Revista LitCult – Vol.8- 1. semestre 2015



CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE: POR OUTRAS HISTÓRIAS DA ÁFRICA – Rafaella Cristina Alves Teotônio





 

Rafaella Cristina Alves Teotônio

Universidade Federal de Pernambuco

 

Resumo:

O artigo busca revelar e discutir como a escrita de Chimamanda Ngozi Adichie consegue diluir os estereótipos acerca da África e de seus povos. Nascida na Nigéria, Adichie é uma escritora em contundente desabrochar literário, reconhecido criticamente por sua postura política e pelo sucesso de seus livros publicados. A autora, que comunga de bastante sucesso também por suas palestras veiculadas na internet, tenta representar em suas narrativas o cotidiano de homens e mulheres de diversos estratos sociais, econômicos, educacionais e culturais. Revelando uma África bem mais diversa e plural do que se ousa saber a partir dos olhos ocidentais. A escrita de Adichie reclama para o seu continente a oportunidade de contar uma “nova história”, além de provocar, como convém o pensamento de Walter Mignolo (2008), uma “desobediência epistêmica”.

 

Palavras chaves: Autoria feminina; teoria pós-colonial; desconstrução; África.

 

Abstract:

This paper aims at revealing and discussing how Chimamanda Ngozi Adichie dilutes stereotypes about Africa and its people in her writing. Born in Nigeria, Adichie is an astonishing writer, critically recognized for her political stance and for the success of her published books. The author, also known for her lectures in TED (as in “The Danger of the Single Story” and “We Should All Be Feminists”), attempts to represent in her narratives men and women from different social economic, educational and cultural strata, revealing a much more diverse and plural Africa than we dare know in western eyes. In her writing she advocates for the right to tell a “new story” for her continent, provoking, as suggests Walter Mignolo (2008), “epistemic disobedience”.

 

Keywords: Female authorship; Postcolonial theory; Deconstruction; Africa.

 

Currículo da autora: Rafaella Teotônio é doutoranda em Teoria da Literatura pela UFPE, mestre em Literatura e Interculturalidade e graduada em Letras pela UEPB. Seu projeto de pesquisa no doutorado centra-se no estudo dos romances do autor luso-africano Valter Hugo Mãe, em específico as questões acerca do humano em suas narrativas.  Desde o mestrado tenta desenvolver pesquisas sobre Literaturas de Língua Portuguesa, em relação também com autores contemporâneos de outras línguas, alguns ainda com pouca fortuna crítica, como Valter Hugo Mãe e Chimamanda Ngozi Adichie. Também se interessa por estudos comparativos, crítica feminista e representações de minorias.

 

Histórias importam

Contar novas histórias acerca de um continente reconhecido por uma única história tem sido o empenho da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Nascida em Abba, Nigéria, em 1977, vinda de uma família de classe média, a autora tenta representar em sua literatura imagens de uma África diferente da que foi escrita pelo Ocidente. Em suas obras, as diferenças se cruzam em relações de conflito ou de troca, dependendo das estratégias identitárias e dos afetos mantidos pelos personagens. Retratos de uma Nigéria pós-colonial, marcada por guerras e tentativas de desenvolvimento.

Ao contar várias histórias sobre um mesmo lugar, Chimamanda Ngozi Adichie prioriza em sua escrita uma diversidade temática acerca da África e principalmente de seu país de origem.  A preocupação da autora em negar os estereótipos africanos criados pelo imaginário ocidental tem como influência significativa sua experiência de vida. Adiche estudou nos Estados Unidos e na Inglaterra, tendo passado a infância e adolescência no campus universitário de Nsukka, cidade nigeriana. Filha de pais professores universitários, a autora teve contato com um mundo africano diferente daquele reconhecido somente pela miséria e por guerras.

Com três romances publicados, dentre eles, Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2003), Hibisco roxo (Purple Hibiscus, 2006) e Americanah (Americanah, 2013), além do livro de contos A coisa à volta do teu pescoço (The Thing Around Your Neck, 2009) e o de poemas Decisions (1997),  a autora, a partir da variedade de personagens de suas obras, tenta enriquecer a complexidade de suas histórias e tornar fiel a representação do hibridismo de seu país. No universo de sua literatura podemos encontrar pessoas ricas e pobres, vindas da cidade ou de aldeias, instruídas e não instruídas, intelectuais, mulheres submissas, mulheres empresárias, estrangeiros, nativos alienados pela cultura europeia, dentre outros. Uma Nigéria moderna dividida entre as tradições e o processo de modernização, um país pobre, um país rico, um país em guerra, um país de mulheres independentes e de homens revolucionários. Entre suas temáticas versam a tentativa de entender a identidade nigeriana, a diversidade de religiões e crenças, o contato com o mundo estrangeiro e as diversas questões que permeiam o universo de seu país.

Em discurso no evento Technology, Entertainment and Design (TED), organização não-governamental que proporciona conferências sobre Tecnologia, Entretenimento e Design, Adichie fala da infância feliz em Nsukka, morando na casa em que também morou o escritor Chinua Achebe, dos livros estrangeiros em que encontrava climas, frutas e bebidas diferentes das que conhecia, das histórias que escrevia durante a infância imitando os escritores estrangeiros, do período de escassez alimentar e do contato com os livros africanos que lhe proporcionaram uma maior identificação com a literatura.

Nesse discurso, pronunciado em 2009 e publicado no YouTube, intitulado “O perigo de uma única história”[1], Adichie tenta alertar para o perigo de uma única história acerca de um lugar, como foi criada a visão estereotipada que via os africanos como selvagens, além de demonstrar sua preocupação em mostrar a diversidade cultural existente na África através da sua ficção.

Ao iniciar a sua fala, a autora conta como ficou surpresa ao descobrir que a família do garoto que trabalhava em sua casa tinha produzido um cesto lindo de ráfia seca, feito artesanalmente. Quando criança, Adichie só podia pensar no garoto da forma que sua mãe falava dele, enfatizando a pobreza de sua família, não conseguindo imaginar que eles pudessem ter a capacidade de confeccionar tal objeto. Assim, a autora começa a discorrer sobre O perigo de uma única história, sobre como uma única face de uma história pode influenciar o pensamento de quem a ler ou a escuta. Ao falar acerca da família de Fide, o criado de sua casa, como o seu personagem Ugwu de Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2003), ela diz: “Sua pobreza era minha única história sobre eles”. Esse artigo tenta observar como a escrita de Chimamanda Ngozi Adichie encontra nas várias histórias de um povo a forma de diluir e problematizar visões monolíticas sobre lugares, crenças, identidades e afetos.

 

Uma visão pós-colonial

Chimamanda Ngozi Adichie refaz em seus escritos a África, reconta histórias que foram deformadas pelo colonialismo e pelo imperialismo. Tal estratégia encontra na Teoria pós-colonial um fundamento, trata-se de uma tentativa de revisão do olhar europeu sobre os sujeitos e nações pós-coloniais, relocando a voz e colocando tais sujeitos em condição de atores, dessa vez, protagonistas de suas próprias histórias.

Adichie alertou para o estereótipo que se criou acerca da África e acerca de muitos povos do oriente a partir dos olhos ocidentais. A autora termina sua palestra no TED dizendo: “histórias importam, muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno, mas histórias também podem ser usadas para capacitar e humanizar”.

A partir da fala da escritora africana pode-se compreender como as narrativas foram usadas de diferentes modos pelas culturas e pelos povos, e como a disseminação delas criou imagens e estereótipos sobre lugares e grupos de pessoas, favorecendo a luta pelo poder, mas também dignificando ou dando existência a pessoas e lugares. Edward Said (2011), em seu livro Cultura e imperialismo, buscou analisar como a literatura inglesa construiu e influenciou o imaginário do colonialismo. Analisando obras como O coração das trevas, de Joseph Conrad, Said propôs reinventar a história sobre os povos colonizados, dando a esses o lugar de protagonistas. De acordo com Said, a literatura inglesa do século XIX colaborou com o estereótipo da África enquanto lugar misterioso, selvagem, “das trevas”, assim como também foi referência para ações e atitudes imperialistas.

O principal objeto de disputa no imperialismo é, evidentemente, a terra; mas quando se tratava de quem possuía a terra, quem tinha o direito de nela se estabelecer e trabalhar, quem a explorava, quem a reconquistou e quem agora planeja seu futuro – essas questões foram pensadas, discutidas e até, por um tempo, decididas na narrativa. Como sugeriu um crítico, as próprias nações são narrativas. O poder de narrar, ou impedir que se formem e surjam outras narrativas, é muito importante para a cultura e o imperialismo, e constitui umas das principais conexões entre ambos (SAID, 2011, p.11).

A teoria pós-colonial, da qual Said é um de seus representantes, tenta reinventar a história do colonialismo pela ótica do colonizado (MATA, 2007). Trata-se de analisar as consequências e influencias do colonialismo nas nações pós-coloniais. A literatura é um dos objetos de estudo mais analisados pela Teoria pós-colonial, pois ela exprime enquanto documento histórico e objeto estético as décadas de silenciamento dos povos colonizados e das mudanças ocorridas nas nações emergentes com a independência. Foi a partir da literatura, enquanto campo de batalha e protesto, que muitas nações foram influenciadas a resistirem ao imperialismo, sendo as literaturas africanas as mais representativas para esse debate. Trata-se de provocar estratégias que tentam desautorizar narrativas tidas como absolutas, provocar uma “desaprendizagem”, como Walter Mignolo (2008) observa, numa maneira de aprender novas epistemologias e reinscrever as vozes daqueles que foram silenciados.

Mais importante, as grandiosas narrativas de emancipação e esclarecimento mobilizaram povos do mundo colonial para que se erguessem e acabassem com a sujeição imperial; nesse processo, muitos europeus e americanos também foram instigados por essas histórias e seus respectivos protagonistas, e também eles lutaram por novas narrativas de igualdade e solidariedade humana (SAID, 2011, p. 11).

Durante o período de independência, as literaturas dos países africanos, sendo as detentoras mais urgentes de saberes, em comunidades com sérios problemas educacionais, tiveram papel importante para a compreensão do período e para a luta anticolonial, o que se pode entender também pela adesão da escrita literária por muitos intelectuais ativistas.  As literaturas africanas, assim como outras, tentaram afirmar as identidades de seus países, saqueados culturalmente pelo colonialismo, culminando num movimento nacionalista e de resistência, em que a obra literária era usada por muitos escritores como arma na guerra colonial.

Assim como na literatura brasileira, no romantismo e no modernismo, as literaturas dos países africanos tentaram reinventar signos, mitos e imagens sobre a África, tentando resistir à exterminação cultural e buscando enfatizar um sentimento de identidade. Porém, contemporaneamente, o desgaste dessa necessidade identitária surge da autoconsciência dos escritores perante a impossibilidade de reconstituição de tradições e o alerta para os problemas internos gerados pela independência, assim como a homogeneização trazida pela globalização.

Essa autoconsciência torna ainda a cultura na África problemática e gera um debate recorrente em suas literaturas, como nas obras de Mia Couto, Paulina Chiziane, como também nas de Adichie. Teria a África e suas literaturas que lidar sempre com o passado colonial? Russel Hamilton (1999) diz que os africanos avançam para o futuro “de costas”. Mia Couto, em edição de 2012 da Fliporto falou sobre a importância de esquecer o passado, numa tentativa de exorcizar o ressentimento. Tais questões são discutidas pela Teoria pós-colonial e não chegaram a uma conclusão.

É fato que as culturas africanas sofreram com a violência exercida pelos anos da colonização e alguns danos não conseguiram ser reparados, porém, como discute Said, o colonizado, o nativo, nunca foi passivo nessa batalha e, se as comunidades hibridas africanas são o resultado da colonização, os costumes e valores estrangeiros não foram todos impostos pelo colonizador.

Ella Shohat criticou em A crítica da imagem eurocêntrica este estigma do ex-colonizado e de suas comunidades como hibridas. Discutindo que a Europa também foi formada por diversas culturas.  A preocupação da estudiosa é de esclarecer a Teoria pós-colonial e desmascarar certas tendências que culminam numa lógica ainda eurocêntrica.  Segundo a autora, o elogio à diferença e a autoafirmação da identidade subalterna pela Teoria pós-colonial pode “santificar” ou justificar a violência cultural exercida pelo colonialismo.

Voltando a discussão sobre o passado ainda presente na África e em suas literaturas, é preciso que se busque um entendimento da África na sua contemporaneidade, na defesa de uma cultura ativa e não numa identidade auto-excluída que apela para o ressentimento e a folclorização do passado (que tende a ser mastigado pela globalização como mercadoria exótica), na vanguarda de suas literaturas e na riqueza de sua diversidade, sem com isso arrancar da história o passado que agora deve ser reinventado, como um passado de resistência e não de escravidão.

Tal visão pode encontrar nas obras de Chimamanda Ngozi Adichie uma representação. No vídeo O perigo de uma única história, Adichie lembra que quando criança lia muitos livros britânicos e americanos, era uma escritora precoce e, nas histórias que escrevia seus personagens sempre eram brancos, de olhos claros e comiam maçãs como nesses livros, porém, sua vida não era compatível com essas histórias, tão pouco com os personagens que encontrava nelas. A autora conta como foi importante o encontro com as literaturas africanas e com escritores como Chinua Achebe e Camara Laye:

As coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e nem eram tão fáceis de encontrar como os estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele de cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura.

Ao contar sua experiência pessoal com a descoberta das literaturas africanas e com as várias faces de uma história, Adichie aborda a importância da literatura no reconhecimento das identidades, na disseminação de imagens acerca de povos e lugares que podem perpetuar os preconceitos ou trazer visões diferentes acerca de um mesmo lugar. Essa mesma postura desconstrucionista pode ser encontrada em outra palestra da autora para o TED, em Sejamos todos feministas (We Should All Be Feminists) Adichie alerta: “A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura”. Foi com esse posicionamento contundente que a autora provocou em seus romances discussões acerca dos costumes machistas perpetuados por algumas tradições, buscando discernir entre o resgatar a tradição extirpada pela colonização, tema intrínseco as literaturas africanas, e o entender o papel dela na contemporaneidade. Em suas obras a autora privilegia as várias histórias sobre a Nigéria, as diversas histórias com as quais ela teve contato e das quais ouviu falar ou criou para dar corpo aos debates contemporâneos acerca da diferença, desigualdade e alteridade presente na sociedade nigeriana. Como compreende Anderson Bastos Martins (2011, p. 111):

Chimamanda representa uma das várias oportunidades que o continente africano possui hoje de reclamar para si o espaço simbólico internacional que os séculos de exploração colonialista lhe negaram. Ela é a mulher negra que desconstrói a gama de estereótipos que o Ocidente disseminou a fim de justificar sua empreitada imperialista.

Adichie é uma das escritoras contemporâneas africanas que escreve sobre a África numa perspectiva transcultural, em que as diversas identidades dos sujeitos africanos são compreendidas em suas obras no debate sobre as relações de alteridade, nos conflitos internos marcados pela experiência da independência e pela influência externa da modernização.

No debate acerca da alteridade, tema presente nas obras de Adichie, pode-se perceber um recurso que leva o leitor a compreender a contemporaneidade dos debates sociais e culturais africanos a partir das relações internas entre os personagens. Esse jogo entre o local e o global, privado e público, revela a tentativa da autora em aproximar o leitor, familiarizá-lo com as situações vividas pelos personagens. As literaturas africanas, ainda estigmatizadas por uma visão essencialmente nacionalista, em que seus temas discorrem acerca do social e sobre as suas culturas que parecem estranhas aos leitores ocidentais, acabam por se distanciar desses mesmos leitores influenciados por uma crítica que potencializa a análise social dos textos literários africanos.

Entretanto, o texto de Adichie parece aproximar esses leitores “estrangeiros”, pois ela tenta criar uma visão diferenciada sobre a África, o que se configura na escolha por personagens de classe média, empresários, intelectuais, universitários, urbanos, cristãos, e, claro, sem esquecer dos personagens pobres, sem escolaridade, rurais e tradicionalistas. A gama de personagens diferenciados, das diversas camadas sociais, financeiras e educacionais, traz o horizonte próximo à realidade dos leitores “ocidentais” que se impressionam com a desmistificação do estereótipo que tinham acerca das sociedades africanas, das quais creditavam ser constituídas somente por uma imagem exótica.

Adichie se preocupa em representar os vários lugares de uma Nigéria constituída pela diversidade, ao caracterizar os espaços urbanos e os indivíduos escolarizados e, muitas vezes, eurocêntricos. Ao fazer isso, ela instala a modernidade nas literaturas africanas, uma modernidade que não tenta se igualar à homogeneização proposta pelos processos de modernização impostos pelo Ocidente, mas uma modernidade local, própria, marcada pelos processos decorrentes da globalização, mas que também negocia com o global a partir de suas singularidades locais, instaurando uma modernidade complexa, transcultural e problemática (TEOTÔNIO, 2013).

Na escolha pela desmistificação dos estereótipos, a maneira com que Adichie prioriza o discurso acerca da diferença e da alteridade é apresentando ao leitor a partir das situações familiares de muitos africanos. Em seus livros, a escolha de núcleos em que despontam histórias de relações entre sujeitos que possuem parentescos revela a tentativa da autora em tornar os personagens familiares aos leitores, além de tentar proporcionar uma normalidade a temas que muitas vezes fogem à realidade de leitores estrangeiros, como também representar as semelhanças entre as histórias contadas no Ocidente com as contadas na África. A estratégia de Adichie é moderna e tenta também afastar as literaturas africanas do rótulo de uma literatura com fins sociais, sem, contudo esquecer de abordar os problemas sociais, mas a partir da comunicação entre o privado e público, proporcionar ao leitor a reflexão acerca dos velhos e novos problemas africanos.

 

Muitas histórias importam

Em Meio sol amarelo (Half Yellow Sun, 2008), o retrato de uma época de duras transformações na Nigéria é feito por Chimamanda Ngozi Adichie com minúcia, caracterizada num grupo de personagens diversos, tão híbridos quanto a nação nigeriana. Os personagens principais do romance, as irmãs Olanna e Kainene e o professor catedrático Odenigbo, também namorado de Olanna, trabalham ativamente na tentativa de tornar  Biafra independente. A residência de Odenigbo e Olana na narrativa é visitada por diversos intelectuais que discutem acerca da situação política e social do mundo e, em especial, da África. Em meio a esse ambiente, Ugwu, menino que veio da aldeia para trabalhar como criado na casa do professor descobre-se maravilhado com o novo universo que encontra distante da vida tradicional da aldeia. Enquanto isso, Richard, tímido britânico com aspirações a escritor, por mais que represente a cultura do colonizador, não demonstra nenhum preconceito pela cultura africana, o que se torna visível na obra em suas relações com os personagens nativos e em sua paixão devotada por Kainene.

Em Hibisco roxo (Purple Hibiscus, 2011) personagens diversos se cruzam e se chocam revelando as diferenças constituintes de uma sociedade como a nigeriana. No encontro com a diversidade, a autora representa um mundo onde os diferentes convivem cotidianamente, em relações que podem ser conflituosas, segregacionistas ou apaziguadoras. Na narrativa, Kambili é a personagem-narradora capaz de emprestar ao leitor um olhar adolescente, observador e descobridor de um mundo de diferenças e contradições. A partir do seu olhar o leitor pode descobrir uma sociedade em que as identidades foram deformadas e transformadas pela presença do colonizador. Com a personagem é possível observar a origem dos preconceitos e suas contradições. Numa família de educação rígida e cristã, a protagonista sofre com o fanatismo religioso de seu pai, Eugene (também chamado, na narrativa, de Papa), rico empresário com sérias dificuldades de aceitação das práticas religiosas tradicionais, revelando um comportamento ambíguo e violento. Beatrice, mãe de Kambili, é uma esposa submissa e maltratada pelo fanatismo do marido.

Kambili e seu irmão Jaja viajam para Nsukka, cidade universitária da Nigéria, para passarem uns dias na casa de Tia Ifeoma, mulher progressista, professora universitária que cria os filhos de maneira libertária, diferentemente de sua cunhada Beatrice. Ao estarem na companhia dos primos Amaka, Obiora e Chima, do Padre Amadi e do avô Papa-Nnukwu, Kambili e Jaja encontram um novo universo, onde a modernidade provocou relações íntimas entre as crenças e obrigou comunidades pobres a buscar pelo progresso depois da derrocada do Estado de Biafra[2].

A comunicação estabelecida entre o público e o privado é um sintoma presente nas literaturas africanas contemporâneas e demonstra a maneira com que essas literaturas tentam encontrar esta “modernidade própria” e se livrar do nacionalismo literário desgastado pelas outras gerações de escritores africanos. Homi K. Bhabha (2005) entende a aproximação do privado e o público, no discurso dessas literaturas, como reconhecimento de um período conturbado de diversidade cultural em que a história invade o espaço doméstico. O indivíduo sente-se estranho ao lar, que na metáfora colonial é o seu lugar de pertença, ao qual ele revela estranhamento por esse estar demasiado transformado pela invasão estrangeira. Sua primeira reação é a de recusa e de rememoração do passado em que o seu lar era familiar, mas logo depois ele permite o encontro e há o reconhecimento do intercultural. Traduzida a metáfora colonial no discurso das literaturas africanas, essas abordam o reconhecimento do encontro, as situações cotidianas que revelam a interferência do público no privado.

Tal prerrogativa pode ser analisada também no livro de contos A coisa à volta do teu pescoço (The Things Around Your Neck, 2009), que sucumbe o social ao privado, buscando tratar das relações familiares, principalmente dos africanos ou descendentes de africanos radicados em outros lugares, como os que vivem nos Estados Unidos.

 

Conclusão

Chimamanda Ngozi Adichie entende a importância de não apagar da memória a exterminação cultural que a colonização proporcionou. Trata-se de entender a impossibilidade de restituição do passado sem que, com isso, seja promovido o esquecimento da violência física e cultural sofrida pelos africanos durante a colonização. Se, na narrativa de Adichie, podem-se perceber os personagens em polos contrários, com o intuito de colocar em debate a exaltação dos costumes europeus, o preconceito às tradições ou até mesmo a crítica ao patriarcalismo dos costumes africanos e a ineficácia de algumas tradições na contemporaneidade, podem-se observar também personagens híbridos que se mantem no “entre-lugar”.

Chimamanda Ngozi Adichie é uma das escritoras contemporâneas que buscam compreender a África em sua complexidade, sem mistifica-la ou imacula-la. Entende que a colonização e o imperialismo, assim como os conflitos internos gerados por uma elite política, são apenas uma das muitas faces de uma história chamada África.

 

Referências bibliográficas:

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Hibisco roxo. Tradução Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Meio Sol Amarelo. Tradução Beth Vieira.  São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A coisa à volta do teu pescoço. Lisboa: Dom Quixote, 2010.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. Lisboa: Dom Quixote, 2013.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

CHAVES, Rita. O passado presente na literatura africana. Revista Via Atlântica, n. 7. out. 2004, p. 147-161.

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Tradução Adelaine La Guardia Resende.  Belo Horizonte: Editora, UFMG, 2009.

HAMILTON, Russel. A literatura dos PALOP e a Teoria Pós-colonial. Rio de Janeiro: Revista Via Atlântica, n.3, dez, 1999.

MARTINS, Anderson Bastos. Interlúdio: Duas mulheres nigerianas, uma experiência privada. Revista Olho D’água. São José do Rio Preto, 2011.

MATA, Inocência.  A literatura africana e a Crítica pós-colonial: Reconversões. Luanda: Editorial Nzila, 2007.

MIGNOLO, Walter. Desobediência epistêmica. A opção descolonial e o significado de identidade em política. Rio de Janeiro. Cadernos de Letras da UFF. Dossiê Literatura, língua e identidade. Nº 34, 2008.

SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

SHOHAT, Ella. STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. Tradução de Marcos Soares. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

TEOTÔNIO, Rafaella Cristina Alves. Por uma modernidade própria: o transcultural nas obras Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie e O sétimo juramento, de Paulina Chiziane. Anais do XIII Congresso Internacional da ABRALIC: a internacionalização do Regional. Campina Grande, PB, 2013. Disponível em: http://editorarealize.com.br/revistas/abralicinternacional/trabalhos/Completo_Comunicacao_oral_idinscrito_593_6188c383826e024bbade87b654b074a5.pdf

 

 

 

 

[1] O vídeo O perigo de uma única história (The Danger of the Single Story) pode ser visto através do link: http://www.youtube.com/watch?v=O6mbjTEsD58.

[2] No pós-1945, os povos iorubás tentaram estabelecer um estado independente, culminando com a resposta dos ibos, traduzida numa eleição para presidência do Estado ibo, institucionalizando as diferenças entres os povos da Nigéria, que, a cada dia, mais enfraqueciam os elos, havendo, portanto, confrontos que terminaram na criação do Estado independente de Biafra. No entanto, a guerra pela fundação desse Estado independente de Biafra não teve êxito e a Nigéria conseguiu unificar seu território com o apoio da Grã-Bretanha e da URSS.

 



Voltar ao topo