ESCRITORES



CLARA DOS ANJOS





Autor: Lim aBarreto
Título: CLARA DOS ANJOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 01/07/2005

CLARA DOS ANJOS

 

 

I

 

 

Lima Barreto

 

 

O carteiro Joaquim dos Anjos n?o era homem de serestas e serenatas; mas gostava de viol?o e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que j? foi muito estimado em outras ?pocas, n?o o sendo atualmente como outrora. Os velhos do Rio de Janeiro, ainda hoje, se lembram do famoso Calado e das suas polcas, uma das quais ? ?Cruzes, minha prima!? ? ? uma lembran?a emocionante para os cariocas que est?o a ro?ar pelos setenta. De uns tempos a esta parte, por?m, a flauta caiu de import?ncia, e s? um ?nico flautista dos nossos dias conseguiu, por instantes, reabilitar o mavioso instrumento – del?cia, que foi, dos nossos pais e av?s. Quero falar do Pat?pio Silva. Com a morte dele a flauta voltou a ocupar um lugar secund?rio como instrumento musical, a que os doutores em m?sica, quer executantes, quer os cr?ticos eruditos, n?o d?o nenhuma import?ncia. Voltou a ser novamente plebeu.

Apesar disso, na sua simplicidade de nascimento, origem e condi??o, Joaquim dos Anjos acreditava-se m?sico de certa ordem, pois, al?m de tocar flauta, compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas.

Uma polca sua ? ?Siri sem unha? – e uma valsa ? ?M?goas do cora??o? – tiveram algum sucesso, a ponto de vender ele a propriedade de cada uma, por cinq?enta mil-r?is, a uma casa de m?sicas e pianos da Rua do Ouvidor.

O seu saber musical era fraco; adivinhava mais do que empregava no??es te?ricas que tivesse estudado.

Aprendeu a ?artinha? musical na terra do seu nascimento, nos arredores de Diamantina, em cujas festas de igreja a sua flauta brilhara, e era tido por muitos como o primeiro flautista do lugar. Embora gozando desta fama animadora, nunca quis ampliar os seus conhecimentos musicais. Ficara na “artinha” de Francisco Manuel, que sabia de cor; mas n?o sa?ra dela, para ir al?m.

Pouco ambicioso em m?sica, ele o era tamb?m nas demais manifesta??es de sua vida. Desgostoso com a exist?ncia med?ocre na sua pequena cidade natal, um belo dia, a? pelos seus vinte e dois anos, aceitara o convite de um engenheiro ingl?s que, por aquelas bandas, andava a explorar terras e terrenos diamant?feros. Todos julgavam que o “seu” mister andasse fazendo isso; a verdade, por?m, ? que o s?bio ingl?s fazia estudos desinteressados. Fazia puras e plat?nicas pesquisas geol?gicas e mineral?gicas. O diamante n?o era o fim dos seus trabalhos; mas o povo, que teimava em ver, pelos arredores da cidade, o ventre da terra cheio de diamantes, n?o podia supor que um ingl?s que levava a catar pedras, pela manh? e at? ? noite, tomando notas e com uns instrumentos rebarbativos, n?o estivesse com tais gatimonhas a ca?ar diamantes. N?o havia meio do mister convencer ? simpl?ria gente do lugar que ele n?o queria saber de diamantes; e dia n?o havia em que o s?dito de Sua Graciosa Majestade n?o recebesse uma proposta de venda de terrenos, em que for?osamente havia de existir a preciosa pedra abundantemente, por tais ou quais ind?cios, seguros aos olhos de ?garimpeiro? experimentado.

Logo ao chegar o ge?logo, Joaquim empregou-se como seu pajem, guia, encaixotador, servente, etc., e tanto foi obediente e serviu a contento o s?bio, que este, ao dar por terminadas as suas pesquisas, o convidou a vir ao Rio de Janeiro, encarregando-se de movimentar a sua pedregulhenta ou pedregosa bagagem, at? que ela fosse posta a bordo. O s?bio comprometeu-se a pagar-lhe a estadia no Rio, o que fez, at? embarcar-se para a Europa.

Deu-lhe dinheiro para voltar, um chap?u de corti?a, umas perneiras, um cachimbo e uma lata de fumo Navy Cut; Joaquim j? se havia habituado ao Rio de Janeiro, no m?s e pouco em que estivera aqui, a servi?o do Senhor John Herbert Brown, da Real Sociedade de Londres; e resolveu n?o voltar para Diamantina. Vendeu as perneiras num belchior e o chap?u de corti?a tamb?m; e p?s-se a fumar o saboroso fumo ingl?s no cachimbo que lhe fora ofertado, passeando pelo Rio, enquanto teve dinheiro. Quando acabou, procurou conhecidos que j? tinha; e, em breve, entrou para o servi?o de empregado de escrit?rio de um grande advogado, seu patr?cio, isto ?, mineiro.

-N?o te darei coisa que valha a pena – disse-lhe logo o doutor – mas aqui ir?s travando conhecimentos e podes arranjar coisa melhor mais tarde.

Viu bem que o “doutor” lhe falava a verdade, e toda sua ambi??o se cifrou em obter um pequeno emprego p?blico que lhe desse direito a aposentadoria e a montepio, para a fam?lia que ia fundar. Conseguira, ao fim de dois anos de trabalho, aquele de carteiro, havia bem quatro lustros, com o qual estava muito contente e satisfeito da vida, tanto mais que merecera sucessivas promo??es.

Casara meses depois de nomeado; e, tendo morrido sua m?e, em Diamantina, como filho ?nico, herdara-lhe a casa e umas poucas terras em Inha?, uma freguesia daquela cidade mineira. Vendeu a modesta heran?a e tratou de adquirir aquela casita nos sub?rbios em que ainda morava e era dele. O seu pre?o fora m?dico, mas, mesmo assim, o dinheiro da heran?a n?o chegara, e pagou o resto em presta??es. Agora, por?m, e mesmo h? v?rios anos, estava em plena posse do seu “buraco”, como ele chamava a sua humilde casucha. Era simples. Tinha dois quartos; um que dava para a sala de visitas e outro para a sala de jantar, aquele ficava ? direita e este ? esquerda de quem entrava nela. ? de visitas, seguia-se imediatamente a sala de jantar. Correspondendo a pouco mais de um ter?o da largura total da casa, havia, nos fundos, um puxadito, onde estavam a cozinha e uma despensa min?scula. Comunicava-se esse puxadito com a sala de jantar por uma porta; e a despensa, ? esquerda, apertava o puxado, a jeito de um curto corredor, at? ? cozinha, que se alargava em toda a largura dele. A porta que o ligava ? sala de jantar ficava bem junto daquela, por onde se ia dessa sala para o quintal. Era assim o plano da propriedade de Joaquim dos Anjos.

Fora do corpo da casa, existia um barrac?o para banheiro, tanque, etc., e o quintal era de superf?cie razo?vel, onde cresciam goiabeiras, dois p?s ou tr?s de laranjeiras, um de lim?o-galego, mamoeiros e um grande tamarineiro copado, bem aos fundos.

A rua em que estava situada a sua casa se desenvolvia no plano e, quando chovia, encharcava e ficava que nem um p?ntano; entretanto, era povoada e se fazia caminho obrigado das margens da Central para a long?nqua e habitada freguesia de Inha?ma. Carro??es, carros, autocaminh?es que, quase diariamente, andam por aquelas bandas a suprir os retalhistas de g?neros que os atacadistas lhes fornecem, percorriam-na do come?o ao fim, indicando que tal via p?blica devia merecer mais aten??o da edilidade.

Era uma rua sossegada e toda ela, ou quase toda, edificada ao gosto antigo do sub?rbio, ao gosto do chal?. Estava povoada e edificada quase inteiramente, de um lado e de outro. Dela, descortinava-se um lindo panorama de montanhas de cores cambiantes, conforme fosse a hora do dia e o estado da atmosfera. Ficavam-lhe muito distantes, mas pareciam cerc?-la, e ela, a rua, ser o eixo daquele redondel de montes, em que, pelo dia em fora, pareciam ser iluminados por proje??es luminosas, revestindo-se de toda a gama do verde, de tons azuis; e, pelo crep?sculo, ficavam cobertos de ouro e p?rpura.

Al?m dos cl?ssicos chal?s suburbanos, encontravam-se outros tipos de casas. Algumas relativamente recentes, uns certos requififes e galanteios modernos, para lhes encobrir a estreiteza dos c?modos e justificar o exagero dos alugu?is. Havia, por?m, uma casa digna de ser vista. Erguia-se quase ao centro de uma grande ch?cara e era a caracter?stica das casas das velhas ch?caras dos outros tempos; longa fachada, pouco fundo, teto aca?apado, forrada de azulejos at? a metade do p? direito. Um tanto feia, ? verdade, que ela era, sem garridice; mas casando-se perfeitamente com as mangueiras, com as robustas jaqueiras e os coqueiros petulantes e com todas aquelas grandes e pequenas ?rvores avelhantadas, que, talvez, os que as plantaram n?o as tivessem visto frutificar. Por entre elas, onde se podiam ver vest?gios do antigo jardim, havia estatuetas de lou?a portuguesa, com letreiros azuis. Uma era a ?Primavera?; outra era a “Aurora”; quase todas, por?m, estavam mutiladas; umas, num bra?o; outras n?o tinham cabe?a, e ainda outras jaziam no ch?o, derrubadas dos seus toscos suportes.

Os muros que cercavam a casa, a razo?vel dist?ncia, e mesmo aquele em que se apoiava o gradil de ferro da frente do im?vel, estavam cobertos de hera, que os envolvia em todo ou em parte, n?o como um sud?rio, mas como um severo, cerimonioso e vivo manto de outras ?pocas e de outras gentes, a provocar saudades e evoca??es, animando a ru?na. Hoje, ? raro ver-se, no Rio de Janeiro, um muro coberto de hera; entretanto, h? trinta anos, nas Laranjeiras, na Rua Conde de Bonfim, no Rio Comprido, no Andara?, no Engenho Novo, enfim, em todos os bairros que foram antigamente esta??es de repouso e prazer, encontravam-se, a cada passo, longos muros cobertos de hera, exalando melancolia e sugerindo recorda??es.

Joaquim dos Anjos ainda conhecera a “ch?cara” habitada pelos propriet?rios respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos “b?blias”. Os seus c?nticos, aos s?bados (era o seu dia da semana de descanso sagrado), entoados quase de hora em hora, enchiam a redondeza e punham na sua audi?ncia uma soturna sombra de misticismo. O povo n?o os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freq?entavam-nos, j? por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, j? por procurarem, em outra casa religiosa que n?o a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, al?m das dores que seguem toda e qualquer exist?ncia humana.

Alguns, entre os quais o Jo?o Pintor, justificavam freq?entar os “b?blias”, porque estes -dizia ele – n?o eram como os padres, que, para tudo, querem dinheiro.

Esse Jo?o Pintor trabalhava nas oficinas do Engenho de Dentro, no of?cio de que proviera o seu apelido. Era um preto retinto, grossos l?bios, malares proeminentes, testa curta, dentes muito bons e muito claros, longos bra?os, manoplas enormes, longas pernas e uns tais p?s, que n?o havia cal?ado, nas sapatarias, que coubessem neles. Mandava-os fazer de encomenda; mas assim mesmo, mal os punha hoje, no dia seguinte tinha que os retalhar ? navalha, se queria dar alguns passos e manquejar menos at? o ?Mafu??.

Dizia o ?Turuna?, adepto do Padre Sodr?, capel?o do Santu?rio de Nossa Senhora de Lourdes, que Jo?o Pintor se metera com os “b?blias”, porque estes lhe haviam dado um quarto, na ch?cara, para ele morar de gra?a, com certas obriga??es pequenas a cumprir. Jo?o Pintor contestava com veem?ncia; o certo, por?m, ? que ele morava na ?ch?cara?.

Chefiava os protestantes um americano, Mr. Quick Shays, homem tenaz e cheio de uma eloq??ncia b?blica, que devia ser magn?fica em ingl?s; mas que, no seu duvidoso portugu?s, se tornava simplesmente pitoresca. Era Shays Quick ou Quick Shays daquela ra?a curiosa de yankees fundadores de novas seitas crist?s. De quando em quando, um cidad?o protestante dessa ra?a que deseja a felicidade de n?s outros, na terra e no c?u, ? luz de uma sua interpreta??o de um ou mais vers?culos da B?blia, funda uma nov?ssima seita, p?e-se a propag?-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais n?o sabem muito bem por que foram para tal nov?ssima religi?ozinha e qual a diferen?a que h? entre esta e a de que vieram.

L?, na sua terra, como aqui, esses pequenos luteros fazem pros?litos; l?, mais do que aqui. Mr. Shays obtinha, nas vizinhan?as do carteiro Joaquim dos Anjos, n?o pros?litos, mas muitos ouvintes, dos quais uma quinta parte afinal se convertia. Quando se tratava de iniciar uma turma, os novi?os dormiam em barracas de campanha, erguidas ao redor da casa, nos v?os existentes entre as velhas ?rvores da ch?cara, maltratada e desprezada.

As cerim?nias preparat?rias ? inicia??o, na religi?o de Mr. Quick Shays, duravam uma semana, farta de jejuns e c?nticos religiosos, cheios de un??o e apelos contritos a Deus, Nosso Pai; e a velha propriedade de recreio, com as barracas militares e salmodias cont?nuas, adquiria um aspecto esquisito e imprevisto, o de convento ao ar livre, mascarado por uma rebarbativa carranca de acampamento guerreiro. Dir-se-ia um destacamento de uma ordem de cavalaria mon?stico-guerreira, que se preparava para combater o turco ou o mouro infiel, na Palestina ou em Marrocos.

Da redondeza, n?o eram muitos os adeptos ortodoxos ? doutrina??o religiosa de Mr. Shays; entretanto, al?m das esp?cies que j? foram aludidas, havia as daqueles que assistiam ?s suas pr?dicas, por mera curiosidade ou para deliciar-se com a orat?ria do pastor americano. O templo estava sempre cheio, nos seus dias solenes.

Os freq?entadores dessa ou daquela natureza l? iam sem nenhuma repugn?ncia, pois ? pr?prio do nosso pequeno povo fazer uma extravagante am?lgama de religi?es e cren?as de toda a sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes e moment?neas agruras de sua exist?ncia. Se se trata de afastar atrasos de vida, apela para a feiti?aria; se se trata de curar uma mol?stia tenaz e renitente, procura o esp?rita; mas n?o falem ? nossa gente humilde em deixar de batizar o filho pelo sacerdote cat?lico, porque n?o h?, dentre ela, quem n?o se zangue: ?Est? doido! Meu filho ficar pag?o! Deus me defenda!?

Joaquim dos Anjos n?o freq?entava Mr. Shays nem o reverendo Padre Sodr?, do Santu?rio de Nossa Senhora de Lourdes, pois, apesar de ter nascido numa cidade embalsamada de incenso e plena de ecos sonoros de litanias e o cont?nuo repicar de sinos festivos, n?o era animado de grande fervor religioso. Sua mulher, Dona Engr?cia, por?m, o era em extremo, embora fosse pouco ? igreja, devido ?s suas obriga??es caseiras. Ambos, por?m, estavam de acordo num ponto religioso cat?lico-romano: batizar quanto antes os filhos, na Igreja Cat?lica Apost?lica Romana. Foi assim que procederam, n?o s? com a Clara, o ?nico filho sobrevivente, como com os demais, que haviam morrido.

Eram casados h? quase vinte anos, e esta Clara, sua filha, sendo o segundo filho do casal, or?ava pelos seus dezessete anos.

Era tratada pelos pais com muito desvelo, recato e carinho; e, a n?o ser com a m?e ou pai, s? sa?a com Dona Margarida, uma vi?va muito s?ria, que morava nas vizinhan?as e ensinava a Clara bordados e costuras.

No mais, isto era raro e s? acontecia aos domingos, Clara deixava, ?s vezes, a casa paterna, para ir ao cinema do M?ier ou Engenho de Dentro, quando a sua professora de costuras se prestava a acompanh?-la, porque Joaquim n?o se prestava, pois n?o gostava de sair aos domingos, dia escolhido a fim de se entregar ao seu prazer predileto de jogar o solo com os companheiros habituais; e sua mulher n?o s? n?o gostava de sair aos domingos, como em outro dia da semana qualquer. Era sedent?ria e caseira.

Os companheiros habituais do solo com Joaquim eram quase sempre estes dois: o Senhor Ant?nio da Silva Marramaque, seu compadre, pois era padrinho de sua filha ?nica; e o Senhor Eduardo Laf?es. N?o variavam. Todos os domingos, a? pelas nove horas, l? batiam ? porteira da casa do “postal”; n?o entravam no corpo da habita??o e, pelo corredor que mediava entre ela e a vizinha, dirigiam-se ao grande tamarineiro, aos fundos do quintal, debaixo do qual estava armada a mesa, com os seus tentos, vermelhos e pupilas negras, de gr?o de aroeira, o seu baralho, os seus pires, um c?lice e um litro de parati, ao centro, muito pimp?o e arrogante, impondo um c?nico desafio ?s conveni?ncias protocolares.

Joaquim dos Anjos j? esperava, lendo o jornal de sua predile??o. Mal chegavam, trocavam algumas palavras, sentavam-se, “molhavam a palavra”, no litro de cacha?a, e punham-se a jogar. Ficha a vint?m.

Horas e horas, esperando o “ajantarado”, que quase sempre ia para a mesa ? hora do jantar habitual, deixavam-se ficar jogando, bebericando aguardente, sem dar uma vista d’olhos sobre as montanhas circundantes, nuas e pedroucentas, que recortavam o alto horizonte.

De quando em quando, mas sem grandes espa?os, Joaquim gritava para a cozinha:

-Clara! Engr?cia! Caf?!

De l?, respondiam, com algum amuo na voz:

-J? vai!

? que as duas mulheres, para preparar o caf?, tinham que retirar, de um dos dois fogareiros de carv?o vegetal, uma panela do ?ajantarado? que aprontavam, a fim de aquecer o caf? reclamado; e isto lhes atrasava o jantar.

Enquanto esperavam o caf?, os tr?s suspendiam o jogo e conversavam um pouco. Marramaque era e sempre havia sido mais ou menos pol?tico, a seu modo.

Embora atualmente fosse um simples cont?nuo de minist?rio, em que n?o fazia o servi?o respectivo, nem outro qualquer, devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e semiparal?tico do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de bo?mios literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas de literatura, se discutia muita pol?tica, h?bito que lhe ficou. Quando veio a revolta de 93, a roda se dissolveu. Uns foram acompanhar o Almirante Cust?dio; e outros, o Marechal Floriano. Marramaque foi um destes e at? obteve as honras de alferes do Ex?rcito. Por a? ? que teve a primeira congest?o, isto ?, nos fins do governo do marechal, em 94.

A sua roda n?o tinha ningu?m de destaque, mas alguns eram estim?veis. Mesmo alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.

Quando narrava epis?dios dessa parte de sua vida, tinha grande garbo e orgulho em dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Lu?s Murat. N?o mentia, enquanto n?o confessasse a todos em que qualidade fizera parte do grupo liter?rio. Os que o conheciam, daquela ?poca, n?o ocultavam o t?tulo com que partilhava a honra de ser membro de um cen?culo po?tico. Tendo tentado versejar, o seu bom senso e a integridade de seu car?ter fizeram-lhe ver logo que n?o dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas, os logogrifos, etc. Ficou sendo um h?bil charadista e, como tal, figurava quase sempre como redator ou colaborador dos jornais, que os seus companheiros e amigos de bo?mia liter?ria, poetas e literatos, improvisavam do p? para a m?o, quase sempre sem dinheiro para um terno novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado, depois de dois ataques de apoplexia, foi obrigado a aceitar aquele humilde lugar de cont?nuo, para ter com que viver. Os seus m?ritos e saber, por?m, n?o estavam muito acima do cargo. Aprendera muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas. Tivera, em mo?o, uma boa conviv?ncia. Estava a? o segredo de sua ilustra??o. Marramaque, apesar de tudo, do seu estado de sa?de, da sua dificuldade de locomover-se, n?o deixava a mania in?cua da pol?tica e ia votar, com risco de se ver envolvido num barulho de sufr?gio universal, puxado a navalha, rabo-de-arraia, cabe?adas, tiros de rev?lver e outras eloq?entes manifesta??es eleitorais, das quais, em raz?o do seu prec?rio estado de pernas, n?o poderia fugir com seguran?a e a necess?ria rapidez.

Tendo vivido em rodas de gente fina – como j? vimos – n?o pela fortuna, mas pela educa??o e instru??o; tendo sonhado outro destino que n?o o que tivera; acrescendo a tudo isto o seu aleijamento – Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista. Naquele domingo, ele o tirara para falar mal do doutor Saulo de Clapin.

-Voc?s v?o ver: o Clapin est? a?, est? morto na pol?tica. Teve o topete de ir contra a corrente popular, espetou-se. Quem ganhou foi o barbudo Melo Brand?o, esse judeu mesti?ado. ? um safad?o, mas ? mestre na pol?tica.

Joaquim se interessava mediocremente por essa hist?ria de pol?tica: mas Laf?es tinha as suas paix?es no neg?cio e acudiu:

-Qual o qu?! Ent?o voc? pensa, Marramaque, que um homem inteligente, t?o superior, como o doutor Clapin, vai deixar-se embrulhar por um trapaceiro de atas e coisas piores como o Melo Brand?o! Qual o qu?! Demais, o operariado…

-O que ? que ele tem feito pelo operariado? – pergunta Marramaque.

-Muito.

Laf?es n?o era oper?rio, como se poderia pensar. Era guarda das obras p?blicas. Portugu?s de nascimento, viera menino para o Brasil, isto h? mais de quarenta anos; entrara muito cedo para a reparti??o de ?guas da cidade, chamara a aten??o dos seus superiores pelo rigor de sua conduta; e, aos poucos, fizeram-no chegar a seu generalato de guarda de encanamentos e de torneiras que vazassem nos tanques de lavagem das casas particulares. Vivia muito contente com a sua posi??o, a sua portaria de nomea??o, a sua carta de naturaliza??o, e, talvez, n?o estivesse tanto, se tivesse enriquecido de centenas de contos de r?is. Assim tudo fazia crer, pois era de ver a import?ncia ing?nua do camp?nio que se faz qualquer coisa do Estado, e a solenidade de maneiras com que ele atravessava aquelas virtuais ruas dos sub?rbios.

Trazia sempre a farda de c?qui e o bon? com as iniciais da reparti??o; um chap?u-de-sol de cabo, que, quando n?o o trazia aberto, a proteg?-lo contra os raios do sol, manejava como a bengala de um vig?rio de aldeia portuguesa, furando o ch?o e levantando-o, para pous?-lo de novo, ? medida que executava as suas longas passadas.

Laf?es respondeu assim a Marramaque:

-Muito. Em todas as comiss?es por que o doutor Clapin tem passado, sempre procura dar trabalho ao maior n?mero de oper?rios.

-Grande servi?o! Arrebenta as verbas; no fim de dois ou tr?s meses, despede mais da metade… Isto n?o se chama proteger; chama-se engazopar.

-Seja, mas ele ainda faz isso, e os outros? N?o fazem nada. De resto, ? um homem democrata. Desde muito que se bate pela igualdade entre os servidores da na??o. N?o quer distin??o entre funcion?rios p?blicos e jornaleiros. Quem serve ? na??o, seja em que servi?o for, ? funcion?rio p?blico.

-Honrarias! Isto n?o enche barriga! Por que ele n?o trabalha para diminuir a carestia da vida e dos alugu?is de casa?

-Homessa, Marramaque! Voc? n?o leu o projeto dele sobre constru??o de casas para fam?lias pobres e modestas? Voc? n?o leu, Joaquim?

O carteiro, que vinha ouvindo a conversa sem dar opini?o, ? interpela??o de Laf?es, interveio:

-Li, de fato; mas li tamb?m que ele havia aumentado os alugu?is de suas casas, que s?o in?meras, de quarenta por cento.

-? isto! – acudiu com pressa Marramaque. – Clapin ? muito generoso com o dinheiro dos outros, do Estado. Com o dele, ? de uma sovinice de judeu e de uma gan?ncia de agiota. Jesu?ta!

Felizmente Clara chegava com o caf?. A conversa apaixonada cessava, e os dois convivas de Joaquim recebiam os cumprimentos da menina:

-A b?n??o, meu padrinho; bom-dia, Seu Laf?es.

Eles respondiam e punham-se a pilheriar com Clara.

Dizia Marramaque:

-Ent?o, minha afilhada, quando se casa?

-Nem penso nisso – respondia ela, fazendo um trejeito faceiro.

-Qual! – observa Laf?es. – A menina j? tem algum de olho. Olhe, no dia dos seus anos… ? verdade, Joaquim: uma coisa.

O carteiro descansou a x?cara e perguntou:

-O que ??

-Queria pedir a voc? autoriza??o para c? trazer, no dia dos anos, aqui da menina, um mestre do viol?o e da modinha.

Clara n?o se conteve e perguntou apressada:

-Quem ??

Laf?es respondeu:

-? o Cassi. A menina…

O guarda das obras p?blicas n?o p?de acabar a frase. Marramaque interrompeu-o furioso:

-Voc? d?-se com semelhante p?stula? ? um sujeito que n?o pode entrar em casa de fam?lia. Na minha, pelo menos…

-Por qu?? – indagou o dono da casa.

-Eu direi, daqui a pouco; eu direi por qu? – fez Marramaque transtornado.

Acabaram de tomar caf?. Clara afastou-se com a bandeja e as x?caras, cheia de uma forte, tenaz e mals? curiosidade:

-Quem seria esse Cassi?

 

 

___________________________

 

Fonte: BARRETO, Lima. Clara dos Anjos: romance. Pref?cio de S?rgio Buarque de Holanda. S?o Paulo: Brasiliense, 1956. p. 31-43.

 



Voltar ao topo