Revista LitCult - Vol.6- 2007



ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA: A CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA NO LIVRO “OS TAMBORES DA CHUVA” de ISMAÏL KADARÉ – Maria Carolina Akemi SAMESHIMA





ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA: A CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA NO LIVRO “OS TAMBORES DA CHUVA” de ISMAÏL KADARÉ

 

 

Maria Carolina Akemi SAMESHIMA

UNESP-FRANCA

 

Antonio Candido, em Literatura e Sociedade, escreveu que a literatura é uma forma de comunicação social, por isso é uma relação inte-rhumanaorganizada por fatores internos e externos. Os elementos internos são, por exemplo, a estrutura da narrativa. Enquanto que os elementos externos são os sociais. Porém, para esse autor a relação entre literatura e sociedade vai além, pois esses elementos que citamos como externos na verdade tornam-se internos em uma obra literária, ou seja, um fator da própria construção artística (CANDIDO, 1967, p. 20).

Em Ismaïl Kadaré podemos perceber justamente esse movimento de que Antonio Candido nos fala. Este autor albanês mostra através de suas obras a história de seu país, mas ao mesmo tempo constrói narrativas que não possuem lugar especifico, ou seja, está relacionada com a nossa sociedade de maneira geral. Prova disso é um outro livro seu chamado Abril Despedaçado que ficou conhecido no Brasil pela versão cinematográfica de Walter Salles, que ainda o adaptou para a nossa região nordestina. Acredito que é nesse sentido que Aristóteles percebeu a literatura como algo universal, e a história, como algo do campo do específico. É importante lembrar que a literatura não é o reflexo do “real”, mas é construída dentro de nosso arcabouço mental, ou seja, é construída a partir das nossas possibilidades. Kadaré constrói seus livros, não apenas Os tambores da chuva, a partir de sua própria história, de seu conhecimento e experiência na Albânia sob a ditadura de Hodja.

Ismaïl Kadaré nasceu na pequena cidade de Gjirokastra, no sul da Albânia, em 1936. Filho de um funcionário dos correios estudou Letras e Filosofia na Universidade de Tirana. No final dos anos 50, com seu país sob domínio soviético, foi para Moscou concluir seus estudos literários no Instituto Gorki. Teve de interromper os estudos quando Enver Hodja, então ditador da Albânia, rompe relações com a URSS. Já era, então, um escritor bastante popular em seu país, com coletâneas de poesias publicadas. Foi quando começou a escrever romances que começaram os problemas para o autor. Seus livros quando não eram proibidos por decreto, o que aconteceu com quatro deles – Concerto no fim de invernoO palácio dos sonhos, O Monstro e Luar – sofriam proibição de qualquer referência a eles na imprensa albanesa.

Segundo o próprio autor, numa entrevista concedida a Tirthankar Chanda, em setembro de 1998, disponível no site www.france.org.br/abr/label , seu gosto pela escrita começou com dez anos de idade quando leu pela primeira vezMacbeth, de William Shakespeare. E depois aos vinte anos teve contato com a literatura antiga:

 

Fiquei tão perturbado que copiei toda a peça a mão. Shakespeare é o maior escritor do mundo. É o mais completo de todos, mais visionário do que os escritores da Antigüidade, com os quais eu também tenho uma grande dívida. Foi com a idade de vinte e sete a vinte e oito anos que descobri a literatura grega antiga propriamente dita. Fiquei impressionado com a modernidade das tragédias de Ésquilo, que pareciam refletir as minhas preocupações de escritor dissidente diante de um Estado totalitário em pleno século XX.

 

Kadaré também foi bastante influenciado pelos escritores franceses do século XIX, como Balzac, Zola e Flaubert. Essa influência da literatura francesa é explicada pelo próprio autor como uma tradição em seu país, que possui uma elite francófila desde os tempos da Revolução Francesa, mas que foi suprimida pela influência russa durante a Guerra Fria.

 

A literatura francesa é, aliás, muito lida na Albânia, onde existiu durante bastante tempo uma elite francófila muito grande, como na Grécia ou na Romênia. As idéias progressistas oriundas da Revolução Francesa tiveram um papel preponderante na evolução dos países dos Bálcãs. Na Albânia também, a intelligentsia adotou as idéias antimonarquistas, que aplicou contra o império otomano. Mas os comunistas suprimiram o francês nas escolas para substituí-lo pelo russo. (Ibidem)

 

Em 1990, cinco anos após a morte de Hodja, Kadaré pede asilo político à França. É interessante notar que mesmo sob regime de censura, seja parcial ou total, de suas obras, Kadaré permanece na Albânia. A explicação dada pelo autor é de que sua saída da Albânia durante o regime de Hodja não teria serventia alguma, mas em 1990, quando deixa seu país natal, existia uma possibilidade de abertura democrática. As obras de Ismaïl Kadaré disponíveis em português são: Abril despedaçado, Concerto no fim do inverno, Dossiê H, O palácio dos sonhos, todos editados pela Companhia das Letras, Três cantos fúnebres para Kosovo e A Ponte dos Três Arcos, editados pela Objetiva.

 

A CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA NO LIVRO “OS TAMBORES DA CHUVA”

 

Segundo François Dosse, a história nasceu da necessidade pela busca da verdade, por isso esse gênero foi se distanciando lentamente da literatura. Na antiguidade, um personagem começa a aparecer, o hístor, em oposição ao aedo. Cabia ao hístor “retardar o desaparecimento dos traços da atividade dos homens”, dessa forma a história e a memória passam a caminhar juntas. (DOSSE, 2003, p. 13).

Essa tentativa de “aprisionar a morte e fazer com que as grandes façanhas […] não caiam no esquecimento” (Ibidem) é justamente a função de um dos personagens do livro de Kadaré, o cronista Mevla Tcheleb. Para imortalizar os sucessos dos comandantes do exército turco, Tcheleb acompanha, ou tenta acompanhar os acontecimentos de perto, da linha de frente, com o objetivo de fazer uma história com o máximo de detalhes que comprovem a veracidade de sua escrita. No entanto, uma questão incomodava Tcheleb, como descrever de modo heróico pessoas com atributos nada heróicos?

 

 

(…) Enquanto seguia os generais com os olhos, Tcheleb tratava de encontrar qualificativos que incorporaria aos nomes de cada um na sua crônica. Porém, os qualificativos eram poucos, eram fracos e em sua maioria tinham sido empregados em excesso pelos cronistas mais antigos, banalizando-os. Além do mais, havia que por de lado os principais louvores, reservados para uso exclusivo do comandante-chefe […].

(…)

Excetuando-se o comandante-chefe e Karamukbil, que tinham rostos ovais e regulares, e naturalmnte o allaibeu, que ostentava a bela estampa da maioria dos seus iguais, as fisionomias dos demais pareciam propositalmente talhadas para dificultar o oficio do cronista. À mente deste involuntariamente ocorriam coisas nada próprias de um heróico relato de feito d’armas, como o terçol no olho de Olltch Karaduman, a asma do mufti, a dentadura saliente de Utch Kurtogmuz, as frieiras de seu homônimo Utch Tundjurt, corcundas, pescoços truncados, braços longos como de espantalhos, gorduras ostentadas por um ou outro, e principalmente os pêlos encravados no nariz de Kurdishdji, que já na noite anterior tirara o sono do cronista. (KADARÉ, 2003, p. 28-29)

 

 

Esse trecho mostra uma discussão de grande polêmica na historiografia: a construção dos acontecimentos históricos pelo historiador, tal qual faz um romancista. Para Paul Veyne, em Como se escreve a História, o historiador trabalha como um romancista, pois coloca os fatos, pré-selecionados e hierarquizados, numa intriga. Essa disposição é “muito pouco científica de causas materiais, de fins e de acasos: um relato de vida, enfim, que o historiador recorta à vontade e no qual os fatos têm ligações objetivas e sua importância relativa” (VEYNE, 1995 p. 36).

Outra questão é a da neutralidade do historiador com relação ao seu objeto. Ainda mais se pensarmos que na situação de Tcheleb, ou seja, ele escrevendo sobre um fato no qual ele participa e presencia. Como resolver então a questão entre realidade observada e o olhar que o observa? Sobre essa questão, Hayden White escreveu que não existe uma realidade pré-definida e absoluta a espera de ser explicada pelo historiador. Pelo contrário, assim como na literatura, a história é também construção, ou como o autor prefere, umaurdidura do texto. As fontes históricas, tão preciosas para dar o caráter científico a disciplina, são também construídas e nomeadas como fontes pelo historiador (WHITE, 1994, p. 55). Como Mevla Tcheleb, os historiadores escolhem os fatos e os acontecimentos importantes de serem imortalizados, os materiais que servem de prova também passam por uma seleção e hierarquização, as próprias causalidades são construídas pelo historiador ao urdir o texto:

 

 

(…) No princípio, assim que encontrara a expressão, pusera-se à procura de uma metáfora para os soldados que nadavam naquele mar e trouxera à memória todos os seres marinhos, mas nenhum lhe parecera a altura de tão gloriosos guerreiros (KADARÉ, 2003, p. 295).

 

 

 

Outra questão que preocupa Mevla Tcheleb diz respeito aos fatos que devem ser mencionados, como já vimos anteriormente, e as personagens que devem ser mencionadas. Numa conversa, o chefe da intendência disse ao cronista:

 

 

— Usualmente vocês, cronistas, reservam todos os méritos dos feitos d’armas para o comandante supremo – comentou o intendente –, mas quero dizer-lhe uma coisa, preste atenção, Tcheleb: depois do comandante, as maiores responsabilidades vêm para aqui – e apontou para a própria fonte. (Ibidem, p. 31-32)

 

Mevla Theleb refletiu que as crônicas jamais mencionavam o trabalho de desamarrar e amarrar o equipamento, embora ele parecesse consumir metade do tempo dos soldados. (Ibidem, p. 33)

 

Tcheleb percebeu que os soldos também jamais eram lembrados nas crônicas militares. (Ibidem, p. 35)

 

— Para dizer a verdade, este Império sem fim, que orgulha a todos nós, expandiu-se por meio desses pés cheios de calos e frieiras. (Ibidem, p. 36)

 

 

Esses aspectos do ofício do historiador encontrados no livro de Kadaré nos lembra o manifesto da Escola dos Annales contra a maneira que os metódicos tratavam os acontecimentos e os sujeitos históricos. Na visão dos Annales, a Escola Metódica se importava com o tempo curto, ou seja, o tempo do evento, e se preocupava apenas com os grandes acontecimentos e com as grandes personalidades. Quando na verdade a ênfase deveria estar na longa e media duração, na história social, ou seja, coletiva e acima de tudo namultidisciplinariedade.

Outro aspecto importante sobre a maneira que a história é escrita, é, por exemplo, a diferença entre as palavras do arquiteto e a crônica que esta sendo escrita por Tcheleb. Em certa altura do livro, quando mostrava seus desenhos, esquemas e planos para atacar o castelo, as palavras do arquiteto são caracterizadas como palavras sem vida, (Kadaré, 2003, p. 44). Enquanto o cronista une artisticamente as palavras para imortalizar a história dos sucessos turco na campanha albanesa, o arquiteto através de projetos e esquemas tenta encontrar a maneira mais eficaz de derrotar o inimigo.

Portanto, notamos que no livro o cronista aparece entre aqueles que sabiam algo mais sobre o destino, (Ibidem, p. 21). Podemos ainda notar, a importância dada à história e aos historiadores em poder explicar o presente, através do passado, e propor um sentido para os desígnios humanos, como na historiografia iluminista, com Kant, ou mesmo fazendo projeções sobre o futuro, como em Condorcet.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHARTIER, Roger. À beira da falésia. Porto Alegre: Editora UFRS, 2002.

CONDORCET, Jean-Antoine-Nicolas de Caritat. Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano. Campinas: Unicamp, 1993.

DOSSE, François. A História. Bauru-SP: Edusc, 2004.

KADARÉ, Ismaïl. Os tambores da chuva. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

KANT, I. Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. (1784). In. GARDINER, P. Teorias da História. Lisboa: Kalouste Goulbenkian, s/d.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967.

REMOND, René. (org.) Por uma história política. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/FGV, 1996.

VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Foucault revoluciona a história.Brasília: Ed. da UNB, 1995.

WHITE, Hayden. Trópicos do discurso. São Paulo: Edusp, 1994.



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