ESCRITORES



AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS





Autor: Autran Dourado
Título: AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS, IMAGINACIONES PECAMINOSAS
Idiomas: port, esp
Tradutor: Cecilia Garat
Data: 26/12/2004

AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS


UM AJUSTE DE CONTAS


Autran Dourado

De repente, no Campinho, sem que ao menos suspeitasse que estava sendo seguido, Valeriano se viu cara a cara com Orozimbo Preto. Não pôde fazer nada senão erguer os braços para se mostrar desarmado e entregue. Porque Orozimbo Preto já estava de arma em punho, engatilhada. A arma era um Agaó com mola Smith, muito parecido com um que ele teve de deixar às pressas na casa de Natália quando saltou a janela e o muro, seguido de gritos e tiros. A voz era do coronel Justino Pessegueiro de Sousa, mas ele não vinha sozinho. Valeriano não tinha chegado a se desvestir, apenas tirara o cinturão com o coldre e o revólver Agaó. Ainda tentou apanhar a arma, mas Natália, fingindo que sem querer, lhe barrou o caminho. Melhor perder um Agaó do que perder a vida, pensou ligeiro. Viu logo que tinha caído numa esparrela, tudo por obra e graça de Natália, a quem vinha seguindo desde que o coronel Justino a tirara do bordel da Ponte e montara casa para ela. O coronel gostava de carne nova e era muito cioso das suas mocinhas. Por causa dela dois já tinham perdido a vida: o irmão que matara Quincas em defesa da honra e fora morto por Orozimbo Preto, que do alto da torre da Igreja do Carmo espiava os dois se defrontarem.
Durante alguns dias andou escondido, com medo de uma vingança do coronel. Como nada acontecesse, tomou coragem, achou que a corrida tinha sido suficiente, o coronel Justino se dera por satisfeito. Por isso andava agora despreocupado e chegou mesmo a passar pela porta de Natália, mas ela não estava na janela ou se escondera para que ele não a visse, foi o que achou mais provável.
E agora, de repente, Orozimbo Preto, que andava foragido desde a morte daqueles dois no Largo do Carmo, aparecia na sua frente, o revólver pronto para cuspir fogo. A idéia de que ia morrer sem poder ao menos fazer um gesto de defesa lhe parecia injusta. Quem sabe Orozimbo Preto não vinha apenas lhe dar um aviso, ter um particular com ele? Se quisessem, não passaria mais pela porta de Natália, deixaria mesmo a cidade para sempre. Porque tudo aquilo lhe parecia obra do coronel Justino, era a sua maneira de justificar. Além de Natália, nada lhe pesava na consciência. Quem sabe se conversando os dois não se entendiam?
A cara de Orozimbo Preto não parecia de muita conversa, tinha mesmo meio riso amargo na boca (ou era mais um sestro dele?) que deixava ver as pontas dos dentes escuros, a boca quase sem lábios. O olho esquerdo piscava seguidamente, ao contrário do direito, brilhoso e parado como se fosse de vidro. A má catadura e ali parado, empunhando o Agaó, Orozimbo Preto parecia esperar alguma coisa. Se fosse para atirar logo, já teria atirado, profissional que era.
Por quê? foi tudo o que Valeriano conseguiu, num grande esforço, dizer. Você sabe por quê, foi o que me mandaram lhe dizer, disse Orozimbo.
Mas Orozimbo Preto ainda não se decidia a fazer o serviço.
E se eu me mandasse da cidade, nunca mais desse as caras, perguntou tentando uma última saída. Não recebi ordens pra decidir, não era comigo que você tinha de falar, disse Orozimbo Preto. A quem então? disse Valeriano cansado de saber com quem tinha de falar, se lhe fosse dada uma oportunidade. Não sei, isso não é comigo, disse Orozimbo. Só mandaram que eu perguntasse se você conhecia este Agaó. Está me parecendo o meu, disse Valeriano. Que você esqueceu numa certa casa onde nunca devia ter ido, disse Orozimbo Preto.
Adianta eu fazer alguma coisa, perguntou Valeriano depois de sufocante silêncio. Acho que não, disse Orozimbo Preto. A propósito, este Agaó nega fogo? Comigo nunca negou, disse Valeriano decidido, sua vida não valia mesmo mais nada. Vamos ver, disse Orozimbo Preto e calcou o gatilho. Um estrondo, um baque. Orozimbo Preto ainda atirou mais duas vezes sobre o corpo caído no chão.

___________________

Fonte: DOURADO, Autran. As imaginações pecaminosas. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 11-3.

IMAGINACIONES PECAMINOSAS


UN AJUSTE DE CUENTAS


Autran Dourado

De repente, en Campinho, sin que siquiera sospechase que lo estaban siguiendo, Valeriano se encontró cara a cara con Orozimbo Preto. No pudo hacer nada sino levantar los brazos para mostrarse desarmado y entregarse. Porque Orozimbo Preto ya estaba con el arma en la mano, lista. El arma era un H.O. con resorte Smith, muy parecido a uno que tuvo que dejar a los apurones en la casa de Natalia cuando saltó la ventana y el muro, seguido de gritos y tiros. La voz era la del coronel Justino Pessegueiro de Sousa, pero no estaba solo. Valeriano no había llegado a desvestirse, sólo se había sacado el cinturón con la cartuchera y el revólver H.O. Intentó tomar el arma, pero Natalia, fingiendo que lo hacía sin querer, le cerró el camino. Mejor perder un H.O. que perder la vida, pensó rápido. Enseguida se dio cuenta que había caído en una trampa, todo por obra y gracia de Natalia, a quien venía siguiendo desde que el coronel Justino la sacó del burdel del Puente y le montó casa. Al coronel le gustaba la carne nueva y era muy celoso de sus mujeres. Por culpa de ella dos ya habían perdido la vida: el hermano, que había matado a Quincas en defensa del honor y que fuera muerto por Orozimbo Preto, quien desde lo alto de la torre de la Iglesia do Carmo espiaba a los dos mientras se enfrentaban.
Durante algunos días anduvo escondido, con miedo de una venganza por parte del coronel. Como nada sucediera, se armó de coraje, pensó que la carrera había sido suficiente y que el coronel Justino se había dado por satisfecho. Por eso ahora andaba despreocupado y hasta pasó por la puerta de Natalia, pero ella no estaba en la ventana o se había escondido para que no la viese, que fue lo que le pareció más probable.
Y ahora, de repente, Orozimbo Preto, que andaba forajido desde la muerte de aquellos dos en el Largo do Carmo, se le aparecía de frente, con el revólver listo para escupir fuego. La idea de que iba a morir sin poder hacer al menos un gesto de defensa le parecía injusta. ¿Quién sabe si tal vez Orozimbo no venía sólo para hacerle una advertencia, para tener una charla? Si quisieran, no pasaría más por la puerta de Natalia, hasta dejaría la ciudad para siempre. Porque todo aquello le parecía obra del coronel Justino, era su manera de hacer justicia. Además de Natalia, nada le pesaba en la conciencia. ¿Quién sabe si conversando los dos no se entendían?
La cara de Orozimbo Preto parecía de pocos amigos, había media sonrisa amarga en su boca (¿o era más bien una mueca?) que dejaba ver la punta de sus dientes oscuros, la boca casi sin labios. El ojo izquierdo pestañeaba muy seguido, al contrario del derecho, brilloso y fijo como si fuera de vidrio. Con su horrible facha y ahí parado, empuñando el H.O., Orozimbo Preto parecía esperar algo.
¿Por qué? Fue todo lo que Valeriano consiguió decir con gran esfuerzo. Ya sabes por qué, fue lo que me mandaron decirte, dijo Orozimbo.
Pero Orozimbo Preto todavía no se decidía a hacer el trabajo.
Y si yo me fuera de la ciudad, si nunca más vieran mi cara, preguntó intentanto una última salida. No recibí órdenes para decidir, no era conmigo con quien tenías que hablar, dijo Orozimbo Preto.
¿Con quién entonces? dijo Valeriano cansado de saber con quien tenía que hablar, si le dieran una oportunidad. No sé, yo no tengo nada que ver, dijo Orozimbo. Sólo me mandaron preguntar si conocías este H.O. Me parece que es el mío, dijo Valeriano. El que te olvidaste en cierta casa donde nunca debías haber ido, dijo Orozimbo Preto.
¿Hay algo que yo pueda hacer? preguntó Valeriano después de un silencio sofocante. Creo que no, dijo Orozimbo Preto. A propósito, ¿este H.O. falla? A mí nunca me falló, dijo Valeriano decidido, su vida ya no valía nada. Vamos a ver, dijo Orozimbo Preto y apretó el gatillo. Un estruendo, un ruido, Orozimbo Preto todavía tiró dos veces más sobre el cuerpo caído en el suelo.

______________________

Fonte: DOURADO, Autran. Imaginaciones pecaminosas. Traducción de Cecilia Garat. Buenos Aires: Emecé, 1983. p. 15-7.



Voltar ao topo