Revista LitCult – Vol.9 - 2. semestre 2015



DESLOCAMENTOS ESPACIAIS E IDENTITÁRIO-AFETIVOS DOS SUJEITOS EM TRÂNSITO – Luiza Puntar Muniz Barreto





DESLOCAMENTOS ESPACIAIS E IDENTITÁRIO-AFETIVOS DOS SUJEITOS EM TRÂNSITO

Luiza Puntar Muniz Barreto

Universidade Federal Fluminense

 

RESUMO: A contemporaneidade trouxe, devido à aceleração da globalização e ao aprimoramento das tecnologias, mudanças estruturais no modo como percebemos o tempo e o espaço. Nossa relação com o mundo torna-se cada vez mais imediatista, o mundo parece cada vez menor, as fronteiras parecem se diluir. Nessa conjuntura, vemos aumentar o número de sujeitos em trânsito, cujas identidades plurais estão também em deslocamento. A questão da migração tem sido tema recorrente na literatura contemporânea, que problematiza, especialmente, a relação dos indivíduos migrantes com os espaços por onde transitam. No romance Azul corvo (2010), de Adriana Lisboa, a personagem Vanja é uma menina de apenas 13 anos quando decide emigrar do Brasil para os EUA em busca do pai. Sua trajetória evidenciará a experiência de trânsito do sujeito contemporâneo, passando pelo estranhamento e pelo desafio que representam as relações afetivas na perspectiva estrangeira.

 

Palavras-chaves: deslocamento, migração, estrangeiro, identidade

 

ABSTRACT: The acceleration of globalization and enhanced technology brought, in contemporary times, structural changes in the way we perceive space and time. Our relationship with the world became increasingly immediate: the world seems smaller, the boundaries seem more diffuse. There is a growing number of individuals in transit, whose plural identities are also on the move. The issue of migration has been a recurrent theme in contemporary literature that discusses especially the relationship of migrant individuals and the spaces where they transit. Adriana Lisboa’s novel Blue Crow (2010) presents the character, Vanja, who is only 13 when she decides to emigrate from Brazil to the US to search her father. The course of her life will illustrate the experience of contemporary displacement and the affectionate relationships in a foreign perspective.

 

Keywords: displacement, migration, foreign, identity

 

CURRÍCULO: Luiza Puntar Muniz Barreto é formada em Letras – Português/Literatura pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em 2014. Atualmente cursa o Mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal Fluminense, sob a orientação da Prof. Drª Stefania Chiarelli, tendo como temas da pesquisa as questões da migração, desterritorilização e deslocamento na contemporaneidade, com a defesa da dissertação prevista para março de 2017. Seus objetos de estudo são o romance Azul-corvo (2010), de Adriana Lisboa e o filme Terra estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas.

DESLOCAMENTOS ESPACIAIS E IDENTITÁRIO-AFETIVOS

 

DOS SUJEITOS EM TRÂNSITO

 

Luiza Puntar Muniz Barreto

 

Universidade Federal Fluminense

 

INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo investigar os deslocamentos e experiências pelas quais passam os sujeitos em trânsito. Ao migrar, no âmbito do deslocamento espacial, o indivíduo passa por um processo de estranhamento em relação ao lugar e ao Outro; porém, como veremos, tal experiência externa acaba se refletindo internamente.

Nesse contexto, o sujeito migrante revela um desajuste tanto em relação ao espaço quanto à cultura desse novo lugar em que tenta fixar-se, passando por uma experiência de desabrigo e solidão, frutos não só do estranhamento, mas também da dificuldade de se firmar subjetivamente nesse espaço e, portanto de nele reconhecer-se.

As relações dos sujeitos migrantes com seus espaços de trânsito, o descentramento subjetivo e o desenraizamento pelo qual passam são os temas em torno dos quais se desenvolve a narrativa de Azul corvo (2010), de Adriana Lisboa, que será nosso objeto de estudo. No romance narrado em primeira pessoa, a personagem narradora, Vanja, vivencia esse duplo deslocamento experienciado pelo sujeito em trânsito.

Adriana Lisboa é uma escritora brasileira, que já viveu na França, no Japão e hoje mora e leciona nos Estados Unidos. É, portanto, uma, dos muitos escritores, que integraram o grande contingente de sujeitos migrantes na contemporaneidade. Tal experiência, logicamente, se reflete nas obras desses autores. Dado o seu papel de crítica, discussão e debate acerca das questões sociais e políticas de seu tempo, não é de surpreender que os sujeitos deslocados migrantes e os espaços pelos quais transitam sejam os grandes temas da literatura em todo o mundo nesse início do século XXI.

Como salienta Sandra Regina Goulart, os escritores da fase pós-colonial, principalmente no início do século XXI, passaram a refletir a tendência deslocada e descentrada da contemporaneidade, modificando a ideia que se têm hoje de literaturas nacionais. Dessa forma,

(…) as escritoras e escritores que fazem do espaço transnacional seu território enunciativo desestabilizam esse centro trazendo para o bojo desse espaço um olhar de alhures, de outros espaços nacionais e outras localidades, prefigurando um espaço de traduções culturais ou um espaço literário transnacional (GOULART, 2013, p. 69).

 

As narrativas desses autores, autobiográficas ou não, aparecem, grande parte das vezes, em primeira pessoa e partilham o caráter autorreflexivo, quase confessional de um indivíduo centrado no Eu, que, de tão descentrado em si, tão refletido, misturado e ao mesmo tempo tão inacessível ao Outro, busca (re)construir sua identidade através de seus relatos.

A essa postura parece corresponder Adriana Lisboa em Azul corvo, com a construção da personagem Vanja. A narrativa em questão se inicia quando Vanja, então com 13 anos, perde a mãe. Morando de favor com a irmã de criação de sua mãe, Elisa, a menina decide viajar para os Estados Unidos, lugar onde nasceu e viveu até os 2 anos de idade, à procura do pai biológico que nunca conhecera. Para realizar tal empreitada, a menina conta com a ajuda de Fernando, ex-marido de sua mãe, que lhe oferecerá abrigo em sua casa no subúrbio de Lakewood, na cidade de Denver, Colorado.

Acompanhando a narrativa, fruto do relato de Vanja feito nove anos mais tarde, tomamos conhecimento de que a personagem, em seu processo migratório, acaba encontrando muito mais do que pretendia: outra cultura, outra paisagem, um outro homem com quem desenvolve o afeto paternal e a si mesma.

No presente artigo, pretendemos investigar a condição do estrangeiro a partir do olhar de George Simmel, a (re)construção identitária, operada pela convivência com outra cultura e possibilitada pelas relações afetivas travadas pelos sujeitos em trânsito, será analisada com base nas teorias sociológicas de Stuart Hall, já as dificuldades de relação com os espaços por onde transitam os sujeitos migrantes, serão abordadas à luz da teoria de Marc Augé a respeito dos não-lugares.

 

DESLOCAMENTO ESPACIAL E INDETITÁRIO-AFETIVO

O espaço contemporâneo tem estado em voga entre muitos estudiosos e parece ser um dos elementos que mais passa por modificações e maiores implicações traz nessa época de grande trânsito mundial de massas e de informações. É no intercruzamento desse espaço multifacetado e do tempo, cada vez mais acelerado, que se formam, nas palavras de Homi Bhabha, “figuras complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão” (2007, apud GOULART, 2013, p. 66).

É em meio a essa conjuntura de dualidades que ocorrem as migrações no século XXI. Diferentemente das migrações de exílio por motivos econômicos ou políticos, os sujeitos em trânsito dessa época experienciam a errância e o desenraizamento em nível também subjetivo, resultado da constante sensação de não pertencimento que acompanham os seus deslocamentos espaciais.

Nesse contexto, como consequência da desestabilização de centralidade em relação ao espaço, podemos verificar também um descentramento referente ao próprio sujeito, que deixa de possuir uma subjetividade construída em torno de referenciais culturais únicos e passa a ser composta de forma tão plural e dialógica quanto os espaços pelos quais transita.

Tal sensação de transitoriedade subjetiva aparece logo nas primeiras páginas de Azul-corvo: “Eu parecia me transformar lentamente em outra coisa, como se estivesse passando por uma lenta mutação.” (LISBOA, 2010, p.12), diz Vanja ao relatar a sua chegada à cidade de Denver, Colorado.

Depois da morte da mãe, Vanja perde suas referências identitárias e afetivas, ficando totalmente desabrigada. A menina nunca conhecera o pai, no entanto, sabia que este morava nos Estados Unidos e que ela, nascida nesse mesmo país, havia sido fruto de uma relação a qual sua mãe não quis levar adiante. Por isso, voltaram para o Brasil quando tinha apenas dois anos.

Passando por uma luta interna a respeito de como encarar os fatos e seguir com a vida depois desse acontecimento, Vanja decide viajar para os Estados Unidos com o objetivo de procurar o pai. A menina deixa claro ainda que sua viagem não é de entretenimento, nem de fuga, mas de busca. Tal busca visa preencher as lacunas afetivas e identitárias deflagradas pela sua orfandade, e, com efeito, delineará um caminho para uma (re)construção subjetiva, a qual, vale lembrar, soma-se ao fato de Vanja ser uma adolescente.

Não demora muito para que Vanja nos revele o constante desconforto que sente em relação a Denver, paisagem estranha com a qual se vê obrigada a dialogar, sem conseguir, contudo, acessá-la com êxito. A paisagem natural, o clima e a arquitetura da cidade aparecem como primeiras fontes de estranhamento e inquietações:

 

Plana, lisa, seca, tediosa, poeirenta, contínua, constante, chata, sem graça: essa seria minha primeira impressão da planície, nos meses por vir. O que existia ali era uma ditadura do espaço, uma infinidade de chão para a direita, uma infinidade de montanhas para a esquerda, uma infinidade de céu encapotando tudo (LISBOA, 2010, p. 22).

 

A incapacidade de compreensão desse espaço implicará também numa inacessibilidade dos códigos desse novo ambiente que consequentemente a conduzirá a uma incomunicabilidade tanto com o espaço como com as pessoas: uma solidão imposta pelo espaço, dirá a menina, que, com efeito, se encontra situada no entrelugar do sujeito que procura fixar-se numa terra estrangeira, num espaço estranho.

Essa nova categoria de migração é fortemente marcada por um efeito de flutuação, pelo lugar entre que os sujeitos em trânsito ocupam nas culturas, nos países, na identidade, nas relações afetivas, seguidos de uma incessante e eterna busca pela identidade. Vanja evidencia ao longo da narrativa toda a duplicidade desse migrante, que se insere, como aponta George Simmel, tanto na disposição do “mover-se” quanto na do “fixar-se” e, portanto, trava uma relação igualmente dupla com esse espaço do Outro a que se tenta acessar.

Para Simmel, o estrangeiro irá refletir a composição antitética e plural do espaço contemporâneo na medida em que se destaca como um estranho por não pertencer, ao menos de imediato, a esse novo espaço, uma vez que não partilha de sua cultura e códigos; também não sendo possível nele se inserir por meio das qualidades que traz de seu lugar de origem, evidenciando uma condição “transfronteiriça”:

 

(…) embora não siga adiante, ainda não superou completamente o movimento do ir e vir. Fixo dentro de um determinado raio espacial, onde a sua firmeza transfronteiriça poderia ser considerada análoga ao espaço, a sua posição neste é determinada largamente pelo fato de não pertencer imediatamente a ele, e suas qualidades não podem originar-se e vir dele, nem nele adentrar-se (SIMMEL, 2005, p. 265).

Nossa protagonista aparece como um sujeito migrante que se fixa, ou ao menos tenta se fixar, nessa terra estrangeira, mesmo que num movimento alongado de passagem, já que sua migração, em princípio temporária para os Estados Unidos, é norteada por uma busca que, em sua própria natureza, já representa transitoriedade.

Podemos afirmar que a narrativa de Azul corvo, se desenha em torno de dois grandes momentos: o de total estranhamento e desabrigo provocados pela nova paisagem e pela cultura do Outro, e o momento de negociação entre a identidade cultural de origem de Vanja e a cultura daquele novo espaço, e, por conseguinte, a (re)construção de sua própria identidade, o que, como veremos, somente se torna possível a partir do desenvolvimento de relações afetivas.

O primeiro momento se revela logo no início dos relatos da menina, nos quais fica claro o seu estranhamento com a paisagem e com o clima do lugar, sempre revelado em contraponto com a geografia de sua terra natal, o Rio de Janeiro:

 

(…) eu olhava pela janela e via a imensidão do céu cutucado pelas montanhas a oeste, Havia algum verde, sim, mas era tão pouco que pra mim não contava. No meu entender, verde ou era exuberante e denso, ou não era verde. Eu desconsiderava aquelas plantinhas raquíticas do deserto […] Antes eu estava habituada a caminhar por baixo das árvores. Atravessava as ruas estreitas e sujas de Copacabana e suas calçadas esbugalhadas com telhados de árvores presentes o ano inteiro. Agora, naquela cidade semiárida, as ruas eram largas e limpas e sem sombra (LISBOA, 2010, p. 18).

 

O Rio de Janeiro, mais especificamente Copacabana, irá aparecer durante quase toda a narrativa como ponto de referência em que Vanja pudesse, de alguma forma, se sentir abrigada e pertencente, já que lá, ainda que carente dos referencias paternos, a menina possuía uma identidade e podia situar-se em relação ao restante do mundo. Assim, a evocação da paisagem marítima, que aparece a todo o momento cortando os relatos da narradora, equivale a um apelo para a superação do desconforto provocado pela paisagem desértica, pelo clima seco e pelos hábitos estranhos que a menina reconhece em Denver. Essa constante evocação estabelece, ao longo da narrativa, um marcante contraste com Lakewood, que irá se configurar antes como um lugar transformado em não lugar pela experiência migratória.

Os não lugares se configuram como espaços tipicamente de passagem, onde os sujeitos não são capazes de experienciar senão a própria individualidade e a solidão por ela causada. Tais espaços de trânsito, além de se apresentarem como solitários, ainda se revelam extremamente inóspitos, dificultando o desenvolvimento das relações afetivas entre os sujeitos que por eles transitam. Em Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade, Marc Augé afirma que: “Se um lugar pode se definir como identitário relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico, definirá um não lugar” (AUGÉ, 2012, p. 73).

Mais do que um lugar meramente de passagem consideramos que Lakewood se configura para Vanja como algo semelhante ao que Augé chama de “o não lugar como lugar”, aquele que nunca chega a existir por completo sob uma forma pura, já que está em constante transformação, sendo incessantemente recomposto por outros lugares, tornando dialógica a relação entre lugar e não lugar, que, nas palavras do antropólogo, “são, antes, polaridades fugidias: o primeiro nunca é completamente apagado e o segundo nunca se realiza totalmente – palimpsestos em que se reinscreve, sem cessar, o jogo embaralhado da identidade e da relação” (AUGÉ, 2012, p. 74).

A tentativa de superação do desconforto operado por aquela nova paisagem seca e desértica se dará via memória. Na expectativa de encontrar algum abrigo nesse espaço que para ela se apresenta tão hostil, a narradora opera um constante retorno ao passado, do qual emergem lembranças e imagens sensoriais que, de forma evanescente, parecem formar um caminho que irá norteá-la nesse espaço.

Nessa narrativa orientada pelo passado, vemos confrontadas as imagens de duas paisagens que se apresentarão como diametralmente opostas pela a narradora: o mar de Copacabana e o deserto do Colorado. A paisagem marítima, evocada sempre de forma afetiva a partir das memórias de sua infância, remete a um ambiente mágico, onde Vanja se sente confortável, onde é possível fixar-se, sonhar e ser feliz.

O aspecto mais expressivo da desterritorialização pela qual passa a personagem, irá consistir, portanto, nessa oposição mar/deserto, que irá concretizar a dicotomia lugar/não lugar e revelar a crise subjetiva da personagem principal. Se, nas palavras de Stefania Chiarelli, “o mar surge como presença concreta ou miragem do passado[…], o deserto, espaço da busca paterna, fala de uma incontornável ausência como móvel das narrativas.” (CHIARELLI, 2016).

A praia de Copacabana aparece, portanto, como o lugar em que ela se localiza afetiva e identitariamente e que, para além da imagem, ao evocar cheiros, sabores e sons, se configura como um lugar místico, onde a narradora pode encontrar abrigo e segurança, não obstante sua natureza móvel. Desse modo, a paisagem marinha representava para a narradora um lugar passível de se encontrar, de dialogar: “Toda uma outra vida, outro registro, mas era possível, mesmo para um ser humano, nadar entre eles (…)” (LISBOA, 2010, p. 29), em oposição ao não lugar que irá se revelar o deserto do Colorado.

Ao descrever a arquitetura da cidade de Denver, Vanja ironiza a existência de tantos arranha-céus, mansões e campos de golfe que tentam, de forma frustrante, conferir alguma vida “no meio de uma aridez de quase deserto” (LISBOA, 2010, p. 22). O termo aridez aqui empregado vai além de uma nomenclatura aplicada ao clima, ele representa a hostilidade, a falta de suavidade e de brandura, e o desabrigo presentes nesse espaço.

É nesse cenário desértico e hostil, que nossa protagonista começa a experienciar a solidão e a se dar conta da perda das referências nas quais costumava pautar sua identidade. Depois de mencionar a solidão imposta por aquele espaço, Vanja completa: “Você perde um pouco a certeza de si mesmo quando confrontado com isso(LISBOA, 2010, p. 23).

Aqui, é importante lembrar que a falta do pai é a motivação da viagem de Vanja, cujo objetivo, como sabemos, é a busca não somente dele, mas das referências identitárias e afetivas que representa. Ao rememorar o episódio em que decide partir, a menina analisa: “Seria preciso coragem, isso sim, para ficar parada onde eu estava, ponto fixo no espaço, acalentando como a um animalzinho doente a ideia de que nada tinha mudado, de que nada era diferente, caminhando pelas mesmas ruas, alimentando os mesmos hábitos, me fingindo” (LISBOA, 2010, p. 65, itálicos nossos).

Fica, portanto, evidente a necessidade do trânsito para que Vanja encontre não somente o pai, mas a si mesma. Nesse contexto de deriva e de busca, a viagem da personagem se dá justamente para um espaço desértico. Podemos associar, portanto, a intensificação da sensação de perda e deriva sentidos pela narradora ao chegar em Denver com a categoria incorpórea, aporética e inóspita evocada pelo deserto (CHIARELLI, 2016).

Reafirmando esse caráter transitório e desfavorável às relações afetivas, próprio dos não lugares a que parece corresponder a paisagem desértica de Denver, Vanja faz a seguinte reflexão:

 

Existe algo de intermediário nos desertos. Muitos viajantes disseram isso. É como se eles não fossem destinações, mas caminhos apenas. Grandes paisagens inóspitas onde você não se demora, que você apenas percorre entre um e outro ponto mais afável do mapa (LISBOA, 2010, p. 147).

 

Mongin (1991, apud CHIARELLI, 2016) reitera a importância da conquista do deserto para conferir “um pouco de substância e de vigor ao vazio de dentro”. A conquista desse espaço parece corresponder ao preenchimento de suas lacunas, ao ato de dar uma forma ao caos interno de um indivíduo em constante redefinição de si próprio e de suas percepções em relação ao mundo e aos lugares, como é o caso do indivíduo contemporâneo, mais especificamente, do viajante. Tais características se agudizam ainda no caso de Vanja que, vale lembrar, empreende uma viagem de busca.

Essa conquista do deserto de que fala Mongin somente se torna possível, ainda que parcialmente, para a narradora de Azul-corvo a partir das relações afetivas que ali se delineiam. A superação do vazio afetivo encarado pelos sujeitos em trânsito aparece, portanto, como um possível caminho para uma reterritorialização, fenômeno a partir do qual os (não) lugares, que se revelam os espaços de migração, possam abandonar, pelo menos em parte, sua categoria inóspita, se configurando como um lugar acolhedor e seguro, ainda que eternamente plural e em constante (re)construção.

Quando Vanja consegue travar relações afetivas, sua relação com o espaço também se modifica. Assim, aquela paisagem caótica de Lakewood, se transforma em um “lugar antropológico”, definido por Merleau Ponty “como um espaço ‘existencial’ como lugar específico de uma experiência de relação com o mundo de um ser essencialmente situado ‘em relação com o meio’” (AUGÉ, 2012, p. 75).

Para Michel de Certeau, o lugar é um espaço praticado. O ato de praticar esse espaço consiste em “repetir a experiência jubilosa e silenciosa da infância: é, no lugar, ser outro e passar ao outro” (1990, apud AUGÉ, 2010 p. 78). Assim, o espaço até então tão vazio de práticas próprias e tão lotado de outras práticas, se torna um lugar na medida em que Vanja consegue enxergar o outro em contrapartida a si mesma, ainda que numa relação dialógica de permanente reescritura de sua identidade e da alteridade.

Vanja encontra o caminho da reterritorialização através dos laços afetivos que forma com Carlos, o menino com quem constrói uma relação de irmão que nunca teve e, principalmente, com Fernando, o pai que (não) esperava encontrar.

É assim que nossa narradora vai, aos poucos, preenchendo seus vazios, (re)formando sua identidade:

 

Era o tempo de eu me remodelar, quem sabe eu também tinha (devia ter) aquele interior mole e albino de inseto entre um e outro esqueletos externos. Era preciso pegar aquela gosma e, depois de ter conseguido protegê-la da fulminante piedade alheia, moldá-la agora em algum formato com o qual eu me reidentificasse (LISBOA, 2010, p. 78).

 

A apropriação do espaço do Outro, no entanto, nunca se dá de forma completa. Como assinala Simmel, o estrangeiro irá aparecer como alguém de natureza essencialmente móvel que, embora se revele enquanto sujeito por meio de contatos específicos, não chega a se vincular organicamente a nada e a ninguém (SIMMEL, 2005, p. 267).

Ao longo da narrativa, Vanja se mostra uma mistura de brasileira e norte-americana. É americana na certidão de nascimento e quando consegue, sem maiores tropeços, aderir ao cotidiano daquele lugar:  ir à escola, contar aos colegas sua história e ser cool; mas é brasileira demais para pronunciar os fonemas do inglês com a perfeição suficiente de modo a não denunciar o seu estrangeirismo, é brasileira demais para comemorar o dia de ação de graças ou para encarar com naturalidade a enxurrada de abóboras vendidas juntamente com instrumentos para esculpi-las no mês de outubro.

Dessa forma, constatamos que fica reservado à Vanja o lugar entre dos estrangeiros: entre culturas, entre fronteiras, “entre parênteses”, como aponta ela. Habitar esse lugar significa estar em um constante e permanente processo de negociação com todos esses elementos que flutuam em torno do sujeito migrante, de modo que este se encontra com uma perna fincada em cada um dos lados, configurando o que Stuart Hall chama de nova diáspora pós-colonial.

Podemos afirmar que na época pós-colonial, como Hall define o tempo em que vivemos, não há mais um centro difusor de cultura e identidades, como ocorreu durantes os séculos de colonização. Graças à globalização, vemos surgir uma nova ideia de identidade nacional. Uma ideia não soberana, na qual os países colonizados encontram espaços para negociar suas culturas de origem com a cultura absorvida por seus colonizadores, num processo dialógico de transculturação, em que consiste a experiência Diaspórica dos estrangeiros de que fala Hall:

(…) é importante ver essa perspectiva diaspórica de cultura como uma subversão dos modelos culturais tradicionais orientados para a nação. Como outros processos globalizantes, a globalização cultural é desterritorializante em seus efeitos. Suas compressões espaço-temporais, impulsionadas pelas novas tecnologias, afrouxam os laços entre a cultura e o ‘lugar’ (HALL, 2008, p. 36, grifo nosso).

 

Trazendo a experiência diaspórica das culturas colonizadas para o âmbito subjetivo, é correto afirmar que o estrangeiro se vê obrigado a negociar sua identidade cultural e suas referências identitárias próprias com aquelas encontradas nesse novo espaço, desestabilizando, no plano concreto, a ideia de nação e, no plano subjetivo, sua identidade e seu pertencimento. O sujeito migrante opera, portanto, o que Hall chama de “tradução cultural”, dissolvendo as fronteiras físicas e culturais e apontando para uma interpenetração desses elementos a nível global.

 Ao relatar o primeiro momento de sua experiência de migração, percebemos o apagamento das referências de seu lugar de origem: “Um fenômeno curioso acontece quando você passa muito tempo longe de casa. A ideia do que seja essa casa – uma cidade, um país – vai desbotando como uma imagem colorida exposta diariamente ao sol. Mas você não adquire logo outra imagem para pôr no lugar” (LISBOA, 2010, p. 70).

Diante do desajuste em relação àquele novo ambiente e àquelas novas pessoas, com os quais não é capaz de se reconhecer, a narradora deixa transparecer um desesperado desejo de pertencer: “Tente: aja como, vista-se como, fale como as pessoas ao seu redor. Use as gírias, frequente os lugares mais frequentados, se esforce para compreender os espaços políticos[…] Faça tudo isso, aja como” (LISBOA, 2010, p. 70).

Nesse processo de tradução cultural, o que vemos ocorrer é antes uma coexistência dos referenciais culturais e identitários que uma mera substituição desses, resultando numa paradoxal manifestação do sentimento de pertencimento: o sujeito em trânsito não irá mais se identificar completamente com o seu lugar de origem, nem conseguirá pertencer plenamente ao novo espaço, que, sempre se apresentará como estranho para ele em alguma medida:

 

Depois que você passa tempo demais longe de casa, vira uma interseção entre dois conjuntos, como naqueles desenhos que fazemos na escola. Pertence aos dois, mas não pertence exatamente a nenhum deles. Você passa a ter uma memória sempre velha, sempre ultrapassada de casa (LISBOA, 2010, p.72).

Podemos concluir, que Vanja, tal qual o estrangeiro de que fala Simmel e o sujeito traduzido de Hall, procura equilibrar-se na corda bamba da identidade/alteridade, se revelando como um sujeito híbrido, impuro, e plural; experienciando um paradoxal sentimento de (não)pertencimento ao lugar para onde migra, que não é bem um lugar, antes uma interseção na qual “duas coisas inteiramente distintas dão a impressão de se encontrar” (LISBOA, 2010, p. 72), sem, contudo, encontrar-se de fato.

Essa promessa de não realização do encontro pleno, no entanto, não impede que Vanja dê continuidade à sua vida plural, de subjetividade híbrida, e faça daquele espaço uma espécie de lugar na qual consegue, em certa medida, encontrar o que precisava: “Depois, descobri que a vida fora de casa é uma vida possível. Uma, dentre muitas vidas possíveis” (LISBOA, 2010, p. 72).

 

CONCLUSÃO

Waldenfels, em Topographie de l’étranger (1997), aponta o lugar como uma característica indispensável ao sujeito, que só manifesta a sua subjetividade a partir de um ponto de referência através do qual possa diferenciar-se do Outro, que para ele, apresenta-se como um estranho.

Tal lógica da alteridade baseada na diferença permanece válida nos dias atuais, porém, como já sabemos, a ideia de lugar é outra. Se o lugar onde se insere o sujeito determina quem é o estranho, na medida em que superamos a centralidade – da ideia de nação, de sujeito e de cultura das quais fala Stuart Hall em Identidade cultural na pós-modernidade – todos passam a ser estranhos e, ao mesmo tempo, evidenciam um potencial de não mais o serem em sua totalidade. Vemos, desse modo, relativizarem-se as referências sobre as quais se fundaram, desde o início da história humana, o Eu e o Outro.

O fenômeno da migração nos permitiu olhar com mais cuidado para a questão do estrangeiro como estranho, tradicionalmente considerado ameaçador por viver sobre outras normas que não a do Eu, por dele destoar. No entanto, ao compreendermos que a unidade desse Eu é uma ilusão, percebemos que, como afirmou Freud, somos estranhos a nós mesmos; ao constatar que a subjetividade só se forma em contato dialético com o Outro, passamos a enxergar esse Outro não mais como um estranho que nos coloca em perigo, mas como uma fonte de descobertas construtiva, com um valor positivo.

Adriana Lisboa constrói, conforme observamos, uma personagem que sintetiza em sua narrativa de trânsito essa experiência de redescoberta do Outro e de sua própria subjetividade a partir da vivência de uma migração. Para além da história pessoal dessa personagem, Lisboa nos conduz à uma reflexão a respeito do importante papel que a nova diáspora protagonizada pelos sujeitos migrantes do século XXI tem no enfraquecimento dos centros difusores de poder e cultura, bem como na desconstrução da ideia de nação.

Pudemos constatar também que o resultado desses processos, em instância subjetiva, reforça o descentramento do sujeito contemporâneo, que se apresenta cada vez mais plural, multifacetado e híbrido, sempre flutuando entre duas (ou mais) fronteiras, línguas, culturas e hábitos. Vanja é a encarnação desse sujeito do entrelugar, no qual fundem-se de forma paradoxal a sensação de nunca pertencer totalmente a lugar algum: não mais ao de origem e nem ainda ao de destino.

Entre deslocamentos espaciais e identitário-afetivos, há sempre um sujeito, em maior ou menor grau, desajustado. A pesonagem Vanja representa magistralmente a experiência desses sujeitos migrantes de nosso século que, mais do que nunca, evidenciam uma condição existencial transfronteiriça e uma identidade híbrida.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Sandra Regina Goulart. Cartografias de gênero: escrita e espaço na literatura contemporânea. In: SCHNEIDER, Liane et al. Mulheres e literaturas. Cartografias de gênero. Maceió: Edufal, 2013. p. 65-88.

 

AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. 9ª ed. São Paulo: Papirus Editora, 2012.

CHIARELLI, Stefania. Forasteiras – Adriana Lisboa e Paloma Vidal, percursos itinerantes na ficção contemporânea. No prelo, EDUFF, 2016.

 

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Hall, Stuart. Da diáspora: identidade e mediações culturais. 2ª reimpr. rev. Trad. Adelaine Garcia Resende et al. Belo Horizonte: EdUFMG, 2008.

 

Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.

 

LISBOA, Adriana. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

 

VIDAL, Paloma. De baratas, moluscos e peixes. Sobre Azul-corvo, de Adriana Lisboa. In: CHIARELLI, Stefania; DEALTRY, Giovanna; VIDAL, Paloma (Org.) O futuro pelo retrovisor: inquietudes da literatura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

 

SIMMEL, George. O estrangeiro. Trad. Mauro Guilherme Pinheiro KOURY, RBSERevista Brasileira de Sociologia da Emoção/Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia da Emoção da Universidade Federal da Paraíba. Paraíba, vol. 4, nº 12, dezembro de 2005, João Pessoa: GREM, 2005. p.350–357. Disponível em;

http://www.cchla.ufpb.br/rbse/RBSEv4n12dez2005.pdf. Acesso em 24/08/2015.



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