Revista Mulheres e Literatura – vol. 18 - 2º Semestre - 2016



DUAS MARIAS: RESISTÊNCIA E CORPO NA LITERATURA – Daniele Ribeiro Fortuna





 

 Daniele Ribeiro Fortuna

Universidade Unigranrio

 

Resumo: O artigo realiza uma análise comparativa da literatura e a trajetória das escritoras Carolina Maria de Jesus e Maria Conceição Evaristo. Ambas viveram em condição de subalternidade e conseguiram ter voz por meio de sua escrita. O texto busca, ainda, compreender de que forma a literatura das duas escritoras atua como mecanismo de resistência. Por fim, ele se debruça sobre a questão do corpo e da resistência – ambos temas fundamentais na literatura das duas escritoras.

 

Palavras-chave: Carolina Maria de Jesus; Conceição Evaristo; resistência; corpo; subalternidade

 

Abstract: This article presents a comparative analysis of both Carolina Maria de Jesus’ and Maria Conceição Evaristo’s literary works and biographies. They both lived in subaltern condition, but succeeded to be ‘heard’ through their writing. This article also tries to understand how their literature acts as a mechanism of resistance. Finally, it discusses the importance of body and resistance in both writers.

 

Keywords: Carolina Maria de Jesus; Conceição Evaristo; resistance; body; subaltern.

 

Minicurrículo: Daniele Ribeiro Fortuna é jornalista (UFRJ), mestre em Literatura Brasileira (UERJ), doutora em Literatura Comparada (UERJ) e Pós-Doutora em Comunicação (UERJ). Atualmente tem uma bolsa de Jovem Cientista do Nosso Estado (2015-2017). É professora do programa de Pós-Graduação em Humanidades, Culturas e Artes da Universidade Unigranrio. Pesquisa os seguintes temas: autobiografia, corpo, emoção e Estudos Culturais.

 

 

DUAS MARIAS: RESISTÊNCIA E CORPO

NA LITERATURA

 

Daniele Ribeiro Fortuna

Universidade Unigranrio

 

Introdução

Para falar sobre resistência, Marilena Chauí recorre a Raymond Williams: “A realidade do processo cultural deve ser sempre capaz de incluir os esforços e as contribuições daqueles que, de um modo ou de outro, estão fora ou na margem dos termos da hegemonia específica” (WILLIAMS, 1977 apud CHAUÍ, 1993, p. 23).

Carolina Maria de Jesus e Maria Conceição Evaristo estiveram nesse grupo, e representam o que Spivak denominou de “subalterno”, a partir de Gramsci. Elas pertenciam às “camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante” (SPIVAK, 2010, p. 12).

Pode o subalterno falar?”, pergunta Spivak. Carolina e Conceição provaram que sim. Para ambas, a escrita tornou-se, mais do que forma, caminho de resistência. Muito as duas Marias têm em comum: negras, nascidas em Minas Gerais, moraram em favelas, em condições precárias e fizeram da escrita, mais do que um alento, um modo de vida.

 

Carolina Maria de Jesus, a artista da fome

Carolina vencia o cansaço para escrever ou justamente porque estava cansada, escrevia. Ao longo de vários anos, a escritora manteve um diário, no qual registrava seu cotidiano, pensamentos, sentimentos, sonhos, revoltas, angústias e o dia-a-dia da favela. Esse diário foi publicado em 1960 sob o título de Quarto de despejo e se transformou em um dos maiores sucessos editoriais do Brasil, sendo, inclusive, traduzido em vários países. Anos depois, em 1996, outros trechos foram organizados pelos historiadores Robert Levine e José Carlos Sebe Bom Meihy e publicados no livro Meu estranho diário.

A escritora nasceu em 1914, em Sacramento, no interior de Minas Gerais. Estudou pouco, apenas o suficiente para se alfabetizar e para fazer dos livros parte fundamental da sua vida. Aos 16 anos, mudou-se com a mãe para a cidade de Franca, em São Paulo, dando início a um período de várias outras mudanças, que culminariam com sua ida para a capital do estado.

Para sobreviver, exerceu várias atividades: faxineira de hotel, auxiliar de enfermagem, vendedora de cerveja, artista de circo e, principalmente, empregada doméstica. Em 1948, Carolina foi morar na favela do Canindé. Naquele período, as favelas começavam a aparecer e se transformariam em uma dura realidade nas décadas que estavam por vir.

Os textos de Carolina, transcritos em seu diário, se constituem em um retrato de alguém que busca resistir a uma realidade dura, marcada pela miséria. A escritora mistura palavras rebuscadas a descrições ácidas de um cotidiano cruel. Embora, muitas vezes, seu diário se dedique a momentos de devaneio, sua escrita é direta, sem subterfúgios.

Até hoje, considera-se como inovadora a obra de Carolina, pois trata-se da fala de alguém que vivenciou a pobreza, a realidade de uma favela. É um testemunho de um personagem ‘de dentro’ de um cenário miserável, e não de um observador externo, como é comum acontecer. De acordo com Meihy (2006, p. 345), “raramente se encontra algo escrito a partir da vivência da pobreza, daqueles que a vivem e dão razão de ser a um estado de coisas que compromete a eficiência dos sistemas políticos e coloca o poder e a ordem social em cheque”. Para Lajolo (1996, p. 39), as descrições de Carolina Maria são “cenas (…) sempre raras na literatura brasileira”.

É possível afirmar ainda que a escritora estava entre o que Chauí (1993, p. 140) denomina de os “mais pobres”, isto é, os favelados, com situação empregatícia precária, mal remunerados e quase sem escolaridade. Portanto, Carolina Maria de Jesus conhecia bem o lugar de onde falava, pois era personagem daquele cenário.

Cabe ainda ressaltar que Carolina não se detinha em escrever (e também descrever) apenas sobre a pobreza, mas – principalmente – sobre o pobre. Com isso, Carolina retratava seu cotidiano e o daqueles que a cercavam de forma individual e, portanto, original. Assim, sua escrita é única, já que é originária da força do sentimento próprio de quem é mais do que testemunha, personagem da fome – “nos textos de Carolina, tudo é visual e imediato (…) jamais perdem o conteúdo dramático da vida vulgar, cotidiana (…)” (MEIHY, 2006, p. 347).

O diário de Carolina (publicado nos livros Quarto de despejo e Meu estranho diário) relatam a vida da autora durante o tempo em que esteve na favela. Os trechos são separados por datas e se iniciam quase sempre da mesma forma: “1 de novembro de 1958 Dêixei o leito as 5 e 44. E fui carregar água”. (JESUS, 1996, p. 38) Ou: “22 de junho Deixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés” (JESUS, 1997, p. 61).

Um leitor desatento possivelmente terá a expectativa de uma descrição banal de alguém que leva uma vida simples, sem grandes ambições ou pretensões: alguém que acorda, se levanta, vai fazer o café, vestir os filhos… Mas imediatamente o diário de Carolina ‘frustra’ esse leitor e revela um texto que, de acordo com Lajolo (1996, p. 39), promete e faculta “o exercício consentido do voyeurismo impune por sobre cenas de pobreza explícita”: “O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes” (JESUS, 1997, p. 55).

Neste trecho, Carolina faz ainda uma descrição crua e cruel do lugar onde vive:

 

Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituiram os corvos (JESUS, 1997, p. 48). [Nas citações do texto de Carolina será mantida a acentuação original].

 

A escritora revela ainda o testemunho da fome:

 

27 DE MAIO… Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago (JESUS, 1997, p. 39).

 

Entretanto, Carolina Maria de Jesus buscava formas de resistir à fome e a todos os obstáculos que tornavam sua existência difícil. Para tanto, também tinha em seu corpo outro lugar de resistência. Nos diários da escritora, as referências ao corpo (seu e ao dos outros) são inúmeras: cansaço, fome, indisposição – suas –, sexo, bebedeiras – dos outros – etc. É possível perceber uma tensão constante entre miséria humana e resistência. Contando com o auxílio de sua escrita e de seu caráter raro e forte, seu corpo resistia aos seus problemas individuais e às questões que a incomodavam na favela.

Ao se debruçar sobre sua escrita, o leitor consegue perceber como se dava esse mecanismo de resistência. O corpo de Carolina cambaleava entre o cansaço, o estupor e a necessidade de sobreviver. No dia 19 de maio, Carolina relata em seu diário: “Deixei o leito as 5 horas. Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal” (JESUS, 1997, p. 30). Parece o prenúncio de um dia mais ameno, mas, logo em seguida, ela afirma: “As aves deve ser mais feliz que nós. Talvez entre elas reina amizade e igualdade. (…) O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dorme porque deitam-se sem comer”. (JESUS, 1997, p. 30).

Mais adiante, a escritora dá prosseguimento ao seu relato:

 

Deixei de meditar quando ouvi a voz do padeiro:

— Olha o pão doce, que está na hora do café!

Mal sabe ele que na favela é a minoria quem toma café. Os favelados comem quando arranjam o que comer. (…)

(…) Eu estou começando a perder o interesse pela existencia. Começo a revoltar e a minha revolta é justa (JESUS, 1997, p. 30).

 

Já no dia seguinte, 20 de maio, Carolina Maria continua: “O dia vinha surgindo quando eu deixei o leito. A vera despertou e cantou. E convidou-me para cantar. Cantamos. O João e o José tomaram parte”. Mais uma vez, uma promessa de felicidade que não se concretiza:

 

Abri a janela e via as mulheres que passam rapidas com seus agasalhos descorados e gastos pelo tempo. Daqui a uns tempos estes palitou que elas ganharam de outras e que de há muito devia estar num museu, vão ser substituidos por outros. É os politicos que há de nos dar. Devo incluir-me, porque eu também sou favelada. Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo (JESUS, 1997, p. 33).

 

Com isso, o corpo de Carolina oscila entre a revolta e esperança, buscando, de alguma forma, continuar a luta, resistir. Quando tenta esboçar alguma vaga alegria ou, pelo menos, uma sensação de amenidade, rapidamente a escritora se recorda de onde fala ou algum fato do seu dia-a-dia – como a falta de comida ou de dinheiro para comprar bens de necessidade básica, por exemplo – não a deixa esquecer. E essa recordação também a faz se lembrar que o seu diário é o seu lugar de denúncia e de resistência. Mesmo que os ‘outros’ não a ouçam, porque não têm acesso a seus textos, ainda assim, ela pode escrever, tendo a esperança de um dia ser ‘lida’.

 

Conceição Evaristo, a artesã das palavras

Conceição Evaristo também nasceu em Minas Gerais, em 1946. Viveu numa favela e conseguiu concluir o curso normal somente aos 25 anos. Trabalhou como empregada doméstica em várias casas de famílias tradicionais em Belo Horizonte.

Alguns anos depois, foi para o Rio de Janeiro, onde ingressou no magistério e, posteriormente, cursou a graduação em Letras. Tornou-se ainda mestre e doutora em Letras. Escreveu livros, como Ponciá Vicêncio e Becos da memória, além de diversos contos e poesias, que foram publicados em antologias.

Assim como Carolina Maria de Jesus, a escritora faz de sua escrita uma ferramenta de resistência. Sua própria trajetória acadêmica já dá indícios desse papel que a escrita sempre desempenhou na sua vida. A leitura do romance Becos da memória também traz pistas de como se dá tal mecanismo.

Escrito entre 1987 e 1988, foi publicado pela primeira vez em 2006 e relançado em 2013. No texto “Conversa com o leitor”, que abre o livro, Conceição Evaristo revela: “Arrisco-me a dizer (…) que a origem da narrativa de Becos da memória poderia estar localizada numa espécie de crônica, que escrevi ainda em 1968. Naquele texto podia ser apreendida a tentativa de descrição de uma favela” (EVARISTO, 2013, p. 11, 12). Segundo a autora, a crônica a que ela se refere fora escrita como um exercício de redação apresentado no colégio e que foi publicado em dois pequenos jornais posteriormente.

O livro nasceu ainda dos fatos que a tia, Maria Filomena, tinha o hábito de registrar: “datas e acontecimentos importantes, desde fatos relacionados à economia doméstica a acontecimentos sociais ou religiosos” (EVARISTO, 2007, apud Lima 2004, p. 1). Com o tempo, a tarefa passou a ser de Conceição e, mais tarde, esta experiência teria influência decisiva no seu fazer literário (LIMA, 2014).

As memórias da escritora a ajudaram a construir Becos da memória. O personagem Totó e sua última esposa, Maria-Velha, por exemplo, foram baseados nos tios de Conceição Evaristo. O romance conta a história de personagens que moram em uma favela, que está sendo destruída para dar lugar a um hospital ou a uma companhia de gás. Ao longo da narrativa, é possível perceber uma tensão constante entre desânimo e resistência, na qual o corpo tem papel fundamental.

Vida e morte, luta e submissão, vitória e derrota: a narrativa é permeada por estes três binômios antagônicos, que se refletem ainda no corpo dos personagens. Maria-Nova, por exemplo, é uma menina negra, de 13 anos, que gosta de ouvir histórias. O amigo Bondade e seu tio Antônio João da Silva, o Totó, são seus principais contadores.

As histórias contadas por eles vão se confundindo com os fatos que se passam na favela e que culminam com a sua destruição. Passado e presente se alternam, assim como a alegria, o espanto, a tristeza e a dor de Maria-Nova.

A menina é testemunha de várias tragédias, provocadas não apenas pelo fim eminente da favela, mas também pelas condições precárias em que vivem seus moradores. Ao mesmo tempo em que Tio Totó vai narrando sua vida, seu corpo vai se tornando decrépito. Antes risonho e alegre, apesar de todo o sofrimento que viveu (a morte de duas esposas e de filhos), ele vai definhando, se deixando ficar triste e choroso.

Maria-Nova chora com ele, sofre, sente vontade do nada. Em vários momentos, a desesperança toma conta dela:

 

Era doloroso ver Tio Totó esconder nas mãos o rosto, seus cabelos agora totalmente brancos, sentado, encolhidinho, chorando tanto. A menina se aproximava, na tentativa de consolá-lo, abraçando o velho. E, sem pudor, sem orgulho algum, sem vergonha de serem vistos, os dois libertavam o pranto (EVARISTO, 2013, p. 182).

 

Até na escola, para onde gostava de ir, agora havia perdido a graça, principalmente, quando uma de suas vizinhas, a Filó Gazogênia, morre triste, sem esperança. A vida parecia não ter sentido para ela também, como já não tinha para Tio Totó.

Tio Totó se sente cansado, sem vontade de viver. Anseia a morte como um alívio. Maria-Nova teme essa morte mas, quando ela acontece, a personagem supera a desesperança: “A dor de Tio Toto significava para ela um compromisso de busca de uma melhor forma de vida para si própria e para os outros” (EVARISTO, 2013, p. 246).

A morte, aliás, permeia toda a narrativa, em uma disputa com a vida. Os personagens e seus corpos estão sempre oscilando neste embate. Cidinha-Cidoca é outro exemplo. Antes uma negra sensual, conhecida pelo seu “rabo de ouro” – “Não havia quem provasse e não se tornasse freguês” (EVARISTO, 2013, p. 36) –, vai enlouquecendo, perdendo o cuidado de si e acaba morrendo dentro do buracão, onde iam parar os dejetos da destruição da favela. Seu corpo bonito tornara-se feio, seco.

Se a desesperança toma conta de Cidinha-Cidoca e a morte vence a luta, para Dora, o movimento é inverso. Apesar de linda – “mulata alta”, “corpo melodioso” (EVARISTO, 2013, p. 127) – e aparentemente feliz, a personagem guarda uma história de perdas e descrença.

Quando engravidou, não quis o filho. Deixou-o com o pai. Não queria se envolver com ninguém nem qualquer tipo de compromisso. Ansiava sempre o prazer, como se o isso a recompensasse por ter sido abandonada pelo pai. Mas a vida de Dora se transforma ao conhecer Negro Alírio, de quem acaba engravidando no final da narrativa e com quem decide continuar e criar a criança.

Negro Alírio – assim como o personagem Bondade – é um dos que buscam a esperança, acreditando que as coisas podem ser melhores. Também negro e pobre, ele faz do trabalho e do incentivo à educação as suas metas. Alírio é quem se encarrega de reunir os moradores para tentar resolver o problema do desfavelamento, buscando sempre conscientizá-los. No final da história, cabe a ele a Bondade o papel de ajudar os vizinhos a encontrar uma solução para o problema do desfavelamento.

Há ainda duas personagens cuja trajetória revela, mais uma vez, a tensão entre derrota e resistência. São Ditinha e a Outra. Ditinha é uma empregada doméstica que é presa por roubar uma joia da patroa, D. Laura. Ela não apenas se lamenta pela miséria em que vive, como parece invejar a beleza de D. Laura, que a faz se sentir feia e envergonhada. De tanto trabalhar, Ditinha estava sempre cansada e tinha o corpo moído.

Ditinha sustentava seus três filhos, seu pai paralítico e a irmã, que não lhe ajudava em nada. Para não ter mais filhos, pede a Maria Cosme, uma vizinha, que lhe ajude de alguma forma. A mulher enfia uma sonda em seu corpo, que a faz sangrar até parar no hospital e ter que retirar o útero.

Quando Ditinha é presa, Beto, seu filho mais velho, toma conta de tudo. Ao ser solta, ela volta para a favela. Mais magra e abatida, começa a beber e não tem vontade de sair de casa. Sente muita vergonha de seus atos. Mas, ao final, resiste e se muda da favela, sendo apoiada pelos vizinhos e com uma ponta de esperança.

A Outra vive com Vó Rita, uma parteira que havia trazido ao mundo várias crianças que moravam na favela. Vó Rita vai, aos poucos, deixando de ser parteira para cuidar somente da Outra. No começo do romance, não se sabe muito sobre essa personagem, apenas que todos a evitam e que ela se esconde. Nem seu filho a quer por perto.

Ela pensa em se matar, mas não o faz, porque sabe que Vó Rita ficaria muito decepcionada. Ao final, seu segredo é revelado: a Outra sofre de hanseníase. Para ela, parece não haver maneira de resistir. Mas, ainda que seu corpo esteja totalmente tomado pela doença, sua esperança é reacendida quando ela e Vó Rita são encaminhadas pelo governo para uma colônia de tratamento – a Outra para se tratar e Vó Rita para trabalhar.

O romance termina com Maria-Nova largando a escola, pois, com o fim da favela, teria que se mudar para longe. O tom, entretanto, não é de derrota:

 

Havia o medo, o incerto, o imprevisível do amanhã. Mas havia a tenacidade, a força o desejo de vida.

Maria-Nova tinha feito no dia anterior as provas finais, despedido dos professores, dos colegas e amigos. Não voltaria no próximo ano, mas voltaria a estudar um dia (EVARISTO, 2013, p. 255).

 

Dessa forma, apesar de toda esta tensão entre vida e morte que permeia Becos da memória, a resistência parece ser o fio condutor. Maria-Nova sabe que está deixando para trás um período importante de sua vida, sabe também que a escola é fundamental na sua vida. Mas, mais do que ter esperança, a menina acredita que um dia vai retornar aos bancos escolares.

 

Considerações finais

Como Carolina Maria de Jesus, Maria Conceição Evaristo parece acreditar que a literatura se constitui em um lugar de resistência. Ambas apostaram nessa crença e conseguiram não apenas resistir, mas existir fora da margem.

Durante algum tempo, Carolina desempenhou o papel de escritora de sucesso: viajou pelo mundo, conheceu pessoas, passou a se vestir bem. Infelizmente, esse período durou pouco e ela voltou a ter uma vida humilde e precária. Depois de Quarto de despejo, seus livros não tiveram o mesmo desempenho comercial ou espaço nos jornais e revistas.

Assim como a personagem Maria-Nova, Conceição Evaristo também foi obrigada a parar de estudar durante um período. Se para Maria-Nova retornar à escola era apenas uma possibilidade, para Conceição, esta esperança transformou-se em realidade e ela não apenas se tornou escritora, como iniciou uma vida acadêmica consistente.

Pode o subalterno falar?”, recorremos mais uma vez ao livro de Spivak. Sim, é possível. Maria Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus mostraram que sim e que a fala pode ser não apenas uma voz, mais um lugar de resistência. Duas Marias e uma só palavra: resistência.

 

 

Referências Bibliográficas

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência – aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993.

EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Florianópolis: Editora Mulheres, 2013.

JESUS, Carolina Maria de. Meu estranho diário. São Paulo: Xamã Editora, 1996.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 1997.

LAJOLO, Marisa. Poesia no quarto de despejo, ou um ramo de rosas para Carolina. In: JESUS, Carolina Maria de. Antologia pessoal. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.

LIMA, Omar da Silva. Conceição Evaristo: escritora negra comprometida etnograficamente. Disponível em:

http://150.164.100.248/literafro/data1/autores/43/critica6.pdf  Acesso em: 2 mar 2016.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. A fala da pobreza: Carolina Maria de Jesus. In: LIENHARD, Martín. Discursos sobre (l)a pobreza. América Latina y/e países luso-africanos. Madrid / Frankfurt: Iberoamericana / Vervuert, 2006.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.



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