a cuca de Ieropé no abandono em que ele vivia – e que ele quase aceitava, como alguma treda tramóia de Maivotsinim, que estava, Ieropé achava que era isso, fazendo ele ficar sozinho, sem ninguém, pra ele poder pensar e pensar o tempo todo e resolver como é que ela ia, com feitiços, destrançar Fodestaine, desmanchar a vida que ele tinha vivido – era, em primeiro lugar, aquela guerra do filho e parentes da Maria Jaçanã. O filho, em vida dela, não ligava pra ela e cuidava tão bem dela quanto da puta que pariu, mas agora vivia dizendo que Ieropé tinha matado ela porque não tinha dado a ela penicilina, como se depois de aparecer essa merda de penicilina do Fodestaine ninguém mais que tomasse penicilina tivesse morrido no mundo inteiro. E ainda tinha o pessoal da BR-080, com aquela conversa de que a morte do albino branco-aço, colega deles, que era cor-de-rosa mas tinha alcunha de Baio, não ficava assim não, que eles não tinham visto a hora que ele levou a cacetada mas sabiam que quem tinha dado a cacetada tinha sido o pajé. Tinha, sim, tinha sido o pajé e com uma bordunada na cabeça do Baio que não era de ninguém botar defeito ou pedir penicilina pra racha não, mas certeza, certeza ninguém tinha que tinha sido ele e o Baio bem que merecia, correndo atrás de tudo que era indiazinha camaiurá saidinha da escuridão do resguardo, e…

Mas o velho pajé tudo agüentava porque sabia que estava protegido por todos os cantos, por três forças de três almas de três mortos que ele tinha resolvido hospedar e guardar: um tuxaua, um lutador de huka que nunca tinha sido pego pela perna e nem nunca tinha deitado no pó do terreiro, e um pajé, que atendia pelo nome de Kutumapu, tão poderoso que não dava a confiança de dar ordem aos homens e às mulheres, só se entendendo, quando eles estavam dormindo, com as almas deles, que saíam dos corpos e vinham fazer beiju pra ele e depois colocavam a vontade dele, pajé, dentro dos corpos, quando voltavam. Pois essas forças prisioneiras de Ieropé sabiam que, no albino branco-aço chamado Baio, Ieropé tinha tido o aviso que aguardava, da terceira vinda de Fodestaine, que não era albino, nem branco-brasileiro, era lourão mesmo, mas o Baio até que tinha parecido louro, visto pela frincha da pálpebra pesada do pajé. E era aviso, lá isso era, e se ele tivesse tempo de pensar e pensar como queria e como Maivotsinim mandava, ia saber destrançar o tempo, desmanchar, desfazer, desfiar até chegar diante de Fodestaine e não deixar nem permitir que ele tivesse tido o descaramento de acontecer.

(…).

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Fonte: Callado, AntonioA Expedição Montaigne: romance. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 53-56.

EXPÉDITION MONTAIGNE

Chapitre X

Antônio Callado

Depuis la mort de Maria Jaçanan, personne n’avait plus recouru à Iéropé pour une fumigation, un massage, une prescription, un conseil, une consolation, ni même une converse, une compagnie, un cancan, rien, comme si lui, pareil que la Jaçanan, était, déjà mort et enterré au bord du lac. Le seul sentiment qu’apparemment il était encore susceptible de susciter, c’était la suspicion, la méfiance, mais ce n’était plus la suspicion provoquée par la crainte et la peur qu’autrefois il inspirait, et aimait inspirer, et due à ses liens évidents, professionnels même, avec l’âme de ceux qui dorment pour toujours, avec les âmes qui n’ont pas encore trouvé leur asile définitif.

Dans sa jeunesse, Iéropé avait été un homme porté à de grandes colères et des fureurs aveugles qui allaient jusqu’à lui exorbiter les paupières, rondes et roides comme les rondelles de bois dont les Souïas s’incrustent la lippe, et quand plusieurs jours s’écoulaient sans que rien ne le mêt en rogne, il feignait soudain d’être furieux et terrorisait tout le village, pour ne pas perdre son allant non plus que le respect général aussi bien des vivants que des âmes qui, épeurées, devenaient plus dociles, plus soumises, faciles à enrégimenter, à perfectionner, dans la mesure du possible, et à enfermer de nouveau dans des êtres récemment conçus. Il aimait dominer, et même humilier, à cette époque, les âmes expérimentées, avides d’activité, autoritaires, mais sans membres, pour le moment sans attributs, et également imposer l’ordre parmi les âmes rebelles, paresseuses ou simplement espiègles qui, au lieu d’accepter d’emblée une nouvelle incarnation, trouvaient amusant de se laisser aller au vagabondage, tourmentant les vivants ou se divertissant à leurs dépens, leur fichant la frousse, s’enfilant dans des tiges de bambou pour gémir comme une flûte, ou bien encore, circonstance aggravante, envahissant des personnes encore vivantes et déjà habitées qui du coup se retrouvaient avec deux âmes, ce qui provoquait chez ces personnes, sinon une insanité manifeste, du moins des lubies et des extravagances.

A présent, privé de la vénération et de la peur des vivants, Iéropé subodorait que les âmes désoeuvrées, disponibles, commençaient à leur tour à ne plus se soucier de lui, la meilleure preuve c’était que durant un certain temps, elles s’étaient mises à obéir à son apprenti de l’époque, le jeune Javari, plein de talent et de sévérité dans l’art de se colleter avec les âmes écervelées, fanfaronnes et émancipées. Mais ce qui faisait vaciller pour de bon la paillote et la jugeote d’Iéropé dans l’abandon où il vivait – et qu’il acceptait presque, comme une traîtresse manigance de Maïvotsinim, oeuvrant, se figurait Iéropé, pour qu’il se retrouve tout seul, sans personne, à devoir penser et repenser sans arrêt, à décider comment est-ce qu’il allait, grâce à ses sortilèges, détortiller Foutestaine, démantibuler la vie qu’il avait vécue – c’était, au premier chef, cette foutue guerre que lui faisaient le fils et la parentèle de Maria Jaçanan. Le fils, quand elle était encore en vie, ne s’occupait pas d’elle et s’en foutait de son sort, mais maintenant il passait son temps à dire que Iéropé l’avait tuée parce qu’il ne lui avait pas donné de pénicilline, comme si après l’apparition de cette saloperie de pénicilline de Foutestaine plus personne qui en aurait pris ne serait mort dans le monde entier. Et par-dessus le marché Iéropé avait sur le dos les ouvriers de la nationale BR-80 qui répandaient que la mort d’un de leurs copains, un albinos à la peau rose mais surnommé le Bai, ça n’allait pas se passer comme ça, ils n’avaient pas vu l’heure où il s’était dégusté son coup de casse-tête mais ils savaient bien que çui qui l’avait donné, le coup de casse-tête, ç’avait été le pajé. Effectivement, le pajé était l’auteur du coup, un coup impeccable qui avait si bien fendu la cafetière du Bai que même la pénicilline ne l’aurait pas ramené à la vie, mais dire qu’on était sûr et certain que ç’avait été le sorcier personne ne pouvait et après tout le Bai n’avait eu que ce qu’il méritait, à force de cavaler aux trousses de toutes les petites Indiennes camaïouras qui s’esbignaient de l’obscurité de leur retraite rituelle et…

Mais le vieux pajé supportait tout parce qu’il se sevait protégé par les trois forces de trois âmes de trois morts qu’il avait décidé d’accueillir et de garder : un chef de tribu, un lutter de houka-houka qui n’avit jamais été empoigné par la jambe ni renversé dans la poussière de la lice, et un pajé, qui répondait au nom de Koutoumapou, si puissant que, se méfiant de donner des ordres aux hommens et aux femmes, il n’avait de commerce, pendant leur sommeil, qu’avec leurs âmes : celles-ci sortaient des corps et venaient lui offrir des cassaves et ensuite mettaient ses volontés de pajé dans ces corps, quand elles y retournaient. En effet, ces forces captives de Iéropé savaient que par l’intermédiaire de l’albinos surnommé le Bai Iéropé avait reçu l’avertissement qu’il attendait, celui de la troisième venue de Foutestaine qui n’était ni albinos ni blanc-brésilien mais parfaitement blond, car le Bai déjà, vu à travers la fente des paupières lourdes du pajé, pouvait passer pour blond. C’était un avertissement, à n’en pas douter, et s’il avait le temps de ressasser ses pensées comme le voulait et l’ordonnait Maïvotsinim, il saurait détortiller le temps, le démantibuler, le défaire, le défiler jusqu’à tant qu’il se retrouve face à Foutestaine, à qui il devait défendre, interdire d’avoir eu l’outrecuidance d’exister.

(…).

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Fonte : Callado, AntonioExpédition Montaigne : roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot. Paris : Presses de la Renaissance, 1989. p. 55-58.



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