Revista LitCult – Vol.8- 2º Sem. - 2015



ENTREVISTA COM O MÚSICO SÉRGIO TANNUS





 

Nina Barbieri Pacheco

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

 

Minicurrículo: Nina Barbieri Pacheco é doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ.

 

Resumo: Entrevista com um músico natural de Niterói da atualidade.

 

Palavras-chave: Sérgio Tannus – música contemporânea – contexto luso-brasileiro

 

Summary: Interview with a contemporary Brazilian musician.

 

Key-words: Sérgio Tannus – contemporary music – luso-Brazilian context

 

 

ENTREVISTA COM O MÚSICO SÉRGIO TANNUS

 

Nina Barbieri Pacheco

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

 

 

Sérgio Tannus é um músico multi-instrumentista natural de Niterói que reside em Santiago de Compostela há quase uma década. Em sua carreira na Europa ele faz parcerias com galegos e músicos de vários países lusófonos. No CD Son Brasilego, lançado em dezembro de 2012, Sérgio explora essas relações e misturas em uma riqueza musical enorme.

O caldo cultural lusófono e a relação com o galego (para muitos, parte da comunidade de língua portuguesa por direito) é o enfoque desta entrevista. Na cultura contemporânea, de mundo globalizado e relações transnacionais, a língua galega e a cultura popular que ela carrega ganham vida e espaço. E a música deste brasileiro pode ter um papel de peso nessa jornada.

 

Entrevista:

  1. Nina Barbieri – Sérgio, como você tomou conhecimento da situação da língua galega na Espanha?

Sérgio Tannus – Eu tomei conhecimento em Niterói, quando a cidade promoveu um encontro que se chamava Niterói encontra Espanha. Nesse evento promoveram um intercâmbio cultural e vieram muitos artistas espanhóis: literatura, baile, pintura e, é claro, música. E foi ali, nesses concertos, onde havia grupos vindos de várias partes da Espanha, que conheci (hoje meus grandes amigos) a Uxía, Fran Perez, Pepe Sendón e Marcos Teira. Foi através deles que me interessei e apaixonei especialmente pela música, língua e cultura galega.

 

  1. Nina Barbieri – O seu primeiro CD traz no título o termo brasilego. Por que você se autodenomina assim?

Sérgio Tannus – Ser brasilego é sentir-se brasileiro, mas com a alma já com um jeitinho galego. Não cheguei por ali com a intenção de propagar somente a tão conhecida e respeitada musica brasileira. Cheguei com o intuito de trocar ideias, aprendizados, escutar coisas novas, buscar novas sonoridades e tentar reproduzir isso na minha música. Forjar em forma de música o elo que liga essa irmandade que poucos sabem que existe. E por esse motivo fui adotado musicalmente e pessoalmente por essas bandas. Hoje, no meu meio e círculo de amizades, a cada dia me sinto mais brasilego.

 

  1. Nina Barbieri – Sabemos que você tocou com a cantora galega Uxía Senlle por alguns anos e que vocês ainda mantêm parceria. Ela sempre buscou divulgar a cultura popular e a música tradicional da Galiza. Isso teve influência na sua carreira?

Sérgio Tannus – Uxía para mim é como uma irmã e madrinha ao mesmo tempo. Nossa relação começou com a admiração mútua (nos meus dois primeiros anos ali) até chegarmos a tocar realmente juntos. Ela me apresentou estilos, bandas, ritmos, instrumentos etc. Um dia sentamos, ensaiamos umas coisinhas, vimos que a química era boa e que poderíamos criar algo bonito juntos. Nos encontros, fomos misturando essas influências e estilos dos nossos países e chegamos a um resultado super interessante, de total mistura. Formamos um duo galego-brasileiro. Então, em janeiro de 2011, gravamos o Meu Canto nos estúdios Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, e desde então me tornei o seu produtor musical, músico de palco e parceiro de produção e composição em inúmeros projetos daqui. Então, não tenho dúvidas de que ela, por sua influência e importância na música galega, mais sua enorme capacidade de receber e agregar as pessoas como eu ao seu redor, teve grande influência e “culpa” no êxito da minha vida artística e musical por essas bandas galegas.

 

  1. Nina Barbieri – Você tem uma afinidade especial com a Galiza há alguns anos. De que forma isto aparece no seu trabalho?

Sérgio Tannus – Aparece em forma de total fusão sonora. O Son Brasilego foi justamente o resultado dos seis anos (na época) de convivência com a cultura e com a música galega. Esse convívio me inspirou e levou a colocar instrumentos típicos da música galega em ritmos e canções brasileiras. Todos os artistas que convidei a cantar ou a tocar nesse projeto (e foram 43), em algum momento estiveram no palco ou gravando comigo. Então essa brasileguidade surgiu naturalmente, pouco a pouco e está estampada no som do cd e nos concertos que faço hoje. Baião junto a uma gaita de fole, um samba acompanhado por um violino, um rock pop com um vibrafone e assim por diante.

 

  1. Nina Barbieri – Como você vê a proximidade entre a língua galega e a portuguesa?

Sérgio Tannus – A proximidade é maior do que muitos imaginam. A língua galega (me desculpem os portugueses e livros que não dão muito ênfase a esse fato) é a nossa real língua mãe. O português de Portugal e do Brasil são filhos diretos da mesma mãe… que já existia há algumas centenas de anos antes de existir o reino de Portugal. A língua é tão próxima que muitos galegos dizem que entendem melhor os brasileiros do que os portugueses que vivem ali ao lado…e vice versa. Muitos brasileiros também comentam diversas vezes que entendem melhor os galegos e os portugueses do norte, do que o português falado em Lisboa, por exemplo. Creio que a proximidade é enorme, pouco proporcional ao número de pessoas que têm o conhecimento disso. O galego-português deveria ser muito mais divulgado e valorizado do que foi e é até hoje.

 

  1. Nina Barbieri – E o que o seu CD, Son Brasilego, traz de contribuição para as relações lusófonas?

Sérgio Tannus – Penso nesse CD como uma PONTE. Como diz a letra de Lula Queiroga e Lenine: uma ponte que não é para ir nem para voltar… que é somente para atravessar. Minha intenção ao gravá-lo foi juntar tudo que vivi e aprendi na Galiza com esses talentos lusófonos e construir essa ponte. Juntar e botar para gravar juntos, sem barreiras ou preconceitos, artistas galegos, portugueses, africanos e brasileiros em torno das canções de um brasilego foi como botar o concreto dessa ponte. Me sinto muito agradecido e honrado por ter sido o idealizador e engenheiro dessa alegre e original ponte imaginária e real.

 

  1. Nina Barbieri – Você tinha consciência que a relação entre a Galiza e os países lusófonos poderia se estreitar através da música?

Sérgio Tannus – Até eu chegar aqui e conhecer a Uxia e a força que tem essa música e cultura, não. Com o tempo vi que a força desse povo e da sua língua supera fronteiras. Vi a grande influência do Zeca Afonso na luta e sonhos dos galegos. Vi os inúmeros projetos musicais de mistura, especialmente um que promove a Uxía, chamado Cantos na Maré, que acontece todos os anos e que sempre conta com um representante de cada país da lusofonia. No concerto fazem duos, trios e terminam a noite todos juntos no palco cantando numa só língua. A música foi e sempre será decisiva na função de estreitar essa relação.

 

  1. Nina Barbieri – Você vê mudanças acontecendo no meio cultural em relação à língua galega e ao espaço que a Galiza ocupava na Espanha e no mundo há alguns anos atrás?

Sérgio Tannus – Creio que a cultura galega, por meio desses grandes artistas e incansáveis impulsionadores que mencionei antes, ganhou mais representatividade e espaço no meio musical da Espanha e do exterior. Mas por questões políticas e históricas, não o suficientemente na Espanha, que ainda guarda muita resistência em aceitar e incentivar distintas línguas e culturas dentro de seu próprio território. Tenho tocado com a Uxía muito fora do país. Portugal, Bélgica, Holanda, Argentina, Brasil, e no momento estamos programando uma turnê pela África, entre outros lugares, onde antes seria impossível chegar. Além disso, o mercado destinado ao público infantil cresceu muito aqui na Galiza pela iniciativa desses mesmos artistas e editoras locais. Eu mesmo produzi ou colaborei musicalmente em mais de oito CDs infantis cantados em língua galega nesses últimos seis anos. Aqui há um movimento de editar livros-discos (que normalmente leva um conto acompanhado de um CD de áudio), que certamente está incentivando as crianças a escutarem mais músicas em galego e, como resultado, a falarem mais a sua língua mãe no dia a dia. Junto a esses livros-discos também existe um incentivo dado por um órgão chamado Política Linguística, que financia os concertos infantis desses projetos – em média 40 num período de três meses – com grupos tocando ao vivo nos colégios e auditórios das pequenas e grandes cidades, para essas crianças. Tenho certeza de que essa iniciativa vai criar ainda mais visibilidade à língua e uma nova geração de falantes de galego.

 

  1. Nina Barbieri – Há uma discussão no meio musical galego hoje acerca da aproximação desta cultura com a lusófona e das possibilidades que esta união poderia gerar para a difusão do galego dentro e fora da Galiza. Você acredita, como músico que vive a cultura galega, que esses laços com os países de língua portuguesa podem ser estratégicos para romper as fronteiras e atingir um mercado maior.

Sérgio Tannus – Acredito totalmente que quanto mais se estreitem esses laços, mais alcance teremos para difundir a língua. Mas é claro que, na minha opinião, as melhores iniciativas são aquelas que são feitas com respeito a todos os outros idiomas e culturas. A ideia é agregar e somar… nunca impor e separar. Esse movimento de intercâmbio é importante para chamar a atenção do mundo em geral, mas principalmente dos países da lusofonia, de que é possível juntarmos nossas vozes e forças sem perdermos a nossa própria identidade cultural e linguística. Falta muito ainda para se cumprir, mas acho que estamos no caminho correto. Portugal, Galiza, Brasil, alguns países da África e de todo o mundo lusófono, já estão dando os primeiros passos nessa direção desejando que essa total aproximação se realize em breve.

 

  1. Nina Barbieri – Conte-nos um pouco sobre seu novo projeto, o CD Alegría.

Sérgio Tannus – O meu mais novo projeto, Alegría – que em galego tem acento (risos) –,  considero um filho e resultado de tudo que mencionei acima. Exatamente como o Son Brasilego, a minha intenção foi de aproximar as nossas culturas, mostrar na prática que é possível estabelecer naturalmente essa irmandade. Ele é fruto de todo o meu percurso e desejo que essa língua seja escutada e valorizada como merece. Foram 40 anos de ditadura onde o galego foi proibido, mesmo dentro das suas próprias casas. Escrevi um conto sobre “Alegra” (uma lagarta) que queria descobrir o segredo da felicidade. E que para isso saiu a caminhar pelo mundo, perguntando às pessoas que encontrasse no caminho o que as fazia felizes. No final ela descobre que a felicidade não tem uma fórmula, que dentro das diferenças existiam inúmeros caminhos para ser feliz. Cada um a sua maneira, o que importa é se nos dedicamos ou não aos nossos sonhos com verdade e amor, desenvolvendo o sentido da tolerância, amor ao semelhante e respeito às diferenças.  Ao descobrir isso, ela ficou tão feliz que um dia voltando da sua viagem dormiu numa folha e acordou borboleta. Resumindo: a beleza não foi o motivo que a fez alcançar a felicidade. Mas a sua felicidade incondicional foi o que a tornou bela. Então encaro esses projetos infantis como uma grande oportunidade para dar bons exemplos, mostrar que as diferenças fazem da vida algo belo e único. Falar e cantar em galego a ALEGRÍA é tentar reverter toda a injusta situação anterior de proibição e repressão, plantando pouco a pouco nessa nova geração o orgulho de serem galegos. Mostrando na prática que hoje todos nós podemos falar, cantar, alegremente e sem preconceitos, no nosso idioma original.

Obrigado, Nininha, pela oportunidade e a todos que estarão lendo e refletindo sobre esse assunto tão interessante e apaixonante.



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