ESCRITORES



DOIS INIMIGOS (*)





Rubem Mauro Machado

 

Eu o observo, ele me vigia – olhos, nascentes do ódio brotando.

Eu me pergunto o que veio esse sujeito fazer na minha vida, pressinto que jamais vai me libertar de sua horrível presença, ele, o maldito.

Vou fazendo ponta no lápis, o canivete arranca lascas que voam, quebro o grafite, recomeço com mais raiva, mas o exercício é bom e me acalma. Apoio o lápis no tampo da escrivaninha, afino a ponta, o leve pó negro constitui um pequeno monte residual, que assopro.

Ele, durante todo o tempo, assume aquele seu detestável ar contrafeito, sabendo que me incomoda estando ali. Procura evitar o ódio do meu olhar, passa a mão em gesto reflexo pelas feias cicatrizes. Eu o odeio mais pelas cicatrizes.

Sim, boa pergunta, o que veio ele fazer na minha vida, nós que não temos nada, mas absolutamente nada, em comum. Eu sou assim como vocês sempre me conheceram, sou tido, modéstia à parte, como um sujeito simpático, alegre, expansivo, de riso fácil e uma certa sedução a que as mulheres não ficam indiferentes, cortês sem frescuras, terno mas viril. Maldito Doutor Kill, maldita sejas medicina, enquanto os flashes estouram ao redor, triunfo da ciência, não me faça rir, da vaidade isto sim, sejamos sinceros, ele sorria, eu passo a mão nas minhas cicatrizes, eu cultivo meu ódio, não pedi nada a ele e a ninguém, não precisava ter feito o que fez, já era famoso e rico desde o seu primeiro transplante de cérebro, as mulheres fazem fila para trepar com ele, ah, falta-lhe o Nobel, deve ter obsessão pelo Nobel, dizem que dança rumba muito bem.

Ciência, justificativa de todos os crimes e todos os martírios e eu sou obrigado a aturar esse sujeitinho para quem detestável é pouco, um ser tímido, encolhido, contrafeito, hesitante no falar e inepto no agir, que não sabe, não consegue, maturar sua personalidade, manipular aquela carga de conhecimento humano e sensibilidade que acabei lhe transmitindo, embora a contragosto.

Mas não, ele se encolhe em sua carapaça de tatu e eu o odeio ainda mais, eu que amo o mar e a natureza, eu que sinto dentro de mim a alegria de viver, na inteireza dos meus músculos, porque sou jovem e percebo o pulsar do sangue e do sêmen. Este, que ama a música e a alegria sou eu – e quem disser o contrário mente.

E apesar de tudo, como meu inimigo, carrego cicatrizes. E ainda pressinto, como pressenti, o mergulho do avião, o abismo que me engolia, o pavor trancado na garganta, o espanto nos olhos, o choque, a desintegração, ferragens que se rompem e o agudo sentimento da impotência que nos dá na hora tanta raiva, lâminas de fogo a compor quadros que não existem nem na mais enfermiça febre dopada pelo ácido, a dor inconcebível, o incrível capricho da lâmina afiada ao me decepar exatamente no meio, ao comprido, de alto a baixo – o resto eu soube depois, me contaram, li, os bombeiros correndo com as minhas duas metades, ainda vivas, transportadas em cobertores (vi depois esta foto, em preto e branco, premiada, a gente percebe as expressões dramáticas, ao fundo as chamas e os destroços). E a ambulância com seu uivo lamentoso e desesperado furando o tráfego difícil até o hospital. E o célebre Doutor Kill e sua equipe mobilizados, à espera, contando nervosos os segundos e os décimos de segundos, andando pelos corredores esterilizados. E ainda eles curvando-se como um bando de corvos brancos, tentando adivinhar como ainda se podia constatar sobrevivência naquelas duas meias-frações, cada qual dotada de meio cérebro, um olho, meio nariz e um pulmão. E a longa noite, que emendou com a seguinte, de cauterizações, purgações, raspagens, enxertos e transfusões, o lado direito pulsando ao ritmo de um coração artificial que seria depois implantado, ao inflar e desinflar do pulmão único. No saguão de entrada os repórteres tomavam café e dormitavam sentados, revezando-se em plantões cansativos cuja monotonia só era rompida pelo anúncio de mais um lacônico boletim oficial.

O milagre acabou por acontecer. Feito uma anêmona, as duas metades em poucos meses monstruosamente regeneraram, formando dois seres distintos, dois seres repulsivos que se odeiam, nós dois – eu e ele.

Enquanto o gáudio dos jornais berra em manchetes o brilhante feito do sorridente Doutor Kill, agora festivamente chamado “o pai dos incríveis homens-anêmonas”, eu capto num relance o olhar baixo de medo e angustia do outro e me pergunto se não será possível sufocá-lo durante o sono com o travesseiro.

 

(Do livro Jacarés ao sol – São Paulo, Ática, 1976)

 

 

Nota de Rubem Mauro Machado (27-07-2016)

 

O SEGUNDO ENCONTRO COM BORGES

 

Conversei certa vez com Jorge Luis Borges em Buenos Aires. Sobre esse encontro inesquecível escrevi crônica publicada no Globo e em vários outros veículos. O que jamais poderia imaginar é que décadas depois meu caminho de alguma maneira tornaria a se cruzar com o de um dos maiores gênios da literatura. Confesso meu assombro ao me deparar com um ensaio crítico, publicado na revista literária francesa -canadense XYZ, em que Marie-Ange Depierre, doutora em literatura comparada, professora da Universidade de Otawa, traça um paralelo entre um famoso conto de Borges, “A forma da espada”, do livro Ficciones, com um conto meu, “Dois inimigos”, publicado inicialmente em 1978 no livro “Jacarés ao sol” (Editora Ática). [Ver este artigo em Resenhas, neste site]. O que une os dois contos, na visão da ensaísta, é que tratam do problema do duplo (da duplicidade), ainda que de maneira completamente diferente. Meu espanto foi ainda maior porque ignorava que meu conto fora traduzido para o francês e publicado na revista literária Dérives, que circula na França e no Canadá, onde aparentemente Marie-Ange o leu. Ao que me consta, é a primeira vez que alguém traça um paralelo entre um conto de Borges e o de um autor brasileiro.  A produção literária tem esse dom de fugir do controle de seus autores, para se desdobrar em efeitos surpreendentes. Isso constitui um alento para vários de nós, escritores brasileiros, ignorados pela mídia e desconhecidos do grande público e que temos com frequência a sensação absurda de escrever para ninguém. Devo dizer que “Jacarés ao sol”, apesar das ótimas críticas recebidas na ocasião de seu lançamento e de ter esgotado rapidamente duas edições, nunca mais foi reeditado. Alguns exemplares ainda resistem nos sebos espalhados ao longo deste grande país.

 

R.M.M.

 



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