Revista Mulheres e Literatura – vol.14 – 1º semestre - 2015



EL TESTIMONIO DE RITA ANDRÉ TOMÁS, “MEMÓRIAS DA LUTA DE LIBERTAÇÃO” EM ANGOLA – Margarida Paredes





 

 

Margarida Paredes

(CRIA, ISCTE-IUL)

Resumo: Este artigo é uma reflexão sobre o livro autobiográfico Memórias da Luta de Libertação (s/d) da guerrilheira do MPLA, Rita André Tomás, inspirada no trabalho de John Beverley sobre o Testimonio, On the Politics of Truth (2004). Este autor é um dos principais teóricos da escrita testemunhal, um género que se desenvolveu na América Latina e nas Caraíbas aqui deslocalizado para um espaço africano e para a escrita do “eu” de uma mulher ex-combatente que se vê na contingência de ter que lutar pelo reconhecimento do seu passado na Luta de Libertação.

 

Palavras-chave: Memórias, Testimonio, Luta de Libertação, guerrilheira.

 

 

EL TESTIMONIO DE RITA ANDRÉ TOMÁS, “MEMÓRIAS DA LUTA DE LIBERTAÇÃO” EM ANGOLA

 

 

Margarida Paredes

(CRIA, ISCTE-IUL)

Introdução

O livro de Rita André Tomás, Memórias da Luta de Libertação (s/d.), um pequeno livro de 51 páginas tem a particularidade de ser a única autobiografia publicada por uma antiga guerrilheira do MPLA, em Angola. O Diário de um Exílio sem Regresso (2003) escrito por Deolinda Rodrigues foi publicado pelo irmão Roberto de Almeida, 35 anos depois da morte da malograda guerrilheira. Nesta área de estudo são os dois únicos registos publicados de escrita autobiográfica de mulheres guerrilheiras angolanas.

A obra foi lançada em Luanda, em setembro de 2005, com o patrocínio do presidente da República, e em novembro do mesmo ano a ex-combatente foi condecorada por José Eduardo dos Santos com a Ordem dos Combatentes da Liberdade do primeiro grau, atribuída a cidadãos nacionais que se destacaram durante a luta pela independência nacional, condecoração igualmente atribuída a Arminda Faria, combatente da luta clandestina anticolonial¹ que tem uma biografia ficcionada editada em Lisboa, Arminda, Uala ni Angola ku Muxima (2012), de autoria de Álvaro Manuel de Faria.

 

Uma escrita do “eu”

As primeiras linhas da Introdução da biografia de Rita André Tomás interpelam o leitor diretamente:

 

Sou Rita André Tomás, filha de André José Tomás, pedreiro de profissão e de Rita Manuel, agricultora e quitandeira. (…) Estas minhas memórias são apenas uma parte onde exprimo como participei na luta directa de libertação nacional, como vivi no MPLA então movimento, com os nossos líderes e as façanhas que assisti de perto (s.d, p. 11).

A narrativa escrita na primeira pessoa, “Sou Rita André Tomás…”, uma ‘escrita do eu’, versa sobre a Luta de Libertação a partir de quem a protagonizou e de quem sente que tem autoridade para a narrar. Ou seja, um sujeito enunciador, que através de uma escrevivência, para utilizar o conhecido conceito da poeta afrobrasileira Conceição Evaristo, ao referir uma escrita da existência contra­?hegemónica e que incomoda, relata a sua história individual no feminino, entrelaçada com a história coletiva canonicamente narrada no masculino.

Richard Rorty, em Solidarity or Objectivity (1985), define o “desejo de solidariedade” ou o “desejo de objetividade” como as duas grandes razões que levam os autores a escrever as suas biografias. Rita André Tomás pertence à categoria dos que apelam ao “desejo de solidariedade”: “There are two principal ways in which reflective human beings try, by placing their lives in a larger context, to give sense to those lives. The first is by telling the story of their contribution to a community. (…) I shall say that stories of the former kind exemplify the desire of solidarity” (1985, p. 3).

Um artigo de jornal divulgado no site da Angoflash², a 4 de fevereiro de 2004, intitulado “A guerrilheira que sonha com uma junta médica”, contribui para entendermos as motivações da autora ao recorrer à escrita biográfica. Segundo o jornalista:

 

Hoje, 41 anos depois de ingressar na luta armada, a sua maior aspiração é conseguir uma junta médica para extirpar um tumor na cabeça, detectado na Namíbia, em 1997. Residente num pequeno apartamento, nas imediações da Escola Mutu Ya Kevela, Rita Tomás lamenta não poder dar nem uma simples cama aos seus filhos. ‘Tive que vender a aparelhagem para comprar medicamentos’, exemplifica. Visivelmente desgastada pela doença descreve as condições sociais em que vive. Mostra os quartos dos filhos, desprovidos de camas. ‘A minha pensão é de dois mil kwanzas’, diz. Reclama ainda do dinheiro [a] que diz ter direito, ‘como brigadeiro das FAA na reserva’, mas não recebe.

 

A história de vida de Rita Tomás não pode ser desvinculada do conjunto de acontecimentos que fazem parte da trajetória do sujeito. Para enfrentar a doença e para dar testemunho da situação de carência que vivia, o recurso à escrita biográfica apresentou-se como uma nova arma para quem já tinha sido uma ativa combatente da Luta de Libertação. “The situation of narration in testimonio has to involve an urgency to communicate, a problem of repression, poverty, subalternity, imprisonment, struggle for survival, implicated in the act of narration itself” (BEVERLEY, 2004, p. 32).

 

El Testimonio

A reflexão sobre este livro de Rita André é inspirada no trabalho Testimonio, On the Politics of Truth (2004) de John Beverley, um dos principais teóricos da escrita testemunhal, um género que se desenvolveu na América Latina e nas Caraíbas. Berveley define o Testimonio como uma narrativa, contada na primeira pessoa por um narrador que também é o protagonista ou testemunha dos acontecimentos que narra (2004, p.3) e cuja unidade de narração é geralmente uma “vida” ou uma experiência de vida significativa, ligada à “luta política” e/ou a movimentos revolucionários de libertação nacional, que aparece “at the margin of literature in forms sanctioned more by the social sciences such as ‘life history’ or ‘oral history’ (2004, p. xiii) (…) which signifies the need for a general social change” (2004, p. 41) e onde os leitores “are being asked to participate” (2004, p.37).

O editor, no início da obra de Rita Tomás, numa rubrica intitulada “Explicação Necessária”, diz­?nos que a autora “não quer que a julguem como escritora e que o livro é um testemunho do muito que Rita Tomás viu e viveu durante a guerra de libertação nacional” (s.d, p. 9) confirmando que a protagonista “esteve nas matas [e] prejudicou a sua saúde, hoje debilitada”. Para o editor o livro destina-se a contribuir para um propósito maior, ou seja, a redação de “verdadeira história de Angola” ³ (s.d., p. 9). Resgatar as memórias da Luta de Libertação, dialogar com a história e a memória e colocar­?se como ator da história de Angola, como sujeito que viveu a “verdadeira história” e fez parte da Luta de Libertação nacional, são alguns dos objetivos do livro. Rita Tomás, neste processo de criação, resgata o “testemunho” e recusa que a sua obra seja apreciada como um texto literário.

 

The dominant formal aspect of the testimonio is the voice that speaks to the reader in the form of an ‘I’ that demands to be recognized, that wants or need to stake a claim on our attention. This presence of the voice of a real rather than a fictional person, is the mark of a desire not to be silenced or defeated, a desire to impose oneself on an institution of power such as literature, from the position of the excluded or the marginal (BEVERLEY, 2004, p. 34).

Rita André Tomás, reivindica como lugar de pertencimento a cidade de Luanda, município do Sambizanga, onde nasceu a 17 de julho de 1943 (s.d, p.12) e revela ao leitor que tem ascendência étnica e cultural múltipla, Cabinda, Caxito, Golungo Alto, Muxima e Luanda. Filha de um carpinteiro, como já foi referido, coloca a família a viver nas margens sociais do estado colonial, “tanto é que tínhamos que ajudar a mãe a lavar a roupa de alguns patrões” (s.d., p. 12).

A condição das mulheres negras no colonialismo português, constantemente sujeitas a controlo da polícia e encaminhadas para trabalhos forçados, contraria mitos enraizados na história coletiva portuguesa como o da excecionalidade de um “império não­?racializado” e “o modo especial como os portugueses se miscigenavam com os seus colonizados” ou ainda a fábula de a colonização ter sido ‘branda’: a autora relata que “Havia rusgas de fichas; os cipaios (chimbas) prendiam as jovens e senhoras a fim de trabalharem em casas de ‘senhoras’ brancas, como criadas e lavadeiras. Por isso quando fôssemos ao mercado era obrigatório levar­?se o Bilhete de Identidade ou cartão da escola para nos identificarmos” (s.d., p. 16).

Apesar da condição subalterna da família durante a ocupação colonial portuguesa, a autora revela pertenças marcantes à elite fundadora do nacionalismo angolano, nomeadamente protestante, do início dos anos 50 do século XX.

 

Estudei a iniciação e a primeira classe (…) na escola do Samba Kimunga, com a professora Maria Silva Neto, mãe do saudoso Guia Imortal, Dr. António Agostinho Neto (s.d., p. 12).

(…)

O meu pai foi membro da Associação da Caixa Preventiva e Socorro Mútuo da mesma Congregação religiosa onde faziam parte outros contemporâneos seus, alguns dos quais do Processo 50 dentro eles, Sebastião Gaspar Martins e Pascoal Veríssimo da Costa. Após a prisão destes, a PIDE prendeu o meu pai e o meu tio Domingos André Tomás (s.d., p. 13).

Estas pertenças fazem parte da identidade do sujeito e a autora envolve­?se na luta clandestina anticolonial ainda em Luanda:

 

A minha entrada na vida política foi em companhia de familiares e demais jovens (…) no Bairro Operário. Após a prisão dos camaradas do Processo 50, muitos de nós com familiares presos, entre pais, tios e primos, fomos alvo de atenção de agentes informadores (bufos) da PIDE (s.d., p.13).

A família foi alvo de perseguição política por parte da PIDE, tendo o pai, tio e irmãos sido presos por vários meses e posteriormente sujeitos a residência fixa. Pertencer a uma congregação religiosa, a uma associação desportiva ou a um grémio cultural eram razões suficientes para os angolanos serem detidos pela PIDE e acusados de ações terroristas. Marissa Moorman no seu livro Intonations, a Social History of Music and Nation in Luanda (2008), ao focar a relação entre cultura e política no fim da era colonial, defende que as práticas culturais estavam entrelaçadas com a política e era através dessas práticas que a nação era ‘imaginada’, vivida e resistia ao colonialismo (2008, p. 1­?13) sobretudo nos musseques de Luanda.

Rita Tomás descreve a fuga em 1962, para Boma no Congo, através de Cabinda, aos 19 anos, informando o leitor sobre quem preparou a fuga e com quem fugiu, ficando subentendido no texto que a motivação da viagem, sem os pais terem sido informados, se deveu à repressão que a família sofria por parte da PIDE e ao desejo da jovem se juntar ao MPLA e lutar contra o colonialismo português. Quando chegou a Leopoldville residiu numa casa do movimento e dividiu o quarto com Deolinda Rodrigues, Luzia Paim, Evangelina e Maria Luísa Júnior (Vastok), combatentes históricas do MPLA.

Em vez de focar a intensidade das experiências vividas, a memória de Rita Tomás tende a resgatar as pessoas com quem se cruzou na Luta de Libertação na tentativa de comprovar a veracidade do seu relato, “Ainda no CVAAR4 [onde trabalhou] frequentei como assistente o curso de enfermagem, e tive como professores os doutores Américo Boavida, Edmundo Rocha, Traça, Rui de Carvalho, Pestana, Manuel Boal, João Vieira Lopes e Manuel Videira” (s.d., p.22). “Compiladores” é o nome que os críticos da escrita testemunhal usam para excluir o Testimonio do cânone literário, no entanto parece que o que está em questão não é a literariedade deste género textual, mas, sim, o não reconhecimento da escrita testemunhal como uma espaço onde o subalterno pode ser ouvido, como nos diz Spivak em Pode o Subalterno Falar? (2010) ao recomendar que o intelectual pós­?colonial trabalhe “contra” a subalternidade, “criando espaços nos quais o subalterno possa se articular e, como consequência, possa também ser ouvido” (S. ALMEIDA apud SPIVAK, 2010, p. 14).

Quando a autora faz considerações sobre a realidade vivida, fá­?lo para sublinhar as dificuldades da guerrilha e as consequências de quem se envolvia: “alguns [camaradas] só queriam luta política; desprezavam a luta armada, talvez por medo, pois, o maqui exigia muito sacrifício e riscos à saúde” (TOMÁS s.d., p. 22).

Beatriz Sarlo cuida que no testemunho se misturam “argumentos de sua verdade, suas legítimas pretensões de credibilidade e sua unicidade, sustentada na unicidade do sujeito que enuncia com a própria voz, pondo­?se como garantia presente do que diz…” (2007, p. 37). A escrita da história confronta­?nos com memórias em conflito e o MPLA tem todo um historial de “narrativas oficiais” que têm sido postas em causa por memórias dissidentes e pelos historiadores. Rita Tomás, ao relatar a experiência da divisão interna do MPLA em 1963, Leopoldville, conflito do qual foi testemunha entre os “ex­?dirigentes Matia Miguéis, Graça Tavares e Viriato da Cruz” por um lado e por outro o MPLA dirigido por Agostinho Neto, chama a atenção para um conflito interno e desafia a historiografia oficial, expondo pessoas e acontecimentos silenciados no MPLA.5  A autora vincula-se “à amizade [que esses ex­?combatentes fizeram] com Holden Roberto” da FNLA, e relata que durante a reunião a 7 de julho de 1963 “ouviu­?se três tiros [e] um tiro bateu precisamente onde eu e a Maria Carneiro estávamos sentadas, e caso não aplacássemos, uma de nós seria morta. (…) Quando saímos, Holden Roberto estava defronte do jardim do CVAAR a apreciar o sucedido! Isto é verdade, porque estive presente”. E remata: “Esta é uma grande lição da história que não posso esquecer; cresci no MPLA e muita coisa tenho comigo. Estava assim, dividida a nossa juventude” (s.d., p. 25­?26). A autora usa na escrita dispositivos da literatura oral com a intenção de enunciar um sentido de veracidade e autenticidade. A seguir, ainda sobre este incidente comenta, “Gostaria de esclarecer que o Dr. Mário Pinto de Andrade, no dia 7 de julho de 1963, não esteve em Leopoldville, aquando dos incidentes com a Facção Viriato da Cruz. (…) Por isso, quando algumas pessoas falam que o Dr. Mário Pinto de Andrade estava presente, isso não constitui verdade. Sou testemunha viva. Ele, após o reconhecimento do GRAE, 6 ausentou­?se. Não gostava de confusão, era doente e dizia­?nos sempre que nunca aguentaria fazer uma longa marcha” (s/d., p. 48). “More than an interpretation of reality”, notes Jara (…) what is important about testimonio is that it produces, if not the real, then certainly a sensation of experience the real” (BEVERLEY, 2004, p. 40).

Em novembro de 1963 a autora seguiu, integrada num grupo de dez jovens, para a URSS, onde fez o “Curso Médio completo de enfermagem” na cidade de Luvov. Anos depois, para cumprir a palavra de ordem de Agostinho Neto “todos para o interior”, regressou ao maquis em 1968, através de Dar­?es­?Salem na Tanzânia e fez treinamento militar com combatentes moçambicanas da FRELIMO antes de se juntar aos camaradas colocados no interior do país, na 3ª Região Político­?militar, tendo atuado como guerrilheira e enfermeira na zona B, da Base Mandume III.

São frequentes os silêncios e a ausência de qualquer comentário sobre uma estadia longa de cinco anos na URSS levando o leitor a se interrogar o porquê desta omissão. A passagem pela Tanzânia condu­?la, no entanto, a solidarizar­?se e a prestar homenagem à camarada Margarida Chipenda, que “conduzindo camiões pesados de marca Magiros e outros (…) foi uma mulher incansável (…) nos seus afazeres de logística no Porto de Dar­?es­?Salem” (TOMÁS, s/d.,p.29). “Each individual testimonio evokes an absent polyphony of other voices, other possible lives and experiences” (BEVERLEY, 2004, p. 34), afirma Beverley.

Na mata, respondendo a uma pergunta da Delegação do Comité de Libertação da OUA de visita às zonas libertadas, sobre o papel das mulheres na Luta, a autora escreve: “Nós mulheres, embora poucas em número, respondemos que estávamos ali por vontade própria e dispostas a cumprirmos com as Palavras de Ordem: Todos Para o Interior e a Vitória ou Morte” (s.d., p.36). Mais à frente acrescenta, “Para que se recorde os nossos nomes: Rita Tomás, Alice Kolombo (Lemba), Lídia Cadete, Luísa Quarta e Margarida Ferreira (Guida Ferreira) no VC (…) aqui fica expresso o meu testemunho” (s.d., p.47), um testemunho que recusa o silenciamento e a lembrar que as mulheres também estiveram na mata e participaram na Luta de Libertação.

As memórias são um campo de batalha e em 1972/73, Rita Tomás coloca o leitor perante outra divisão no seio do MPLA e atribui a conspiração à fação Chipenda na Frente Leste e a camaradas “oportunistas e desonestos” que, “quando estavam com Agostinho Neto tinham um procedimento e com o Chipenda diziam outra coisa, à volta de grandes manjares, copos e prostitutas. As cabeças de todas estas confusões, raras vezes estiveram no interior” (s/d., p.39). Na descrição das razões deste conflito (que viria a dar origem ao Reajustamento da Frente Leste, quando Agostinho Neto foi confirmado na presidência e Chipenda se afastou­ do MPLA), o tom subjetivo marca o depoimento que se quer instrumento da verdade, mas como Sarlo defende, “todo o testemunho quer ser creditado, mas nem sempre traz em si mesmo as provas pelas quais se pode comprovar a sua veracidade” (2007, p.37).

No capítulo intitulado “Entrada em Angola – 1975”, após o fim da Luta de Libertação e início da Guerra Civil, nos confrontos com a UNITA, a autora relata que participou da defesa da sede do MPLA no Lobito, com a sua filha Tomásia às costas e sob o comando do comandante Katondo, seu marido. No meio da guerra é celebrada a proclamação da Independência da República Popular de Angola:

 

Mais alegre fiquei aquando da proclamação, no dia 11/11/1975, na voz do nosso saudoso Guia Imortal, o Presidente António Agostinho Neto, da independência nacional, porque o MPLA cumpria assim com o seu programa mínimo. E com coragem vencemos, foi mesmo a Vitória Certa! (TOMÁS, s.d., p. 44)

Com alguma nostalgia de uma época considerada heroica e numa retórica triunfalista e acrítica, a autora confirma nas entrelinhas dos não­?ditos que a Luta de Libertação, a estratégia da luta armada valeu a pena, sendo este livro (apesar das divisões internas enunciadas) sobre uma comunidade de vencedores. E do ponto de vista pessoal? O que aconteceu à guerrilheira que sonhava com a junta médica um ano antes do lançamento do livro? Conseguiu a assistência médica que o seu estado de saúde reclamava? Como já foi dito, o livro foi editado com o apoio do presidente da República, apoio que a autora reconhece nos “Agradecimentos” e onde aproveita para invocar José Eduardo dos Santos como antigo companheiro de luta:

 

A Sua Excelência o Senhor Presidente da República de Angola, Engenheiro José Eduardo dos Santos, meu antigo companheiro de luta contra a opressão colonial portuguesa, pelo apoio brindado para que esta obra deixasse de ser apenas um sonho (TOMÁS s.d., p.7).

No lançamento também estiveram presentes membros do Comité Central do MPLA e da OMA (Organização da Mulher Angolana), o que parece indicar que a autora conseguiu mobilizar apoios institucionais do Estado e do partido MPLA para a sua causa e, através de uma escrita vinda das margens sociais, capturar o “centro”, associando-se assim à elite política dos que venceram no MPLA.

Em 2004/2005, a situação dos Antigos Combatentes da Luta de Libertação Nacional era de grande insegurança pessoal. O ministério estimava em 120.000 os Antigos Combatentes que participaram na Luta e apenas um quarto beneficiava do fundo de pensões. O processo de atribuição da patente de brigadeiro a Rita Tomás já tinha sido concluído na altura em que o artigo foi difundido e podemos especular que a pensão da Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas concedida aos oficiais na reforma, também terá começado a ser paga no seguimento da divulgação da sua situação na comunicação social e do livro que estava a escrever. Ao contrário do artigo, a ausência de vitimização no livro impresso confirma a cogitação. Rita Tomás, através dum processo de empoderamento, terá utilizado a arma do testimonio e o trabalho de memória e da escrita para conseguir ultrapassar a situação de subalternidade em que se encontrava no MPLA e assim transformar a sua vida, o que não invalida o valor testemunhal que a obra encerra ao inscrever-se como guerrilheira na Luta de Libertação através da narrativa.

Esta incursão de Rita Tomás na escrita biográfica, o testemunho do seu passado na guerra, o desejo que manifesta de participar na “vida concreta” como ator social, a determinação de intervir no mundo que a rodeia recusando o papel de mulher sem voz, revela a ênfase do seu agenciamento ou gender empowerment (ORTNER, 2007) que emergiu da sua experiência de vida como pessoa e sujeito da sua própria história. West na esteira de Fanon (1967) aponta que as mulheres que combateram de armas nas mãos demonstram grande confiança e autoestima com a sua participação na guerrilha (WEST, 2000, p.109) e Paredes (2014) defende que a participação das mulheres na Luta Armada reforçou a luta pela emancipação feminina ao assumirem papéis que lhes estavam interditos anteriormente (2014, p.i). Por outro lado Pranee Laimputtong (apud NEVES, 2012, p.77) diz-nos que “as vidas individuais carregam um legado coletivo, contendo elementos que ilustram também a memória social de um grupo ou de uma comunidade” e este pequeno livro de memórias no feminino sobre a Luta de Libertação em Angola revela-nos que, se por um lado as antigas guerrilheiras combateram na guerra, na paz passaram a ter que se bater pelo reconhecimento dos seus passados de luta para não ficarem relegadas às margens da nação. A obra de Rita André Tomás mostra como as representações de género que estão a ser construídas em Angola para homens e mulheres ex-combatentes não são simétricas e instituem uma hierarquia de subordinação na qual os homens que combateram representam a nação numa posição superior à das mulheres combatentes (PAREDES, 2014, p.206). As memórias de Rita André Tomás destabilizam essa narrativa quase hegemónica da Luta de Libertação no masculino, promovem um espaço de representação das mulheres combatentes no imaginário nacional e questionam a ilusão do sonho nacionalista.

 

NOTAS

1Arminda Faria, enfermeira foi uma mulher à frente do seu tempo, em 1956 foi para Paris fazer uma especialização em “parto sem dor”, tendo introduzido em Angola esta terapêutica.

2Site Angoflash, edição especial de 4 de fevereiro de 2004, da Embaixada da República de Angola, Serviço de Impresa, Moscovo, “A guerrilheira que sonha com uma junta médica”, p. 5, em:,  http://www.docstoc.com/docs/114180036/angoflash­?2004­?02­?04, consultado a 18­?05­?2013.

3A “verdadeira história” em Angola é vista como uma versão da História que foi silenciada, é inédita nas fontes escritas e não corresponde à história oficial.

4CVAAR, Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados

5No entanto Rita Tomás não comenta o facto de, na sequência desses embates, Matia Miguéis e José Miguel terem sido assassinados, mortes atribuídas ao MPLA de Agostinho Neto.

6GRAE, Governo Revolucionário de Angola no Exílio.

 

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

BEVERLEY, John (2004). Testimonio, on the Politics of Truth. Minneapolis, University of Minnesota Press.

FARIA, Álvaro Manuel de (2012). Arminda, Uala ni Angola ku Muxima, Lisboa, Chiado Editora.

MOORMAN, Marissa (2008). Intonations, a Social History of Music and Nation in Luanda, Angola from 1945 to Recent Times. Athens, Ohio University Press.

NEVES, Sofia (2012). “Investigação feminista qualitativa e histórias de vida: a libertação das vozes pelas narrativas biográficas”, in Maria José Magalhães & al. Pelo fio se vai à meada. Percursos de investigação em histórias de vida. Lisboa, Ela por Ela, p. 69­?81.

ORTNER, Sherry B. (2007). “Poder e projetos: reflexões sobre a agência”, in Miriam Grossi & al. (org.). Conferências e diálogos, saberes e práticas antropológicas. Goiânia, ABA, Associação Brasileira de Antropologia. Blumenau, Nova Letra, p. 45-80.

PAREDES, Margarida (2014). Mulheres na luta armada em Angola, memória, cultura e emancipação. Tese de doutoramento, ISCTE-IUL.

RODRIGUES, Deolinda (2003). Diário de um xxílio sem regresso. Luanda, Editorial Nzila.

RORTY, Richard (1985). “Solidarity or Objectivity”, in John Rajchman (org.). Post Analytic Philosophy. New York, Columbia University Press.

SARLO, Batriz (2005). Tempo passado, cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo, Companhia das Letras; Belo Horizonte, UFMG.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty (2010). Pode o subalterno falar? Belo Horizonte, Editora UFMG.

TOMÁS, Rita André (s.d.). Memórias da luta de libertação. Luanda, Artimagem. (Lançado em Luanda no dia 9 de setembro de 2005).



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