ESCRITORES



Cacau





Autor: Jorge Amado
Título: Cacau, Cacao
Idiomas: port, ita
Tradutor: Paolo Collo e Daniela Ferioli(ita)
Data: 28/12/2004

CACAU

Infância


Jorge Amado

Pouco me recordo de meu pai. Ficamos muito crianças eu e minha irmã, ela com três, eu com cinco anos, quando ele morreu. Lembro-me apenas que minha mãe soluçava, os cabelos caídos sobre o rosto pálido, e que meu tio, vestido de preto, abraçava os presentes com uma cara hipócrita de tristeza. Chovia muito. E os homens que seguravam o caixão andavam depressa, sem atender aos soluços de mamãe, que não queria deixar que levassem o seu marido.
Papai, quando vinha da fábrica, me fazia sentar sobre os seus joelhos e me ensinava o abc com a sua bela voz. Era delicado e incapaz, como diziam, de fazer mal a uma formiga. Brincava com mamãe como se ainda fossem namorados. Mamãe, muito alta e muito pálida, as mãos muito finas e muito longas, era de uma beleza esquisita, quase uma figura de romance. Nervosa, às vezes chorava sem motivo. Meu pai tomava-a então nos seus braços fortes e cantava trechos de músicas que faziam com que ela sorrisse. Nunca ralhavam conosco.
Depois que ele morreu, mamãe passou um ano meio alucinada, jogada para um canto, sem ligar aos filhos, sem ligar às roupas, fumando e chorando. Tinha ataques por vezes horríveis. E enchia de gritos dolorosos as noites calmas do meu Sergipe.
Quando após esse ano ela voltou ao estado normal e quis acertar os negócios de papai, meu tio provou, com uma papelada imensa, que a fábrica era dele só, pois meu pai – afirmava com o rosto vermelho e as mãos levantadas num gesto de escândalo – meu pai, meio louco e meio artista, deixara unicamente dívidas que meu tio pagaria para não se desmoralizar o nome da família.
Mamãe silenciou, coitada, e nos apertou nos seus braços, pois nós tremíamos toda a vez que meu tio aparecia com a sua cara vermelha, a sua barriga cultivada, a sua roupa de brim e aqueles seus olhos pequenos e perversos.
Vivia passando as mãos pela barriga. O meu tio… Mais velho que meu pai dez anos, cedo se tocara para o Rio de Janeiro, onde levou muito tempo sem dar notícias e sem que se soubesse o que fazia. Quando os negócios de meu pai estavam prósperos, ele escreveu a queixar-se da vida, dizendo que queria voltar. E veio, logo após a carta. Papai deu-lhe sociedade na fábrica.
Veio com a esposa, tia Santa, santa de verdade, pobre mártir daquele homem estúpido.
Papai vivia inteiramente para nós e para o seu velho piano. Na fábrica conversava com os operários, ouvia as suas queixas, e sanava os seus males quanto possível. A verdade é que iam vivendo em boa harmonia ele e os operários, a fábrica em relativa prosperidade. Nunca chegamos a ser muito ricos, pois meu pai, homem avesso a negócios, deixava escapar os melhores que apareciam. Fora educado na Europa e tivera hábitos de nômade. Esquadrinhara parte do mundo e amava os objetos velhos e artísticos, as coisas frágeis e as pessoas débeis, tudo que dava idéia ou de convalescença ou de fim próximo. Daí talvez a sua paixão por mamãe. Com a sua magreza pálida de macerada, ela parecia uma eterna convalescente. Papai beijava as suas mãos finas devagar, muito de leve, com medo talvez que aquelas mãos se partissem. E ficavam horas perdidas em longo silêncio de namorados que se compreendem e se bastam. Não me recordo de tê-los ouvido fazer projetos.
Nós, eu e minha irmã, éramos como que bonecos para papai e mamãe.
Quando meu tio chegou, mudou tudo. Ele não fora à Europa e se parecia muito com vovó, que fizera, dos dezoito anos de vida em comum com meu avô, uma dessas tantas tragédias anônimas e horríveis que nascem do casamento da estupidez com a sensibilidade. Dava nos filhos dos operários, o que não admirava, porque, como murmuravam pela cidade, ele espancava a esposa.
Pobre tia Santa! Tão boa, amava tanto as crianças e rezava tanto que tinha calos nos dedos, provocados pelas contas do rosário. Morreu e a doença foi o marido. Meu tio deflorara uma operária e fora viver com ela publicamente. Santa não resistiu ao desgosto e morreu com o rosário entre as mãos, pedindo a papai que não abandonasse o miserável.
A fábrica prosperou muito. Nunca consegui compreender por que o salário dos operários diminuiu. Papai, fraco por natureza, não tinha coragem de afastar titio da fábrica, e um dia, quando tocava ao piano um dos seus trechos prediletos, teve uma síncope e morreu.
A cidade subia pelas ladeiras e parava lá em cima, bem junto ao imenso convento. Olhando do alto, via-se a fábrica, ao pé do monte pelo qual se enroscava a cidade como uma cobra de uma só cabeça e inúmeros corpos. Talvez não fosse bela a velha São Cristóvão, ex-capital do Estado, mas era pitoresca, pejada de casas coloniais, um silêncio de fim de mundo, as igrejas e os conventos a abafarem a alegria das quinhentas operárias que fiavam na fábrica de tecidos.
Acho que meu pai montara a fábrica em São Cristóvão devido à decadência da cidade, à sua paz e ao seu sossego, triste cidade parada que devia apaixonar os seus olhos e o seu espírito cansado de paisagens e de aventuras.
Nós morávamos então num enorme e secular sobrado, ex-morada particular dos governadores, uma pesadíssima porta de entrada, as janelas irregulares, todo pintado de vermelho, grandes quartos, nos quais eu e Elza nos perdíamos durante o dia brincando de picula. À noite, por brinquedo algum entraríamos num deles, pois temíamos as almas vagabundas do outro mundo, almas penadas que assoviavam e arrastavam correntes, segundo a veracíssima versão de Virgulina, preta centenária que criara mamãe e nos criava agora.
Ao lado da nossa casa ficava o ex-palácio do governo, quase a cair, transformado em quartel onde alguns soldados habitavam, sujos e preguiçosos. Em frente, o orfanato, seis freiras e oitenta meninas, filhas de operárias e pais ignorados. Essas meninas não saíam. Algumas, quando crescidas, voltavam à fábrica onde haviam nascido, e de onde mandariam novas meninas, sem sobrenome, para o orfanato. Outras, as mais alvas, iam ser freiras e se estendiam pelo país. Mais adiante, o convento de São Francisco, tão grande, tão silencioso, que eu nunca consegui vê-lo sem um certo receio. Habitavam-no apenas quatro frades, mas esses quatro frades dominavam a cidade. Faziam sermões, onde fantasiavam das cores mais negras o inferno. E essas coisas ditas naquela língua meio alemã, meio brasileira, pareciam mais horríveis ainda. Nós, os garotos, temíamos o inferno e temíamos ainda mais os frades.
Sinval, meu futuro companheiro de vagabundagem, me contava que eles obrigavam os operários a trabalhar de graça na remodelação da catedral (onde havia um gigantesco São Cristóvão, apoiado num coqueiro, carregando um minúsculo Menino Jesus, tudo isso bordado de ouro) e aqueles que não se sujeitavam eram denunciados a meu tio, convidado freqüente do jantar dos padres, que os despedia.
As casas, todas antiquadas e atijoladas, estendiam-se pela praça do convento e equilibravam-se pelas ladeiras.
À noite, botavam cadeiras no passeio e as velhas contavam histórias engraçadas do tempo do meu avô. Os garotos ficavam correndo em volta do cruzeiro, negro do tempo.
As raras moças ricas iam para o colégio das freiras em Aracaju, e quando voltavam professoras tinham sempre um noivo bacharel, muita malícia e assassinavam, no dizer de meu pai, músicas modernas ao piano.
Isso pelas ladeiras e pela praça era gente fina, a elite, a aristocracia. Lá embaixo ficava a fábrica, a vila operária, a plebe.

A fábrica era um caixão branco cheio de ruídos e de vida. Setecentos operários, dos quais quinhentas e tantas mulheres. Os homens emigravam, dizendo que trabalhar em fiação é só pra mulher. Os mais fracos não iam e casavam e tinham legiões de filhas, que substituíam as avós e as mães quando já incapazes abandonavam o serviço.
O nascimento de uma filha, recebiam-no com alegria. Mais duas mãos para o trabalho. Um filho, ao contrário, consideravam um desastre. O filho comia, crescia e ia embora ou para os cafezais de S. Paulo ou para os cacauais de Ilhéus, numa ingratidão incompreensível. Saindo da fábrica atravessava-se uma pinguela sobre um ribeiro e chegava-se à vila Cu com Bunda, moradia de quase todos os operários. Um grande retângulo, no qual os fundos das casas se encontravam. Daí o nome pitoresco que lhe haviam posto. No meio dessas casinhas avultavam a enfermaria e o gabinete dentário. O dentista vinha de Aracaju duas vezes por semana. Sinval dizia:
–Operário só pode ter dor de dentes terças e sextas…
O enfermeiro residia em São Cristóvão, porém, cabo eleitoral do meu tio, perdia muito tempo nisso.
A vila Cu com Bunda, a plebe, alegrava-se à noite quando as violas diziam cocos e a garrafa de pinga corria de mão em mão. Os operários liam então as cartas dos parentes que estavam em Ilhéus e faziam projetos de uma emigração coletiva.
O cacau exercia sobre eles uma fascinação doentia. Os frades de quando em vez desciam e, procurando não se aproximar dos meninos piolhentos, sorriam para os operários e falavam de um consertozinho na igreja ou no convento…
Quando meu pai morreu e após meu tio declarar a nossa miséria, fomos morar numa casinhola no começo de uma ladeira. Eu fiquei muito mais perto do proletariado da Cu com Bunda do que da aristocracia da decadente São Cristóvão.
Acostumei-me a jogar futebol com os filhos dos operários. A bola, pobre bola rudimentar, fazia-se de bexiga de boi cheia de ar. Tornei-me camarada de um garoto chamado Sinval, rebento único de uma operária cujo marido morrera em São Paulo, metido numas encrencas com a polícia, não sei bem por quê. Sei que os operários falavam dele como de um mártir. E Sinval desancava os patrões o mais que podia. Franzino, os ossos quase a aparecer, possuía no entanto uma voz firme e um olhar agressivo. Chefiava a gente nos furtos às mangas e cajus dos sítios vizinhos. E toda vez que meu tio passava cuspia de lado. Dizia que apenas completasse dezesseis anos embarcaria para São Paulo, para lutar como seu pai. Só muito depois é que eu vim compreender o que significava tudo isso.
Freqüentamos, eu e Elza, a escola. Mamãe fazia rendas e seus pais ajudavam o nosso sustento. Quando fiz quinze anos fui trabalhar na fábrica. Eu era então um rapazola forte, troncudo. O menino anêmico que eu fora se transformara em um adolescente de músculos rijos treinados em brigas de moleques.
Aparentava muito mais idade do que tinha realmente. Vivera sempre entre os molecotes pobres da cidade, pobre que eu era como eles. Agora ia ser igual a eles completamente, operário de fábrica. Sinval não me diria mais com seu sorriso mofador:
–Menino rico…
Cinco anos aturei na fábrica a brutalidade do meu tio. Sinval, aos dezessete, vendera o que possuía em roupas e móveis e tocara para as fábricas ou para as fazendas de São Paulo. A primeira e última notícia que tivemos dele foi dois anos depois. Estava metido numa greve e esperava ser preso a qualquer momento. Depois nem uma carta, nem um bilhete, nada. Os operários afirmavam:
–Seguiu o destino do pai – e cerravam os punhos enraivecidos. Mas a fábrica apitava e eles se curvavam, magros e silenciosos.
Minhas mãos estavam então calejadas e meus ombros, largos. Esquecera muito do pouco que aprendera na escola, mas em compensação sentia um certo orgulho da minha situação de operário. Não trocaria meu trabalho na fiação pelo lugar de patrão. Meu tio, o dono, estava bem mais velho e mais vermelho e mais rico. A barriga era o índice da sua prosperidade. À proporção que meu tio enriquecia ela se avolumava. Estava enorme, indecente, monstruosa. Poucas fortunas em Sergipe se igualavam nesse tempo à sua. Dava esmolas unicamente ao convento (onde papava jantares) e ao orfanato. A este ele dava esmolas e órfãs. Não se podia contar pelos dedos, nem juntando os dos pés, o número de operárias desencaminhadas por meu tio.

Paixão que tive aos quatorze anos por uma rameira gasta e sifilítica, com a qual iniciei a minha vida sexual. Amor, aos dezoito, platônico, por uma loura pequena do orfanato que foi ser freira e enfim, aos vinte, o pensamento de me amigar com a Margarida, operária como eu. Isso deu maus resultados. Meu tio andava também de olho na Margarida, que ostentava uns seios altos e alvos, junto a um rosto de criança travessa. Margarida um dia me contou que o patrão andava a apalpá-la. E ria, cínica. Eu acho que foi o seu riso que me fez ir às fuças do meu tio. Estraguei-lhe a cara hipócrita. Fui despedido.

São Paulo parecia à minha mãe e a Elza o fim do mundo. Por nada deixariam que eu fosse para lá. Eu comecei a falar em Ilhéus, terra do cacau e do dinheiro, para onde iam levas e levas de emigrantes. E como Ilhéus ficava apenas a dois dias de navio de Aracaju, elas consentiram que eu me jogasse, numa manhã maravilhosa de luz, na terceira classe do Murtinho, rumo à terra do cacau, eldorado em que os operários falavam como da terra de Canaã.
Mamãe chorava, Elza chorava, quando me abraçaram na tarde em que segui para Aracaju – tomar o vapor. Eu olhei a velha cidade de São Cristóvão, o coração cheio de saudade. Tinha certeza de que não voltaria mais à minha terra.
Os filhos dos operários jogavam futebol com uma bexiga de boi cheia de ar.

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Fonte: AMADO, Jorge. Cacau: romance. 50ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 7-15.

 

 

 

 

CACAO

Infanzia


Jorge Amado

Mio padre lo ricordo poco. Eravamo molto piccoli io e mia sorella, lei aveva tre anni, io cinque, quando morì. Ricordo solo che mia madre piangeva, i capelli sciolti sul viso pallido e che mio zio, vestito di nero, abbracciava i presenti con un’espressione ipocrita di tristezza. Pioveva forte. E gli uomini che reggevano la bara camminavano in fretta, non badando ai singhiozzi della mamma che non voleva che portassero via suo marito.
Papà, quando tornava dalla fabbrica, mi prendeva sulle ginocchia e mi insegnava l’abc con la sua bella voce. Era delicato e incapace, come dicevano, di far male a una mosca. Scherzava con la mamma come se fossero ancora fidanzati. La mamma, molto alta e molto pallida, le mani sottili e molto lunghe, era di una bellezza particolare, quasi un personaggio da romanzo. Nervosa, a volte piangeva senza ragione. Mio padre allora la prendeva tra le braccia e le cantava brani di canzoni che la facevano sorridere. Non ci sgridavano mai.
Quando papà morì, la mamma passò un anno come impazzita, buttata da una parte, non badava ai figli, non si curava di vestirsi, fumando e piangendo. A volte aveva attacchi orribili. E riempiva di grida straziate le notti quiete del mio Sergipe.
Quando dopo un anno ritornò normale e volle occuparsi degli affari di papà, mio zio provò con un mucchio di scartoffie che la fabbrica era solo sua, dato che mio padre – affermava con il viso rosso e le mani levate in segno di scandalo –, testamatta e artistoide, aveva lasciato solo debiti che lo zio avrebbe pagato per non rovinare il buon nome della famiglia.
La mamma non seppe che dire, poveretta, e ci strinse forte tra le braccia, perché noi tremavamo ogni volta che lo zio compariva con quella faccia rossa, la pancia lievitata, il vestito di lino e gli occhi piccoli e cattivi.
Si passava di continuo la mano sulla pancia. Mio zio… Maggiore di mio padre di dieci anni, era partito presto per Rio de Janeiro e ci era rimasto a lungo senza dare notizie e senza che si sapesse che cosa stesse facendo. Quando gli affari di mio padre cominciarono ad andare bene, lui scrisse lamentandosi della vita che faceva, dicendo che voleva tornare. E si presentò, subito dopo la lettera. Papà lo prese in fabbrica come socio.
Arrivò con la moglie, la zia Santa, santa di nome e di fatto, povera martire di quell’uomo stupido.
Papà viveva solo per noi e per il suo pianoforte. In fabbrica parlava con gli operai, ascoltava le loro lamentele, e risolveva i loro problemi per quel che poteva. La verità è che vivevano in buona armonia lui e gli operai, e la fabbrica andava piuttosto bene. Non siamo diventati mai molto ricchi, perché mio padre, inadatto agli affari, si lasciava scappare i più redditizi. Era stato educato in Europa e gli piaceva viaggiare. Aveva girato quasi tutto il mondo e amava gli oggetti vecchi e artistici, le cose fragili e le persone deboli, tutto quello che dava un’impressione o di convalescenza o di fine prossima. Da questo forse derivava la sua passione per la mamma. Con quella magrezza pallida di donna tormentata, sembrava un’eterna convalescente. Papà baciava le sue mani sottili piano piano, leggermente, come se avesse paura di romperle. E restavano per ore persi in lunghi silenzi da innamorati che si capiscono e si bastano. Non ricordo di averli mai sentiti fare dei progetti.
Noi due, io e mia sorella, eravamo delle bambole per papà e mamma.
Quando arrivò lo zio cambiò tutto. Non era stato in Europa e somigliava molto alla nonna che aveva fatto dei diciotto anni di vita in comune con mio nonno una delle tante tragedie anonime e terribili che nascono dal matrimonio della stupidità con la sensibilità. Lo zio picchiava i figli degli operai, e non c’era da meravigliarsi perché, come si mormorava in città, picchiava la moglie.
Povera zia Santa! Così buona, amava tanto i bambini e pregava talmente che aveva i calli alle dita da tanto snocciolare rosari. Morì e la causa fu il marito. Mio zio aveva sverginato un’operaia ed era andato a vivere con lei pubblicamente. Zia Santa non resse al dispiacere e morì con il rosario tra le mani, chiedendo a papà di non abbandonare il miserabile.
La fabbrica andava molto meglio. Non ho mai capito perché il salario degli operai diminuì. Papà, debole di natura, non aveva il coraggio di allontanare lo zio dalla fabbrica e un giorno, mentre suonava al piano uno dei suoi brani preferiti, ebbe una sincope e morì.
La città si arrampicava sulle colline e si fermava in cima, proprio vicino al grande convento. Guardando da lassù, si vedeva la fabbrica ai piedi del colle sul quale si attorcigliava la città come un serpente con una sola testa e tanti corpi. Forse non era bella la vecchia São Cristovão, ex capitale dello Stato, ma era pittoresca, piena di case coloniali, un silenzio da fine del mondo, le chiese e i conventi smorzavano l’allegria delle cinquecento operaie della fabbrica di tessuti.
Credo che mio padre avesse impiantato la fabbrica a São Cristovão attratto dalla decadenza della città, dalla sua quiete e tranquillità, triste città immota che aveva fatto innamorare i suoi occhi e il suo spirito stanco di paesaggi e di avventure.
Abitavamo allora in un enorme e secolare palazzotto, ex residenza di governatori, un pesantissimo portone all’entrata, le finestre irregolari, tutto dipinto di rosso, stanze grandi in cui io ed Elza ci perdevamo durante il giorno giocando a mosca cieca. La sera non vi saremmo entrati per nessun gioco perché avevamo paura dei fantasmi vagabondi dell’aldilà, anime in pena che sibilavano e trascinavano catene, secondo l’attendibilissima versione di Virgulina, negra centenaria che aveva allevato la mamma e adesso allevava noi.
A fianco di casa nostra c’era l’ex palazzo del governo, quasi in rovina, trasformato in una caserma dove abitavano pochi soldati, sporchi e indolenti. Di fronte, l’orfanotrofio, sei suore e ottanta bambine, figlie di operaie e padri ignoti. Le bambine non uscivano. Qualcuna, diventata grande, tornava alla fabbrica dov’era nata e da dove avrebbe mandato altre bambine, senza cognome, all’orfanotrofio. Altre, quelle con la pelle più chiara, diventavano suore e si spargevano nel Paese. Più avanti c’era il convento di São Francisco, così grande, così silenzioso, che non riuscii mai a guardarlo senza soggezione. Lo abitavano solo quattro frati, ma i quattro frati dominavano la città. Predicavano sermoni in cui vestivano l’infemo delle tinte più fosche. E tutte queste cose, dette in quella lingua mista di portoghese e di tedesco, ci sembravano ancora più orribili. Noi ragazzi avevamo paura dell’inferno e avevamo ancora più paura dei frati.
Sinval, il mio futuro compagno di avventure, ci raccontava che obbligavano gli operai a lavorare gratis al restauro della cattedrale (dove c’era un gigantesco São Cristovão appoggiato a una palma da cocco, con in braccio un piccolo Gesù Bambino, il tutto decorato d’oro) e quelli che rifiutavano venivano denunciati a mio zio, invitato spesso alla mensa dei frati, che li licenziava.
Le case, tutte antiche e di mattoni, si estendevano sulla piazza del convento e si tenevano in equilibrio lungo le strade che ne scendevano.
La sera, si mettevano le sedie per strada e le vecchie raccontavano storie divertenti dell’epoca di mio nonno.
I ragazzi si rincorrevano intorno alla croce, annerita dal tempo.
Le poche ragazze ricche andavano in collegio ad Aracaju e, quando tornavano con il diploma di maestra, avevano un fidanzato laureato, molta malizia e, secondo mio padre, assassinavano al piano la musica moderna.
Quelli che abitavano in piazza o nelle strade sulle colline, erano l’élite, l’aristocrazia. Là sotto c’erano la fabbrica, il quartiere operaio, la plebe.

La fabbrica era un cassone bianco pieno di rumore e di vita. Settecento operai, dei quali più di cinquecento erano donne. Gli uomini emigravano dicendo che «lavorare in filanda è un lavoro da femmine». I più timidi non partivano e si sposavano e avevano legioni di figlie, che sostituivano le nonne e le madri quando queste non ce la facevano più e smettevano di lavorare.
La nascita di una figlia era accolta con gioia. Due mani in più per il lavoro. Un maschio, al contrario, era considerato una sciagura. Il figlio mangiava, cresceva e se ne andava o nelle piantagioni di caffè intorno a São Paulo o in quelle di cacao di Ilhéus con un’ingratitudine incomprensibile. Uscendo dalla fabbrica si passava su una trave a cavallo di un ruscello e si arrivava al quartiere Cu com Bunda, culo e sedere, dove abitavano quasi tutti gli operai. Un grande rettangolo in cui le case confinavano dalla parte di dietro. Da cui il nome pittoresco. Tra le piccole case spiccavano l’infermeria e lo studio dentistico. Il dentista veniva da Aracaju due volte la settimana. Sinval diceva:
«Un operaio può avere mal di denti solo martedì e venerdì…»
L’infermiere abitava a São Cristovão, però era impegnato nella campagna elettorale di mio zio e le dedicava quasi tutto il tempo.
Nel quartiere Cu com Bunda, la gente si divertiva la sera quando le chitarre cantavano cocos e la bottiglia di acquavite passava di mano in mano. Gli operai leggevano allora le lettere dei parenti che abitavano a Ilhéus e progettavano di emigrare tutti insieme.
Il cacao esercitava su di loro un fascino malato. I frati ogni tanto scendevano dal convento e, stando attenti a non avvicinarsi ai bambini pieni di pidocchi, sorridevano agli operai e parlavano di «piccoli interventi alla chiesa o al convento»…

Quando mio padre morì e dopo che lo zio ebbe decretato la nostra indigenza, andammo ad abitare in una casupola all’inizio di una discesa. Mi avvicinai molto più al proletariato del Cu com Bunda che all’aristocrazia della decadenre São Cristovão.
Mi abituai a giocare a calcio con i figli degli operai. Il pallone, povera palla rudimentale, era una vescica di bue riempita d’aria. Diventai amico di un ragazzo, Sinval, unico figlio di un’operaia il cui marito era morto a São Paulo coinvolto in uno scontro con la polizia, non so bene perché. So che gli operai dicevano che era un martire. E Sinval faceva danni contro i padroni più che poteva. Mingherlino, le ossa quasi a vista, aveva però la voce sicura e lo sguardo aggressivo. Era il nostro capo quando andavamo a rubare la frutta nelle fattorie vicine. E ogni volta che passava mio zio, sputava per terra. Diceva che appena avesse compiuto sedici anni, sarebbe andato a São Paulo a combattere come suo padre. Soltanto molto tempo più tardi capii che cosa intendeva.
Elza e io andavamo a scuola. La mamma faceva pizzi e i suoi genitori l’aiutavano a mantenerci. A quindici anni andai a lavorare in fabbrica. Ero un ragazzotto robusto, con il torace ben sviluppato. Il bambino anemico che ero stato si era trasformato in un adolescente con muscoli sodi rinvigoriti nelle lotte tra ragazzi. Dimostravo più anni di quelli che avevo. Avevo sempre vissuto tra i monelli poveri della città, povero come loro. Adesso sarei stato uguale a loro in tutto, operaio della fabbrica. Sinval non mi avrebbe più detto con quel sorriso burlone:
«Signorino ricco…»

Per cinque anni sopportai in fabbrica la brutalità di mio zio. Sinval a diciassette anni aveva venduto quel po’ di roba e mobili che possedeva ed era andato a cercare lavoro in fabbrica o in fazenda a São Paulo. Le prime e ultime notizie che avemmo di lui arrivarono due anni dopo. Era impegnato in uno sciopero e si aspettava di venire arrestato da un momento all’altro. Poi più niente, né una 1ettera, né un messaggio. Gli operai dicevano:
«Ha fatto la fine del padre», e furiosi stringevano i pugni. Ma la sirena della fabbrica fischiava e loro si piegavano, scarni e silenziosi.
Le mie mani erano callose e le spalle larghe. Avevo dimenricato molto del poco imparato a scuola, ma in compenso ero piuttosto orgoglioso di essere operaio. Non avrei cambiato il mio posto in filanda con quello di padrone. Mio zio era molto più vecchio, molto più rosso e molto più ricco. La pancia era l’indice della sua prosperità. Quanto più lo zio arricchiva, tanto più la pancia aumentava. Era enorme, indecente, mostruosa. Pochi patrimoni a Sergipe erano uguali al suo. Elargiva elemosine solo al convento (dove sbafava cene) e all’orfanotrofio. A questo dava soldi e orfane. Non si poteva contare sulle dita, neanche sommando quelle dei piedi, il numero di operaie rovinate da mio zio.

A quattordici anni ebbi una passioncella per una puttana consunta e sifilitica, con la quale iniziai la vita sessuale. L’amore, a diciotto anni, platonico, per una biondina che si fece suora e infine, a vent’anni, il progetto di andare a vivere con Margarida, operaia come me. Non fu una buona idea. Anche mio zio aveva messo gli occhi su Margarida, seni alti e bianchi, un faccino da bambina maliziosa. Margarida un giorno venne a dirmi che il padrone la palpava. E rideva, impudente. Credo sia stata la sua risata a farmi aggredire lo zio. Gli spaccai la faccia ipocrita. Mi licenziò.

Per mia madre e per Elza, São Paulo era la fine del mondo. Non mi avrebbero mai permesso di andarci. Allora cominciai a parlare di Ilhéus, terra di cacao e di denaro, dove si dirigevano generazioni di emigranti. E dato che Ilhéus era a due soli giorni di nave da Aracaju, mi permisero, un mattino meraviglioso di luce, di saltare a bordo del Murtinho, in terza classe, diretto alla terra del cacao, l’Eldorado di cui gli operai parlavano come della terra di Canaan.
La mamma piangeva, Elza piangeva, quando mi abbracciarono il giorno che partii per Aracaju a prendere il vapore. Guardai la vecchia città di São Cristovão, il cuore pieno di nostalgia. Ero sicuro che non sarei più tornato.
I figli degli operai giocavano a calcio con una vescica di bue riempita d’aria.

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Fonte: AMADO, Jorge. Cacao. In: Jorge Amado: romanzi. [La revisione delle traduzioni è a cura di Paolo Collo e Daniela Ferioli]. Milano: A. Mondadori, 2002. p. 145-52.



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