Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



DOM CASMURRO: A INOCÊNCIA DE CAPITU E AS ESTRATÉGIAS TENDENCIOSAS DE ARGUMENTAÇÃO DE BENTINHO PARA CONDENÁ-LA AO ADULTÉRIO – Aucilane Santos Aragão, Janaíne Januário, Maria das Graças Santos Correia





 

 Aucilane Santos Aragão

Janaíne Januário

 Maria das Graças Santos Correia

Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão 

 

 

Resumo: Este estudo objetiva analisar a argumentação do personagem Bentinho em Dom Casmurro, de Machado de Assis (2004), cuja intenção do narrador-personagem é de condenar a personagem Capitu por uma suposta traição. No entanto, focaremos não para a sua condenação, mas para a defesa, analisando as falhas na argumentação daquele. Haja vista que não há provas concretas, reais que a incrimine, pelo contrário, o único parecer sobre a história é exclusivamente do Bentinho que se utiliza da própria imaginação para criar situações que confirmem suas suspeitas. Desta forma, focaremos nos desvios da argumentação de Bentinho a fim de inocentar argumentativamente Capitu, entendo que a narrativa construída pelo ciumento é tendenciosa, uma vez que o livro contém evidências criadas a fim de persuadir o leitor a crer que Capitu realmente o traiu.

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Palavras-chave: Dom Casmurro. Ciúme. Argumentação. Inocência.

 

Abstract: This study aims to analyze the arguments of Bentinho’s character Dom Casmurro, in Machado de Assis de Assis novel also called Dom Casmurro. The intention of the narrator-character is to condemn the character Capitu for alleged treason. However, we will focus not for his condemnation but for his defense, analyzing the flaws of his reasoning. Given that there is no concrete evidence that incriminates real, however, the only opinion in the story is exclusively Bento who use their own imagination to create situations to confirm his suspicions. Thus, we will focus on deviations of Bentinho’s argument to exonerate arguably Capitu, I understand that the narrative constructed by jealous is biased, since the book contains evidence created to persuade the reader to believe that Capitu really betrayed him.

 

Keywords: Don Casmurro. Jealousy. Argumentation. Innocence.

 

Miniscurrículos: Discentes do curso de graduação em Letras na Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão

 


 

ESTRATÉGIAS TENDENCIOSAS DE ARGUMENTAÇÃO DE BENTINHO

PARA CONDENÁ-LA AO ADULTÉRIO

 

Aucilane Santos Aragão

 

Janaíne Januário

 

Maria das Graças Santos Correia

 

Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Campus do Sertão 

 

 

 

 

Considerações Iniciais

Dom Casmurro, de Machado de Assis, pode ser considerado um dos romances mais famosos da Literatura Brasileira. É uma obra dividida em 148 capítulos, narrada em primeira pessoa pelo personagem Bento Santiago, que relata a história de sua própria vida, como se fosse uma biografia de um homem solitário, que não se desprende do passado.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1899, sendo considerado uma das grandes obras de Machado de Assis se estendendo sobre toda a sociedade brasileira, a realidade é retratada através da vida de Bentinho, no Rio de Janeiro do segundo reinado (1840 – 1889) e conta sua trajetória desde a infância, adolescência, seminário, estudos até o casamento.  A obra é instigante gira em torno do ciúme de Bentinho por sua esposa Capitu, abordada com brilhantismo no livro, provoca polêmicas em torno do caráter de uma das principais personagens femininas da literatura brasileira, Capitu.

A narrativa é em primeira pessoa o que permite manter questões sem elucidação até o final, já que a história conta apenas com a perspectiva subjetiva de Bentinho, ou seja, toda a trama gira em torno das percepções de Bentinho, todo o ciúme que ele sente por Capitu, faz com que ele fique transtornado. Desse modo, não há registros reais que comprovem um suposto adultério, e o único olhar que o leitor tem sobre a história é segundo os sentimentos obsessivos e inventivos de narrador-personagem, não sabendo a percepção de Capitu sobre os acontecimentos. Segundo Santiago os críticos estavam interessados em buscar a verdade sobre Capitu ou a impossibilidade de se ter a verdade sobre Capitu, quando a única verdade é a de Dom Casmurro (2000, p.30). O grande enigma da obra está na dúvida em relação ao adultério de Capitu com Escobar, seu melhor amigo do seminário.

No livro não há nenhuma cena que o comprove o adultério, no entanto, Bentinho relata inúmeros episódios, marcando a obra pela desconfiança com que o leitor vai se enredando ou se desvencilhando das próprias interpretações oferecidas pelo narrador, haja vista, que Bentinho vai convencendo o leitor de que sua esposa lhe traiu.  Para Santiago, a qualidade essencial de Machado como escritor reside na “busca, lenta e medida do esforço criador em favor de uma profundidade que não é criada pelo talento inato, mas pelo exercício consciente e duplo, da imaginação e dos meios de expressão de que dispõe todo e qualquer romancista” (2000, p. 28).  O “fingere” na obra machadiana esta presente nas persuasões de Bentinho, o fingimento do narrador para assim convencer o leitor da suposta traição.

Bentinho tinha muita imaginação, registrada em toda a obra; segundo o narrador, “A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar” (Assis, 2008, p. 177). A intenção do narrador era fazer o leitor se deixar influenciar, “Também se goza por influição dos lábios que narram” (Assis, 2008, p. 138). O narrador é sincrético e cumpre, ao mesmo tempo, o papel de vítima, fazendo com que Capitu seja a vilã da história a traidora e dissimulada. Apesar de o romance não registre nenhuma prova de que ela tenha de fato cometido o adultério, o narrador do romance tenta persuadir o leitor de que isso realmente aconteceu. Para Santiago, “a obra de machado de Assis como um todo é coerentemente organizada” (2000, p. 27).

Na obra há uma busca da verdade, isto é, do verossímil, para Santiago “a verossimilhança, que, percorrendo o discurso de uma extremidade a outra, constitui a totalidade da arte oratória” (Santiago, 2000, p.43). Na obra, Dom Casmurro narra a versão de sua própria historia e restaura na velhice, os momentos vividos na adolescência ao lado de seu grande amor Capitu, menina que seduzia com seus olhos de ressaca. Machado de Assis escritor único com a publicação da obra “Dom Casmurro”, recebeu muitas de críticas de vários estudiosos. Segundo Zilberman:

A maturidade da obra de Machado e a institucionalização da crítica proporcionaram muitas leituras e debates sobre a obra do autor. É a partir desse momento que começavam a encarar “a literatura como objeto elevado, e não mero passatempo”. O fato de a crítica só ter meios de interpretar Machado quando a obra dele ia avançada repercute sobre o modo de a encarar.  Também a circunstância de predominar o foco evolucionista, originário do positivismo, teve efeitos determinados e ainda dominante na recepção daquele escritor (ZILBERMAN, 1989, p. 89, 90).

 

Em Dom Casmurro, Machado de Assis faz uso de uma comunicação direta com o leitor, ele conduz o mesmo a acreditar em seus preceitos Santiago afirma que “O romance de Machado é antes de tudo um romance ético, onde pede, se exige a reflexão do leitor sobre o todo” (2000,p. 30). Para Antônio Cândido:

 

Dentro do universo machadiano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a consequência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói sua casa e a sua vida (2004, p. 23).

 

Sendo assim, a obra de Machado de Assis é dividida em duas partes a fase romântica, que retrata o início do namoro dos dois, e a fase realista, esta após o casamento é uma fase amarga, Bento desempenha o papel de homem patriarcal, assume o comando do relacionamento afetivo, levando-o à destruição de sua família.

 

I – Estratégias de transferência de Bento

No decorrer da narrativa, o narrador, aproveitando sua formação como advogado e sua estadia no seminário que lhes rederam um poder argumentativo maior, tenta configurar a culpa de Capitu.

Bentinho conta toda a história insinuando um (mau) caráter de Capitu, para justificar a “traição” desta. Valendo-se, às vezes, da opinião de outra pessoa sobre ela, como uma forma de alegar que não era apenas ele que a via como uma pessoa capaz de traí-lo, destacando a acusação de José Dias que ela tem “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Bentinho aceita as críticas e as usa para fundamentar o caráter de Capitu:

 

Se, de certa maneira, são esses os mecanismos predominantes no modo de raciocinar, e, por conseguinte de convencer, não se deve esquecer de que a retorica do verossímil se espraia, ocasionando a certa compreensão particular do comportamento dos outros. Duas atitudes, entre outras, são típicas de Dom Casmurro, quando analisa os que o rodeiam: a) joga a culpa de toda calúnia nos outros, isentando-se aparentemente de qualquer responsabilidade, colocando-se ainda na qualidade de vitima; b) empresta aos outros contradições entre o que chamaremos por enquanto de interior e exterior (SANTIAGO, 2000, p. 38).

 

Esta é a estratégia usada por Dom Casmurro, mostrando que Capitu sempre teve um “caráter duvidoso”, desde criança, e por isso pode ter o traído. Esse estratagema de transferir o decorrer da história para mostrar o possível caráter da outra pessoa para justificar que está certo é muito utilizada pelas pessoas que têm ciúme excessivo, como no caso de Bentinho, usando todos os argumentos possíveis para convencer-se e convencer aos outros de que foi traído.

Percebemos que no decorrer da história tem a presença de uma tendência argumentativa, para convencer ao leitor que há uma verdade em suas desconfianças. Para isso, ele apresenta uma espécie de dados acerca da vida de Capitu, e consequentemente da dele. Outra estratégia de argumentação usada é a forma que ele escreve, falando diretamente ao leitor (ou leitora, como ele fala em alguns momentos), isso acontece especialmente nos capítulos: XLV- Abane a cabeça, leitor; LXXIX- Vamos ao capitulo; LXXX- Venhamos ao capitulo; CXIX- Não faça isso, querida. Essa aproximação com o leitor é caracterizada pelas escolhas linguísticas usadas por ele, a escolha de palavras já nos títulos dos capítulos como “leitor”, “querida” sugere uma estratégia do autor em aproximar sua fala do enunciador-leitor, ordenando a essa terceira pessoa discursiva a refletir sobre o que está apresentando na argumentação:

 

Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 39).

 

Ele fala diretamente ao leitor, numa espécie de desabafo. Tentando mostrar ao leitor que Capitu foi capaz de falar no primeiro filho com naturalidade, coisa que não era comum na época, uma moça de família e solteira falando em ter filhos. Ou seja, passando a imagem de que ela era uma moça que falava e agia de forma diferente das outras da época, sendo assim, era capaz de cometer atos libertinos, como o adultério, com facilidade. Em dados momentos, como no citado, ele fala com o leitor como se estivesse exercendo seu oficio de advogado acusando um réu e em sua argumentação usa alguns momentos da vida.

Porém, ao analisarmos os argumentos de Bentinho percebemos que ele faz uso deles para justificar o ciúme dele colocando a culpa de todos os atos nela. O ciúme de Bentinho faz com que ele crie situações, acredite nelas e crie argumentos para mostrar que está certo. No capítulo XL- Uma Égua, o próprio Bentinho reconhece que “a imaginação foi a companheira de toda a minha existência”:

 

Em dado momento, Bento interpreta o olhar de Capitu como uma confissão: “Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão, uma fantasmagoria de alucinado; mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando: – ‘Mamãe!, Mamãe!, é hora da missa!’, restituiu-me à consciência da realidade. Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, porém, não confessou nada; repetiu as últimas palavras, puxou do filho e saíram para a missa” (cap. CXXXIX) . “A confusão dela fez-se confissão pura” é interpretação de Bentinho. Podemos pensar que ele viu assim. Há algo mais subjetivo (ou projetivo) que a interpretação de um olhar? (NETO,…).

 

I – A arte da retórica na obra

A imaginação e o ciúme dele fizeram com que ele interpretasse uma suposta confissão de Capitu através do olhar dela, quando o que houve foi apenas fruto da imaginação de uma pessoa ciumenta. Sendo assim, não há nenhuma evidência que comprove de fato uma suposta traição de Capitu, ao mesmo tempo que dá para condenar Capitu só pelo olhar de Bentinho, pois ele se mostrou ciumento desde o princípio, além de fazer uso da retórica para argumentar contra ela. Para Neto:

A retórica. Esta arte tem como intuito proporcionar uma fala persuasiva, manipulando a linguagem para o benefício do falante. Em Dom Casmurro a retórica é a base de construção do romance. Nele, a história de amor e ciúme entre Bentinho e Capitu é contada de forma a convencer o leitor (e ao próprio Bentinho) de que Capitu é a grande culpada na história.

 

Dessa forma, ao analisarmos a obra percebemos que Bentinho usa a retórica desde o início para mostrar que Capitu é culpada das acusações impostas por ele, quando na verdade o que vemos é a acusação de homem extremamente ciumento, com uma imaginação muito forte e que não há como dizer que ela o traiu tomando como base a argumentação do próprio Bento.

Bentinho criou diversas situações em todo o livro para que o leitor enxergasse Capitu como adúltera, todas essas situações foram criadas em sua imaginação e construídas discursivamente a fim de levar o Outro do discurso à persuasão. Proença (2011) diz que: “uma rede de indícios que, combinados, são interpretados por ele, ciumento, como decisivas evidências de traição”. Isto é, por meio da linguagem, Bento Santiago promove a dúvida no leitor se Capitu foi capaz mesmo de traí-lo, para isso, ele traça um perfil que seria da personalidade dela desde a infância pra compor todas as suas criações imagéticas a respeito da personagem, indiciando-a ao leitor ao adultério em sua relação matrimonial.

Ainda citando Proença (2011), ele diz que Bento Santiago cria “competências” analisando e contando-as ao leitor a fim de comprovar discursivamente a suposta traição, desta forma, o narrador-personagem diz ao leitor momentos em que Capitu agiu de forma perspicaz, quando, por exemplo, quando ela junto com o seu amigo, guardam a segredo de Bento que Capitu economizou dez libras. Nesta cena, o narrador que induzir ao leitor que sua amada e seu amigo trocam confidências as quais ele fica de fora, traço este que ele leva a imaginação de um indicio de traição. Bem como o perfil tanto personalístico de Capitu, de “dissimulada”, “rápida”, “objetiva”, quanto a de Escobar, “reflexivo”, “boa memória”.. Estes traços vão fazendo o leitor acreditar que de fato ambos tinham a “competência” da traição.

Bentinho descreve tão bem as cenas que o leitor e a critica literária de fato acreditaram por muito tempo ser ele o ingênuo, e o traído da situação. Só com a analise da personalidade de um sujeito doente de ciúmes leva a inocentar a personagem, haja vista que a construção discursiva do narrador é detalhada, inteligente, mas de memória falha como ele cita. Memória esta, que é a única fonte de percepção deste para a história, sem provas alguma.

Silviano Santiago (2011, p. 33-34) diz que “Dom Casmurro, como bom advogado que devia ser, toma para si a defesa de Bentinho, arquitetando uma peça oratória onde nos afigura de primeira importância seu aspecto propriamente forense (era escrita por um advogado) e seu aspecto moral-religioso (escrita por um ex-seminarista)”. Desta forma, a construção do seu discurso não será neutro, mas tendencioso, utilizando-se de estratégias argumentativas as quais induzem ao leitor incriminar de fato a personagem.

 

II – Capitu é inocente

Durante toda a história Dom Casmurro faz uso das características fortes de Capitu, valendo-se inclusive de acusações feitas por terceiros, como de José Dias, por exemplo, que a caracterizou como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, além de mostrar algumas cenas passadas dela para mostrar que ela tinha um caráter duvidoso, e que portanto o traiu sem culpa, pois para ele  a traição de Capitu e Escobar era fato.

Apesar de Bento Santiago afirmar que foi traído, não há nenhuma prova de que isso aconteceu de fato. Portanto não há como dizer que Capitu é uma adúltera tomando como base a história contada pelo suposto traído, principalmente, levando-se em consideração que o marido é uma pessoa ciumenta e que já apresentava sinais de um ciúme doentio desde antes de casar com ela.

Ao analisar a obra, observamos que esse traço de ciúme exacerbado de Bentinho começa a aparecer de forma mais concreta a partir do momento em que ele fica muito irritado ao perceber que passou um rapaz a cavalo na rua e olhou para Capitu e ela olhou-o de volta, e com isso já começa a fantasiar várias hipóteses de que eles tinham algo, chegando a pensar em uma frase dita anteriormente por José Dias “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela…” e concluir que o “peralta da vizinhança” se tratava dele de certeza:

 

A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário: “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela…” Era certamente alusão ao cavaleiro. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispôs a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola, levá-lo ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese; mas José Dias, que parara ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 58).

 

Após concluir o suposto romance da amada com o vizinho, ele se trancou no quarto e teve um momento de surto, jurando nunca mais querer vê-la. No outro dia ele a procurou para pedir explicações e ela explicou-lhe que não tinha nada com o vizinho, alegando que se tivesse não o olharia e sim iria dissimular. Porém, ele ficou convencido quando ela falou que o rapaz ia casar com outra e que desta forma não poderia ter nada com ele. Essa reação de Bentinho, assim como as outras no avançar da obra, é característica do ciúme no terceiro nível, o delirante ou paranoico. Segundo a Psicologia, existem três níveis de ciúme que o sujeito pode apresentar: o normal, o neurótico e o delirante (Paranóico). O normal é aquele que ocorre quando a pessoa amada dá motivo para o parceiro sentir ciúmes; O neurótico é aquele cujo sentimento de angústia é permanente, nesse a pessoa tem consciência de que seu ciúme é exagerado, mas não consegue controlá-lo; E o terceiro caso é visto como o mais grave e de maior preocupação, pois é aquele onde o indivíduo fantasia uma possível traição podendo ser agressivo e até mesmo cometer insanidades contra o parceiro. Como no caso de Bentinho que fantasiou toda a traição de Capitu sem ter prova alguma, chegando a querer envenenar o filho por achar que o menino é o fruto de uma relação com um terceiro.

O ciúme é a manifestação de um profundo complexo de inferioridade de certa personalidade com imaturidade afetiva (Alves, 2001). Ao analisarmos a personalidade de Bentinho percebemos que ele de fato apresenta essas características típicas de uma pessoa ciumenta, pois desde menino, era sempre mimado pela mãe, pelo tio Cosme, pela prima Justina e pelo agregado José Dias. Essa super-proteção tornou-o um indivíduo inseguro e dependente, incapaz de tomar decisões por conta própria e resolver seus próprios problemas, além de ter uma imaginação muito fértil, contribuindo ainda mais para a suspeita de adultério da amada. Para Santos:

 

Se analisarmos mais detalhadamente o ciúme, podemos perceber, logo de início, que não se trata de um sentimento voltado para o outro, mas sim voltado para si mesmo, para quem o sente, pois é, na verdade, o medo que alguém sente de perder o outro ou sua exclusividade sobre ele. É um sentimento egocentrado, que pode muito bem ser associado à terrível sensação de ser excluído de uma relação (2002, p. 76).

 

Outra característica do ciúme paranoico é a necessidade excessiva de procurar uma forma de confirmar a suspeita da traição. Na obra percebemos que Bentinho procura de todas as formas provar a traição, que para ele já é certa, de Capitu e Escobar, valendo-se da história deles para mostrar que ela sempre foi dissimulada e com um caráter duvidoso, além da amizade dela com Escobar e, por fim da semelhança do filho com o amigo. Esquecendo-se que Capitu é muito parecida também com a mãe da amiga Sancha mesmo sem ter algum parentesco com ela e que, portanto, as pessoas podem ter semelhanças mesmo sem ter nenhum grau de parentesco. Outro conceito apresentado pela Psicologia é o ciúme mórbido ou patológico, também conhecido como Síndrome de Otelo:

 

 

O conceito de ciúme mórbido ou patológico, também chamado de Síndrome de Otelo, em referência ao romance shakeaspereano escrita em 1964 compreende várias emoções e pensamentos irracionais e perturbadores, além de comportamentos inaceitáveis ou bizarros (Leong et al, 1994). Envolveria muito medo de perder o parceiro(a) para um(a) rival, desconfiança excessiva e infundada (ALMEIDA, 2013).

 

Podendo levar a pessoa a cometer atos de extrema agressividade e desejos de vingança desordenados, assim como Bento faz ao comprar um veneno para tomar e depois tentar fazer o filho tomar, além do desejo da morte de Capitu e do filho como uma forma de vingar a traição. Bem como o sentimento de alivio que ele sente quando mais tarde, mesmo depois de Capitu já está morta, quando o menino morre em Jerusalém com uma febre tifoide.

Segundo a psicanálise é possível afirmar que a Síndrome de Otelo seria na verdade e/ou também o desejo do próprio ciumento em ser infiel, no entanto, por não admitir conscientemente esse desejo, acaba projetando no parceiro, como se pertencesse a ele a infidelidade ou desejo desta. Ou seja, é como se o ciumento pensasse que se ele teve o desejo de trair a parceira certamente o trai. Em Dom Casmurro acontece algo semelhante, pois o próprio Bento sente uma atração por Sancha, que é esposa de Escobar, que ele tem certeza que o trai, e amiga de sua mulher.

A personagem de Bento Santiago é marcada por não possuir um motivo real ou prova e sim a certeza absoluta de infidelidade de Capitu baseado na sua imaginação. No cap. XL, ele diz que “A imaginação foi a minha companheira de existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas correndo.”

 

Utilizando a imaginação como recurso para provar a infidelidade de Capitu por meio de criações/invenções da sua imaginação. A retórica e a expressão de um caráter que pode comprovar que ele está certo, tentando mostrar que ela é leviana, fútil, a que desde pequena só pensa em vestidos e penteados, a que tinha ambições de grandeza e luxo, e ele um homem rico, de boa família, com formação em direito e que ama a esposa e foi traído por ela. Mas em muitas partes da obra acaba mostrando que ela era uma esposa e mãe dedicada e carinhosa, uma mulher Inteligente, prática, de personalidade forte e marcante, enquanto ele é um homem fechado, solitário e triste que tem um ciúme doentio pela esposa. Fazendo-nos deduzir que não houve traição e que tudo não passou do fruto da imaginação dele.

 

Considerações finais

A riqueza da obra “Dom Casmurro” estimula nos leitores profunda análise e meditação, bem como o levantamento de hipóteses das intenções do pseudo-narrador da história. Ele traz muitas discussões e interpretações acerca da traição ou não de Capitu. Muitos críticos e leitores em geral acreditam que houve de fato a traição de Capitu e Escobar, enquanto outros acreditam que não e que não há nenhum indicio concreto do adultério, o que há é apenas a imaginação e interpretação de um marido excessivamente ciumento.

A dúvida ou a certeza da traição são frutos do discurso construído pelo narrador a fim de condenar a amada, minuciosamente Bento Santiago se preocupou em criar situações que de fato levassem o leitor a crer que houve traição. A retórica é o ponto chave da trama, visto que, por meio dela o narrador-personagem e nós enquanto sujeitos usuários da lingua(gem) podemos induzir, persuadir, condenar ou inocentar discursivamente outros sujeitos.

A obra conta com inúmeras estratégias que leva o leitor a persuasão, sendo algumas dela, a fala ao leitor na primeira pessoa ao contar a história como um desabafo, induzindo que aquelas situações criadas inventivamente de fato existiram; a descrição da personalidade, das características dos personagens Capitu, Escobar como rápidos, espertos e a de Bento como ingênuo constroem um discurso que leva o Outro a acreditar que tanto Escobar quanto Capitu tinham traços, “competências” que levariam a traição.

Dom Casmurro é uma construção discursiva cujo romance aborda a visão doentia causada pelo ciúme do personagem-narrador para com sua amada, sendo esta tratada na obra como dissimulada e mentirosa. Bento é advogado, ex-seminarista, representante da elite social e econômica, a palavra, o discurso dele é levado ao leitor como a “verdade”, deste modo Capitu é silenciada em toda a narrativa. No entanto, assim como há a possibilidade na interpretação da obra de condená-lo como adultera, há também a possibilidade de enxergar o discurso de Bento como tendencioso, voltado exatamente para retratar Capitu como culpada de algo que não fez. Ambas, retoricamente construídas.

 

Referências Bibliográficas

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SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira: de Bento Teixeira, 1601 a Machado de Assis, 1908. Intr. de Heron Alencar. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.

ALMEIDA, Thiago de. Síndrome de Otelo: quando o ciúme se torna patológico. Disponível em: <http://www.thiagodealmeida.com.br/site/files/pdf/artigo9.pdf>. Acesso em: 10 set. 2013.

ALVES, Roque de Brito. Ciúme e crime: crime e loucura. Rio de Janeiro: Forense, 2001.

SANTOS, Eduardo Ferreira. Ciúme e crime: uma observação preventiva, Psic, Cerqueira César, v. 3, n. 2, p.74-77, 2002.

SANTIAGO, Silviano 2000. Retórica da verossimilhança. In: Santiago, Silviano. Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco.

CANDIDO, A. Esquema de Machado de Assis. In: Vários escritos. 2ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

PROENÇA, Paulo Sérgio de. A construção da competência para a infidelidade, em Dom Casmurro. vol. 7, no 1. Junho, 2011

ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. Ed. Ática. São Paulo. 1989.



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