ESCRITORES



ESSA TERRA





Autor: Antônio Torres
Título: ESSA TERRA, Cette Terre
Idiomas: port/ita
Tradutor: Jacqués
Data: 26/12/2004

 

 

 

 

ESSA TERRA

Essa terra me chama
1


Antônio Torres 

– Se estiver vivo um dia ele aparece, foi o que eu sempre disse.
– O que foi que o senhor disse?
Naquela hora eu podia fazer uma linha reta da minha cabeça até o sol e, como um macaco numa corda, subir por ela até Deus – eu, que nunca tinha precisado saber as horas.
Era meio-dia e eu sabia que era meio-dia simplesmente porque ia pisando numa sombra do tamanho do meu chapéu, o único sinal de vida na velha praça de sempre, onde ninguém metia a cabeça para não queimar o juízo. Loucos ali só eu e o matuto com seu cavalo suado, que surgiu como uma aparição dentro de uma nuvem de poeira, para deter a minha aventura debaixo da caldeira de Nosso Senhor.
– Qualquer pessoa deste lugar pode servir de testemunha. Qualquer pessoa com memória na cabeça e vergonha na cara. Eu vivia dizendo: um dia ele vem. Pois não foi que ele veio?
– O senhor estava com a razão.
– Ele mudou muito? Espero que ao menos não tenha esquecido o caminho lá de casa. Somos do mesmo sangue.
– Não se esqueceu, não, tio – respondi, convencido de que estava fazendo um esclarecimento necessário não apenas a um homem, mas a uma população inteira, para quem a volta do meu irmão parecia ter muito mais significado do que quando o dr. Dantas Júnior veio anunciar que havíamos entrado no mapa do mundo, graças a seu empenho e à sua palavra de deputado federal bem votado. Foi um dia muito bonito, tão bonito quanto os dias de eleição, embora sem as arruaças, as cervejas e as comidas dos dias de eleição, porque tudo aconteceu de repente, sem aviso prévio. O deputado subiu no palanque feito às pressas em frente do mercado, ergueu seu paletó empoeirado sobre todos nós e disse que o Junco agora era uma cidade, leal e hospitaleira. Agora podíamos mandar no nosso próprio destino, sem ter que dar satisfações ao município de Inhambupe – e foi justamente essa parte do discurso que o povo mais gostou. E no entanto esse dia já está se apagando da nossa lembrança, apesar de nada mais ter acontecido daí por diante.
Quem não mudou em nada mesmo foi um lugarejo de sopapo, caibro, telha e cal, mas a questão agora é saber se meu irmão ainda se lembra de cada parente que deixou nestas brenhas, um a um, ele que, não tendo herdado um único palmo de terra onde cair morto, um dia pegou um caminhão e sumiu no mundo para se transformar, como que por encantamento, num homem belo e rico, com seus dentes de ouro, seu terno folgado e quente de casimira, seus ray-bans, seu rádio de pilha – faladorzinho como um corno – e um re1ógio que brilha mais do que a luz do dia. Um monumento, em carne e osso. O exemplo vivo de que a nossa terra também podia gerar grandes homens – e eu, que nem havia nascido quando ele foi embora, ia ver se acordava o grande homem de duas décadas de sono, porque o grande homem parecia ter voltado apenas para dormir. Levanta, cachorro velho, antes que os morcegos te comam. Acorda, antes que a alma penada do teu tão saudoso avô queira um relatório completo da tua viagem. Anda depressa, que ele está saindo da cova para vir dar um tapa nas tuas costas: – Caboco setenta. Tu vale por setenta deste lugar. – Por que, Padrinho? – Porte tu já conhece quatro estados do mundo, não é, meu fio?
Eu estava louco para tomar um banho no tanque velho (lá mesmo, onde todos nós vamos morrer afogados) e queria que meu irmão fosse comigo e estava pensando em arranjar uma jega, a mais fogosa que houvesse, para o famoso Nelo matar a saudade de um velho amor.
– Diga a ele que ele nasceu ali – meu tio apontou para o lado do curral da matança. – Diga também que eu carreguei ele no meu ombro.
– Nelo se lembra de tudo e de todos, tio. Nunca vi memória tão boa – insisti -, para não deixar a menor dúvida em seu espírito. E só então ele haveria de permitir que eu continuasse a minha caminhada.
– Fico muito satisfeito – meu tio sorriu, no seu jeito encabulado de homem sério, e o cavalo me cobriu com outra nuvem.
A alpercata esmaga minha sombra, enquanto avanço num tempo parado e calado, como se, não existisse mais vento no mundo. Talvez fosse um agouro. Alguma coisa ruim, muito ruim, podia estar acontecendo.
– Nelo – gritei da calçada. – Vem me ensinar como se flutua em cima de um tronco de mulungu. Me disseram que você já foi bom nisso. Não ouvi o que ele respondeu, quer dizer, não houve resposta. Não houve e houve. Na roça me falavam de um pássaro mal-assombrado, que vinha perturbar uma moça, toda vez que ela saía ao terreiro, a qualquer hora da noite. Podia ter sido o meu irmão quem acabava de piar no meu ouvido, pelo bico daquele pássaro noturno e invisível, no qual eu nunca acreditei. Atordoado, me apressei e bati na porta e bastou uma única batida para que ela se abrisse – e para que eu fosse o primeiro a ver o pescoço do meu irmão pendurado na corda, no armador da rede.
– Deixa disso, Nelo – bati com a mão aberta no lado esquerdo do seu rosto e devo ter batido com alguma força, porque sua cabeça virou e caiu para a direita. – Deixa disso, pelo amor de Deus – tornei a dizer, batendo na outra face, e ele se virou de novo e caiu para o outro lado.
Pronto.
Eu nunca mais iria querer subir por uma corda até Deus.

______

Fonte: Torres, Antônio. Essa terra. 3a ed. São Paulo: Ática, 1979. p. 17-19.

CETTE TERRE

Cette terre m’appelle
1


Antônio Torres

-S’il est vivant, un de ces jours il rapplique, c’est ce que moi j’ai toujours dit.
-Répétez voir ce que vous avez dit.
Sur le moment, j’aurais pu tracer une ligne droite de ma tête au soleil et, comme un singe sur une corde, monter dessus jusqu’a Dieu – moi, qui n’avais jamais eu besoin de savoir l’heure.
Il était midi et je savais qu’il était midi simplement parce que je marchais sur une ombre de la taille de mon chapeau, seul signe de vie sur la vieille place de toujours, ou personne ne mettait la tête de crainte de se bruter la jugeote. Sauf moi et un autre fou, le croquant sur son cheval en sueur, qui avait surgi comme une apparition au milieu d’un nuage de poussiere, pour suspendre le cours de ma destinée sous la chaudiere de Notre Seigneur.
-N’importe qui du coin peut servir de témoin. N’importe qui avec de la mémoire dans la tête et de la vergogne au visage. Moi, je passais ma vie à dire : un de ces jours il revient. Eh bien le voilà revenu, pas vrai ?
-Vous aviez bien raison.
-Est-ce qu’il a beaucoup changé ? J’espere au moins qu’il a pas oublié le chemin de notre maison. Nous sommes du même sang.
-Il ne l’a pas oublié, bien sur que non, mon oncle – j’ai répondu avec la conviction que je donnais cette assurance nécessaire non pas seulement à un homme, mais à une population au complet, pour qui le retour de mon frere somblait avoir bien plus d’importance que le jour ou Maître Dantas Junior était venu annoncer que nous étions entrés dans la carte du monde grace à son entregent et à sa parole de député fédéral confortablement élu. Ç’avait été un jour bien plaisant, aussi plaisant que les jours d’élection, quoique sans les chambards, ni les bieres, ni les bouffes des jours d’élection, vu que tout était arrivé à l’improviste, sans qu’on soit prévenu. Le député avait grimpé sur l’estrade montée en hate en face du marché, il avait brandi sa veste couverte de poussiere au-dessus de nous tous et il avait dit le Junco dorénavant, c’était une ville, loyale et hospitaliere. Dorénavant nous pouvions prendre en main notre propre destin, sans avoir à rendre de comptes à la commune d’Inhambupe – et c’est précisément cette partie du discours que les gens avaient le plus appréciée. Et pourtant ce jour-là s’efface déjà de notre souvenir, bien que plus rien d’autre ne soit arrivé depuis.
Qui n’a vraiment pas changé, c’est ce patelin de pisé, hourdis, tuile et chaux, mais il s’agit maintenant de savoir si mon frere se souvient encore de tous les parents qu’il a laissés dans nos garrigues, un par un, lui qui n’ayant pas hérité le moindre lopin de terre ou tomber mort, un jour est monté sur un camion et s’en est allé de par le monde pour se changer, comme par enchantement, en un homme beau et riche, avec ses dents en or, son costume ample et chaud de cachemire, ses raybans, son transistor – bavard comme un cornard – et une montre qui brille plus que la lumiere du jour. Un monument en chair et en os. L’exemple vivant que notre terre comme une autre pouvait engendrer de grands hommes – et c’est à moi, qui n’étais même pas né quand il était parti, qu’il incombait d’arracher le grand homme à deux décennies de sommeil, puisque le grand homme apparemment n’était revenu que pour dormir. Leve-toi, vieux chien, avant que les chauves-souris ne te mangent. Réveille-toi, avant que l’ame en peine de ton regretté aïeul ne réclame une relation complete de ton voyage. Dépêche-toi, il est en train de sortir de sa tombe pour venir te donner une tape dans le dos : – Sacré Caboco Septante. T’en vaux septante de ceux d’ici. – Et pourquoi, parrain ? – Parce que tu connais déjà quatre Etats de ce pays, pas vrai, mon fi ?
J’avais une envie folle de prendre un bain dans le vieux réservoir (là même ou nous allons tous mourir noyés) et je voulais que mon frere m’accompagne et je pensais dégoter une jument – la plus fougueuse possible – qui fasse oublier au fameux Nelo un amour de toujours.
-Dis-lui qu’il est né ici – mon oncle a montré le corral d’abattage. – Dis-lui aussi que je l’ai porté sur mes épaules.
-Mon oncle, Nelo se souvient de tout et de tous. Je n’ai jamais vu de mémoire aussi bonne – j’insistais, pour n epas laisser le moindre doute dans son esprit. Sans quoi il ne m’aurait pas permis de continuer mon chemin.
-Voilà qui me donne bien du contentement – mon oncle a souri, à sa façon réservée d’homme sérieux, et le cheval m’a couvert d’un autre nuage.
La sandale foule mon ombre : j’avance dans un temps figé et muet, comme si le vent avait disparu de ce monde. C’est peut-être un présage. D’un malheur, d’un tres grand malheur qui est bien pres d’arriver.
-Nelo – j’ai crié en pleine rue. – Viens me montrer comment on flotte à cheval sur un tronc de mulungu. On m’a raconté que t’avais le coup pour ça. Je n’ai pas entendu ce qu’il a répondu, car en fait il n’y a pas eu de réponse. Pas de réponse, mais une réponse quand même. A la plantation on me parlait d’un oiseau de mauvais augure, qui venait agacer une fille, chaque fois qu’elle se rendait au terreiro (1), à toute heure de la nuit. C’est peut-être mon frere qui venait de siffler à mon oreille, par le bec de cet oiseau nocturne invisible, auquel je n’avais jamais cru. Abasourdi, j’ai pressé le pas et j’ai cogné à la porte, un seul coup a suffi pour qu’elle s’ouvrêt – et j’ai été le premier à voir le cou de mon frere pendu par une corde au crochet du hamac.
-Arrête ça, Nelo – de ma main ouverte j’ai frappé le côté gauche de son visage et j’ai du frapper avec une certaine force, car sa tête a pivoté et est tombée à droite. – Arrête ça, pour l’amour de Dieu – j’ai répété, en frappant l’autre joue, et sa tête a de nouveau pivoté et est tombée de l’autre côté.

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(1) Terreiro : terre-plain devant une maison d’habitation rurale. Local ou sont célébrés les cultes afro-brésiliens. (N.d.T.)
Voilà.
Jamais plus je n’aurais envie de monter sur une corde jusqu’à Dieu.

Torres, Antônio. Cette terre. Traduit par Jacqués



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