ESCRITORES



CORPO VIVO





CORPO VIVO


Primeira Parte

Adonias Filho

Tudo começou no sábado. Lembrou-me a mulher, quando jantávamos, que o compadre Januário nos esperava na segunda-feira, lá, na fazenda dos Limões. Teríamos o domingo para atravessar a colina e, Deus não mandasse o contrário, dormiríamos em casa de Alonso, nos baixios da Jussara. O roteiro da mulher foi seguido. Saímos domingo cedo, vencemos a colina, e noitinha batíamos na porta de Alonso. Era um casebre na estrada que tinha os fundos no rio. Alonso não tardou a acender o candeeiro e logo a Sinhá, sua mulher, serviu a janta. Joana, minha mulher, contou que íamos aos Limões a chamado de Januário. “O mundo é muito grande – Alonso disse _ mas querem as terras de Januário”. Do meu retiro, nas Canoas, ainda não ouvira falar naquilo. E inúmeras foram as perguntas que fiz. Alonso respondeu a todas esclarecendo que os Bilá, após certas brigas com Januário, tinham jurado lhe tomar as terras. O cacau novo de Januário começava a dar frutos. Aquelas terras valiam ouro e os Bilá tinham um exército no rifle. Que Deus guardasse o compadre Januário!

Manhã alegre, com os pássaros no canto, quando deixamos a tapera de Alonso. Volta do meio dia, na estrada deserta, fizemos fogo à sombra de uma cajazeira para a mulher esquentar a carne do sertão. Pelos cálculos, antes que o sol sumisse, estaríamos nos Limões. A mulher, porém, queixou-se das pernas. Apoiada em mim, em marcha lenta, quase não andávamos. E foi isso, a vontade do destino, que nos impediu de ver os Limões na claridade do dia. Era noite, com a lua varrendo os campos, quando abrimos a cancela e tomamos o caminho que levava à casa. Luz não se filtrava pelas janelas. Todos pareciam dormir no casarão parado que, a mim, lembrou um rochedo dentro da noite.

A mulher foi na frente para surpreender a comadre. Galgou a escada do alpendre e hoje ainda escuto o seu grito. Larguei os bornais e corri para deter-me na porta, o vulto da minha mulher com os braços abertos, e a sala em trevas ainda com o calor dos corpos. “Deus de misericórdia!” – exclamei, pressentindo mais do que vendo. Internei-me em busca da cozinha e, lá encontrando o candeeiro, acendendo-o, retornei no que foi a mais triste caminhada da minha vida. É preciso ter visto o que vi, no percurso da cozinha à sala, para saber-se porque foi triste a caminhada. Forte era o vozerio da noite, mas o choro de minha mulher o dominava. Andando, com o candeeiro na mão, eu via o que fora a família de Januário.

Na sala de jantar, emborcadas na poça de sangue as duas meninas – Maria Laura, de doze anos, e Maria Lúcia, de dez anos – estavam caídas como alvejadas em plena carreira. Sobre o batente da porta, como se estivesse escapado dos braços da mãe, o corpo tão pequeno do pagão que ia fazer três meses. Andando com os pés no sangue, em direção à sala onde ficara minha mulher, levantei o candeeiro para aumentar a luz. A comadre ainda tinha as mãos sobre o rosto e, um pouco distante do marido, como que se preparava para dormir. Januário de costas, estirado, sangrando no pescoço como se fosse um porco. Pondo o candeeiro no chão, cuja luz parecia empretecer as poças de sangue, abracei minha mulher procurando anima-la. Foi ela quem, acima da minha perturbação, perguntou por Maria Teresa. Era a mais velha e tinha dezoito anos. Retornei com o candeeiro, percorrendo os quartos. Fui encontrá-la na despensa, quase despida, e observei que unhas de homem tinham rasgado a sua pele. Deitada de bruços, o sangue há não gotejava da ferida aberta na nuca. O punhal, que a matara, penetrara fundo.

Retornei à sala mais uma vez e, levando a mulher comigo, regressei novamente à despensa para verificar se as armas de Januário estavam nos caixotes. Abri os caixotes e as encontrei: três rifles e bastante munição, o revólver e as caixas de balas. Compadre Januário, eu concluí, fora apanhado desprevenido, à traição. Entregando o candeeiro à mulher, que mal o segurava com as mãos nervosas, retirei os rifles dos caixotes e enchi as algibeiras de balas. A seguir, mais tranqüilo, disse: “Falta o afilhado”. A mulher interrogou: “Cajango?” Respondi: “Sim, Cajango, o nosso afilhado.

Sentou-se a mulher na sala e, sobre o banco, coloquei os rifles e a camisa. Nu da cintura para cima, em silêncio, comecei o mais penoso trabalho que já realizei. Nos meus braços, um a um, carreguei os corpos. E na sala os juntei, sob a luz enfraquecida, enquanto a mulher rezava. O quadro, quando sentei-me ao lado da mulher, após lavar-me na cisterna aos fundos, não me pareceu espantoso. Estava por demais preocupado com o afilhado para senti-lo. Combinei com a mulher que faríamos um facho e, antes que enterrássemos os mortos, procuraríamos o menino nos arredores. Saímos, eu com um rifle e a mulher com o facho, procurando seu corpo na grama, entre os arbustos, nas moitas de capim alto. Era um menino de onze anos e seu corpo podia ter sido lançado em qualquer parte. A busca foi demorada, demorada e paciente, mas não o encontramos. “É inútil esperarmos o dia”, voltei a falar, a mulher ouvindo. “Quando chegarmos ao rancho de Alonso, continuei, já estarão podres”. Levantei-me com a decisão feita, iria enterra-los naquele momento.

Fiz três outros fachos que acendi e plantei no chão. E, uma hora depois, no pedaço de terra iluminada, o grande túmulo já aberto, voltei-me para a mulher. Sentada, com o xale sobre os cabelos, continuava a rezar. Foi neste momento que, saindo das trevas, correndo para mim, surgiu o menino, Cajango, meu afilhado. O sangue empretecido dos pais e dos irmãos estava em seus cabelos, em suas mãos, em suas roupas. A mulher, hoje, não vive para confirmar. Mas as estrelas testemunharam. O menino caiu nos meus braços sujos de terra e, quando se afastou, a luz dos fachos mostrou o seu rosto. A sombra da mulher, deitada sobre o túmulo vazio, revelava sua imobilidade. Não fez uma pergunta, é verdade, mas observei nas linhas do rosto que Cajango já não era uma criança. Ele tudo vira, nós saberíamos depois. Quando a mulher quis voltar a sentar-se, pedi que arrancasse um facho e, levando o menino, se distanciasse. O trabalho que ia realizar parecia-me duro demais para os seus olhos. Não queria que visse os corpos, dos seus pais e dos seus irmãos, nos meus braços de lavrador carregados como fardos.

Tempo não havia para arrumar os corpos na grande cova. Quase correndo, voltando a sujar-me do sangue dos infelizes, carreguei um a um até que a cova se encheu. Sob o fogo dos fachos, era uma trincheira de guerra. E, um pouco exausto, movendo a pá, cobri com a terra de Januário a sepultura da sua gente. Meu corpo cansado, afinal, pôde sentar-se. O suor lavava o sangue dos mortos nos meus peitos. Gritei, chamando a mulher e o menino. Tínhamos que nos banhar na cisterna e partir o mais cedo possível. Após o banho – eu vestindo uma roupa de Januário e o afilhado, de roupa limpa, já com a trouxa de seus pertences -, e depois que fechamos a casa, pensei nas providências para conduzir as armas e as munições. Antes, com minhas próprias mãos, amarrando as achas de lenha com embira, fiz a cruz que ficou na cabeça do túmulo. Rezamos, frente à cova, em voz alta. Entre nós, com a trouxa nas costas, Cajango não se moveu. A luz, que vinha do fogo dos fachos, batia em uma cara de pedra.

Rodeei a casa, em busca dos animais, nos fundos. Sabendo que a cangalha e os panacus estavam na barcaça, dentro dos cochos, lá conduzi a ruana. E, com as armas e as munições nos panacus cobertos com folhas de bananeira, e o menino montado entre eles, iniciamos a viagem de volta. A noite era de lua e, com tantas estrelas, dava para que distinguíssemos a estrada e as árvores. No ombro, com a mulher a meu lado, trazia um rifle. Eu sabia que ia começar a chover sangue. Os anos foram muitos, é verdade, mas ainda vejo o espanto de Alonso – no fundo de sua tapera – quando narrei os acontecimentos. Foi Alonso, e não eu, quem pediu ao menino para contar como escapara.

Até então, não chorara. Não chorou também quando, sem tremer os lábios, disse que se lembrava da mãe suplicando ao pai que largasse a fazenda. Ainda no almoço a mãe insistira, temia uma desgraça, o pai não podia lutar sozinho contra a tropa dos jagunços. Facilitara, porém, o homem prevenido. E deitado estava quando, ouvindo tiros e gritos, se refugiara dos irmãos, não escutara porém a voz do pai. Ele já devia estar morto quando acordara. Os gemidos, a seguir. A voz alta de um homem que ordenava – “Não deixem ninguém vivo!” – e os tiros de misericórdia nos que gemiam. Depois, ainda escutara os gritos de Maria Teresa que, diminuindo, diminuindo, cessaram definitivamente. Percebera os homens abandonando a casa, os passos pesados, e o silêncio finalmente tudo dominou. Minutos depois, saindo do esconderijo, a casa em trevas, tropeçava no corpo do pai. Arrastara-se no sangue, em busca da cozinha, mas temera acender o candeeiro. E, receando que retornassem, ganhara o campo para esconder-se nos cacaueiros. Pouco depois vira a luz na casa e os fachos no campo. Ouvira os gritos, chamando-o. Aproximara-se quando se certificara que era o padrinho.

Quando Cajango silenciou, Alonso disse: “Sabendo que está vivo, caçarão este menino nos infernos”. Sinhá, sua mulher, acrescentou: “Voltarão hoje ou amanhã para ocupar as terras”. Era uma verdade, eu pensei. Na estrada, enquanto andava, refletia no que devia fazer. Mais cedo ou mais tarde saberiam que o menino tinha escapado vivo. Iriam dar com os cascos das mulas nas Canoas, em minha fazenda. E, antes que lá chegassem, deveria proteger-me. Foi ali mesmo, no casebre de Alonso, que tomei a decisão. Não voltaríamos para as Canoas.

(…)

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Fonte: Filho, Adonias. Corpo vivo: romance. Editora Civilização Brasileira, 1977. p. 5-9.

CUERPO VIVO

Primeira Parte

Adonias Filho

Tudo empezó el sábado. Mi mujer me recordó, cuando comíamos, que el compadre Januario nos esperaba el lunes, allá, en la fazenda1 dos Limões. Tendríamos el domingo para atravesar la colina y, si Dios no mandaba lo contrario, dormiríamos en casa de Alonso, en la ensenada de Jussara. El trayecto de mi mujer fue seguido. Salimos el domingo temprano, cruzamos la colina, al anochecer gopeábamos la puerta de Alonso. Era un rancho en el camino cuyos fondos deban al río. Alonso no tardó en encender el farol y en seguida, Sinhá, su mujer, sirvió la comida. Joana, mi mujer, contó que íbamos a los Limões por un pedido de Januario. “El mundo es muy grande – dijo Alonso – pero quieren las tierras de Januario.” En mi retiro, en las Canoas, todavía no había oído nada de eso. E innumerables fueron las preguntas que hice. Aloso respondió a todas aclarando que los Bilá, después de ciertas peleas con Januario, habían jurado que le sacarían las tierras. El cacao nuevo de Januario empezaba a dar frutos. Esas tierras valían oro y los Bilá tenían un ejército armado. ¡Que Dios guardase al compadre Januario!

Mañana alegre con los pájaros cantando cuando dejamos la tapera de Alonso. A la vuelta del mediodía, por el camino desierto, hicimos fuego a la sombra de una cajazeira2 para que mi mujer calentase la carne del sertón. Por lo calculado, antes de que el sol desapareciese, estaríamos en los Limões. Pero mi mujer se quejó de las piernas. Apoyada en mí, en marcha lenta, casi no avanzábamos. Y eso fue por voluntad del destino, pues nos impidió ver los Limões con la claridad del día. Era de noche u la luna barría los campos cuando abrimos la tranquera y tomamos el camino que llevaba a la casa. No se filtraba luz por las ventanas. Parecía que todos dormían en el caserón quieto que a mí me recordó una roca en la noche.

Mi mujer fue adelante para sorprender a la comadre. Subió la escalera del patio y todavía hoy escucho su grito. Largué las alforjas y corrí para detenerme en la puerta, la cara de mi mujer con los brazos abiertos, y la sala en tinieblas, todavía con el calor de los cuerpos. “¡Dios de la misericordia!” – exclamé, presintiendo más que viendo. Me interné en busca de la cocina, allá encontré el farol, lo encendí y volví en lo que fue el caminar más triste de mi vida. Hay que ver lo que vi, en el trayecto de la cocina a la sala, para saber por qué fue triste el caminar. Fuerte era el vocerío de la noche pero el llanto de mi mujer lo dominaba. Andando, con el farol en la mano, yo veía lo que había sido la familia de Januerio.

En el comedor, de boca en un charco de sangre, las dos niñas – María Laura, de doce años, y María Lúcia, de diez años – estaban caídas como si les hubieran hecho blanco en plena carrera. Sobre el umbral de la puerta, como escapando de los brazos de la madre, el cuerpo tan pequeño del pagano que iba a cumplir tres meses. Caminando, los pies sobre la sangre, en dirección a la sala donde había quedado mi mujer, levanté al farol para aumentar la luz. La comadre tanía aún las manos sobre el rostro y estaba a poca distancia del marido, como que se preparaba para dormir. Januario de espaldas, estirado, sangrado por el pescuezo como si fuese un cerdo. Poniendo el farol en el piso, su luz parecía ennegrecer los charcos de sangre, abracé a mi mujer tratando de animarla. Fue ella quien, encima de mi perturbación, preguntó por María Teresa. Era la mayor y tenía dieciocho años. Volví con el farol, recorriendo los cuartos. Fui a encontrarla en la despensa, casi desnuda, y noté que uñas de hombre habían rasgado su piel. Echada de bruces, la sangre ya no goteaba de la herida abierta en la nuca. El puñal que la había matado había calado hondo.

Volví a la sala otra vez y llevando a mi mujer conmigo regresé de nuevo a la despensa para verificar si las armas de Januario estaban en los cajones. Los abrí y las encontré: tres rifles y bastante munición, el revólver y las cajas con balas. El compadre Januario, concluí, fue sorprendido, lo mataron a traición. Le entregué el farol a mi mujer que mal sostenía con sus manos nerviosas, retiré los rifles de los cajones y me llené los bolsillos de balas. En seguida, más tranquilo, dije: “Falta el hijado”. Mi mujer preguntó: “¿Cajango?” Respondí: “Sí, Cajango, nuestro ahijado”.

Mi mujer se sentió en la sala y sobre el banco coloqué los rifles y la camisa. Desnudo de la cintura para arriba, en silencio, comencé el trabajo más penoso que jamás realicé. En mis brazos, uno a uno, cargué los cuerpos. Y los junté en la sala, bajo la débil luz, mientras mi mujer rezaba. Cuando me senté al lado de mi mujer después de lavarme en la cisterna del fondo, el cuadro no me pareció espantoso. Estaba demasiado preocupado por el ahijado para sentirlo. Arreglé con mi mujer que haríamos una antorcha y que antes de enterrar los cuerpos buscaríamos al niño por los alrededores. Salimos, yo con un rifle y mi mujer con la antorcha, buscando su cuerpo en la gramilla, entre los arbustos, entre las matas de pasto alto. Era un niño de once años y su cuerpo podía haber sido arrojado a cualquier parte. La búsqueda fue lenta, lenta y paciente, pero no lo encontramos. “Es inútil esperar el día”, volví a hablar, mi mujer escuchaba. “Cuando lleguemos al rancho de Alonso, continué, ya estarán podridos.” Me levanté con la decisión tomada, los enterraría en ese momento.

Hice otras tres antorchas que encendí y clavé en el suelo. Y una hora después, en el pedazo de tierra iluminada, el gran pozo ya abierto, me di vuelta hacia mi mujer. Sentada, con la mantilla sobre la cabeza, seguía rezando. En ese momento fue que, saliendo de las tinieblas, corriendo hacia mí, apareció el niño. Cajango, mi ahijado. La sangre ennegrecida de los padres y hermanos estaba en su pelo, en sus manos, en sus ropas. Mi mujer, ahora, no vive para confirmarlo. Pero las estrellas fueron testigos. El niño cayó en mis brazos sucios de tierra y cuando se apartó, la luz de las antorchas mostró su cara. La sombra de mi mujer, proyectada sobre la tumba vacía, revelaba su inmovilidad. No hizo una pregunta, es verdad, pero observé en las líneas del rostro que Cajango ya no era un niño. Todo él cambió, lo sabríamos después. Cuando mi mujer quiso volver a sentarse, le pedí que levantase una antorcha y se distanciara con el niño. El trabajo que iba a realizar me parecía demasiado duro para sus ojos. No quería que viese los cuerpos de sus padres y de sus hermanos en mis brazos de labrador cargados como fardos.

No había tiempo para acomodar los cuerpos en el gran pozo. Casi corriendo, volviendo a ensuciarme con la sangre de los infelices, los cargué uno a uno hasta que la tumba se llenó. Bajo el fuego de las antorchas era una trinchera de guerra. Y, ya un poco exhausto, moviendo la pala, cubrí con la tierra de Januario la sepultura de su gente. Mi cuerpo cansado pudo al fin sentarse. El sudor me lavaba la sangre de los muertos en el pecho. Grité llamando a mi mujer y al niño. Teníamos que bañarnos en la cisterna y partir lo más temprano posible. Después el baño – yo vistiendo ropas de Januario y mi ahijado con ropa limpia, ya cargando sus pertenencias – y una vez que cerramos la casa, pensé en las providencias para conducir las armas y las municiones. Antes, con mis manos, atando los palos de leña con paja, hice la cruz que quedó sobre la tumba. Rezamos frente a ella, en voz alta. Entre nosotros, con el atado a la espalda, Cajango no se movió. La luz, que venía del fuego de las antorchas, golpeaba sobre una cara de piedra.

Rodeé la casa buscando a los animales en el fondo. Sabiendo que los palos y los canastos estaban en la barcaza, allá conduje a la ruana. Y con las armas y las municiones en los canastos tapados con hojas de banano, el niño encaramado sobre ellos, iniciamos el viaje de vuelta. La noche era de luna y con tantas estrellas alcanzaba para que distinguiéramos el camino y los árboles. Al hombro, con mi mujer al lado, traía un rifle. Yo sabía que iba a empezar a llover sangre. Los años fueron muchos, es verdad, pero todavía veo el espanto de Alonso – al fondo de su tapera – cuando narré los acontecimientos. Fue Alonso, y no yo, quien le pidió al niño que contara cómo había escapado.

Hasta entonces no había llorado. No lloró tampoco cuando, sin temblor en los labios, dijo que se acordaba de la madre suplicándole al padre que dejase la fazenda. En el almuerzo de ese día la madre había insistido, temía una desgracia, el padre no podía luchar solo contra la tropa de bandidos. Ayudaba, sin embargo, que estuviera prevenido. Y acostado estaba cuando, oyendo gritos y tiros, se había refugiado detrás de las bolsas de cacao. Había escuchado las súplicas de la madre, el griterío de los hermanos, pero no había oído la voz del padre. Éste ya debía estar muerto cuando él se había despertado. En seguida los gemidos. La voz alta de un hombre que ordenaba: “¡ No dejen a ninguno vivo!”, y los tiros de misericodia para los que gemían. Después todavía había escuchado los gritos de María Teresa que, disminuyendo, disminuyendo, se apagaron definitivamente. Había sentido que los hombres abandonaban la casa, los pasos pesados, y el silencio que por fin dominó todo. Minutos después, saliendo de su escondrijo, la casa en tinieblas, había tropezado con el cuerpo del padre. Se había arrastrado por la sangure en busca de la cocina, temeroso de encender el farol. Y con recelo de que volviese, había ganado el campo, escondiéndose entre el cacao. Poco después había visto la luz en la casa y las antorchas en el campo. Había escuchado los gritos llamándole. Se había acrecado cuando advirtió que era el padrino.

Cuando Cajango hizo silencio, Alonso dijo: “Sabiendo que está vivo cazarán a este niño hasta en el infierno”. Sinhá, su mujer, agregó: “Volverán hoy o mañana para ocupar las tierras”. Era una verdad, pensé yo. En el camino, mientras andaba, pensaba en lo que debía hacer. Más tarde o más temprano sabrían que el niño había escapado vivo. Irían a para con los cascos de sus mulas en las Canoas, en mi fazenda. Y debía protegerme antes de que llegaran allá. Fue allí mismo, en el rancho de Alonso, donde tomé la decisión. No volveríamos a las Canoas.

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Fonte: Filho, Adonias. Cuerpo vivo. Traducción de Estela dos Santos. Buenos Aires, Sudamericana, 1980. p. 15-21.

NOTAS

1 – Establecimiento de explotación agropecuaria o plantación (N. De la T.)
2 – Árbol brasileño, familia anacardiáceas; su fruto es el cajú (N. De la T.)



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