RESENHAS



Resenha: El cuaderno granate: Maryse Renaud – Luiza Lobo





cadernoEL CUADERNO GRANATE, Maryse Renaud. Buenos Aires, Corregidor, 2009. 144 p. ISBN 978-950-05-1857-4.

Luiza Lobo

Rio, março 2015

Maryse Renaud resolveu escrever este seu primeiro romance, El cuaderno granate (2009), numa das línguas que domina perfeitamente, o espanhol, sua língua natal, pois é natural da ilha de Martinica, como um desafio, pois sempre morou na França. Foi professora titular de língua e literatura espanhola na Universidade de Poitiers. Trata-se, assim, de uma primeira experiência na área criativa da ficção, como uma viagem sentimental pela língua e a memória da infância, havendo várias referências, no livro, à “ilha”.

De qualquer forma, a epígrafe é retirada de Balzac: “No existe, o mejor dicho, raras veces existe, criminal que seja totalmente criminal”.

Nos primeiros capítulos nos familiarizamos com a protagonista, Clarysse, e o olhar do narrador mergulha no seu interior e acompanha os seus gestos pela casa. À página 21, capítulo 3, somos apresentados ao nó do enredo: Clarysse se sente alijada do núcleo familiar, imaginando que seu marido, Edgar, que é médico, e seu filho, Miguel, advogado de 39 anos, viveram em “mundos paralelos” ao seu e apartados dela. Pior: o pai teria inculcado no filho reserva e aversão à mãe. Ela, pintora, sente que vivera encerrada num mundo estético cheio de Leonardos da Vinci, telas e tintas, e sem tempo para alterar essa situação ou capacidade para despertar mais interesse da parte dos outros dois. Quando a obra se inicia, ela enfim se dá conta de quanto o afastamento é profundo, e conclui que é tarde demais para repará-lo.

A relação cúmplice (“criminosa”?) entre pai e filho é engenhosamente trabalhada através de uma grande metáfora que se estende por diversos capítulos: a batalha de Aníbal, nas segundas guerras púnicas, quando o cartaginês resolveu avançar pelos Alpes com seus elefantes, tentando derrubar Roma. Ao mesmo tempo, Aníbal sempre fora excessivamente temeroso e cegamente obediente à figura paterna e patriarcal de Amílcar, seu pai. Clarysse transforma, assim, o seu sentimento individual de alijamento familiar num grande sentimento do mundo contra o patriarcalismo e o autoritarismo presentes nas famílias em geral, e mostra que mesmo entre guerreiros há lugar para o sentimento de covardia e submissão do filho em relação ao pai autoritário.

Ao mesmo tempo, desde o início do romance travamos contato com “a Escandalosa”, Emma, sua cunhada, que era meio-irmã de Edgar, “la hija adulterina de su padre, a quien la família Granval había tenido que aceptar a regañadientes” (cap. 4, p. 23).  Na ilha (presume-se que da Martinica), a Escandalosa fora amante por cinco anos de um médico mulato, e ambos correram de norte a sul fazendo propaganda contra os abusos neocoloniais dos grandes terratenentes. Nem sequer se casaram, pensa Clarysse, com despeito. Logo Emma foi expatriada para a França pela família Granval, de grande riqueza e prestígio na ilha, pois esta já não suportava mais os escândalos de seu comportamento pouco convencional.

No capítulo 6, “Revelaciones”, lemos o confronto entre Emma e Clarysse, na casa da primeira, nos “altos de Montmartre”. Clarysse vai visitá-la, e já desconfia de uma relação incestuosa entre Emma e o sobrinho, ou seja, seu filho Miguel. Nesse encontro, Emma lhe conta sobre o mundo secreto do filho, revelando que ele saía frequentemente com ela para visitar cinematecas e exposições, que ficara até mesmo noivo de uma holandesa, e que abandonara a profissão de advogado e se desligara de tudo, pois “Miguel se había hartado de la hipocresía burguesa, del mercantilismo actual que lo corrompia todo, hasta el amor. Aspiraba a algo más que a um vulgar erotismo de pacotilla. Se había forjado una filosofia para su uso personal, no pretendia difundirla, ni grabarla en el mármol, pero se la había expuesto más de una vez y dureza era reconocer que no carecia de gracia” (2009, p 29-30).  Ao perceber que a tia e seu filho são amantes, desmaia. Neste encontro, Emma lhe passa o caderno grená, que é um diário confessional do filho, que partira para o México, deixando este encargo a Emma.

Este o núcleo do conflito do livro El cuaderno granate. Um drama de família que não se esgota no familiar, mas se estende à questão das convenções sociais e do preconceito racial, dos conflitos metrópole-ex-colônia e do capitalismo e a hipocrisia burguesa em contraste com o desejo de um tipo de vida mais livre e espontâneo.

O romance é bem urdido, utiliza um estilo e um vocabulário refinados. Entre os fiapos do cotidiano o leitor vai percebendo os conflitos das duas personagens femininas, cada uma a seu modo. Emma, mais livre, espontânea, e Clarysse, sensível, pintora, mas ainda apegada à tentativa inútil de salvar um casamento que desde o início se mostrara impossível. A narrativa é sempre construída a partir do olhar feminista de uma narradora externa que penetra no âmago das duas personagens femininas principais, em diversos triângulos conflituosos em relação basicamente a Miguel.

Numa espécie de libertação a três para seguir o próprio destino, o desfecho do livro é romântico e um voto de esperança na coragem para as pessoas seguirem seu próprio caminho. O México, em lugar das Antilhas, sugere o novo, a América, o mundo latino e mais livre das convenções. Nomes, lugares, planos no novo continente apontam para o imaginário que se distancia dos caminhos já traçados no passado francês e europeu.

Maryse Renaud já publicou dois outros romances, La Mano en el canal, também pela Corregidor de Buenos Aires, e este ano de 2015 Junglas, este pela editora Verbum, da Espanha. Pelo visto emprega na ficção a mesma disciplina que demonstrou na sua vida acadêmica. Personalidade vulcânica, instintiva, afirmativa, vai abrindo caminhos pela selva das letras, pois para ela não há obstáculos.



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