Revista Mulheres e Literatura – vol.13 – 2014



EROS E THANATOS ENTRE VARIADOS DISPAROS: uma leitura da obra Atire em Sofia de Sônia Coutinho





 

EROS E THANATOS ENTRE VARIADOS DISPAROS:

uma leitura da obra Atire em Sofia de Sônia Coutinho

Patricia Maria dos Santos Santana

Doutoranda em Literatura Comparada pela UFRJ/Bolsista CAPES

Resumo: Uma mulher presa ao casamento e ao lar; uma mulher com vontade de ser ela mesma, de se conhecer e conhecer o mundo: dentro de Sofia, os vigores de Eros e Thanatos pulsam tomando conta da história de vida da personagem. Sônia Coutinho nos mostra, em sua escrita ousada e feminista, a construção da trama em torno da personagem que anseia por conhecer o seu próprio eu, permitindo que a realidade não seja apenas aquilo que fora injetado em sua mente durante a vida inteira.

Palavras-chave: Eros. Thanatos. Conhecimento. Erotismo.

Abstract: A woman stuck to marriage and home; a woman longing to be herself, longing to know herself and the world: inside Sofia, the zips of Eros and Thanatos pulse taking control of the character’s life story. Sônia Coutinho, through her bold and feminist writing, reveals to us the plot she constructs around the character who yearns to know herself. Thus, she infers that reality is not only what was injected in one’s mind during one’s lifetime.

Key words: Eros. Thanatos. Knowledge. Eroticism.

E o que Sibila queria dos seus Amados,

explicava o Amigo Homossexual, era divisar

aquilo que existe por trás das aparências,

ah… muito por trás: as Paisagens da Alma.

(Sônia Coutinho, Os venenos de Lucrécia)

Introdução

A escritora baiana Sônia Coutinho morreu aos 74 anos, na noite de 24 de agosto de 2013, no Rio de Janeiro. Jornalista, contista e tradutora, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1968. Ela se destacou na ficção brasileira a partir dos anos 1960 (seu primeiro livro, O herói inútil, foi lançado em 1964). Teve 11 livros publicados e traduziu outros 30. Recebeu o Prêmio Jabuti em duas ocasiões: em 1979, pelo Os venenos de Lucrécia, e em 1999, pelo livro Os seios de Pandora. Nascida em Itabuna, em 1939, Sonia era filha do poeta simbolista e político Nathan Coutinho e irmã do sociólogo Carlos Nelson Coutinho. Além do Jabuti, ela recebeu, em 2006, o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, pelo livro de contos Ovelha negra e amiga loura. Outros livros de destaque de sua autoria são Uma certa felicidade, Mil olhos de uma rosa, O caso Alice e O jogo de Ifá. Coutinho teve livros lançados nos Estados Unidos, França e Alemanha.

Em diversas sociedades encontramos a mulher numa posição de subalternidade diante dos homens. A eles são oferecidos todos os privilégios, desde o acesso à educação, a liberdade de ser, até a oportunidade de crescer intelectualmente. A elas se reservam apenas o espaço doméstico, a responsabilidade de cuidar dos filhos e a imposição à passividade, mantendo, assim, a supremacia falocêntrica. Vivendo debaixo das regras do patriarcalismo, este é que irá reger todas as espécies de relações interpessoais. Os relacionamentos interpessoais e, por consequência, a personalidade, também são marcados pela dominação e violência que têm sua origem na cultura e instituições do patriarcalismo (CASTELLS, 2001). Essas representações sociais, permeadas pelas construções simbólicas, colocam o homem como norma. Podemos dizer que foi através do feminismo que muitas autoras tiveram a oportunidade de se libertar como seres humanos. O feminismo é um movimento político transformador que contempla discursos das variáveis etnias, classes, raças, e o próprio sexo biológico na constituição do sujeito “mulher”. Assim,

sua emergência pode ser conceitualizada como uma série de eventos históricos que criaram as condições necessárias para o nascimento de um discurso que: começou a nomear e descrever os fenômenos de maneira diferenciada; se desenvolveu e se solidificou após ser elaborado com extrema seriedade cognitiva; reconheceu como seu objetivo político a desarticulação da ideologia patriarcal e das práticas sociais, psicológicas e afetivas que a acompanham (CARSON, 1995, p. 194).

Embora o conceito de gênero tenha adquirido força com o movimento feminista e destaque enquanto instrumento de análise das condições das mulheres, ele não deve ser utilizado como sinônimo de “mulher”. Ele deve ser apenas considerado para distinguir e descrever as categorias mulher e homem, para examinar as relações estabelecidas entre ambos; deve ser “um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana” (SCOTT, 1990, p. 16).

Para Pierre Bourdieu (2005), o corpo é o lugar no qual estão inscritas as disputas pelo poder. Nele está demarcado todo o capital cultural; é a primeira forma de identificação desde o nascimento. Por conseguinte, o sexo define a posição de dominado ou de dominador. O corpo é a materialização da dominação, o lugar do exercício do poder por excelência. A personagem Sofia, de Sônia Coutinho na obra Atire em Sofia, se apresenta predestinada a uma desarticulação de estereótipos (re)forçados pela sociedade que mantém o vínculo de dominação ligados a gênero e corpo. Buscar atrair caminhos e olhares do mundo. Não se apresenta “apagada”. Procura o inatingível. Não se mostra submissa.

Certas formas de expressão e representação da mulher na literatura de Coutinho ocorrem de forma intencional, uma vez que a autora amarra em suas obras essa estranheza para justificar uma espécie de escritura de libertação. Prefere desfazer as concepções de feminino criadas pela sociedade, despreza os mitos construídos pela tradição que relacionam e encarceram a mulher com a maternidade e os cuidados com o lar, muito bem refletidos no pensamento patriarcal:

A dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos, cujo ser (esse) é um ser-percebido (percipi), tem por efeito colocá-las em permanente estado de insegurança corporal, ou melhor, de dependência simbólica: elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos receptivos, atraentes, disponíveis. Delas se espera que sejam ‘femininas’, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até apagadas. (BOURDIEU, 2005, p. 82)

Mudando a perspectiva sustentada pelas tecnologias de gênero patriarcais (DE LAURETIS, 1994, p. 228), a postura da personagem marca, principalmente, a apresentação da mulher como dona do próprio corpo e do próprio desejo. Assim, a mulher sai de uma posição inferior e desfaz a visão essencialista do feminino (MOI, 1989), abrindo-se para uma atuação totalmente transformadora da condição da mulher. Ela subverte os padrões sociais e morais de uma sociedade conservadora, reavaliando tipos de condutas ou estereótipos limitadores.

Albuquerque (1973), em um estudo sobre escritores que se inclinaram no gênero policial, inclui pouquíssimas mulheres. A primeira mulher a escrever no gênero foi Anna Katharine Green (1846-1935). No Brasil, poucas autoras, até hoje, se enveredaram no gênero de romance policial. Lúcia Machado de Almeida tornou-se a primeira escritora oficial do gênero quando, em 1956, lançou O escaravelho do diabo. Antes, somente Raquel de Queiroz e Dinah Silveira haviam contribuído com um capítulo cada na elaboração do clássico romance O mistério dos MMM, na década de 20. Sônia Coutinho nos deixou três romances do gênero: Atire em Sofia (1989), O caso Alice (1991) e Os seios de Pandora (1998).

A origem do nome Sofia, que é dado à protagonista do livro que estudamos, vem do grego e significa ‘sabedoria’, ‘a sábia’. Nas inúmeras possibilidades de representações do nome é que Coutinho cria o universo da personagem que é mutável, inconformada, sempre parecendo procurar saciar uma fome de conhecimento latente dentro dela. Digamos que o conhecimento de si mesma é o elemento norteador da personagem. Existe no livro uma espécie de permissão para Sofia experimentar todas as possibilidades de vida real que podem ser oferecidas à mulher contemporânea em sua busca por entendimento de vida. As personagens feministas de Coutinho são capazes de nos apresentar e revelar novos modos de ver a vida. Atravessar o eu e suas barreiras de vida conduz a personagem a uma aventura de autoconhecimento, no intuito de encontrar respostas para a sua invisibilidade social.

Como fora mencionado, poucas são as mulheres que se enveredaram pelos chamados romances policiais. O tom memorialista se faz presente na obra, como se quisesse unir presente e passado para entendê-los. De acordo com Salvatore Donofrio, o fator social mais importante no desenvolvimento desse tipo de narrativa foi a Revolução Industrial, que determinou a concentração da população em cidades. O fato de as histórias policiais se passarem em grandes centros é propício:

A aglomeração é propícia ao aumento da criminalidade, pois é fácil ao assassino quer a realização do crime, quer a fuga posterior, no meio da multidão de prédios e de homens. De outro lado, a luta pela ascensão social, determinada pela rivalidade de classes que induz à aquisição de bens de consumo cada vez mais modernos e caros, motiva o uso de meios ilícitos (DONOFRIO, 1995, p. 168).

Contudo, em Atire em Sofia isto não acontece. O assassinato da personagem principal ocorre justamente em seu retorno à pequena cidade onde nasceu e se criou, como se a autora quisesse nos mostrar que a pequenez humana está em todo lugar, a todo e qualquer tempo. Coutinho, assim, também nos mostra que Sofia pagou com a própria vida pela escolha de ser livre. É espécie de punição. É espécie de compensação fatal de uma escolha, pois “Eros, nosso desejo supremo, não exalta nossos desejos senão para os sacrificar” (ROUGEMONT, 1988, p. 53).

1. Eros e Thanatos na obra

Eros e Thanatos significam, entre os gregos, o  Amor  e a  Morte  personificados. Identificam-se nestas figuras da mitologia grega dois princípios vitais: Vida e Morte. Freud utilizou-as para identificar duas categorias de pulsões humanas: instinto de vida (Eros) e instinto de morte (Thanatos). Estas duas pulsões geram entre si um conflito que dinamiza nosso psiquismo humano. Este conflito tem origem nos obstáculos que o indivíduo encontra na realização das pulsões e reflete a luta entre várias instâncias no psiquismo humano.

Podemos observar em Atire em Sofia uma construção cíclica entre Eros e Thanatos conduzindo as ações da personagem principal. Numa procura de entendimento do próprio eu, vemos na obra um primeiro momento da vida de Sofia voltado para Thanatos e relacionado à insatisfação de sua vida pessoal; depois temos uma busca de forças em Eros, no momento que a personagem decide deixar tudo e ter uma nova vida no Rio de Janeiro; o ciclo se fecha quando Sofia retorna à cidade, mais de vinte anos após a sua partida. É a retomada de Thanatos, como um terrível e cruel inquisidor de uma vida inteira; é sua derrocada para a morte real.

Eros nos ensina a amar, a cultivar amizades, a apreciar tudo de bom, belo e prazeroso que existe no mundo. “Eros é o desejo total, é a aspiração luminosa” (ROUGEMONT, 1988, p. 50). Dá-nos a energia necessária para nos deixar motivados, cheios de entusiasmo e alegria, para conduzir a vida com sentido, e contribuir com nossa parcela de talento para o progresso da humanidade. Por sua vez, Thanatos nos atrai para a morte. Ele extrai do nosso ser toda energia, toda vitalidade. Existimos sem propósito, sentimo-nos apáticos, carentes de motivação. Tudo é fastio, insatisfação, constrangimento. Experimentamos uma existência de ver os dias e as noites passarem, sentindo o final inevitável se aproximar. Eros nos convida à vida, à sensualidade. Thanatos nos induz à solidão e à tristeza. Sofia experimenta esses dois lados na obra. Vive seu momento com intensidade no Rio de Janeiro para chegar à conclusão que a solidão lhe serve melhor. Estimula-se em Eros, mas aceita, posteriormente, a ótica de Thanatos. Fica impassível, esperando a chegada da morte, acomodada ao nada.

Também como parte da retomada em Thanatos, Sofia vê sua impossibilidade de viver em liberdade, ao retornar à sua cidade natal, cheia de preconceitos. Existe um jogo definido de ida e de volta, de descentramento e de retorno ao centro. O não lugar marcará essa insatisfação de Sofia no Rio de Janeiro, que apesar de lhe abrir um novo mundo, ela nunca será vista em seu local de direito, o centro onde foi parida e de onde surgiu para a vida. Em nossa cultura, o centro é local sagrado por excelência, devido ao fato de diversas religiões acreditarem que a alma está situada no “centro do corpo” e também pelo fato de todas as cidades antigas terem sido edificadas em torno de um centro sagrado natural ou artificial, marcado por um monte, um lago, um templo, um obelisco ou qualquer outro tipo de monumento. Somente em torno desse centro considerado sagrado é que as comunidades poderiam se criar. Na obra, o centro é assim mencionado:

O Farol, um grande centro devorador. O umbigo do mundo, um Omphalós. Na Índia, o grande centro era o Monte Meru. Entre os germanos, havia um freixo gigantesco, o Iggdrasil, cuja copa tocava o céu e as raízes desciam aos infernos. Na Palestina, o Tabor, palavra que corresponde a tabur, umbigo. (COUTINHO, 1989, p. 183)

Assim, retornar às origens torna-se fundamental à Sofia em sua construção de total conhecimento. A história dela se apresenta a partir de um determinado locus marcado. Da revolta contra este mundo e da infração aos códigos deste gênero fechado e marcadamente masculino, surgem mudanças em sua vida. Sofia precisava retornar à cidade. Precisava fechar o ciclo para reconhecer sua finitude: “Mas, de repente tranquila, neste fim de tarde em esparso cinza, então pensa que entende, afinal, a lição da cidade – a de que vai ter de morrer, a dádiva da cidade, o aprendizado da morte, sua sedução”. (COUTINHO, 1989, p. 90)

No jogo de reunir simbolicamente ideias de desdobramentos e conhecimentos de si, Coutinho torna a procura de Sofia uma metáfora da própria mulher tentando se encontrar na sociedade patriarcal. Isto é algo bastante frequente na produção de autoria feminina e basilar para a crítica feminista, uma vez que seu sentido está relacionado diretamente à discussão sobre a identidade feminina, mostrando, através da reflexão de personagens, temas para se defrontarem com os outros, principalmente no que diz respeito ao violento e inadequado construto androcêntrico. A busca e a inércia, ou seja, o Eros e o Thanatos trabalhado simbolicamente na ação feminina contemporânea da personagem tornam-se a alma do processo de conhecimento de Sofia. É através disso que ela passa pela transformação necessária. Porém, além da configuração da mulher que segue em busca do seu verdadeiro conhecimento e da realização desse eu, uma pergunta se faz lançada nas entrelinhas do livro: realmente existe saída para a mulher nessa sociedade onde vivemos?

2. O desejo e o próprio corpo como elementos transgressores

O ato de amor para Sofia é uma expressão de liberdade. É expressão do vigor de Eros em sua vida. É se regozijar no delírio de ser possuída e de possuir ao mesmo tempo. Numa construção carnavalizada do ato de amar em nossa sociedade patriarcal, Coutinho inverte o jogo da sedução no ponto de vista da sociedade conservadora e posiciona sua personagem como também dona do ato carnal na hora de sua consumação. Não admite uma atitude submissa na construção do desejo da carne, uma vez que a construção da noção do desejo para a mulher na sociedade androcêntrica é reprimida. Em seu livro O Erotismo, Georges Bataille (1987) apresenta análises dos aspectos fundamentais da natureza humana, tecendo o limite entre o natural e o social, o humano e o não humano. O Erotismo é uma espécie de resistência do homem, pois a transgressão é um elemento inerente na sua compreensão. Sendo assim, ele se constitui como uma experiência interior, na medida em que seu sentido último está em conduzir o sujeito a um estado de interioridade plena, como afirma Bataille:

O Erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Se não damos conta disso, é porque o Erotismo busca incessantemente fora dele um objeto de desejo. Esse objeto, contudo, corresponde à interioridade do desejo… O Erotismo é, na consciência do homem, o que leva a pôr o ser em questão (BATAILLE, 1987, p. 25).

O Erotismo vai, enquanto resistência do sujeito, além do comportamento sedutor, como algo instintivo e espontâneo que busca na sua existência interior superar os limites e, como jogo sedutor, quebrar leis e restrições, ao observarmos que existimos por dentro, não havendo limites para essa existência, na qual o existir corresponde a não haver limites para a interioridade. Apresenta-se constante em todos os homens, ao mesmo tempo em que a cultura se instaura em seu interior configurando-o com intervenções segundo as variações no contexto sociocultural, concebendo restrições como proibições.

Enquanto Sofia se busca e tenta se conhecer temos a representação da pulsão de Eros dentro dela. Contudo, sua mãe sempre foi para ela um parâmetro inverso, uma pulsão de morte, a representação de Thanatos, ou seja, era uma perigosa porta-voz do sistema e Sofia tinha de ter cuidado com qualquer um de seus conselhos:

Os casamentos aqui na geração de minha mãe eram longos exercícios de ódio. A mulher deveria permanecer sempre criança, para agradar e servir sempre ao homem. (…) Gerações inteiras de mulheres de que não temos nenhuma notícia, de cuja vida não ficou registro nenhum. (COUTINHO, 1989, p. 50)

Coutinho traz um discurso transgressor exatamente para mostrar as barreiras sociais das mulheres que são preparadas para o casamento, mesmo que este ocorra ou não, lembrando a fala de Simone de Beauvoir, no Segundo Sexo, ao afirmar que “O destino que a sociedade propõe tradicionalmente à mulher é o casamento. Em sua maioria, ainda hoje, as mulheres são casadas, ou o foram, ou se preparam para sê-lo, ou sofrem por não o ser” (BEAUVOIR, 1980, p 198). Coutinho opta por desfazer essa cultura de submissão em sua escrita. Para isso teria de “matar o anjo do lar, a doce criatura (…) e teria de enfrentar a sombra, o outro lado do anjo, o monstro da rebeldia e da desobediência” (TELLES, 2009, p. 408).

A professora e pesquisadora Luiza Lobo (1997) pontua que a literatura feminina necessita de temas relacionados à linha da “livre escolha” dentro do universo da mulher, ficando, pois, a temática da insubmissão erótica bastante aceitável para se reconstruir e questionar a identidade feminina na sociedade atual:

Do ponto de vista teórico, a literatura de autoria feminina precisa criar, politicamente, um espaço próprio dentro do universo da literatura mundial mais ampla, em que a mulher expresse a sua sensibilidade a partir de um ponto de vista e de um sujeito de representação próprios, que sempre constituem um olhar da diferença. A temática que daí surge será tanto mais afetiva, delicada, sutil, reservada, frágil ou doméstica quanto retratará as vivências da mulher no seu dia-a-dia, se for esta sua vivência. Mas o cânone da literatura de autoria feminina se modificará muito se a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão, mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática, por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas “domésticas” e “femininas” e ainda de outros estereótipos do “feminino” herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente não associados à mulher até hoje. 1

O primeiro marido de Sofia, Pedro, apesar de rico, era quase mulato e isso o tornava inviável aos olhos da mãe. Quando vieram as filhas, a mãe o aceitou. Tentando fugir desse esquema sufocante e querendo viver uma experiência humana mais ampla e integral, envolve-se com um jornalista e não luta pelas filhas quando Pedro descobre o caso, propondo a separação legal. Ele fica com a custódia das meninas e não lhe dá dinheiro. Sofia vai embora, as filhas ficam. Mais tarde, casa-se com Jacinto e as filhas lhe visitam poucas vezes, uma vez que não gostavam dele. Nos outros relacionamentos não quisera envolver as garotas.

Coutinho cria, por intermédio do sexo, formas de enfrentar a ordem social vista como modelo, como padrão. Bataille diz que essa transgressão é que dá os contornos de uma nova definição social:

Se a transgressão propriamente dita, opondo-se ao desconhecimento do interdito, não tivesse esse caráter limitado, ela seria uma volta à violência – à animalidade da violência. Mas não é isto, na realidade. A transgressão organizada forma com o inderdito um conjunto que define a vida social (BATAILLE, 1987, p. 61).

A mulher que escreve, que se conhece bem e que deseja uma ruptura das tradições paternalistas faz do erotismo um modo de mudança social. O desejo está para as escritoras como um ponto de partida às mudanças que querem. A criação e divulgação, pela mulher, de uma escrita que radicaliza os modos libertários de vivenciar o desejo mostram sua parcela de contribuição no necessário processo de transformação social, uma vez que os novos valores, explícitos ou implícitos nas imagens do corpo feminino livre para o prazer, abalam alicerces de resistentes estruturas de dominação masculina. O desejo se posiciona como uma espécie de linha emancipatória do pensamento machista:

Claro que poderia, se tivesse feito as necessárias concessões (…), ter ficado pelo menos com alguns daqueles homens que passaram por sua vida. Se não ficou, pensa, foi porque achou preferível, de alguma forma, continuar sozinha. (COUTINHO, 1989, p. 29)

O próprio corpo também funciona como o maior elemento emancipatório de uma tradição imposta:

O corpo está no centro de toda relação de poder. Mas o corpo das mulheres é o centro de maneira imediata e específica (…). Enclausurá-las seria a melhor solução: em um espaço fechado e controlado, ou no mínimo sob um véu que mascara sua chama incendiária. Toda mulher em liberdade é um perigo, e, ao mesmo tempo, está em perigo, um legitimando o outro. Se algo de mau lhe acontece, ela está recebendo apenas aquilo que ela merece.

O corpo das mulheres não lhes pertence. Na família, ele pertence a seu marido que deve ‘possuí-lo’ com uma potência viril. Mais tarde, a seus filhos que as absorvem inteiramente. Na sociedade, ele pertence ao senhor. As mulheres escravas eram penetráveis ao seu bel prazer (…) (PERROT, 2005, p. 447)

Por estar ciente da importância do corpo para a mulher, Sônia cria uma personagem de atitudes libertárias. Todavia, diante de tantas experiências e já no auge de sua vida, a personagem admite que o melhor para ela, apesar de tudo, é mesmo a solidão:

Minha solidão não é de brincadeira. Talvez seja uma solidão política, por assim dizer. Um protesto, uma defesa. Sou solitária por não ter feito concessões, eu sei, por não ter entrado no esquema nem atendido ao modelo. Mas o resultado é solidão mesmo, sem apelação. (COUTINHO, 1989, p. 162-163)

A solidão acaba sendo o preço que Sofia paga pela insubmissão. Ela deveria compor o quadro de mulher submissa que, em nossa sociedade, constitui uma violência. Paga por pensar e se rebelar historicamente. Segundo Chartier (1995), a relação de dominação contra a mulher é uma relação histórica, cultural e linguisticamente construída e afirmada como uma diferença de ordem natural, radical, irredutível e universal.

3. Várias Sofias em Sofia

Viver em busca de outras vidas e de reconstruções de si mesma é vigor de Eros. Sofia deixa as filhas, muda-se para o Rio de Janeiro onde vive por vinte anos. É uma mulher de quase 40 anos, sozinha, depois de dois casamentos frustrados e várias relações mal sucedidas. No Rio, ela vivencia diversas relações que a tornam uma mulher realizada sexualmente. A Sofia do Rio de Janeiro se permite e se abre ao mundo. A Sofia do Rio se entregava aos mais diversos amores: jovens, velhos, solteiros, casados… A Sofia do Rio de Janeiro era diversas Sofias ao mesmo tempo: Sofias (ou ‘sabedorias’) que ela nem mesmo sabia que existiam dentro dela. Contudo, ao retornar à cidade que nasceu, dentro do seu íntimo, após todas essas relações experimentadas, ela se autopune com um imenso sentimento de culpa repetindo para si mesma que ‘não passa de uma grande puta’. Deixa o Rio e retoma seu processo de vivência em Thanatos ao voltar à cidade natal:

novamente nesta cidade que tinha ficado dentro dela, por tantos anos, como coisa má ou amor-ódio, esta cidade que sempre lhe doeu, de maneiras diferentes. Talvez jamais tivesse conseguido deitar raízes fundas no Rio, só tentara uma vez durante seu segundo casamento, com Jacinto. O resto fora viver à superfície, ameaçada de submergir a qualquer momento fosse por falta de dinheiro ou por excesso de solidão. (COUTINHO, 1989, p. 14)

Nesse processo de busca de Eros, observamos que Thanatos procura ganhar na luta interior e espiritual. É como se nunca pudesse ser feliz de fato. É como se um peso do passado a impedisse de buscar a felicidade. Apesar de toda transgressão que faz ao seguir suas decisões, a sensação de impedimento na culpa se faz maior.

Mas em suas buscas por si mesma, diante do vigor de Eros, Sofia define-se como muitas ao longo do livro. Em uma de suas buscas pelo prazer incondicional Sofia é Lilith, é poderosa e representa o poder da mulher que ocasiona o maior orgasmo possível ao homem, que depois sofrem crises de melancolia. Lilith, na tradição cabalística, seria o nome da mulher criada antes de Eva, ao mesmo tempo que Adão, não de uma costela de homem, mas ela também diretamente da terra. Ela se tornará instigadora de grandes conflitos e amores ilegítimos, a perturbadora de leitor conjugais. Uma das mais famosas figuras do folclore hebreu, Lilith faz, assim, parte de um grupo de espíritos malignos identificados com a noite. Na Babilônia, aparece como uma ninfa vampiro que dá aos filhos do homem o leite venenoso dos sonhos. Sua função principal, contudo, seria alertar as mulheres: aquela que não segue a lei de Adão será rejeitada, eternamente insatisfeita e fonte de infelicidade. É um ser poderoso e, principalmente, livre. Sofia se admite Lilith:

Eu, Lilith. A primeira companheira de Adão, a mulher suja de sangue e saliva que lhe perguntou: “Por que devo me deitar embaixo de você? Por que devo me abrir debaixo do seu corpo? Por que ser dominada por você? Mas eu também fui feita de pó e por isso sou sua igual”.

Voei então para muito longe, em direção às margens do Mar Vermelho, e Jeová decretou: “O desejo de mulher é para seu marido. Volte para ele.” Ao que eu respondi: “Não quero mais nada com meu marido”.

(…) Estava cercada de criaturas das trevas, quando chegaram anjos enviados por Jeová. Disse a eles: “Não vou, este é meu lugar.” E fiquei, e conquistei minha liberdade e minha solidão. (COUTINHO, 1989, p. 12)

Assim, essa Lilith-Sofia descobre-se indomada. Um ser “quase homem” de tanto exercer o ofício da liberdade de não se prender a ninguém: “Tenho um lado masculino que exerço de maneira muito consciente, não quero gravitar em torno de ninguém, faço questão de ser a dona do meu nariz.” (COUTINHO, 1989, p. 84)

Ao longo do livro vemos que Sofia do Rosário é muitas mulheres poderosas em uma só: em alguns momentos ela se nomeia tais personagens, em outros, personagens como Fernando ou João Paulo a descrevem numa multiplicidade de representações do gênero feminino. Com isso, Sofia também é Hécate, Empusa, Equidna, Circe, Harpias, Medusa, Laura Luedi, Maria Quitéria… Sofia é todas e apenas uma: a mulher que decidiu buscar a si mesma.

4. Da morte e da conformação

Thanatos em Atire em Sofia, como também na própria vida real, nos mostra que é poderoso, um poder com o qual não se pode lutar. João Paulo, amigo e amante de Sofia, não consegue aceitar sua força e traça sua morte. Ele a mata duas vezes: através de seu romance e com três tiros reais em “um verão esquisito”. A força e sensualidade de Sofia levam João Paulo à loucura, assim como o maior orgasmo imaginável provocado por Lilith leva os homens à melancolia. Ao matar Sofia, João Paulo mata simbolicamente também sua própria mãe, com quem teve uma relação de amor e ódio, por ter sido uma prostituta linda, que o fazia sentir-se envergonhado junto aos colegas. Mata igualmente todas as mulheres por quem sempre sentia um “misto de fascinação e nojo, uma parecença insuportável com sua mãe – bonita, temperamental, ‘rapariga’” (COUTINHO, 1989, p. 41). Mais uma vez, Sofia torna-se a representação social de todas as mulheres que não tiveram vergonha de lutar e que, de alguma forma, causaram inquietação social.

Ao criar seu romance, João Paulo mescla realidade e ficção e cria uma história onde ele próprio é um dos personagens principais. Sofia torna-se para João Paulo a ex-Miss Brasil Laura Luedi. No livro, de forma paralela, Sofia sente-se como se fosse no mínimo duas mulheres: a da cidade pequena e a do Rio, a mulher reprimida e a mulher liberal. No livro, o personagem João Paulo mata Laura Luedi, ao mesmo tempo em que o jornalista João Paulo faz o mesmo com Sofia do Rosário.

Fernando conclui que não foi simplesmente João Paulo quem puxou o gatilho e matou Sofia. Na verdade, foi um crime cometido por diversas mãos. A cidade provinciana, que por baixo de uma falsa modernidade mantém ainda a hipocrisia antiga, rancorosa, que condena aqueles que ousam ser diferentes, foi a primeira a matar Sofia. “Damas que se casaram na igreja e pela lei” (COUTINHO, 1989, p. 114), fazendo o que lhes era confiado, famílias inteiras que se sentiam ameaçadas pela quebra de tradições, mães que criaram seus filhos, a mãe de Sofia e seu irmão que cortaram relações com ela, e o próprio Fernando, observador passivo, amigo de todos e de ninguém, foram também assassinos de Sofia. Se Sofia não tivesse retornado à pequena cidade, poderia estar viva. Se tivesse cortado definitivamente o cordão umbilical, estaria viva. Mas, sem retornar, não completaria o processo cíclico de sua busca real.

Considerações Finais

As personagens femininas das histórias de Sônia Coutinho são envolvidas com enredos problematizadores de suas condições na sociedade. A personagem Sofia, de Atire em Sofia, não foge à citada regra. O tema do livro recai na condição feminina em seus desafios e dilemas perante uma sociedade que ainda mantém muita resistência ao fato de ver mulheres que lutam pela conquista de seus espaços.

O romance possui alguns temas que perpassam pela discussão da teoria feminista. O livro apresenta, já no início, o rompimento de Sofia, com a tradição, demonstrando como a mulher não se sente representada socialmente, pois necessita de uma ruptura, não se sentindo acomodada nos modelos pré-estabelecidos. Sônia Coutinho não quer passar uma espécie de receita pronta para fazer com que a mulher lute nesse mundo machista. Isso nem seria possível, pois sua personagem Sofia encontra-se, de fato, sem saída por fazer parte das mulheres que não se moldaram dentro dos costumes tradicionais. Existe uma espécie de vazio no final da obra, uma espécie de pessimismo. Contudo, ele é essencial para provocar uma inquietação necessária naqueles que terminam a leitura de seu livro. Confrontando a heroína com a sociedade em que vivemos, encontramos as pulsões de Eros e Thanatos aparecendo na obra. Pulsões que oscilam e que trabalham juntas, representando no caso específico da mulher, a distante e impossível arte de ser completa e totalmente feliz num mundo pensado por e para os homens.

Referências bibliográficas:

ALBUQUERQUE, Paulo de Medeiros. Os maiores detetives de todos os tempos: o herói na evolução da estória policial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973.

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Trad. Antonio Carlos Viana. Porto Alegre: LP&M, 1987.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Trad. Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005.

CARSON, Alejandro. “Entrelaçando consensos: reflexões sobre a dimensão social da identidade de gênero da mulher”. In:Cadernos Pagu, Campinas, 4: 187-218, 1995.

CASTELLS, Manuel. O Poder da Identidade. Trad.: Klauss Brandini Gerhardt. Vol.II. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

CHARTIER, Roger. “Diferença entre os sexos e dominação simbólica”. In: Cadernos Pagu, Campinas, n.4, 1995.

COUTINHO, Sônia. Atire em Sofia. Rio de Janeiro, Rocco, 1989.

COUTINHO, Sônia. s venenos de Lucrécia. São Paulo, Ática, 1978.

DE LAURETIS, Teresa. “A tecnologia do gênero”. Trad. Susana B. Funck. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org). Tendências e impasses; o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.

DONOFRIO, Salvatore. “O conto policial de Allan Poe”. In: __. Teoria do texto 1 – prolegômenos e teoria narrativa. São Paulo: Ática, 1995.

FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização. Trad. José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

LOBO, Luiza. “A Literatura de Autoria Feminina na América Latina”. 1997. Disponível em: http://members.tripod.com/~lfilipe/llobo.html Acesso em 01 de maio de 2012, às 21h.

MOI, Toril. “Feminist, Female, feminine”. In: — et alii. The feminist reader.London, Macmillan, 1989. p. 117-132.

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Trad. Viviane Ribeiro. Bauru. SP: EDUSC, 2005.

ROUGEMONT, Denis de. O amor e o Ocidente. Trad. Paulo Brandi e Ethel Brandi Cachapuz. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

TELLES, Norma. “Escritoras, escritas, escrituras”. In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2009.

SCOTT, Joan W. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. In: Educação e realidade, Porto Alegre, 1990: p. 5-12.

12 LOBO, Luiza, “A Literatura de Autoria Feminina na América Latina”, 1997. Disponível em: http://members.tripod.com/~lfilipe/llobo.html.Acesso em 01 de maio de 2012, às 21h.

 



Voltar ao topo