ESCRITORES



Crônica da Casa Assassinada





Autor: Lucio Cardoso
Título: Crônica da Casa Assassinada, Chronique De La Maison Assassin
Idiomas: port, fra
Tradutor: Mario Carelli(fra)
Data: 29/12/2004

Crônica da Casa Assassinada

1

Diário de André

(conclusão)

Lucio Cardoso

18 de… de 19… – (…meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará seus restos mortais, terei de rezar neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo – “era assim que ela beijava” – naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos – todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre? Que é, meu Deus, o para sempre – o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma – o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas…

Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto – e também este escorregaria longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre, escorreria e passaria – e comigo, como uma carga de detritos sem sentidos e sem chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo – não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura de sonho e de permanência – a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos achaques e medos de nossos amores e de nossas traições – a força enfim que modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido – quando? – num lugar que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata totais, a esse nada ou a esse tudo inflamado, injusto ou justo onde para sempre nos confundimos ao geral, ao absoluto, ao perfeito de que tanto carecemos.)

… Durante o dia inteiro vaguei pela casa deserta, sem coragem nem sequer para entrar na sala. Ah, com que intensidade eu sabia que ela já não me pertencia mais, que era apenas uma coisa despojada, manejada por mãos estrangeiras, sem ternura e sem entendimento. Longe de mim, bem longe agora, iriam descobrir suas formas indefesas – e com esse triste afã dos indiferentes, trabalhariam sua última toilette, sem sequer imaginar que aquela carne já fora viva e estremecera em tantos assomos de amor – que já fora mais moça, mais esplendorosa do que toda juventude que se pudesse supor desabrochada por esse mundo afora. Decerto não era aquela a sua morte, pelo menos eu não a imaginara assim, nos raros, nos difíceis momentos em que conseguira imaginá-la – tão brutal e positiva, tão arrancada do fundo como uma planta nova extirpada da terra, tão injusta, na violência da sua agressão.

Ah, era inútil relembrar o que ela fora – mais do que isto, o que havíamos sido. A explicação se achava ali: dois seres atirados à voragem de um acontecimento excepcional, e subitamente detido – ela, crispada em seu último gesto de agonia, eu, de pé ainda, sabia Deus até quando, o corpo ainda vibrando ao derradeiro eco da experiência. Nada mais apetecia senão vaga pelas salas e corredores, tão tristes quanto uma cena de que houvesse desertado o ator principal – e todo o cansaço dos últimos dias apoderava-se do meu espírito, e a sensação do vazio me dominava, não um vazio simples, mas esse nada total que substitui de repente, e de modo irremissível, tudo o que em nós significou impulso e vibração. Cego, com gestos manobrados por uma vontade que não me pertencia, abria as portas, debruçava-me às janelas, atravessava quartos: a casa não existia mais.

Sabia disto, e qualquer consolo me era indiferente, nenhuma palavra de afeto ou de revolta poderia me atingir. Como um caldeirão já retirado do fogo, mas em cujo fundo ainda fervem e fumegam os detritos em mistura, o que me dava alento eram os restos daquele período que eu acabara de viver. No entanto, como movido por uma força que mal acabara de repontar em meu ser, um ou duas vezes me aproximei da sala em que ela jazia, entreabri a porta, olhei de longe o que se passava. Tudo era de uma repugnante banalidade: dir-se-ia a mesma cena que estava acostumado a ver desde a infância, caso não a transfigurasse, como um sopro potente, invencível, esse hálito sobrenatural que percorre todo ambiente tocado pela presença de um cadáver. Da mesa da sala de jantar, que já servira em sua longa vida para tantas refeições em comum, para tantas reuniões e concílios de família – ela mesma. Nina, quantas vezes não fora julgada e dissecada sobre aquelas tábuas? – haviam feito uma, essa provisória. Nos cantos, dispostas por essas mãos que a pressa inventa exatamente para momentos semelhantes, quatro velas solitárias. Velas comuns, recendendo a comércio barato, provavelmente vindas do fundo de alguma gaveta esquecida. E dizer-se que isto era a paisagem do seu último adeus, o cenário que comportava sua derradeira despedida.
(…)

 

Fonte: Cardoso, Lúcio. Crônica da cassa assassinada. 2ª.ed. Rio de Janeiro, Letras e Artes, 1963. p. 7-9.

CHRONIQUE DE LA MAISON ASSASSINÉE

1. JOURNAL D’ANDRÉ

(Conclusion)

Lúcio Cardoso

Le 18… 19… (… Mon Dieu, qu’ est-ce que la mort? Puisqu’elle s’est éloignée de moi, que la terre abritera bientôt sa dépouille mortelle, combien de temps devrai-je refaire en ce monde le chemin de son enseignement, de son admirable leçon d’amour. Chez quelles femmes retrouverai-je tantôt lê velours d’um baiser – “c’était ainsi qu’elle m’embrassait” – ou une manière de sourire, ou encore lê mouvement d’une mèche rebelle, parmi toutes ces femmes que chacun rencontre au long d’une vie, et qui m’aideront à recomposer, dans la douleur et la nostalgie, cette image unique disparue pour toujours? Pour toujours, que signifie ce pour toujours, oh! mon Dieu – dans un écho cruel et grandiloquent, ces mots résonnent dans les couloirs dépeuplés de l’âme – en réalité, ce pour toujours ne signifie rien, il est imperceptible à l’instant où nous l’imaginons, et pourtant c’est notre seul bien, la seule chose définitive dans le pauvre vocabulaire de nos possibilités terrestres…

Qu’est-ce que ce pour toujours sinon l’écoulement continu de l’existence, de ce qui est libéré de toute contingence et qui se transforme, évolue et débouche sans arrêt sur des sensations mouvantes? Un instant encore, juste un instant, mai lui aussi échapperait à mon effort pour le saisir, et je coulerais et passerais et, avec moi, comme des épaves, mon amour, mon tourment et jusqu’ à ma fidélité. Oui, qu’est-ce que ce pour toujours sinon la dernière image de ce monde, pas de ce monde-ci exclusivement, mais de tout le monde qui s’apparente à une architecture de rêve et de permanence, la représentation de nos jeux et de nos plaisirs, de nos malaises et de nos peurs, de nos amours et de nos trahisons – en somme, la force qui modèle non pas celui que nous sommes tous les jours mais l’autre, le possible, celui que nous n’atteignons jamais, celui que nous poursuivons comme on suit la trace d’un amour inaccessible et qui en fin de compte n’est que le souvenir d’un bien perdu – quand? – dans un lieu que nous ignorons, mais dont la perte nous brise le coeur et nous pousse, tout entier, dans ce rien ou dans ce tout enflammé, juste ou injuste, où nous nous confondons pour toujours avec le général, l’absolu, le parfait dont nous manquons tant.)

…Toute la journée, j’ai erré dans la maison déserte sans même avoir le courge d’entrer dans le salon. Comme je savais déjà qu’elle ne m’appartenait plus, qu’elle n’était qu’une dépouille, manipulée par des étrangers sans tendresse ni compréhension. Loin de moi, très loin maintenant, ils allaient découvrir ses formes vulnerábles – et avec l’empressement des indifférents, ils lui feraient sa dernière toilette, sans imaginer que cette chair avait été vivante et qu’elle avait vibré à la naissance de tant d’amours – qu’elle avait été plus jeune et plus éblouissante que toute autre. Ce n’était assurément pas une mort pour elle ; du moins, jamais je n’avais pu l’imaginer ainsi, une mort si réelle et brutale, un arrachement tellement injuste, si violent.

Ah ! pourquoi rappeler ce qu’elle avait été et même ce que nous avions été ? L’explication se trouvait là : deux êtres attirés par le gouffre d’une dernière étreinte, soudain interrompue – elle, crispée dans un geste d’agonie, moi, debout, Dieu sait pour combien de temps, le corps vibrant encore au dernier écho de cette communion. Plus rien ne m’attirait, j’errais dans les pièces et les couloirs aussi tristes qu’une scène désertée par l’acteur principal – et toute la fatigue des derniers jours envahissait mon esprit, une sensation de vide me dominait, un vide absolu qui remplaçait tout ce qui en nous était élan et vibration. Aveugle, gouverné par une volonté qui ne m’appartenait plus, j’ouvrais les portes, je me penchais aux fenêtres, je traversais les chambres : la maison n’existait plus.

Je le savais et toute consolation m’était indifférente, nulle parole d’affection ou de révolte ne pouvait me toucher. Je n’étais plus que le souvenir de cette période que je venais de vivre. Pourtant, comme si j’étais poussé par une force qui venait de surgir en moi, une ou deux fois je me suis approché du salon où elle gisait, j’ai entrouvert la porte et regardé de loin ce qui se passait. Tout était d’une banalité répugnante : c’étaient les lieux que j’avais l’habitude de voir depuis non enfance, mais transfigurés par ce souffle surnaturel, invincible, qui traverse tous les endroits où se trouve un cadavre. Ils avaient transformé en catafalque la table de la salle à manger qui avait servi à tant de repas communs, de réunions et de conseils de famille, et où Nina elle-même avait été si souvent juguée et condamnée. Aux quatre coins, comme il se doit à ces moments-là, quatre bougies disposées en hâte. Des bougies quelconques, oubliées sans doute au fond d’un tiroir. Et dire que c’était le décor de son dernier adieu.

(…).

_____
Fonte : Cardoso, Lúcio. Chronique de la Maison Assassinée : Roman. Traduction du portuguais (Brésil) et postaface de Mario Carelli. Paris : A. M. Paris, Metailié ; Mazarine, 1985. p. 7-8.



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