REVISTA LITCULT78Revista LitCult - Vol.1 - 2001



BEATRIZ LUZ: PORTAIS DE TRAÇO ORIENTAL SOBRE PAPEL DE ARROZ – Luiza Lobo





Resumo:
Este texto é uma reformulação de uma resenha sobre a exposição de Beatriz Luz no Museu Nacional de Belas Artes publicada no Jornal do Commercio.

Texto:

BEATRIZ LUZ: PORTAIS DE TRAÇO ORIENTAL SOBRE PAPEL DE ARROZ

 

Luiza Lobo

Neste desenho intitulado “Construções”, de toda uma série feita em papel de arroz, que Beatriz Luz já expôs no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e na galeria do Palácio de Catete, nota-se a autonomia dada ao traço grosso do pincel sobre o papel fino e quase diáfano. Beatriz Luz é uma artista plástica de Florianópolis que se radicou no Rio de Janeiro, onde fez diversas exposições, além de em Cabo Frio e, nos últimos anos, no Porto. Poeta, escreve seus poemas num certo tom enigmático que a acompanha também na vida real, e os imprime ao lado de ilustrações depuradas feitas por ela a nanquim. Em toda a série de “Construções”, ganha destaque a qualidade e a leveza do papel em contraste com a densidade da pincelada grossa e solta, que espalha a tinta. Enquanto nos seus livros de poesia utiliza o papel amarelado de pesada gramatura, que transforma cada folha numa obra avulsa, digna de ser enquadrada, não fosse seu tamanho diminuto, nos desenhos faz uso do delicado papel branco que recebe as pinceladas pesadas em cinza, negro e marrom. As formas têm correspondência com portais e labirintos em transparências, que ela mesma associa a antigos conventos espanhóis, assim como com algo de performático, presente no desenho ideogramático oriental.

Beatriz Luz travou contato estreito com esta forma oriental de pintar nas aulas tomadas em Cabo Frio, onde viveu durante a década de 1970, do artista plástico francês Jean Guilhomme. Este francês ali permaneceu por muito tempo, tornando-se figura de destaque e influenciando e orientando toda uma geração de pintores locais, até sua morte, em Cabo Frio mesmo. Ele recebera sua formação artística no Oriente, inclusive no Tibé, residindo muitos anos no Vietnã, onde aprendeu técnicas de desenho sobre papel de arroz. Fora professor da tradicional escola livre de Paris, a Grand Chaumière, onde estudaram os impressionistas franceses, a qual funciona de modo semelhante aos cursos livres do Parque Lage. A partir de Guilhomme Beatriz Luz aprendeu a técnica de desenho oriental, segundo a qual passou a pintar num só traço, num só gesto, numa única respiração, de pé, diante do cavalete, num trabalho com o corpo inteiro. Retomando a simplicidade das coisas primárias, quando não está em seuatelier em Cabo Frio, pinta no silêncio da sua cozinha de ladrilhos brancos e imaculados de seu apartamento. Seu intuito é captar, no espaço branco do papel, com uma só pincelada de fio grosso e bem marcado, o vazio, o absoluto, o estado de meditação e silêncio.

Também a partir das aulas que teve, desta vez na Escola de Artes do Parque Lage, Beatriz Luz mostra filiação ao construtivismo. Cada um dos seus desenhos da série de “Construções” é uma forma de reconstituição do mundo concreto: a casa, a igreja, plantas baixas, a catedral, sempre através de cores e riscos sintéticos. Nessas formas, revive sobras de sonhos, que imagina ter vivido noutras atmosferas, quem sabe noutras incarnações. Na opinião da artista, a técnica construtivista é inata ao brasileiro, encontrando-se na arquitetura e na fachada das casas dos subúrbios e do Nordeste, surgindo como movimento de tendência geométrica espontaneísta, quem sabe devido à tradição geométrica da arte africana ou indígena do país.



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