Revista Mulheres e Literatura – vol. 9 – 2005



DA CRISE DO SÉC. XIV À CRISE DO SÉC. XX: UMA CIRCULARIDADE ATRAVÉS DO DECAMERON, DE GIOVANNI BOCCACCIO, E O SEXAMERON – NOVELAS SOBRE CASAMENTOS, DE LUIZA LOBO





DA CRISE DO SÉC. XIV À CRISE DO SÉC. XX:
UMA CIRCULARIDADE ATRAVÉS DO DECAMERON, DE GIOVANNI BOCCACCIO,
E O SEXAMERON – NOVELAS SOBRE CASAMENTOS,
DE LUIZA LOBO

 

Giselle Martins de Oliveira
Aluna do curso de Português- italiano da UFRJ

 

Assim como o Decamerão fora capaz de retratar todas as questões mobilizadoras da atmosfera do final da Idade Média, especificamente do Trecento italiano, Luiza Lobo, através da intertextualidade, escreve uma obra com aspectos que transcendem seu tempo, no séc. XX.
Sabemos que, ao longo do tempo, a história segue um trajeto espiral no qual os acontecimentos estão sempre se repetindo com apenas algumas modificações. Nessa pesquisa nosso enfoque será essa circularidade que demonstraremos sempre através de paralelos entre os dois textos, numa breve análise entre os dois contextos históricos e suas respectivas obras.
O século XIV é marcado especialmente por transições e crises. É preciso ter em mente que nesta época estávamos presenciando o final das Cruzadas que a Europa já estava praticamente toda ocupada, e as terras cansadas provocavam péssimas colheitas, criando um cenário de fome e revoluções camponesas. Assim como no século XIV, no século XX a situação é de crise. Segundo Eric Hobsbawn em seu livro A era dos extremos: O breve século XX, esta época foi de guerras mundiais, quentes ou frias, ocorridas em cenários de destruição em massa cada vez mais apocalípticos. A voracidade do capitalismo, da globalização e do neoliberalismo exacerbados culminou numa capacidade suficiente para destruir o mundo. Sendo assim, no séc. XX, a fome não se dá por problemas agrários ou naturais, mas sim por uma má distribuição da alta tecnologia, e por uma concentração de terras nas mãos de poucos.
Agravando aquele cenário de caos do séc. XIV, temos a chegada da Peste Negra, que encontra um terreno fértil: falta de higiene, população desnutrida, medicina não desenvolvida; enfim, tudo isso tornou fácil a dizimação de um terço da população européia chegando a Florença em 1348. No entanto, a verdadeira causa da doença era ignorada (e continuaria a ser até o século XIX ). Mesmo no final da Idade Média a medicina preventiva resumia-se em quarentena. Atribuía-se quase tudo à influência dos astros, e não era raro que os médicos mais famosos fossem também astrólogos. Para os pobres e ignorantes, a resposta era bem simples: todos os males eram castigos de Deus, irado com os constantes pecados cometidos pelo homem.
Enquanto isso, no séc. XX, a nova peste tem seu primeiro caso detectado no final da década de 1970 (1979/1980), nos Estados Unidos, com um homossexual. No Brasil a nova peste chega em 1982, em São Paulo. Em menos de duas décadas tornou-se caso de calamidade pública e mesmo com a medicina avançando dia após dia, o maior resultado foi o prolongamento da vida do doente e a prevenção. No início, muitos ignorantes também achavam que a doença era proveniente do diabo, principalmente os religiosos, que não aceitavam o comportamento de homossexuais.
No século XIV, a realidade caótica gera no homem uma mudança de pensamentos que passa, então, a refletir sobre a verdadeira posição de Deus frente aos homens e a dos homens frente a Deus e à sociedade. Ou seja, o homem diante de sua crítica realidade de fome e peste, passa a contestar o que a Igreja legitimava como status quo – a idéia de que a sociedade havia sido organizada por Deus – desencadeando, então, uma crise na Igreja Católica. Outro fator que colaborou para a nova oposição à Igreja Católica era sua postura contra o lucro, uma vez que estávamos em pleno desenvolvimento do mercantilismo. A propósito, foi a revolução mercantilista, que se destacava principalmente na Itália, que permitiu o desenvolvimento de uma classe burguesa que passa a financiar uma nova arte de acordo com suas próprias exigências.
O século XX é caracterizado por M. Stürmer como de “grande insegurança, crise permanente e ausência de qualquer tipo de status quo”. Se no século XIV a Igreja Católica se via em crise, isso também ocorre no séc. XX, quando o catolicismo romano e as religiões tradicionais perdem espaço para um “punhado de seitas rivais que tinham sua força concentrada na capacidade de mobilizar emoções próximas às da religião tradicional, mas com a promessa de dar soluções duradouras para o mundo em crise” (Hobsbawn, p. 542).
Em relação à inserção dos autores nesses contextos, podemos dizer que ambos tiveram condições suficientes para construírem suas obras. Enquanto Boccaccio era filho de comerciante rico e teve contato com as melhores bibliotecas, chegando a largar o comércio e o estudo canônico para se dedicar às letras e ao estudo de autores como Dante e Petrarca. Luiza Lobo é professora e doutora com dois pós-doutorados em literatura comparada possibilitando o estudo específico e somatizado dos três autores anteriores.
O Decamerão foi escrito entre 1348 e 1353, no auge da peste em Florença. Segundo o professor de italiano da UFRJ, Carlos Sobral, a obra assume formas num cenário capaz de simbolizar as fantasias que habitavam o imaginário do cotidiano daquela época, construindo assim um verdadeiro mosaico cultural do Trecento italiano. Para fugir da peste dez jovens se isolam num castelo narrando 100 histórias com variados temas, com a eleição diária de um narrador e assim iniciam seus relatos. O próprio título Decameron deriva do grego; é um genitivo plural que significa de dez dias e tem referência à composição da obra, uma vez que, apesar desta inserir-se num intervalo de duas semanas, a narrativa dispõe de um total de dez dias, pois nas sextas e sábados não havia narrações por respeito à morte de Cristo e por ser um dia dedicado aos cuidados pessoais. O subtítulo pouco usado Príncipe Gallioto refere-se à mundanidade que é um dos principais temas da obra boccacciana.
Sendo assim, os principais aspectos encontrados na narrativa são:

a) O AMOR: o amor boccacciano é sensual, carnal, físico e de certo ponto de vista erotizado. Poderíamos ir um pouco além e considerá-lo visceral, algo essencial e inevitável. Em praticamente todas as novelas há a presença do amor que nem sempre possui um tom digressivo, como o amor puro de Elisabetha (5ª novela da 4ª jornada) ou o amor incondicional das grandes virtudes como o de Criselda (10ªnovela da 10ª jornada.) .
b) TRAPAÇA, ESPERTEZA: A trapaça e a esperteza estão bem definidas em toda a narrativa como característica inerente a quase todos os homens. É a partir desses dois aspetos que os enredos da maioria das novelas são construídos, mostrando todas as facetas dos homens com suas suas características mais impulsivas, que marcam a culminância de sua esperteza diante da maneira de tentar sempre se dar melhor do que os outros no quotidiano da sobrevivência.
c) RELIGIÃO: Para Carlos Sobral, Boccaccio se preocupa em criticar a Igreja enquanto instituição, não duvidando da fé em si, mas sim das superstições, os falsos milagres e ídolos. Esta crítica exemplifica a fé do povo quando um ladrão que passa a vida pecando ao morrer faz sua única confissão sendo enterrado como santo devido às suas mentiras. (1ª novela da 1ª jornada.).
d) SORTE, DESTINO: A sorte dá um tom irônico e cômico a muitas novelas, como na de um jovem chega à cidade para comprar cavalos e é roubado por uma jovem que finge ser sua irmã; no entanto, ao juntar-se a ladrões, ele é que os passa para trás.
e) A PESTE: É enfocada como sentença de morte inevitável, dando à obra um pano de fundo que leva ao leitor um tom efêmero de vida, possibilitando a coragem de desvendar as falsidades da sociedade, dos costumes e dos bons modos, favorecendo a explosão, o impulso e a voracidade dos desejos .
f) A MULHER: A mulher é inserida no contexto do que foi dito sobre o amor. Ela é a perdição de muitos homens, perdendo aquela imagem de perfeição angelical representada por Dante. Agora é objeto de desejo carnal, atuando tanto quanto os homens nos jogos de sedução, trapaça e esperteza.
No entanto, a riqueza do Decameron não pára por aí. Boccaccio estudara muito Dante Petrarca (juntos formavam o tripé da literatura italiana), o que levou a escrever o Decameron em latim vulgar (o dolce still nuovo), baseando-se especificamente no De vulgare eloquentia. Essa atitude permitiu a difusão do florentino que mais tarde se tornaria a língua italiana.
Há no Decameron um ritmo único devido à conclusão de cada novela com uma balada, fornecendo à obra musicalidade. Enriquecendo ainda mais o todo, podemos dizer sobre os empréstimos de mitos, personagens e símbolos da prosa de clássicos latinos que serão os signos vivos de um novo modo de escrita, a qual constituirá paradigma para a narrativa italiana.
Assim como Boccaccio, Luiza Lobo escreve uma obra composta por novelas. Elas têm como tema principal o casamento, mas em torno deste tema desenvolvem-se outros temas secundários que nos remetem à obra boccacciana. São eles: crítica a instituições sociais, o comportamento humano, o amor, a esperteza entre outros.
Comprovando novamente uma circularidade, desta vez proposital, Luiza Lobo utiliza a intertextualidade, a partir da introdução e da conclusão do Decameron. Para a maior proximidade do texto faço uso das palavras do livro:

Em Sexameron, Luiza Lobo trilha o caminho da aventura e da rapidez cinematográfica na criação de suas personagens femininas unindo o imaginário a um olhar irônico do mundo. Amadurecida na insistência de percorrer o mistério da criação literária, a autora reescreve o Decameron de Boccaccio através de seis pequenas novelas que restaram daquilo que teria sido o Sexameron: a narrativa de sobreviventes de um mundo destruído por uma nova forma de peste, o sexo – a relíquia arqueológica encontrada por uma civilização qualquer do futuro. Ora sombrias, ora fantásticas, às vezes sublimes, quase sempre carregadas de hipocrisia, as narrativas seriam o resíduo de um mundo destruído por seus próprios vícios e paixões.
A partir da fuga de seis jovens – Margarida/Diana, Efebo, Narciso, Cremilda, Alcione e Elisa – de um mundo em destruição de uma nova peste, a aids concretizada no sexo inicia-se a narração de seis novelas. Luiza fez um texto muito satírico onde predomina um clima soturno, mas acima de tudo, crítico da posição da mulher e da instituição do casamento. Para isso faz uso de artifícios como o próprio título Sexameron e não Hexameron, como esperado, remetendo ao sexo; de cenas fortes; de personagens com características duvidosas como homossexuais enrustidos; de mulheres independentes profissionalmente, mas carentes de amor; entre outros.
Sendo assim, podemos analisar os principais temas da obra da mesma perspectiva utilizada para obra boccacciana:

a) O AMOR: Luiza Lobo retrata o amor em sua forma carnal, mas principalmente decadente, interesseiro, e por vezes traidor e sórdido. Isso é bem explicitado logo na primeira novela em que Neusa encontra seu marido depois de segui-lo até uma festa com apenas homens nus que “brincavam de elefantinho arrastando-se pelo tapete”, mas quando descoberta, é morta pelo cão de guarda com a ajuda do próprio marido. A única passagem que podemos atribuir um tom menos soturno relativo ao amor é na quarta novela em que a personagem mantém viva a imagem de com teria sido seu amor se não tivesse o abandonado.
b) TRAPAÇA, ESPERTEZA: Assim como Boccaccio, Luiza Lobo também aborda a trapaça e a esperteza como inerente à maioria dos homens, transparecendo isso em todas as seis novelas. Na terceira jornada por exemplo, a autora retrata um gigolô de luxo que foge com o dinheiro da esposa que o sustentava. Também na quarta noite, quando a personagem Margarida reflete bem a posição da autora com suas palavras : “Minha querida, se você não tem esperteza, tino, premonição e estratégia política, seu destino é a anulação.” (p.60).
c) SORTE, DESTINO: Mais uma vez, podemos encontrar a circularidade proposta neste trabalho. Luiza expõe tanto a sorte como o destino ironicamente, principalmente na quinta novela em que é narrada a história de uma solteirona presa à única coisa que conseguiu em toda a sua vida, seu emprego público. Por conta da SORTE, um dia surge um homem que a pede em casamento e lhe dá a oportunidade de sair da casa do pai e ter uma vida de verdade. Mas por força do DESTINO, não consegue chegar a tempo para concretizar seu sonho.
d) A PESTE: Novamente a peste fornece à narrativa um tom de medo e ameaça, é o impulso para o início de toda a história. É sempre insinuada e repelida imediatamente pelas personagens, em um clima constante de fuga da realidade. “Então você acha, Alcione, que a grande peste penetraria aqui também?” (p.16- fala de Narciso).
e) A MULHER: Como uma feminista e grande difusora do papel da mulher na literatura, Luiza Lobo aborda suas personagens femininas dualmente. Se por um lado, faz questão de mostrar a independência financeira de todas as suas personagens, por outro critica a postura das mesmas, em relação ao casamento – todas são obcecadas por casamento -, todas têm uma visão ingênua do homem. Na segunda novela a narradora refere-se à “ingenuidade feminina em todos os seus juízos sobre os homens” antes de começar a história.
Há também outros ponto abordados, como a dura crítica ao casamento como apenas obrigação moral. Além disso, o homossexualismo é muito presente, às vezes com naturalidade, e às vezes como tabu ou perversão. Da mesma forma que Boccaccio, usou empréstimos lingüísticos e de personagens de obras consagradas. A narrativa vem em cenas sobrepostas com um fio que as unem, o casamento.
Podemos perceber pela própria literatura, como foi fácil manter esse movimento contínuo, no entanto o futuro não pode ser apenas a continuação do passado. Os sinais, tanto externos quanto internos nos mostram que chegamos à uma crise histórica. As forças geradas por esse sistema capitalista finissecular são capazes de destruir as fundações materiais da vida humana. Na verdade ele próprio está em iminência de ser destruído pelo desgaste de repetidas crises. Logo o prolongamento do passado e do presente não pode constituir o nosso futuro.



Voltar ao topo