Revista Mulheres e Literatura – vol. 19 – 2017



ENSAIOS DE UMA BELEZA FEMININA QUE TEM HISTÓRIAS PARA CONTAR – Elisa Riffel Pacheco





Elisa Riffel Pacheco

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar a escrita feminina através dos aportes teóricos e metodológicos referentes à beleza feminina contemporânea e sua representatividade presente nos diversos artefatos culturais e midiáticos, incluindo o cinema e a literatura. Tal estudo abrange um conteúdo histórico que ressalta a trajetória do embelezamento feminino ao longo dos séculos, bem como sua importância e repercussão nos dias de hoje. Traz como referência teórica os Estudos Culturais em Educação, que fazem pensar as pedagogias culturais que constroem e dão sentido a um modelo/padrão de beleza feminina que cada vez mais ganha visibilidade através de um corpo que se coloca constantemente em evidência e em espetáculo. Este artigo traz um recorte da minha pesquisa de dissertação de mestrado “Meninas fantásticas e o sonho do universo fashion: entre a beleza, o luxo e o glamour das passarelas, vale tudo para ser uma top model?”,  que analisou como muitas meninas sonham em serem modelos e tornarem-se mulheres “fantásticas” no mundo da moda.

 

Palavras-chave: Estudos Culturais; Beleza; Feminilidade; Corpo.

 

Abstract: This article aims to analyse the female writing through the theoretical and methodological related to female beauty and its representations existing in the various media and cultural artifacts, including cinema and literature. This study has a historical background that highlights the feminine embellishment over the centuries, as well as today. It employs cultural studies in education as its theoretical reference, which leads to the cultural building of a pedagogy and measures the meaning of a standard of feminine beauty that increasingly gains visibility through a body that arises constantly in evidence and in shows. This article is part of my dissertation research, “Fantastic Girls and the fashion universe: the glamour of catwalks among beauty, luxury and glamour. Is it worth anything to be a top model?” It analysed the dreams of so many girls who dream about being a model and to be “fantastic” women in the fashion world.

 

Keywords: Cultural studies; Beauty; Femininity; Body.

 

Minicurrículo: Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Psicopedagoga especialista em Pedagogia da Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escritora, poeta, atriz. Possui diversas publicações tanto no campo acadêmico como no campo literário.

 


 

ENSAIOS DE UMA BELEZA FEMININA QUE TEM HISTÓRIAS PARA CONTAR

Elisa Riffel Pacheco

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

  1. Introdução

A beleza tem muitas histórias para nos contar. Hoje, vivemos a idolatria do belo sexo e as antigas atitudes hostis ao amor do corpo já se encontram ultrapassadas. Na contemporaneidade está em vista a indústria da beleza e a coqueteria já não causa repugnância, nem suspeita em relação à aparência feminina. Crescem os desejos de autonomia e realização pessoal e a tendência é amar a si mesmo, agradar-se e agradar aos outros. Melhorar a forma física tornou-se uma atitude legítima. As mulheres podem embelezar-se aos “quatro  ventos”  e  o  investimento  feminino  na  aparência  é  promulgado  constantemente. Contudo, nem sempre foi assim. Segundo Lipovetsky (2000, p. 102):

(…) durante a maior parte da história da humanidade, a mulher não representou de modo algum a encarnação suprema da beleza, seus encantos não se beneficiaram nem de uma condição muito elevada nem de um tratamento artístico privilegiado. Lição incomparável do mergulho no passado mais distante: não há nenhuma permanência nem necessidade transistórica do “belo sexo”. Este é um fenômeno inteiramente histórico, uma instituição social, um “construído” cuja origem não remonta a muito além da aurora dos tempos modernos.

 

Nem sempre a beleza feminina foi reconhecida e apreciada no prisma das exaltações estéticas. Nas sociedades ditas “selvagens” que datam aproximadamente do período da pré-história, não se levava em consideração a supremacia estética do feminino. Nessa época, conforme Lipovetsky (2000, p. 104) “(…) o atributo sublinhado não é a beleza feminina, mas a fecundidade, o poder superior de vida e de morte. A deusa não é celebrada por sua beleza, mas por ser senhora dos animais e das forças incontroladas, poder divino de vida e de morte”.

Nesse sentido, a beleza feminina não era mais admirada que a dos homens nem aparecia como uma propriedade distintiva da mulher. O homem era “(…) o ponto de mira da estética corporal” (Lipovetsky, 2000, p. 104). Assim, por mais ricos e espetaculares que fossem os ornamentos e tatuagens femininos, isso não significava uma religião estética da mulher. O curioso era que na sociedade sem escrita, tanto a beleza masculina como a feminina eram reconhecidas socialmente e cantadas, mas não eram enaltecidas nem personificadas como um dom de superioridade.

O mesmo autor nos explica que essa “recusa” social de sacralizar a beleza feminina não cabe somente às eras “primitivas” da humanidade. A ausência de culto do belo sexo foi também percebida na mentalidade camponesa do mundo rural tradicional. Os antigos provérbios empenhavam-se em desvalorizar e diabolizar a beleza feminina. Ao afirmar que por toda a parte dominava a tendência de depreciação dos encantos femininos, Lipovetsky (2000, p. 105) afirma: “(…) trata-se antes de tudo de prevenir os rapazes contra os atrativos fugidios e perigosos da beleza: ‘não há rosa sem espinho’ (Provença-Languedoc); ‘Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento’ (Albi); ‘Beleza não põe mesa’ (Gasconha)”.

O que sustentava a condição de beleza nas sociedades primitivas era a fecundidade. Dessa forma, a mulher infecunda era desprezada, porque tornava incompleto o dever de descendência. Devido a isso, a beleza não poderia ser beneficiada de homenagens. Em tudo, o homem era considerado superior às mulheres. Embora o lado feminino tivesse poderes reconhecidos, nenhum deles poderia ser nivelado fora da supremacia do homem. Ao destacar que as atividades nobres, o prestígio e as marcas de glória eram propriamente da ordem do masculino, Lipovetsky (2000, p. 106) elucida que “(…) nesse contexto, a idolatria social da beleza feminina não pode surgir, uma vez que liberaria um foco de consagração feminina antinômico com o princípio do monopólio masculino do prestígio e da superioridade social”.

Em nenhum código social a adulação do feminino e a ausência de religião estética das mulheres, estavam associadas à organização do trabalho. Assim, na ordem social primitiva não havia mulheres ociosas. Todas as mulheres, segundo o autor, eram encarregadas de assegurar um papel de produtoras, inclusive as esposas dos chefes, que também participavam das atividades econômicas.

Em meio a todo esse contexto, a valorização da beleza como uma característica distintiva do feminino não ganhava corpo. Para possibilitar-se a idolatria do belo sexo era preciso que surgisse uma divisão social entre as classes ricas e pobres. E foi isso o que aconteceu. Com a separação das classes nobres das classes laboriosas, abriu-se uma condição necessária para uma categoria de mulheres isentas de trabalho. Essas novas condições sociais contribuíram para tornar mais estreita a relação entre práticas de beleza e feminilidade, conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 107), dizendo-nos que, “(…) nas longas horas de ociosidade de que dispõem as mulheres das classes superiores, elas passam a se dedicar a maquiar-se, enfeitar-se, fazer-se belas para se distrair e agradar ao marido”. O autor ainda coloca que desde a antiguidade grega, e depois romana, já se fazia o uso feminino nas pinturas. Porém, essa prática não estava associada à cultura do “belo sexo”, e sim à procura das mulheres pelo próprio embelezamento. O reconhecimento social da beleza feminina entra em uma nova fase com o aparecimento do Estado e das classes sociais.

 

1.1 O culto da beleza feminina e a invenção do belo sexo

Falar da beleza é também falar do corpo. Para Del Priore (2000, p. 15), “(…) as noções de feminilidade e corporeidade sempre estiveram, portanto, muito ligadas em nossa cultura”. Hoje, vive-se uma corrida constante pela beleza, em que todos os corpos devem ser cultuados e bem “cuidados”. Vive-se um “carinho”, um cuidado de si, como afirma Couto (2012, p. 119), onde todos são “(…) convidados a administrar a própria aparência, suprir e redesenhar as formas físicas”. Hoje, o sonho de ser bela democratizou-se e está ao alcance de todos. Sant`Anna (2005, p. 122) diz-nos que:

(…) através das imagens e dos discursos criados com o intuito de embelezar a mulher, segundo os interesses econômicos, os padrões morais e os argumentos científicos de cada época, cruzamos outras histórias paralelas ao sonho de ser bela: no Brasil, em particular, o gesto que embeleza não desenha somente uma fisionomia mais à moda, em detrimento de uma aparência doravante considerada ultrapassada, portanto, feia. Ao fazê-lo, ele também revela as diversas nuanças do antigo sonho de ser moderno e civilizado que há muito persegue as elites desse país.

 

O que antes era considerado um sonho apenas das elites, tornou-se também um sonho do povo, de uma cultura de massa. Ao afirmar que, para o homem ocidental, o corpo tornou-se o lugar de sua identidade e seu modo de ser, Couto (2012, p. 119) destaca que:

(…) nossa época se rende aos diversos cultos que celebram e festejam a corporalidade. Das práticas esportivas intensas e, muitas vezes, radicais, ao uso proliferado do silicone e das cirurgias plásticas, diversas técnicas e terapias servem para hipervalorizar e pavonear o corpo nas ruas, praias, clubes, páginas de revistas, programas televisivos, filmes publicitários, imagens diversas na internet, passarelas, galerias de arte.

 

Mas, será que sempre foi assim? Tal pergunta feita por Del Priore (2000, p. 15) coloca que “(…) a imagem corporal da mulher brasileira está longe de desembaraçar-se de esquemas tradicionais (…)”. Ela salienta ainda que, “(…) mais do que nunca, a mulher sofre prescrições (…)”.

Agora, não mais do marido, do padre ou do médico, mas do discurso jornalístico e publicitário que a cercam. No início do século XXI, somos todas obrigadas a nos colocar a serviço de nossos próprios corpos. E se, em termos contemporâneos, “(…) o algoz não tem rosto” (Del Priore, 2000, p. 15), somos bombardeados, constantemente, por centenas de imagens que nos ensinam uma cultura feminina das aparências. No entanto, no passado era diferente, deslocavam-se outros critérios de beleza que produziam outros efeitos corporais.

Assim como nos explica Vigarello (2006), cada regra, etiqueta ou receita de beleza está ancorada a sua dinâmica corporal. Albino e Vaz (2008), ao analisarem como Vigarello (2006), organizando sua exposição sobre a história do embelezamento feminino, explicam que no século XVI a beleza foi revelada, no XVII era expressiva, no XVIII era experimentada e no XIX, torna-se desejada. Por volta de 1914 até os anos 2000, os autores apresentam a beleza como democratizada. Época democrática do belo sexo significa, nesse sentido, glorificação sem reservas de seu reino, emancipação da dimensão beleza em relação aos medos e às litanias misóginas, autonomização total no que se refere às conotações morais e religiosas. Fim da ambivalência imemorial dos encantos femininos: com o século XX, triunfa a era da pós- mulher fatal (Lipovetsky, 2000, p. 170).

É ao falar da difusão dos cuidados estéticos em todas as camadas sociais que o autor (2000) nos conta sobre uma era democrática da beleza e da chegada do século XX, que faz com que os produtos e as práticas de embelezamento deixem de ser um privilégio de classe. Para Lipovetsky (2000), ao longo das últimas décadas, ocorreu um deslocamento de prioridades, onde uma nova economia das práticas femininas de beleza instituiu outra relação com o corpo. O autor ainda ressalta que:

(…) a preocupação feminina de parecer jovem não tem nada de fenômeno recente. No entanto, por muito tempo os cuidados proporcionados à aparência foram dominados pela obsessão com o rosto, por uma lógica decorativa concretizada no uso dos produtos de maquiagem, nos artifícios da moda e do penteado (p. XX).

 

Ao falar de uma cultura feminina das aparências, Del Priore (2000) mostra-nos como era comum buscar a transformação do corpo feminino para dissimular as imperfeições com o uso de pós, perucas, unguentos, espartilhos e tecidos volumosos. A cosmética evoluía. E desde o século XVI, na Europa Moderna, já começavam a circular “livros de receitas”, os chamados “segredos” de beleza. Enquanto os poetas despiam o corpo feminino, a sociedade ditava regras para cobri-lo e transformá-lo. A autora (2000, p. 23) afirma que “(…) a pele azeitonada, a robustez física, as feições delicadas e a longa cabeleira passavam por processos feitos de bens e serviços, utensílios e técnicas, usos e costumes capazes de traduzir gostos e rejeição, preceitos e interditos”. Mas, Lipovetsky (2000) conclui que essa tendência não é mais a nossa. Se por muito tempo, o grande alvo do embelezamento feminino era o rosto, hoje o corpo e sua conservação ganham mais paixão e cuidados estéticos. Del Priore (2000, p. 60), destaca que:

Quanto ao rosto, a moda da fisiognomonia, ou seja, a arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços do rosto ditava regras. Trocas fisiológicas entre interior e exterior, relações entre físico e moral, compunham um abecedário de normas para fazer o rosto “falar”: a fronte alta e lisa era denotativa de temperamento dócil e serenidade de alma; sobrancelhas naturalmente arqueadas diziam da franqueza de sua possuidora; olhos negros anunciavam calor e vontade; os azuis, ternura e paixões tranquilas; o nariz não podia ser nem muito pontudo nem muito largo e suas aletas, suficientemente bem recortadas para exprimir “impressões fugitivas”; a boca jamais poderia ter lábios finos pois associavam-nos à mesquinharia.

 

Hoje, no novo planeta da beleza em que vivemos, a magreza se faz preponderante, mas não está sozinha, pois vem acompanhada da febre da beleza-magreza-juventude, que vem sendo anunciada desde os anos 60, em que a cultura juvenil ganha força através da difusão de modelos estéticos adolescentes. Segundo Lipovetsky (2000, p. 130) “(…) desde a Antiguidade as mulheres utilizam maquiagens e outros unguentos a fim de mostrar-se vantajosamente e mascarar certos desfavores”. Com a chegada do século XX, a palavra “ordem” adquire outra configuração e passa dar valor a um furor que põe em evidência uma aparência jovem, magra e descontraída. O velho e admirável “coroa” burguês perde a sua vez e o que vemos hoje, segundo o autor (2000, p. 137), “(…) exprime antes de tudo o apogeu de uma dinâmica ligada às metamorfoses da cultura de massa, da moda e dos lazeres nas sociedades modernas de cem anos para cá”. A magreza passa a ser o epicentro dessa espiral de coerções estéticas. O corpo esbelto e firme torna-se uma norma consensual.

Nessa perspectiva, Lipovetsky (2000, p. 137) afirma que, “(…) ao longo de todo o século, as estrelas e as manequins propagaram o ideal estético da mulher moderna, esbelta e esguia”. O autor coloca ainda que o corpo feminino emancipou-se de suas antigas servidões (sexuais, procriadoras e indumentárias), mas cada vez mais se rende às atividades modeladoras e à conquista da beleza relacionada à esbelteza, restrições alimentares e exercícios corporais.

Del Priore (2000) salienta que o corpo feminino passou por uma revolução silenciosa nas últimas três décadas. Por muito tempo “(…) a mulher de forma mais salientosa tendia a ser considerada mais ortodoxamente feminina” (p. 53). A mulher era considerada desejada por ser sexuada e fecunda. Como nos diz a autora (2000, p. 58) “(…) feliz prisioneira dessas formas, ela sublinhava a relação entre sua conformação anatômica e sua função biológica e, ao mesmo tempo, sagrada: reproduzir, procriar, perpetuar”. Lipovetsky explica a extraordinária adesão das mulheres à estética da magreza por suas transformações de sua identidade social:

(…) nas sociedades que nos precederam, a corpulência feminina era valorizada porque era associada à fecundidade, destino supremo da condição feminina tradicional. O desenvolvimento dos métodos contraceptivos e o novo compromisso profissional das mulheres transformaram radicalmente não apenas as condições de vida feminina, mas também, no mesmo passo, sua relação com a aparência (2000, p. 138).

 

Desde o século VI a.C a coqueteria era considerada como ardes diabólicos e o uso de pinturas típicas do gênero feminino era condenado e visto como trapaças desonestas (Lipovetsky, 2000). O humanismo renascentista deu uma nova significação para a beleza feminina e, assim, estabeleceu-se uma ruptura com sua diabolização tradicional. Uma bela mulher era dita como uma obra-prima de Deus. Tais encantos femininos alimentavam a inspiração de muitos artistas, entre eles, pintores, escritores, filósofos, pensadores e poetas. Assim, tanto nos meios letrados, como nos aristocráticos, a mulher era admirada como a emanação da beleza divina, sendo posta na condição de anjo. Se antes sua beleza era inscrita como a “arma do diabo”, símbolo da malignidade, no século XV e XVI, mulher bela, divina, como nos diz Lipovetsky (2000, p. 114) “(…) instalou-se um processo excepcional de dignificação da aparência feminina, de celebração de sua supremacia estética, do qual somos os herdeiros diretos”. Da mesma forma que a beleza foi acusada, também foi exaltada, com os mesmos hinos ao feminino. Lipovetsky (2000, p. 113) ao contextualizar que a idolatria do “belo sexo” é uma invenção da Renascença, explica que:

(…) de fato, é preciso esperar os séculos XV e XVI para que a mulher seja alçada ao pináculo como personificação suprema da beleza. Pela primeira vez na história, realiza-se a conjunção das duas lógicas que instituem o reino cultural do “belo sexo”: reconhecimento explícito e “teorizado” da superioridade estética do feminino e glorificação hiperbólica de seus atributos físicos e espirituais.

 

Ainda o que caracteriza a beleza renascentista é a imobilidade, o ócio e a brancura da pele, atributos relacionados à ordem aristocrática, assim como com a função de distinção social. Del Priore (2000, p. 56) informa-nos que “(…) as mulheres brancas eram descritas como possuidoras de um corpo negligenciado, corpulento e pesado, emoldurado por um rosto precocemente envelhecido”. Entre as diversas causas, explica-nos Del Priore (2000) estavam os banhos quentes, o amor à comodidade, o matrimônio e a maternidade precoces, a falta de exercício físicos, entre outros. A autora, ainda nos conta que:

Alguns viajantes atribuíam a palidez e o desmazelo das moças à severidade com que eram tratadas pelos pais e maridos, sendo mantidas muito segregadas da vida social – situação ainda mais grave no interior, onde passavam às vezes muitos meses encerradas entre quatro paredes, sem aparecer às janelas. A sujeira e o desleixo que diziam testemunhar provocavam segundo eles, violentas deformações físicas. As mulheres brancas, ainda que em geral bem tratadas, levavam “uma vida estúpida, fechadas para o mundo em seus quartos escuros” e por esse motivo pareciam também descoradas e doentes (…) (DEL PRIORE, 2000, p. 57).

 

Isso faz lembrar a história da “Branca de Neve”, em que a princesa é proibida por sua madrasta de sair do castelo, e por isso não tem o hábito de tomar sol, nem de passear pelo bosque, ora de conhecer o mundo em que vive. Contudo, nos diz Lipovetsky (2000, p. 133) que hoje mais do que nunca, as mulheres combatem com muito empenho “(…) tudo o que parece ser flácido, gordo, mole. Já não basta não ser gorda, é preciso construir um corpo firme, musculoso e tônico, livre de qualquer marca de relaxamento ou de moleza”.

No século XIX começa a surgir a necessidade de uma sensibilidade mais individual, mas isso ainda não é tão visto no cotidiano e demora a se consolidar. Como diz Vigarello (2006), há o nascimento de uma nova sociedade que tenta se opor à antiga, mas que ainda se vê sob a “velha etiqueta aristocrática”. Lipovetsky (2000, p. 128), também nos fala que até o fim do século XIX, “(…) a idolatria do belo sexo se desenvolveu em um quadro social estreito”. O autor, ao salientar que as homenagens artísticas às mulheres e às práticas estéticas quase não ultrapassavam os limites do publico rico e cultivado, destaca que:

(…) fora dos círculos superiores da sociedade, as valorizações poéticas e cosméticas da beleza, assim como as imagens resplandecentes do feminino, têm pouca difusão social. Na sociedade camponesa, até a Primeira Guerra Mundial, as acusações tradicionais contra os encantos femininos superam em muito sua exaltação. Durante quase cinco séculos, a celebração da Bela conservou sua dimensão elitista: é um culto de tipo aristocrático que caracteriza o momento inaugural da história do belo sexo (LIPOVETSKY, 2000, p. 128).

 

Entretanto, enfim, chega o século XX, onde a beleza é associada ao bem estar feminino. As referências dessa época são as misses e atrizes, das quais as imagens passam a ser usadas como propagandas de cosméticos. Lipovetsky (2000, p. 128) acentua que com a chegada do século XX “(…) a imprensa feminina, a publicidade, o cinema, a fotografia de moda propagaram, pela primeira vez, as normas e as imagens ideais do feminino na escala do grande número”. As estrelas, as manequins, as imagens de pin-up são as personagens principais, modelos superlativos da feminilidade que saem das passarelas e das telas do cinema e invadem o cotidiano. Não é mais sonho, nem raridade, é realidade. Conforme nos diz ainda o autor (2000, p. 129), “(…) as revistas femininas e a publicidade exaltam o uso dos produtos cosméticos por todas as mulheres”. O culto do belo sexo entra em sua dinâmica mercantil e democrática, ganhando uma dimensão social inédita ao invadir a era das massas com o advento da cultura industrial e midiática.

É com relação a esse protagonismo que nasce um novo modo de pensar e viver a beleza, em que “(…) buscar uma singularidade transforma-se em um dever” (Albino e Vaz, 2008, p. 250). Neste sentido, antes de investir no próprio corpo, faz-se necessário descobrir a si mesma, pois neste novo contexto, o corpo representa o que se é interiormente. Neste novo cenário da beleza contemporânea, os modelos tornam-se mais fugazes, uma vez que acompanham a vontade e o estado de espírito das musas. Para Lipovetsky (2000, p. 129) “(…) durante séculos, a glorificação do belo sexo foi obra dos poetas e dos artistas, de agora em diante ela é própria da imprensa, das indústrias do cinema, da moda e dos cosméticos”. Com esse “boom da beleza”, termo utilizado por Lipovetsky (2005):

(…) abriu-se um novo ciclo histórico baseado na profissionalização do ideal estético (estrelas e manequins) e no consumo de massa de imagens e de produtos de beleza. Industrialização e mercantilização da beleza, difusão generalizada das normas e imagens estéticas do feminino, novas carreiras abertas à beleza, desaparecimento do tema da beleza fatal, inflação dos cuidados estéticos com o rosto e com o corpo: é a conjunção de todos esses fenômenos que funda a ideia de um novo momento da história da beleza feminina. Depois do ciclo elitista, o momento democrático; depois do ciclo artesanal, a época industrial; depois do período artístico, a era econômico-midiática. As democracias modernas não fazem declinar a cultura do belo sexo, coincidem com sua apoteose histórica.

 

Com esse incitamento ao consumo, “(…) a negação metafísica da carne foi substituída por um ativismo funcional do corpo” (Lipovetsky, 2000, p. 141). Os novos discursos de valorização de si mesma não escapam às normas e aos domínios de controle do corpo. Ao falar de uma “teologia da beleza”, por exemplo, Lipovetsky (2000, p. 140) coloca que “(…) a febre contemporânea da beleza feminina é a continuação da religião por outros meios”. Em tempos hipermodernos, o centro é a diabolização do pecado da gordura. Este é o catecismo que culpabiliza as mulheres e hipnotiza e manipula os “fiéis” a renunciarem aos prazeres da gula. De agora em diante, segundo Lipovetsky (2000, p. 140):

(…) as eleitas são as top models e as não-eleitas as mulheres gordas e enrugadas. Como todos os cultos religiosos, a beleza tem seu sistema de doutrinação (a publicidade dos produtos cosméticos), seus textos sagrados (os métodos de emagrecimento), seus ciclos de purificação (os regimes), seus gurus (Jane Fonda), seus grupos rituais (Vigilantes do Peso), suas crenças na ressurreição (os cremes revitalizantes), seus anjos (produtos de beleza), seus salvadores (os cirurgiões plásticos).

 

Se o sistema contemporâneo da beleza amplia a lógica moderna do consumo, ele também vem acompanhado de um novo sistema de comunicação, do qual a imprensa feminina faz parte e contribui para promover normas estéticas. A profusão das representações da beleza feminina conheceu uma popularidade crescente e, segundo Lipovetsky (2000, p. 155), “(…) tanto as mensagens como as imagens reforçam a definição do feminino como gênero destinado à beleza”.

 

1.2 A Algumas considerações: ser bela e feliz para sempre?

Ao nos afirmar que a imprensa feminina adquiriu um imenso poder sobre as mulheres ao longo do século XX, Lipovetsky (2000, p. 165) ressalta que “(…) não há muita dúvida de que a imprensa feminina figura entre os agentes mais eficazes da propagação social das normas do corpo esbelto (…). Frente às novas exigências de sedução, surge uma nova mulher que usa a maquiagem e a roupa que quer. Lipovetsky (2000) conta-nos que a partir dos anos 1960, a imprensa feminina dá mais acessibilidade à elegância, tornando-a prática e descontraída. E assim, a mídia passa a valorizar a individualidade e a personalidade, e a beleza, agora, se torna livre. Até um artigo da Vogue de 1968, como destaca Lipovetsky (2000, p. 165) “(…) defende a ideia de que a beleza resulta metade da personalidade, um quarto da maquiagem e outro quarto da natureza”. Dessa forma, a mídia feminina começa a reforçar o poder das mulheres sobre sua aparência física. E que mulher não sonha em ser bela? Ao falar que se difunde uma cultura que favorece a responsabilização individual pelo corpo e o princípio de autoconstrução de si, Lipovetsky (2000, p. 101) coloca que:

É um belo romance, é uma velha história. Lembremo-nos dos contos, das rainhas e de suas inquietações lancinantes: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”. Ao longo dos séculos, os poetas se maravilharam com os encantos da bela, os pintores e os escultores glorificaram a plástica de Vênus, os livros de “segredos” propagaram as receitas da sedução feminina. Ainda em nossos dias, as fotografias de moda, os institutos e concursos de beleza, os conselhos e produtos cosméticos não cessam de recompor o primado da beleza feminina, de reproduzir a importância da aparência na identidade feminina. Que mulher não sonha em ser bela e que homem não sonha com mulheres lindas? Uma mulher nunca é bela demais: quanto mais o é, mais irradia sua feminilidade. Para os homens, nada de semelhante: a imagem da virilidade não é função da beleza. Hoje como ontem, as expectativas em relação à beleza e ao valor a ela conferido não são equivalentes no masculino e no feminino. Para nós a equação é evidente: segundo sexo e belo sexo, é a mesma coisa.

 

Esse primado da beleza feminina vem reforçando o sonho de se estar bela desde as nossas infâncias. A importância da aparência ganha palco nas mais diversas circunstâncias sociais. As mulheres são cobradas para adquirirem e manterem uma beleza midiática, a ser consumida e produzida como nos contos de fadas. Muitas meninas, por exemplo, já devem ter sonhado em assumir um estilo Cinderela, Branca de Neve ou Bela Adormecida de ser. Para terem a chance de atingir tais sonhos, elas “abraçam” os conselhos e as dicas que prometem corrigir todos os “defeitos”, alcançando o corpo idealizado. Mas e o que a mídia tem a ver com isso? Conforme nos explica Lipovetsky (2000, p. 167) “(…) a mídia menos produz o desejo feminino de beleza do que o exprime e intensifica”. Mas o que as artistas, as princesas e as manequins têm em comum? Não poderíamos pensar que ambas nos sugestionam ou irradiam uma feminilidade fantástica? Nessa exposição e proliferação de imagens de mulheres realçadas e intensificadas na mídia, não nos inspiramos a querer ser cada vez mais belas e sedutoras? O sonho de ser uma famosa top model não poderia estar de certa forma relacionado com todo esse encantamento literário da beleza feminina? Lipovetsky (2000) nos explica que, por muito tempo, se pendurou o tema da beleza perigosa, que despertava o medo e a desconfiança dos homens. Contudo, com a sagração do belo sexo, houve uma mudança importante e o feminino passou a ser cercado de homenagens enfáticas. Nesse contexto, segundo Lipovetsky (2000, p. 125):

(…) “Cada bela mulher é uma rainha”, diz justamente Balzac: depois de milênios de depreciação, um poder feminino é posto num pedestal, admirado, supostamente igualando ou mesmo superando o poder dos monarcas. O novo reside em que um atributo feminino tornou-se capaz de conferir às mulheres títulos de nobreza, prestígio, riqueza simbólica. Assim, os hinos ao belo sexo não podem ser assimilados pura e simplesmente a um instrumento de alienação do feminino; concretizando um reconhecimento e uma valorização inéditos das prerrogativas femininas, permitiram ao mesmo tempo impulsionar uma promoção social e simbólica das mulheres, ainda que excepcional, a exemplo das Damas de Beleza e outras favoritas do Rei.

 

E que mulher ou menina não sonha em ter uma beleza de princesa ou de rainha? Que jovem não almeja em ser a dama do rei ou aquela moça da corte cortejada por seu admirado embelezamento? Desde cedo, as meninas aprendem a ser princesas, buscando dicas e conselhos de beleza para o seu aperfeiçoamento físico. Ser considerada como uma “rainha” pode ser um caminho para se chegar às passarelas. As misses ao vencerem um concurso de beleza, usam uma coroa. Tal objeto glorifica a beleza que foi conquistada. Muitos atributos femininos são ensinados nos contos de fadas: comportamentos, modos de agir, de pensar, de vestir, de andar, de acenar, e de cuidar da própria aparência. O trabalho de uma modelo não se distancia muito das aprendizagens consideradas importantes para uma princesa. Rainhas, princesas, misses e atrizes cinematográficas, o que elas têm em comum? Os penteados, as maquiagens, o corpo magro, as medidas, e o nariz arrebitado? Será que todas essas referências não trazem em si o brilho de uma super top model? Elas não deixam de ensinar a importância de uma superprodução para se estar bela. Em um passe de mágica, a Gata Borralheira virou Cinderela. Lipovetsky (2000, p. 181) considera que essas figuras ideais do feminino têm em comum “(…) o fato de sua beleza ser fruto de um extraordinário trabalho de metamorfose”. O autor complementa afirmando que “(…) evidentemente, os artifícios sempre permitiram que as mulheres resplandecessem e parecessem ‘outras’”. Isso nos é mostrado até nas imagens de mulheres representadas nos contos de fadas. E as top models, segundo Lipovetsky (2000), prolongam esse processo de superprodução artificialista. As receitas da sedução feminina estão produzindo um modelo de mulher para ser posto em espetáculo a ser desfilado em concursos de beleza. Conforme ainda nos explica o autor (2000, p. 182):

(…) a fase radiosa da beleza coincide com o momento em que a técnica permite construir belezas vivas mais sublimes que as criações imaginárias, em que o mito da beleza torna-se verídico e as belezas de carne, imagens míticas. Em nossas sociedades, a beleza feminina já não é acusada de produzir o mal, é produzida como uma imagem de sonho para o consumo das massas (…).

 

Nesse sentido, a beleza maldita foi substituída por uma beleza mercantil, segundo Lipovetsky (2000, p. 182): “(…) uma beleza funcionalizada a serviço da promoção das marcas e do faturamento das indústrias do imaginário”.

As princesas dos contos de fadas, apresentam a figura de uma mulher jovem, loira, alta, magra, com uma cintura de manequim e um rosto delicado. Muitas meninas, por exemplo, se inspiram até hoje na imagem da Cinderela e de seu sapatinho de cristal, cuja história já ganhou algumas adaptações e releituras para o cinema. Isso também inclui  a Bela Adormecida, uma princesa romântica, meiga, delicada, de vestido rosa, cabelos feitos da luz do sol e lábios rubros como as rosas vermelhas. Uma jovem que sonha em encontrar seu príncipe encantado e ser feliz para sempre. Nesses contos infantis, as princesas apresentam um corpo feminino perfeito. Essa cultura que cria e ensina gestos, atitudes, valores, maneiras de ver e cuidar de si, difunde-se no campo social, estabelecendo estilos e tendências. Muitas animações, por exemplo, dão fluência a tais discursos legitimando como é ser mulher na atualidade. Uma das mais recentes releituras dos contos de fadas, o longa-metragem – Espelho, espelho meu – faz uma adaptação do filme “A Branca de Neve e os sete anões” da Disney. A rainha má, interpretada pela atriz americana Julia Roberts, mostra os seus métodos e artifícios para manter a aparência de um corpo perfeito. Ao fazer referência a essa personagem, pretendo ilustrar, como a partir de um panorama cultural, as meninas são interpeladas a se tornarem fantásticas desde as suas infâncias. Lipovetsky (2000, p. 181) destaca que “(…) as mulheres manequins, da mesma maneira que as estrelas da tela grande, não são irreais nem fictícias, são recompostas e surreais”. Esse filme, por exemplo, teve uma bilheteria de quase dois milhões de ingressos vendidos no Brasil. Assim, penso que algumas imagens de corpos femininos que circulam e são produzidas na mídia, investem em modelos a serem perseguidos. Nessa constante busca pela aparência perfeita, qualquer técnica de beleza parece ser válida para que bruxas, princesas, artistas, modelos e as mulheres ditas “comuns” adquiram os padrões e transformem-se em “uma linda mulher”.

 

Referências

ALBINO, B. S.; VAZ, A. F. Uma narrativa histórica por meio da beleza: comentários sobre História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje, de Georges Vigarello, Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 29, p. 145-151, 2008.

COUTO, Edvaldo Souza. Corpos voláteis, corpos perfeitos: estudos sobre estéticas, pedagogias e políticas do pós-humano. Salvador: EDUFBA, 2012.

PRIORE, Mary Del. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Senac, 2000.

LIPOVETSKY, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LIPOVETSKY, Gilles; ROUX, Elyette. O luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

SANT`ANNA, Denise Bernuzzi de. Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.

VIGARELLO, Georges. História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.



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