Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



CORPO, VERDADE E PSICANÁLISE: O DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE EM SEVENTEEN DE KENZABURO OE – Renan Kenji Sales HAYASHI





 

Renan Kenji Sales HAYASHI

 

Universidade Estadual de Campinas

 

RESUMO: O presente resumo trata de uma análise de um conto do escritor japonês Kenzaburo Oe, tendo como motivação as questões do corpo, sexualidade e a produção de uma narrativa com verdades sobre si. Para tanto, empreendemos uma interpretação da obra com referências ao dispositivo foucaultiano, bem como a visão psicanalítica sobre a sexualidade e o corpo como lugar de práticas de veridição e dispersão do sujeito. Com o presente artigo desejamos tratar a questão atual sobre a intensa produção de verdade sobre o corpo e o sujeito, tendo a sexualidade como o lugar de encontro entre discursos, verdade e poder.

 

Palavras-chave: Sexualidade; Dispositivo foucaultiano; Literatura Japonesa; Kenzaburo Oe.

 

ABSTRACT: This article is an analysis of a short tale written by the Japanese writer Kenzaburo Oe, aiming at discussing body, sexuality and the production of a narrative about the self. We carried out an overview of this work with references to the Foucaultian device, as well as the psychoanalytical perspective about sexuality and the body as a place of self-taking practices and dispersion of the subject. By doing this, we wish to discuss the present issue of an intense production of truth about the body and the subject, sexuality being the meeting point between discourse, truth and power.

 

Keywords: Sexuality; Foucaultian device; Japanese literature; Kenzaburo Oe.

 

Minicurrículo: Doutorando em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (CAPES).  Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB). Aluno egresso do Curso de Master in Teaching English as a Foreign Language (TEFL) pela Universidad de Jaén (UJA). Graduado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB). Docente de língua inglesa.

 

 

CORPO, VERDADE E PSICANÁLISE:

O DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE NO CONTO

“SEVENTEEN”, DE KENZABURO OE

 

Renan Kenji Sales HAYASHI

 

Universidade Estadual de Campinas

 

 

  1. Introdução

“A pele está começando a ficar de uma palidez sombria, típica de masturbadores habituais, pode ser que eu esteja andando pelas ruas e por toda a escola apregoando: sou onanista. Ao me verem, as pessoas talvez percebam de imediato que me masturbo habitualmente. Pode até ser que elas já tenham intuído e digam, (…) ‘olhem, este cara costuma fazer aquilo’” (OE, 2011 [1961], p. 196).

Essa citação pertence ao conto “Seventeen”, do escritor japonês Oe Kenzaburo, o qual narra o conjunto de descobertas de um jovem morador de Tóquio sobre sua sexualidade, sobre a sociedade japonesa do pós-guerra e sobre o discurso político direitista da época.  O mencionado conto é particularmente interessante para discussão de questões relacionadas ao dispositivo da sexualidade e sobre a [intensa] produção de verdade sobre si que a modernidade empreende sobre os sujeitos.

No presente artigo, abordaremos a temática do corpo e da sexualidade como elementos de constituição de uma narrativa sobre o sujeito pós-moderno, fragmentado e dividido, tido por Foucault como morto com o fim do sujeito cartesiano centrado. Com efeito, buscaremos problematizar como essas temáticas foram abordadas por Kenzaburo em “Seventeen”¸ para a composição de uma personagem que ver no corpo e nas práticas sexuais motes para a constituição e fragmentação de si, entre o cuidado e o controle, a junção e a dispersão, o alívio e a culpa.

Para tanto, lançaremos mão do conceito de dispositivo sexual, presente na obra foucaultiana, bem como uma proposta de análise da produção de verdade sobre a sexualidade pelo viés psicanalítico, tendo a obra de Kenzaburo como plano de fundo para a problematização da linguagem como lugar de veridição de si, bem como a dispersão do sujeito pós-moderno e sua sexualidade atravessada por discursos.

 

  1. Dispositivo foucaultiano

Sobre a questão do dispositivo na obra foucaultiana, Monique David-Ménard (2010, p. 322) assevera que esse construto pode ser entendido como “uma positividade e uma rede impessoal de atos, de regras, de relações”. Como tal, configura-se como uma análise de elementos dispostos um em oposição ao outro, rompendo uma possível conformação anterior e colocando em evidência as especificidades que compõem esse dispositivo em si. A autora segue afirmando que a definição de um dispositivo foucaultiano só ocorre a partir de transformações singulares nas instituições, na produção de saberes, em condutas e poderes, bem como formas de visibilidade e de discurso.

No tocante específico do dispositivo da sexualidade, Mendelsohn (2010) descreve que, a partir de uma leitura de Foucault, pode-se entender o dispositivo da sexualidade como o conjunto de estratégias de relações de poder que viabilizam a produção de saberes sobre a sexualidade, ao tempo em que se sustentam a partir dela.

Nesse contexto, Mendelsohn (2010) reitera que é precisamente no campo da sexualidade que se identifica um ponto de junção entre verdade, discurso e o sujeito, na medida em que o sexo é, por excelência, um registro de verdade, no qual dizer essa verdade é revelar aquilo que se tem de mais singularmente reconhecível.

À vista disso, o singular é menos o sexo em si, mas, sobretudo, o prazer que lhe é associado. Sendo esse prazer pensado a partir do dispositivo da sexualidade, o qual atua simultaneamente como um mecanismo de controle de práticas sexuais, bem como um mecanismo de veridição subjetiva[i], institui-se nos indivíduos algo do qual sempre estão culpados, quer se queira ou não, quer se saiba ou não, e esse algo é o prazer, na leitura da autora francesa.

Nesse sentido, lançamos mão de um excerto de Kenzaburo que ilustra esse ponto de culpabilidade do prazer na autoconfissão do protagonista que “imaginava que se eu fosse pego me masturbando eu me mataria de tanta vergonha. Isso era o drama genuíno do poder máximo do olhar dos outros e da fraqueza máxima da minha carne, horrorizada de vergonha” (OE, 2011 [1961], p. 234).

Nessa passagem, podemos ver uma produção de verdade sobre si do protagonista e de sua subjetividade enovelada pela sexualidade, notadamente marcada pela culpa e por esse prazer que lhe fora associado.

Sobre isso, Mendelsohn (2010) afirma que é a sexualidade que se apresenta como um ponto de junção entre essa verdade e o discurso. Rosa (2015, p. 185) salienta que “a sexualidade não existe fora de uma rede de enunciados ou de um conjunto de regras que a determinam e do qual fazem parte discursos como o da pastoral cristã, da medicina, da psicanálise” não sendo, portanto, possível separar a realidade fundadora e o discurso, tendo em vista que é por meio desse que a realidade pode ganhar existência.

 

  1. Corpo, verdade e psicanálise – Um sujeito produtor de narrativas

A passagem que Kenzaburo traz em seu conto – abertura desse artigo – sobre a necessidade do personagem de produzir uma verdade sobre si frente à sua prática particular de busca de prazer – “sou um onanista” – descreve bem essa demanda de dizer o que é mais singular sobre sua existência, ou seja, sua sexualidade.

Posteriormente no conto, o escritor japonês exemplifica mais uma vez essa produção de verdade de si, descrevendo um fluxo de pensamento do personagem sobre seu sexo e uma vislumbrada impotência, no qual o protagonista “visualizando a mim mesmo aos quarenta anos a dizer: ‘tive os primeiros sintomas no meu décimo sétimo aniversário’, com as calças arriadas até os joelhos e exibindo ao psicanalista o meu inhame peludo e impotente. ‘Será que me excedi na prática daquilo, hein…?” (OE, 2011 [1961], p. 211).

Dessa forma, é interessante notar que o escritor descreve uma passagem de devaneio sexual com uma referência ao ato psicanalítico, no qual produz uma verdade sobre si, sobre sua sexualidade e a confessa/indaga a um sujeito da psicanálise que ouve.

Prata (2011) evidencia a relação psicanálise e a sexualidade a partir da hipótese repressiva e das práticas de confissão, questões já trazidas por Foucault nos volumes da História da sexualidade e salientadas pela autora brasileira. Segundo Prata (2011, p. 161), na hipótese repressiva, a psicanálise compreenderia a sexualidade pela via da repressão e da proibição, postura que desembocaria na perspectiva freudiana, relegando ao discurso psicanalítico uma função normativa do desejo e, em última instância, da sexualidade.

Nesse sentido, as práticas da psicanálise seriam marcadas pelo espectro de uma “codificação clínica do fazer falar” (p. 161). Já na prática da confissão, mais notadamente dentro da moral cristã, deve-se confessar incessantemente seus atos e tudo aquilo que se passa em sua mente, produzindo, assim, uma verdade sobre si.

Sobre isso, Foucault (2006 [1978]) assevera que o cristão deve confessar aquilo que ele traz de mais íntimo a alguém que está encarregado de dirigir sua consciência, o pastor, o qual imbuído de um poder individualista, poderá conduzir à salvação esse membro do rebanho que, porventura, tenha se desviado do que se considera a conduta desejada.

À vista disso, cumpre-nos questionar: por que é tão importante falar sobre si? Por que se faz tão necessário produzir verdades sobre si?

Mendelsohn (2010) pontua que dizer de si guarda estreita relação com a passagem da condição de indivíduo para sujeito, na medida em que na constituição da subjetividade, localizado no dispositivo da sexualidade, a passagem para sujeito é viabilizada a partir da existência de práticas discursivas que engajam o reconhecimento da fala como o local de enunciação da verdade, sendo a singularidade exigência da verdade.

Dessa forma, dizer de si, e, mas notadamente, dizer o que é singular de si produz uma verdade e essa exaustiva e constante produção de verdades sobre si se relaciona com a constituição da subjetividade atrelada ao dispositivo da sexualidade.

Contudo, Rosa (2015, p. 187) salienta que a verdade do sujeito está “condicionada ao fato de não dizer do sujeito senão quando submetida a certas circunstâncias ou condições de produção”. Portanto, é preciso dizer de si em condições específicas – consultório, divã, confessionário – e a indivíduos específicos – psiquiatra, psicanalista, padre, etc. A pesquisadora (ROSA, 2010, p. 190) ainda complementa que a produção da verdade pode ser entendida como um efeito de uma dupla insistência em dizer.

A primeira delas diz respeito a um controle exercido sobre o sujeito que o leva a crer que deve dizer exaustivamente de si a indivíduos de suposto saber – psicanalista, médico. Já a segunda, refere-se ao fato de o sujeito que fala crer que algo não está bem, portanto, deve ser “gerenciado” por esse outro indivíduo.

Esse último ponto é interessante e acreditamos que seja facilmente identificável na atualidade. Precisamos constantemente que um outro nos diga o que fazer com isso que acreditamos estar mal. Demandamos um padre que afirme que o que fizemos não é um pecado mortal, mas passível de redenção com um número específico de orações e penitências.

Necessitamos produzir verdades sobre nós ao médico e obter desse sujeito de um suposto saber um lastro de normalidade, semelhante ao que ilustrou Kenzaburo no conto em referência “(…) pensava que masturbação fazia mal à saúde, mas, depois de folhear um livro de medicina sexual numa livraria, soube que o único mal era o de sentir culpa por estar se masturbando” (OE, 2011, p. 194).

Nesse sentido, na modernidade, conforme pontua Rosa (2015), acreditamos na necessidade de constantemente confessar e produzir verdades sobre nós: que estamos acima do peso, que somos usuários de drogas ou que somos depressivos.

 

  1. Kenzaburo e sexualidade em “Seventeen”

Conforme salientado nas subseções anteriores, toda essa produção reverbera sobre nós, pois ao dizermos, produzimos um conjunto de verdades sobre nós que, muitas vezes, não tínhamos conhecimento até o ato de dizê-las. O conto “Seventeen” de Kenzaburo é bastante ilustrativo sobre a questão da sexualidade, verdade e a veridição do sujeito. O trato da questão do sexo conduzida pelo escritor japonês no conto, ora com sutileza, ora com intensidade cortante, nos faz refletir sobre que verdade temos produzido desde nossos seventeen?

Mais que isso, a quem concedemos o espaço do outro que ouve as nossas verdades? A problemática da produção de verdades de si e o dispositivo da sexualidade é, sem dúvidas, um campo de investigação bastante amplo e interessante, tendo sido esse artigo uma investida de análise que tentou combinar a leitura de um autor de literatura japonesa contemporânea, sobre a temática da sexualidade, com uma aproximação da proposta foucaultiana de estudo da produção de verdade e constituição da subjetividade.

Kenzaburo utiliza de maneira magistral o corpo como um lugar de rarefação do sujeito, de esvaziamento de si frente a uma infinidade de discursos que, ora fragmentam ainda mais esse ser que já se encontra demolido, ora incidem e insistem para que a produção de uma verdade sobre sua sexualidade seja, de alguma forma, parte de um processo que tenta reunir pedaços de um todo que não poderá se integrar novamente.

A leitura do conto de Kenzaburo oportuniza uma reflexão sobre um jovem que, numa Tóquio do pós-guerra, se vê às voltas como seus conflitos familiares, com um país com intensa demanda de reconstrução, uma direita partidária que quer se reerguer em meio a um cenário subjetivo de conflitos e irresoluções pessoais que muito mais do que dizer para si, demandam que se diga de si, em jogo com o ponto que une a verdade e o discurso, corpo e o sexo, o ser e o sujeito.

Sem grandes dificuldades, podemos ver esses mesmos conflitos do jovem retratado na década de 1950 no Japão, nos dias atuais na sociedade brasileira, na qual a crise econômica clama por uma solução imediata, a direita ganha força sem precedentes e a produção de uma verdade sobre si e sobre a sexualidade nunca foi tão grande e demandada.

Contudo, diferentemente do desfecho do conto de Kenzaburo, não permaneceremos com nossos seventeen, importando uma tomada de decisão frente a essa exacerbação de situações e essa projeção superdimensionada de um sujeito que pensa que sabe produzir uma narrativa sobre si, mas que na verdade, tem encontrado no corpo e na sexualidade uma forma de esquecimento e dispersão, de apagamento das verdades e construção de grandes contos, mas sem a beleza e a estética de uma história de um certo escritor japonês.

 

  1. Referências

BUTLER. J. Subjection, resistance, resignification: between Freud and Foucault. In: The Psychic Life of Power: Theories in Subjection. Stanford, 1997.

DAVID-MÉNARD, M. Um tratamento psicanalítico é um agenciamento deleuziano ou um dispositivo foucaultiano? In: SIMANKE, R. T. et. al.. Filosofia da Psicanálise. São Carlos: EdUFSCAR, 2010.

FOUCAULT, M. Sexualidade e poder. Conferência na Universidade de Tóquio, 1978. In: FOUCAULT, M. Ditos e escritos. Vol. V. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p. 56-76.

FOUCAULT, M. Verdade e Subjetividade (Howison Lectures), Revista de Comunicação e Linguagem, no 19, Lisboa: Edições Cosmos, 1993.

GODINO CABAS, A. Situação da Psicanálise em 1950. In: O sujeito na Psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

MENDELSOHN, S. Foucault avec Lacan: le sujet en acte. Filozofski vestnik, Letnik XXXI Stevilka 2. 2010, p.139–169.

OE, K. Seventeen [1961]. In: 14 contos de Kenzaburo Oe. Seleção e tradução de Leiko Gotoda. Introdução de Arthur Dapieve. São Paulo: Companhia das Letras: 2011. p. 193-239.

PRATA, Maria Regina. Foucault com Freud: notas para uma leitura positiva do desejo na psicanálise. In: SOUZA, Pedro de; GOMES, Daniel de Oliveira. Foucault com outros nomes: lugares de enunciação. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2009. p. 155-166.

ROSA, Marluza Terezinha da. A incidência da verdade no discurso: notas para reler A vontade de saber. In: Linguagem em (dis)curso – LemD, Tubarão, SC, v. 15, no 1, jan./abr. 2015: p 183-195. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1982-4017-150111-2214.

 

NOTA AO TEXTO

 

1 Veridicção é um termo cunhado por Michel Foucault que se refere a uma afirmação que é verdadeira de acordo com a visão de mundo de um determinado indivíduo, e não se tratando tanto de uma verdade universal. É uma visão verdadeira apenas em função do ponto de vista subjetivo do sujeito falante, portanto é uma visão particular dele, e não baseada na verdade objetiva. NOTA DA REDAÇÃO.



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