Revista Mulheres e Literatura – vol. 19 – 2017



ESSA CLARICE… ALÉM DE MATAR, AINDA PEDE PERDÃO! – Andressa Mariano Gonçalez





A FIGURAÇÃO DO TEMA DA MORTE NA OBRA A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, DE CLARICE LISPECTOR

 

Andressa Mariano Gonçalez

Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)

 

Resumo: Neste trabalho iremos fazer uma breve análise da obra A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, publicada em 1969, a fim de identificar como ela figura o tema da morte numa obra destinada ao público infantil. Para isso iremos levantar algumas características presentes nas suas obras, traçando um paralelo com as recorrências presentes tanto na sua literatura voltada para o público adulto quanto na sua literatura voltada para o público infantil, pois em ambas a violência, de um modo geral, está presente em todo o seu trabalho.

 

Palavras-chave: Clarice Lispector. Literatura infantil. Morte. Violência.

 

Abstract: In this paper we will present a brief analysis of A mulher que matou os peixes, by Clarice Lispector, published in 1969, in order to identify how the theme of death is configured out in a children’s book. We will point out some features in her works in order to establish a parallel between the stylistic recurrences that appear both in adult literature and in children’s, while considering the theme of violence pervasive in all of Lispetor’s works.

 

Keywords: Clarice Lispector. Literatura infantil. Death. Violence.

 

Minicurrículo: A autora é bacharel em Letras – com habilitação dupla em Português e Inglês – pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Atualmente cursa a Licenciatura nessa mesma habilitação dupla. Atua nas áreas de revisão de textos num projeto de pesquisa desenvolvido no Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e tem interesse nas relações entre literatura, sociedade e as outras artes.

 

 

 ESSA CLARICE… ALÉM DE MATAR, AINDA PEDE PERDÃO!

A FIGURAÇÃO DO TEMA DA MORTE NA OBRA A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, DE CLARICE LISPECTOR

 

Andressa Mariano Gonçalez

Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)

 

 

  1. UMA TENTATIVA DE INTRODUÇÃO

 

É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências salvam-nos das grandes.

Clarice Lispector

 

A fortuna crítica clariciana é vastíssima. Não é de se surpreender já que Clarice Lispector é uma das maiores escritoras brasileiras. A quem goste de sua obra e também a quem não goste. É interessante observar que Clarice Lispector não é, por assim dizer, uma escritora muito “fácil”, tendo em vista a complexidade da sua linguagem, que é delineada por meio de uma escrita, aparentemente, simples. Talvez por isso a resistência por parte daqueles que não admiram o seu trabalho. A obra de Clarice desafia tanto os seus leitores quanto àqueles que se dedicaram a criticar sua grande contribuição à literatura brasileira. Característica esta que a torna, no nosso ponto de vista, muito mais interessante. Analisando suas obras infantis muitos podem dizer que sua literatura pode não ser, necessariamente, indicada para o público mirim. Tal argumento estaria baseado nos temas abordados pela autora, como no caso do tema da violência. Tema este que está presente em toda a sua obra, seja pelo tema em si ou mesmo por conta da sua linguagem transgressora. A maior diferença entre as obras destinadas para o público infantil em relação às obras destinadas para o público adulto se concentrariam na forma como Clarice conduz suas narrativas. Não analisaremos todas as suas obras para tal comparação, mas sim, faremos uma visita às características peculiares a sua estilística como representação da literatura dita adulta a fim de traçar um paralelo com as da literatura infantil presente na obra A mulher que matou os peixes. A pergunta que norteia tal análise reside em como a autora trata da questão da violência, para tentar entender o porquê da abordagem do tema da morte na sua literatura infantil.

 

  1. REVISITANDO CLARICE

 

Precisamos pensar a nossa língua. A palavra é, na verdade, um ideograma, língua que ainda borbulha, que precisa mais do presente que de qualquer tradição. Cada palavra nova é reflexo de novos aprofundamentos de uma consciência do mundo e de nós mesmos. Cada palavra abre pequenas liberdades, é uma violentação criativa.

Clarice Lispector

 

Nascida na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920, e registrada em Chechelnik com o nome judeu de Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice pertencia a uma família judia e com menos de um ano de idade vem para o Brasil com seus pais, que fugiam da perseguição dos judeus durante a Guerra Civil Russa (1918-1921). Em solo brasileiro, passou a usar o nome de Clarice Lispector, e, adotando o Brasil como sua única pátria, considerava-se pernambucana. Sua família teria mudado para o Recife por volta dos anos de 1930, e aos 17 anos ela partiu para o Rio de Janeiro. Muitas de suas obras, inclusive, possuem um espaço bem delimitado, no caso, a cidade de Recife, que serviu de palco para muitas das suas narrativas nos momentos que rememorava fatos da sua infância – devido as fortes lembranças de quando ainda era uma menina. Assim, a obra de Clarice possui traços de cunho memorialista e autobiográfico. Além de escritora, também foi jornalista.

A obra clariciana é extensa. Ao longo de sua vida Clarice escreveu e publicou suas obras tanto no Brasil quanto no exterior. Foram romances, contos, crônicas, cartas e novelas. Traduções também fazem parte do seu trabalho. Sua literatura não está voltada somente para o público adulto, Clarice também se dedicou a literatura infantil, que é o objeto de maior interesse neste trabalho. Mesmo assim, revisitaremos um pouco sobre sua estilística, elencando alguns dos traços da obra clariciana de forma geral.

Clarice possui uma escrita deveras particular, devido as suas escolhas lexicais. O léxico é fácil, mas suas combinações são paradoxais. Se por um lado muitas vezes as ausências de palavras prejudicam a compreensão do seu texto, por outro, suas definições estão fora do que é considerado senso-comum, pois a junção de certos adjetivos e substantivos quebra a expectativa de simulacros pré-estabelecidos.

Outro diferencial em seu estilo reside no seu olhar, pois este está direcionado a questões rotineiras e cotidianas. Ao longo da narrativa é perceptível um movimento ascendente, pois essas questões vão ganhando uma amplitude e dimensões absurdas.  Vale ressaltar que esse movimento não constitui, em si, uma linearidade no texto. A palavra de ordem reside na ideia de efeito. Esta particularidade muitas vezes se dá através das experiências epifânicas vividas pelas suas personagens femininas. Estas são abruptamente tiradas de uma situação que anteriormente era de extrema normalidade para outra completamente transformadora. A realidade passa a não ser mais a mesma. É sempre uma sequência de construção seguida de desconstrução. Muitas são as mulheres na obra de Clarice, o que para alguns críticos sua obra não seria somente feminina, mas sim, feminista.

Outra característica peculiar ao olhar clariciano são as suas relações com os objetos. Muitas vezes seus narradores são considerados solitários, míopes. Nas palavras de Russotto (1989, p. 83), “Se trata de uma mirada que se detiene en lo pequeno, agigantándolo”. A autora possuía um grande interesse em desvendar os mistérios do outro. Seus romances são considerados de empatia, aproximação e contato. Os contos não fogem a essa regra. Suas relações se dão por um processo de aproximação, de reconhecimento e de fusão. Assim, muitas vezes o sujeito se funde com o objeto e vice e versa. Clarice tinha obsessão por tentar atingir o cerne das coisas.

Reversibilidade. A narrativa clariciana também é marcada pelas reversibilidades, ou seja, por jogos de opostos. Os jogos de contrários são sempre atuantes. Podemos apontar também a questão da repetição como sendo própria da sua narrativa. A repetição muitas vezes atua por meio de uma relação polifônica entre forma e experiência, constituindo assim uma função de cunho metalinguístico.

Questões relativas ao mal e a violência também estão fortemente representadas em suas narrativas, inclusive na sua literatura infantil, o que vem a nos interessar e que iremos discutir mais profundamente à frente. Os temas tratados por Clarice podem ser lidos sempre de forma atual por conta da ruptura entre as fronteiras do mundo real e do mundo fictício. É recorrente e característico notar que suas personagens, sempre vitimadas, são constituídas por jovens, crianças, e negros sempre pertencentes às classes desprivilegiadas. Os animais também fazem parte das suas narrativas. Todos estes seres que estão à margem da sociedade são expostos à violência. Além de sofrerem violência, também a praticam. Nem mesmo as crianças fogem a essa regra. O que percebemos é que na narrativa clariciana a naturalização e a banalização da violência são sempre negadas. Por isso sua narrativa é extremamente transgressora. Tudo em Clarice Lispector choca no sentido de confrontar o senso comum. O não dito passa a ser sempre nomeado. Suas narradoras, por exemplo, são famosas por estarem associadas às atividades clandestinas:

 

Como asociadas a una actividad clandestina, el ámbito de estas heroínas de la narración es la obscuridad, la simulación y el desvío (no olvidemos que succedere es etimológicamente “apartar” y desviar del camino). Y ese acto es asimilado a uma práctica escabrosa, de extraña conspiración y peligrosidad (RUSSOTTO, 1989, p. 85).

 

Para ser ainda mais pontual e precisa, Russotto  ainda diz:

 

Preservación, seducción, ignorancia, miseria, compasión. Son estas las imágenes de la mujer que narra, según la obra de Clarice Lispector. Imágenes de una transgresión asumida y sistemática. Transgresión que afecta tanto los códigos de la moral como los de la técnica literaria. Transgresión a nível de la historia y transgresión a nivel del discurso (RUSSOTTO, 1989, p. 93).

 

A ruptura com o senso comum e a transgressão presentes na sua obra – que vem apresentar um olhar de mundo estranhado, tendo em vista o distanciamento que temos para com este universo apresentado pela autora – são mediados pelo uso do recurso estilístico do grotesco, “as representações de grotesco no mundo moderno constituem a oposição mais ruidosa e evidente a toda espécie de racionalismo e a qualquer sistema de pensar” (SÁ, 2004, p. 99).

Aliás, como lembra Rosenbaum (1999, p. 3), a própria autora afirma,

 

Por que publicar o que não presta? Por que o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão (LISPECTOR).

 

Assim o grotesco é característico da sua obra. Rosenbaum denomina a obra de Clarice como uma narrativa rebelde e demoníaca:

 

(…) a literatura de Clarice não rejeita o grotesco, ao contrário, acolhe o que normalmente é monstruoso e obsceno, gerando horror, espanto e nojo. O leitor estremece e se desnorteia, frente a textos de tão crua realidade. Aliás, ela explicitou esse gosto pelo que desequilibra a ideia de beleza clássica, de totalidade harmônica, recusando toda representação literária organizada e arrumada (ROSENBAUM, 1999, p. 3).

 

Para definir o fazer linguagem clariciano, podemos dizer então que ele é marcado pela desconfiança. Sá lembra que essa desconfiança não seria de ordem teórica:

 

Sua ontologia da palavra, assim como sua metafísica (o ser) é empírica e vivenciada como escritura, exercício de vida, que ela alimenta de seu próprio sumo e que a realimenta, numa espécie de suplício de Tântalo. Sua “maiêutica” não é feita de um processo racional, para atingir uma verdade que preexista e só se precise encontrar, mas é uma maiêutica do fazer linguagem (SÁ, 2004, p. 234).

 

Olga de Sá afirma também que Clarice nunca havia gostado de dualismos do tipo fundo/forma, ou mesmo corpo/alma, transcendência/imanência ou matéria/ espírito. As possibilidades de uso das mesmas só seriam contempladas quando estas dilaceravam “seu desejo de unidade e totalidade” (SÁ, 2004, p. 234), já que a realidade é maior que a linguagem. Ainda diz que a autora teria vivido a agonia de escrever. Essa agonia ela não teria vivido sozinha, juntamente com o leitor, este também embarcaria nessa aventura, “empenhando ele também na maiêutica da escritura/leitura” (SÁ, 2004, p. 235):

 

Em Clarice, escrever era uma forma de compreender a própria vida. Não era a vida que a levava a compreender o escrever. Era escrevendo que ela se compreendia. A palavra para ela tinha a maior importância, porque exorcizava seus fantasmas. Seu leitor é sempre a mão que segura a sua, e isto sustenta a possibilidade de diálogo. A estrutura mínima de sua narrativa. Seu leitor não pode ser reduzido a um ouvido à escuta, mas tem de ser mão que tateia (SÁ, 2004, p. 235).

 

A palavra escrita para Clarice “passava a ser um instrumental da existência” (SÁ, 2004, p. 238), advinda da sua postura questionadora sobre o ato de escrever já que ela, a partir da escrita, se compreendia.

 

  1. CLARICE “PARA BAIXINHOS”: A MULHER QUE MATOU OS PEIXES

Foram quatro as obras publicadas para crianças. Seu primeiro trabalho foi O mistério do coelho pensante, publicado em 1967. No ano de 1969, A mulher que matou os peixes seria sua segunda obra. Alguns anos depois, no ano de 1974, Clarice publica A vida íntima de Laura. E por último, Quase de verdade, de 1978.

 

Matou. Matar. Matar. Matei. Matado. Morte. Morreram. Morrem. Morrer. Matá-la. Morrer. Mato. Morrer. Morre. Morreu. Matar. Mataria. Morta. Morrendo. Matou. Morte. Morte.  Matara. Morreu. Morte.

 

Se fôssemos organizar em um único parágrafo a recorrência do substantivo “morte”, bem como as diversas conjugações do verbo “morrer”, que aparecem ao longo da narrativa de A mulher que matou os peixes, seria esta a sequência transcrita acima. Inclusive, logo de início já temos apresentada, no primeiro parágrafo do texto, três destas ocorrências: “matou”, “matar”, “matar”. Fica evidente que Clarice não poupa de forma alguma o seu público infantil. Não poupa no sentido de não deixar de tratar sobre um assunto que pode não ser considerado próprio para crianças.

A morte é um fato inegável. Se formos pensar a respeito das verdades das quais o ser humano tem a plena certeza, a morte é a única delas. A única certeza que temos no mundo é a de que um dia iremos morrer. E a morte é a maior violência que podemos sofrer, já que ela anula toda a nossa existência enquanto ser. Sendo assim, a violência está impregnada nesta obra, seja por conta do tema ou mesmo pelas escolhas lexicais destacadas. Podemos afirmar ainda, que a violência não reside na morte em si, mas também no ato de matar. Cabe identificar como tal fato é apresentado para as crianças através desta narrativa.

Logo de início a narradora-personagem assume ter ela própria matado os peixes. Mas explica que havia cometido tal ato sem querer. Para conquistar a confiança do pequeno leitor, ela diz que era incapaz de fazer uma criança ou bicho sofrer. Ainda diz que seu coração era doce. Ela também age como uma criança, pois faz rodeios para contar de fato como se deu a morte dos peixinhos. Como toda criança inocente e que tem medo da represália por parte dos adultos, ela também admite não ter coragem para contar tudo de uma vez, mas promete que ao final do livro irá contar toda história. Enquanto o fim não chega, ela segue contando diversos causos para estreitar ainda mais a relação com seu leitor. Ela pretende criar uma cumplicidade com seus leitores, dizendo a eles que irá contar tudo em segredo, e somente eles irão saber tudo o que se passou – já que ela só confia nas crianças. Estas não seriam chatas como os adultos costumam ser. A narradora-personagem espera que assim, ao final do livro, ela seja perdoada.

A primeira história que ela conta é a da gatinha que faleceu em sua última ninhada. Diz que ficou muito triste por ela ter morrido, mas que, com o tempo, a febre que ela sentiu, em função da dor da perda, havia passado. Aqui ela já desmistifica a dor da morte. A morte já não seria tão ruim assim, pois com o tempo tudo passa.

Em certo momento se apresenta. Diz que se chama Clarice. Pergunta qual o nome do seu amiguinho leitor. Pede que ele diga seu nome bem baixinho, estabelecendo a confidencialidade entre eles. E o mais interessante é que ela diz que não haveria problemas em dizer baixinho, pois seu coração iria ouvir de qualquer forma. Desta forma a narradora-personagem já senta os leitores em seu colo e os aconchega.

E não para por aí. Ela diz que as crianças devem ser mais corajosas do que ela, ao admitir que ela tem medo de ratos. Desta forma ela acaba com a hierarquia estabelecida entre adultos e crianças. Ambos estão em pé de igualdade, tanto as crianças quanto os adultos possuem seus medos e ambos precisam ser respeitados.

Várias histórias vão sendo desenroladas ao longo da narrativa. Todas elas são protagonizadas por animais. Aparecem o coelho, o pato, os cachorros, o macaco e até mesmo as baratas. O que as historinhas têm em comum é que em certo momento os animais acabam morrendo. Não se trata da banalização da morte, mas sim, a retratação de um processo que é natural aos seres vivos. É interessante observar que em algumas situações as mortes são até desejadas. Ora porque ela não gosta de tal animal – como é o caso do rato do seu amiguinho e das baratas, que ela havia pagado para alguém exterminar. A morte também pode ser algo engraçado, como no caso das lagartixas. Estas ao terem seus corpos desmembrados, ainda articulam seus membros isoladamente. E por fim, retrata a morte também como algo necessário, como no caso dos mosquitos. Estes seriam comidos pelas lagartixas como sobremesas.

Para sustentar a confiança dos leitores ela sempre afirma que tudo o que conta é verdade. E sabendo que as crianças poderiam ficar tristes com tudo o que está sendo contado, ela também os aconselha como uma mãe que quer proteger seus filhos. A narradora-personagem também agradece por terem acreditado nela, pois ela não gosta de se passar por mentirosa. Ao final, cumpre sua promessa, contando de fato como matou seus peixinhos. O diálogo com os leitores é mantido a todo o momento. Ela questiona se ficaram com raiva dela, pede desculpas novamente, e finaliza pedindo perdão aos seus companheirinhos.

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sensibilidade maternal. Assim podemos definir o olhar de Clarice Lispector para crianças. A narradora-personagem consegue criar uma relação de cumplicidade junto ao leitor por conta do clima aconchegante e acolhedor que ela figura na sua narrativa, através dos diálogos. Essa característica se repete ao longo da narrativa o que a constitui como recurso estilístico. A todo o momento o leitor se sente acolhido, e nunca sozinho, devido aos diálogos permanentes entre eles. O que podemos inferir após toda essa discussão é que enquanto o modo de narrar clariciano, voltado para o público adulto, tem por objetivo deslocar o leitor da sua zona de conforto a partir de um incômodo estranhamento, na literatura infantil temos justamente o contrário. O estilo sádico, como denomina Rosenbaum, que faz com que o leitor se sinta completamente frustrado, pois não encontra em Clarice uma leitura apaziguadora, mesmo quando ele se identifica com certas personagens, passa longe do seu público infantil. A semelhança entre elas é que muitas vezes o leitor se reconhece e caminha com essas personagens nas suas crises mais profundas. Mas enquanto na literatura dita adulta essa parceria não liberta o indivíduo de tamanhas turbulências, pois os leitores são lançados sempre em situações de inquietudes constantes, as quais constituem uma “marca incorrigível de uma narrativa essencialmente transgressora dos padrões estéticos estabelecidos” (ROSEMBAUM, 1999, p. 2), na literatura infantil esta sua particularidade narrativa vem preparar seus futuros leitores para uma futura turbulenta e desafiadora jornada, que será a própria vida, ou seja, na literatura infantil temos uma literatura de formação.

 

REFERÊNCIAS

CRUZ, Adélcio de Sousa. Três visões literárias da violência: Clarice Lispector, Conceição Evaristo e Patrícia Melo. Disponível em:

http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/1278296729_ARQUIVO_TresvisoesliterariasdaviolenciaARTIGOFAZENDOGENERO9formdef.pdf . Acesso em: 10 de agosto de 2016.

GURGEL, Gabriela Lírio. A procura da palavra no escuro: uma análise da criação da linguagem na obra de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: 7, Letras, 2001.

LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil Brasileira: histórias e histórias – 5ª edição. São Paulo: Ática, 1991.

LISPECTOR, Clarice. A mulher que matou os peixes. Ilustração de Carlos Scliar. 6ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

PONTIERI, Regina. Clarice Lispector: uma poética do olhar. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

SÁ, Olga de. Clarice Lispector: a travessia do oposto. São Paulo: Annablume, 2004.

SILVA, Meire Oliveira. Clarice Lispector – sua obra infantil e as marcas distintivas de sua obra para adultos. Disponível em: http://www.brasilescola.com/biografia/clarice-lispector.htm Acesso em: 10 de agosto de 2016.

SCHIMIDIT, Rita Terezinha (Org.). A ficção de Clarice: nas fronteiras do (im)possível. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2003.

ROSENBAUM, Yudith. As metamorfoses do mal em Clarice Lispector. Disponível em: http://www.usp.br/revistausp/41/15-yudith.pdf Acesso em: 10 de agosto de 2016.

RUSSOTO, Margara. La narradora: imágenes de la transgresión en Clarice Lispector. In: Música de pobres: y outros estudios de literatura brasileña. Caracas: Universidad Central de Venezuela, 1989. p. 81-95.

TEIXEIRA, Mona Lisa Bezerra. Imagens da infância na obra de Clarice Lispector. Disponível em: file:///C:/Users/Luiza/Downloads/2010_MonaLisaBezerraTeixeira%20(1).pdf.  Acesso em: 10 de agosto de 2016.

 



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