REVISTA MULHERES E LITERATURA100Revista Mulheres e Literatura - vol.1 - 1997



Eça de Queirós e suas Leitoras Malcomportadas





Resumo:
Este ensaio discute a importancia cultural e ideológica da leitura e sua formação na mentalidade do século XIX, a partir de um estudo de O primo Basílio, de Eça de Queirós, sua recepção no Brasil, a partir de um artigo acre de Machado de Assis a seu respeito, e diversos elementos de intertextualidade que compõem o imaginário cultural e social da época: a ópera, o folhetim, o teatro. O tema da mulher insere-se neste quadro tanto do ponto de vista de personagem (a Luísa, de O primo Basílio), quanto de leitora, examinando-se a questão da censura tradicionalmente ligada à leitura quando se trata de leitora feminina.

Texto:

Eça de Queirós e suas Leitoras Malcomportadas

Marisa Lajolo

IEL UNICAMP

Versão anterior deste texto foi apresentada no III Encontro Internacional Queirosiano realizado entre 19 e 21 de setembro de 1995 em São Paulo e foi aceita para publicação em seus Anais.

Pinheiro (a Lulu) – Cuida das tuas novelas! Vai encher a cabeça de romantismo, é moda; colhe as idéias absurdas que encontrares nos livros, e depois faz da casa de teu marido a cena do que houveres aprendido com as leituras: é também moda (Sai arrebatadamente)

– Sabe o que ela tem, senhora Helena ?
É muita dose de novelas naquela cachimônia.
Eu vejo-a pela manhã até à noite de livro na mão.
Põe-se a ler romances e mais romances …
Aí têm o resultado: arrasada ! (p.251)

– Tu, se fosses casado, davas
O primo Basílio a ler a tua mulher ?
– Lá isso não. Mas não tinha a mais
pequena dúvida em o dar à tua. ( p.58)

0 primo Basílio,  escrito entre 1876 e 1877, de setembro a setembro, foi publicado em 1878. Nos dias 16 e 30 de abril deste mesmo ano, Machado de Assis publica em O Cruzeiro artigo de crítica azeda ao romance português, encerrando-o com considerações severas sobre os deletérios efeitos de leitura patrocinados pela história de Luísa : “( … ) essa pintura, esse aroma de alcova, essa descrição minuciosa, quase técnica, das relações adúlteras, eis o mal. A castidade inadvertida que ler o livro chegará à última página, sem fechá-lo, e tornará atrás para reler outras” (p. 913).

Se as leituras que O primo Basílio enseja parecem ter peso decisivo na opinião crítica de Machado, algumas práticas que o livro protagoniza – tal como as representa a ficção brasileira – parecem dar razão a este Machado censor da leitura virtuosa; com efeito, no mais popular manual de ensino de literatura no Brasil até os anos 30, este romance de Eça é apresentado como obra onde o naturalismo não recuou diante da torpeza.

Constituem, assim, as práticas de leitura, horizonte no qual parecem irmanar-se Machado de Assis e mestres-escolas zelosos da consciência alheia. Coincidência curiosa, cujo deslinde talvez peça discussão dos diferentes níveis da vida social envolvidos nas práticas de leitura.

Práticas de leitura englobam uma dimensão econômica: ler romances – mesmo na precariedade das práticas culturais letradas do Brasil da segunda metade do século passado – significa ter acesso a livros, isto é, a objetos produzidos, postos em circulação e consumidos num contexto (acanhadamente) capitalista. Mas práticas de leitura englobam também uma dimensão simbólica, dado que a leitura – inclusive e talvez sobretudo a literária – influencia atitudes, comportamentos, valores, e crenças de quem lê.

A hipótese aqui discutida é que tanto economia, quanto imaginário podem estar nas raízes da implicância de Machado contra o romance de Eça. Muito provavelmente estão, embora delas possa não desconfiar o bruxo do Cosme Velho.

Senão, vejamos: ao lançar um best-seller tematizando o adultério, Eça não podia estar ameaçando Machado que, por volta de 1878, certamente já ruminava suas Memórias Póstumas de Brás Cubas, lançadas em folhetim do Jornal das Famílias em 1880 e publicadas em volume em 1881?

Podia, sim.

No plano da conquista do público, parece ter sido costume corrente no século XIX brasileiro abrir espaço para a própria obra a cotoveladas menos ou mais discretas nos rivais presuntivos. José de Alencar inaugura o expediente, ao anteceder seu O Guarani(1857) das Cartas sobre a Confederação dos Tamoios onde, a propósito do poema de Gonçalves de Magalhães, reclama da ausência e proclama a necessidade do tipo de obra que publica no ano seguinte.

A estratégia parece repetir-se mais tarde, e, por ironia, contra o próprio Alencar: quem em 1873 precisa de espaço é um Machado de Assis que um ano depois de Ressurreiçãopode estar fazendo indiretamente o marketing de sua obra romanesca de feição urbana, ao desqualificar na Notícia da atual literatura brasileira publicada na revista Novo Mundo a literatura regional – então campeã de público e bem cotada na crítica. Para aquele Machado, índias de lábios de mel e casais mestiços que se sumiam no horizonte valiam menos do que a cotação que tinham no mercado das letras:

(…) manifesta-se hoje uma opinião que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais de nossa literatura. (p. 803)

(…) Aqui o romance, como tive ocasião de dizer busca sempre a cor local. A substância, não menos que os acessórios, reproduzem, geralmente, a vida brasileira em seus diferentes aspectos e situações. (p. 804)

Do romance puramente de análise, raríssimo exemplar temos, ou porque a nossa índole não nos chame para aí, ou porque seja esta casta de obras ainda incompatível com a nossa adolescência literária. (…) Pelo que respeita à análise de paixões e caracteres são muito menos comuns os exemplos que podem satisfazer à crítica; alguns há, porém, de merecimento incontestável. Esta é, na verdade, uma das partes mais difíceis do romance, e ao mesmo tempo das mais superiores. Naturalmente exige da parte do escritor dotes não vulgares de observação, que, ainda em literaturas mais adiantadas, não andam a rodo nem são a partilha do maior número (p. 805).

Assim, num horizonte de cifrões e de poderes no mundo das letras, certas críticas não parecem de todo indiferentes a projetos literários de interesse do próprio crítico. Torna-se, portanto, sugestiva a hipótese de que os piparotes mal humorados de Machado em Eça possam estar, na verdade, pavimentando os adultérios machadianos, discretos e às vezes até evanescentes, inaugurados com a Virgília de Brás Cubas.

Narrador oblíquo e crítico dissimulado?

Mas a diatribe machadiana anti-Basílio pode ter ainda outras raízes, e necessitar de outra clave para refinar a questão. A crítica de Machado a Eça também se inscreve na longa tradição que policia os efeitos formadores/deformadores da leitura literária. A leitura feminina, sobretudo a partir de Mme. Bovary (1857) sofre um processo que se poderia chamar de criminalização: temem todos que o leitor de saias encontre, na leitura romanesca, contra-exemplos da conduta social pretendida para mulheres.

E nada tão anti-social para olhos oitocentistas quanto, por exemplo, a conduta de Luísa, protagonista de O primo Basílio como, aliás, não escapa a Machado:

Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral.

Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência (…).

Empurrar Eça para o banco dos réus pela leitura que patrocina não deixa de ter um traço de ironia. Feitiço contra o feiticeiro, já que a condenação da leitura feminina é constante e reiterada na obra queirosiana. Ainda no romance de estréia, O crime do Pe. Amaro (1875) várias situações de leitura ajudam a compor o ambiente de dissolução moral da carolagem e clerezia de uma aldeia portuguesa:

Quando descia para o quarto, à noite, [Amaro] ia sempre exaltado. Punha-se então a ler os Cânticos a Jesus, tradução do francês publicada pela sociedade das Escravas de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com um lirismo equívoco, quase torpe – que dá à oração a linguagem da luxúria; Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes de uma concuspiscência alucinada. “Oh ! vem, amado do meu coração, corpo adorável, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero! Abrasa-me ! Queima-me ! Vem ! esmaga-me ! Possui-me!” E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama assim em cem páginas inflamadas, onde as palavras gozo, delícia, delírio, êxtase, voltam a cada momento, com uma persistência histérica.

Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aqueles períodos sonoros, tímidos de desejo; e no silêncio por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amélia; o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça às costas da poltrona, cerrava os olhos e parecia vê-la em colete, diante do toucador desfazendo as tranças; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote de sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.

Começara então a recomendar-lhe a leitura dos Cânticos de Jesus.

-Verá, é muito bonito; muita devoção! – disse-lhe ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto de costura.

Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras até o meio da face. Queixou-se de insônia, de palpitações.

– E então, gostou dos Cânticos?

– Muito. Orações lindas! – respondeu.

Durante todo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste – e sem razão; às vezes o rosto abrasava-se-lhe de sangue.

Se palidez, olheiras, insônia e palpitações são suspeitíssimos efeitos de leitura para a castidade de uma donzela, leituras e sintomas se multiplicam e se agravam em O primo Basílio, que já se abre em meio a uma cena de leitura: Jorge lê Luís Figuier e Luísa passa os olhos pelo Diário de Notícias. O narrador cuidadoso informa, logo depois, que Jorge preferia Luís Figuier, Bastiat e Castilho a Musset e Dumas Filho, definindo-se, assim, o marido de Luísa, pela adesão a um cânon não romântico e bastante verossímil na estante de um engenheiro.

Na ausência de Jorge, Luísa, pauta suas leituras pelo acervo rejeitado pelo marido: lê A dama das camélias, descrito como livro um pouco enxovalhado , que ela apanha por detrás de uma compoteira. A medida que o romance se desenrola, o enxovalho do volume respinga em sua leitora, não obstante as mãos de Luísa também empunhassem a impoluta Ilustração Francesa e a elegante Revista dos Dois Mundos .

Esta apresentação bastante detalhada dos livros por entre os quais se movem as personagens queirosianas faz com que a leitura desempenhe papel importante na organização do romance, além de ser peça fundamental na caracterização das personagens. .

A força da leitura na composição da personagem é tal que somos informados, logo no começo da história, que Luísa lia muitos romances e tinha uma assinatura na Baixa, ao mês . E mais: o narrador mapeia, através de mudança nas preferências literárias de Luísa, alterações em seus valores e comportamentos .

Confirmando o papel central que a leitura desempenha na composição de Luísa, é ainda a ela que o narrador recorre, em discurso indireto livre, para caracterizar diferentes estados de espírito da protagonista: numa Luísa casada, adúltera e já nas malhas da chantagem de Juliana, sobrevive a antiga leitora de W. Scott, que tem saudades da leitora romântica que foi:

Que diferente sua vida teria sido – desta agora tão alvoroçada de cólera e tão carregada de pecado! (…) Onde estaria? Longe, nalgum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, num vale solitário e contemplativo; na Escócia, talvez, país que ela sempre amara desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verdes terras de Lamermoor ou de Glencoe (p.237).

A expressão do desejo valer-se de livros e de leituras, e articular-se em discurso indireto livre que entrelaça as vozes do narrador e de sua personagem, aprofunda na tessitura das vozes do livro, a importância que a leitura tem nesta obra de Eça. Isto se confirma quando se vê que também Basílio é dado a conhecer aos leitores pelo que lê. O narrador informa que sua estante incluía Mademoiselle Giraud ma femmeLa vierge de MabilleCes Frippones! Mémoires secrètes d’une femme de chambre, acervo cujos títulos sugerem a figura de um libertino cuja licenciosidade não se atenua pela leitura de um elegante Manuel du chasseur ou do Figaro, versão masculina da Revista dos Dois Mundos.

A leitura que se encena em O primo Basílio não contribui, entretanto, apenas para a constituição individual das personagens. Leitura e literatura estão em cena ao longo de todo o romance, ao lado de outras formas de comunicação, enquanto matéria e expressão de um imaginário coletivo e uma linguagem social.

Notas

Versão anterior deste texto foi apresentada no III Encontro Internacional Queirosiano realizado entre 19 e 21 de setembro de 1995 em São Paulo e foi aceita para publicação em seusAnais.

 Assis, Machado de. O Protocolo. p. 1863.

 Apud Polêmicas de Eça de Queirós. Prefácio e recolha de João Luso. Dir. Jaime Cortesão. (Col. Clássicos e Contemporâneos). Lisboa, Dois Mundos. p. 60.

 Queirós, Eça de. O primo Basílio. São Paulo, Ática, 1993. (Série Bom Livro). Todas as citações são extraídas deste volume, indicando-se, entre parêntesis, após a transcrição, a página respectiva.

 Machado de Assis. Obra completa, 3 v. Rio de Janeiro, José Aguilar, v. 3, 1962. Todas as citações são extraídas deste volume, indicando-se, entre parêntesis, após a transcrição, a página respectiva.

 Barreto, Fausto e Laet, Carlos de. Antologia Nacional. 6. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1913. p. 215.

 Eça de Queirós. O crime do Pe. Amaro. São Paulo, Ática, 1982. (Série Bom Livro). Entre parênteses, após a transcrição, a página respectiva.

 Publicado como romance por Dumas Filho em 1848, A dama das camélias foi encenada em 1852. A extrema popularidade da história de Marguerite Gautier e Armand Duval é responsável pela sua transcrição em diferentes mídia ao longo do tempo. Nela se inspirou a ópera La Traviata (Verdi, 1853, com libreto de Giuseppe M. Piave) , que teve várias encenações com Sarah Bernard e Eleanora Duse, que inspirou em 1936 filme estrelado por Greta Garbo.



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