Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



AS FIGURAS FEMININAS NAS OBRAS REGIONAIS DE AFRÂNIO PEIXOTO – Helena Maria Alves Moreira





 

Helena Maria Alves Moreira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

RESUMO: Este artigo tem como perspectiva identificar as representações da mulher, seus costumes, suas tradições, seus pertencimentos, através das figuras femininas das personagens que Afrânio Peixoto imprimiu em seus romances. Também são abordados aspectos da educação das mulheres no início do século XX, e sua influência nas transformações socioculturais ocorridas desde então, com ecos na literatura brasileira. O tema desta pesquisa é o estudo da obra literária de Afrânio Peixoto sobre gênero literário – os romances regionais – com um olhar voltado para as personagens femininas de seus romances. É relevante refletir sobre a representação e a valorização da mulher no seu cotidiano feminino naquela e em outras épocas ou regiões do Brasil, para que possamos revisar obras já consagradas pela literatura brasileira, na intenção de reconstruir o passado, numa singela tentativa de identificar a pluralidade da identidade feminina. Este desafio a um tempo nos remete ao passado e o liga ao presente.

Palavras-chave: Afrânio Peixoto; Literatura Brasileira; Representações da Mulher; Século XX

ABSTRACT: This article proposes to identity representations of women, their customs, their traditions, their belongings through the characterization made by Peixoto in his novels.  It will also discuss aspects of women’s education in the beginning of the 20th Century and its influence on the social-cultural transformations then occurred which had echoes on Brazilian literature. The theme of this research is the literary work of Peixoto on literary genre – the regional novels – with a special regard to his female characters. It is relevant to think on the representation and empowerment of women and their actions in everyday life in different epochs and regions of Brazil. This enables us to revise the canon of Brazilian literature, in an attempt to reconstruct the past and thus find the plurality of feminine identities. This defy will link the past to the present.

Keywords: Peixoto; Brazilian literature; Representations of Women; Twentieth Century.

Minicurrículo:


AS FIGURAS FEMININAS NAS OBRAS REGIONAIS DE AFRÂNIO PEIXOTO

Helena Maria Alves Moreira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

Introdução

No dia 14 de dezembro de 1876, nascia no sobrado de uma casa em Lençóis o futuro médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista e historiador baiano Afranio Peixoto. Exatos 94 anos depois, no mesmo espaço, é instalado um dos mais importantes espaços culturais da Chapada Diamantina: a Casa Afrânio Peixoto. Ele teve uma passagem pela política quando foi eleito deputado federal pela Bahia, ficando no cargo no período de 1924 a 1930. Após, voltou à atividade do magistério sendo professor de História da Educação no Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1932. Foi reitor da Universidade do Distrito Federal em 1935 e, após 40 anos de relevantes serviços, aposentou-se. Segundo os sua biografia pela ABL, era dotado de personalidade fascinante, animada e tinha excelente domínio da oratória. Prendia a atenção das pessoas e dos auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Obteve, na época, grande aprovação de crítica e prestígio popular.

 

A Representação da Mulher no Século XX

Aprisionada numa representação sempre associada à figura materna e dona do lar, às mulheres cabia à vida cotidiana, sem acesso à educação, conforme publicação da Liga de Ensino em 1911, na conferência de mesmo ano sobre a “Educação da Mulher” considerando-a essencial para reger a educação de seus filhos:

É ela que vai encarregar-se da formação do caráter dos nossos filhos, do desenvolvimento racional da saúde, da inteligência, da vontade dos pequeninos seres de hoje, mas cidadãos d’amanhã, responsáveis pelos destinos da pátria (FERNANDES, 1911, p. 1).

 

A representação da mulher no Brasil no início do século XX era de educadora da primeira infância. As mulheres lutavam de várias maneiras pelo respeito e credibilidade, mas a cultura hegêmonica da época insistia para que essa ideia de mulher frágil e incapaz intelectualmente se perpetuasse como verdade. À luz dessa perspectiva, Peixoto  afirma que a mulher devidamente instruída tornaria-se alvo de desejo e respeito perante a sociedade. Um exempo desse pensamento se destava no livro de sua autoria Ensinar a Ensinar:

Sua educação, instruída nas artes e nas ciências, deu-lhe boas ideias e belas palavras, com que abriu a bôca à sabedoria e por isso a aclamam seus filhos, e a louva seu marido, e a admiramos todos nós, e vós, minhas senhoras, vós a deveis invejar e imitar (PEIXOTO, 1937, p. 32).

 

No livro supracitado, Peixoto faz uma abordagem crítica ao modelo de ensino oferecido no início do século XX no Brasil em função da dificuldade de acesso dos mais humildes a níveis mais elevados de estudos. A educação da época privilegiava apenas os mais ricos dando-lhes oportunidades que nem sempre condiziam com suas reais abilidades.

 

 

Os Romances Regionais

Neste trabalho foram analisados três de seus romances: Maria Bonita, Sinhazinha e Bugrinha. As chamadas obras regionalistas  mostravam as contradições e conflitos de um Brasil que se queria moderno, urbano e industrializado, mas guardava também traços arcaicos em sua diversidade regional. O Brasil não era composto somente de cidades retratadas comumente pelo homem comum e seus problemas sociais, havia também o campo, dominado por uma sociedade patriarcal em decadência. Assim como os autores da literatura proletária, os autores regionalistas tinham uma preocupação sociológica e documental, distinguindo-se dos modernistas com seu experimentalismo estético.

O mercado editorial do Rio de Janeiro vivia em plena ebulição A vida literária das rodas da sociedade brasileira principalmente na capital eram representadas por obras publicadas, nos periódicos de grande circulação como O Paiz e A Gazeta. Dentre as obras literárias publicadas no início do século XX, destacam-se em 1902, Canaã de Graça Aranha;  Os Sertões, de Euclides da Cunha; não podemos deixar de destacar sobre as obras de Aluísio de Azevedo já vinha lançando suas obras naturalistas desde o final do século XIX: O Mulato, em 1881; Casa de Pensão, em 1884, e O Cortiço, em 1890 – somente para citar as principais. Machado de Assis (1839-1908) publicara quase toda sua obra em fins do século XIX, ambientando suas tramas à vida urbana carioca da classe média e tendo sua análise centrada nos aspectos psicológicos das personagens; em 1909, Lima Barreto acabara de fazer sua estreia como escritor ao lançar Recordações do escrivão Isaías Caminha, publicada em Portugal, no qual narra à história de um homem do interior que vem para a capital tentar ser médico e acaba jornalista de onde investe na vida cotidiana da redação e da imprensa.

A análise das obras de um mesmo autor vem sendo uma das estratégias de alguns pesquisadores. Os romances são em sua maioria baseados em recordações e experiências vividas pelo próprio autor, carregados de profundo sentimentalismo, de lembranças remotas, mas que na realidade, são consideradas ficção. Este caráter ficcional, no entanto, expressa relações de poder que buscam definir o que pode ser entendido como um conjunto de possibilidades passíveis de disputas intelectuais sufocadas por um enredo que envolve uma trama complicada, intrincada e complexa em toda sua essência. O que está contido em seu interior percebe-se um conjunto de conceitos e ideias, formadas por um argumento formado de matéria, objeto, questão, temática, que carregam consigo um sentido já que possuem um significado em comum. No entanto, sua total compreensão jamais será feita, na medida em que nenhum sentido pode ser totalmente decifrado, a sua real significação estará sempre permeada de dúvidas. Nenhum compartilhamento de palavras ou de experiências é pleno ou sem conflitos, ainda que pudéssemos compreender pelo outro exatamente como supomos que o outro quisesse se expressar.

Em romance intitulado Maria Bonita, lançado em 1914, Afrânio Peixoto recebe inúmeros elogios pelo também escritor Afrânio Coutinho na introdução de sua obra, principalmente em relação à caracterização das personagens, fazendo-se entender que o lado romântico de escritor de Afrânio Peixoto sobressai ao do médico Afrânio na descrição de suas personagens:

Dos sete romances que escreveu Afranio Peixoto, os do grupo sertanejo superam os da cidade. E deles a obra-prima é Maria Bonita. Sua técnica de caracterização aperfeiçoou-se, o escritor perdendo a rigidez dos fenômenos psicológicos da mulher para adotar uma visão mais equilibrada dos fenômenos psicológicos da mulher (PEIXOTO, 1914, Nota Introdutória).

 

O romance, denso e consistente, quebra sua austeridade quando descritas as belíssimas paisagens do sertão baiano. Mas como o próprio Afranio aponta nas notas do autor, teve o lugar retratado, um infeliz episódio, quando em 1914 uma cheia diluviana, como descrever, desfigurou completamente a região do rio Pardo afogando e destruindo prósperas fazendas de cacaueiros. Num relato carregado de tristeza, Afranio desabafa,

O Jacarandá quase já não existe, na ruína geral do que o homem plantou e construiu o próprio rio não achou mais o leito secular. Outro, bárbaro e inculto, o Pardo anda agora, a espaços, por alheias paragens, em busca de um perfil de equilíbrio (PEIXOTO, 2002, Notas).

 

Em Maria Bonita, a personagem principal que dá título ao romance sofre durante toda a vida, o fardo de ser bonita. Detentora de uma beleza que atra^`
s vizinhos, e por vezes havia tanta gente a olhar o padre como a fitar a menina. (…) Perdera (o irmão) já a paciência e não se esquecia de desabafar-se quando chegava em casa:

– Não saio mais com esta lambisgoia! Para toda a gente a vê-la e a lhe dizer uma graça. Parece melado, que todas as moscas procuram. E a sonsa via mostrando os dentinhos… (PEIXOTO, 2002, p. 13).

 

O romance Maria Bonita difere dos demais pelas inúmeras trovas transcritas ao longo do livro e, cujas autorias são “empréstimos” de cantores famosos da região como Fabião das Queimadas e Manuel Tavares como explica o próprio Afranio, “escusava inventar tipos e lhes atribuir versos alheios, se a realidade me oferecia exemplos e exemplares acabados, dessa genuína arte popular, a que aludi” (PEIXOTO, 2002, Notas).

As trovas geralmente são feitas por repentistas. A presença de repentistas é muito comum em toda Região Nordeste do Brasil. Repentista refere-se em geral a um poeta popular, um improvisador que, a partir de um mote debita espontaneamente um poema em forma de repente. Assim se apresentava outro personagem verídico da história, Terêncio Martins da Silva, apelidado de “o funileiro trovador”.

O livro tem um final surpreendente. O drama psicológico que vive a personagem ao longo da história acaba levando-a a atentar contra a si própria, atormentada pelo pensamento de que tudo era consequência de sua amaldiçoada beleza. De todos os seus romances esse, talvez seja o mais fiel em relação ao lugar onde nasceu na Chapada Diamantina, região dos Lençóis na Bahia, mas é em Sinhazinha que Afranio, além da descrição de suas paisagens, mescla ficção e realidade quando da caracterização de suas  personagens.

A comparação entre as cidades de Lençóis e Paris nos permite entender o status que sua cidade natal representa para ele. Percebe-se também, claramente a crítica quanto à exploração de diamantes que são desde muito, extraídos e exportados, degradando a paisagem e explorando os que lá vivem, “Lençóis corresponde-se com Paris: tudo nos vem de lá, e para lá vai o nosso diamante…” (PEIXOTO, 2002, notas).

Assim como as demais personagens femininas, Bugrinha, a personagem principal do livro que leva o mesmo nome é descrita em sua essência como “indócil e geniosa, descrita, pele morena, cabelo e olhos muito negros, dentinhos brancos, indiferente à dor, resistente a dificuldade, insubmissa, às vezes caprichosa…” (PEIXOTO, 2002, p. 41). O sentido de insubmissa não quer dizer, no entanto, que seja desrespeitosa com os pais, mas sim, de uma mulher que acima de tudo sabe o quer e deseja e luta para alcançar seus ideais. Talvez por isso, o romance tenha alcançado tanto sucesso perante as mulheres da época do lançamento deste em 1914.

Quando em Paris, no ano de 1928, Peixoto escreve outro romance de cunho regional, Sinhazinha, que explora o homem simples, do campo. Remonta à história de amor entre a caçula de um grande fazendeiro do interior da Bahia que tinha seu destino traçado a se casar com um indivíduo de uma família rival como acordo de famílias, como era comum aos costumes da época e da própria região. O aparecimento de um caixeiro viajante traz toda uma nova perspectiva à personagem principal. Ao longo da trama, através de sua humilde e de atitudes perseverantes, o caixeiro conquista a amizade e a confiança de todos que estão ao seu redor, principalmente de Clemência, carinhosamente apelidada de Sinhazinha.

Neste romance, Peixoto dedica especial atenção às descrições das paisagens campestres, assim como relata com riqueza de detalhes às festividades populares e todas as superstições que as rodeiam. O enredo é pitoresco quando se trata da relação entre famílias rivais onde as questões de honra são também tratadas como questões de vida e morte. No sertão brasileiro são comuns às rivalidades entre famílias, e por isso surgem inúmeras histórias de ficção baseadas num mesmo enredo. Neste livro, segundo o escritor Fernando Sales, o romance retratado no livro Sinhazinha teve por base um fato verídico:

Afrânio Peixoto ouvindo descendentes dos dois lados, cada qual narrando a sua versão, concebeu a sua Sinhazinha, a seu modo, baseado na vindita entre Mouras e Canguçus, situando sua condição de autor à de ouvinte dos dramas que se sucederam entre as margens do Paraguaçu e do Rio de Contas: “como não pretendi dar sentença – não sou juiz –, nem a causa estava em julgamento –, informei-me e, seguro da minha verdade – que o ódio é mais duradouro do que o amor, pois transmite por gerações – tratei de ser imparcial… (PEIXOTO, 1975, Introdução).

 

       As duas famílias retratadas no livro são figadalmente inimigas marcadas pelo ódio entre as famílias. E, para fugir do destino traçado, a personagem teve a coragem de enfrentar o pai, austero fazendeiro, que já havia prometido o futuro da filha como o trecho a seguir:

(…) no dia em que a filha faz dezesseis anos, fá-la jurar que não casará senão depois que nenhum Moura a pretenda, e eles só a podem pretender pela força. O romance materno será continuado por uma tragédia filial. Ali entrou o amor, mas o ódio continuou e é ele agora que dá pretexto à lealdade. Certo da palavra da filha – se não lha desse, de boamente, de mau modo a tomaria – manda recado aos parentes. Eles têm o direito à vingança: venham buscá-la. Nos mesmos termos. O sacrifício está pronto. É para qualquer dia destes… (PEIXOTO, 1975, p. 82).

 

       Quando da fala “o sacrifício está pronto” as mulheres eram assim comparadas ao pagamento de uma dívida como, uma cabeça de gado, ou entrega de um animal qualquer, no qual seu destino não tivesse a menor importância. A personagem de Dona Emília, matriarca da família, esposa do Coronel que apesar de obedecer e fazer todas as vontades do marido, atitude muito comum às mulheres da época, fazia suas vontades e seus desejos prevalecer, através de um jogo de poder atrelado a um discurso sutil, porém, convincente.

As mulheres das fazendas por se encontrarem mais afastadas dos grandes centros, s  tinham suas vidas voltadas para o cuidado os afazeres de “dona do lar”, assim como o cuidado com o marido e os filhos sem, no entanto, receber qualquer elogio ou sequer agradecimento por isso. Os rapazes que frequentavam as cidades e por isso tinham acesso às inovações, a cultura, aos costumes vindos da Europa, conquistavam grande admiração e fascínio entre as mulheres, pois faziam contraste ao homem rude do campo e por isso chamava-lhes tanto a atenção. No cenário mais agreste de seus romances fica a dúvida onde acaba a realidade e começa a ficção.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Os romances de Afrânio Peixoto foram mais do que simples histórias para entreter as moças da época, são verdadeiros relatos de como era a vida no interior do sertão baiano no caso dos romances carregados de regionalismo como Maria Bonita e Bugrinha e Sinhazinha. As histórias relatavam os costumes das famílias mais tradicionais, principalmente suas relações com as filhas, cujas protagonistas eram pessoas fortes e decididas capazes de romper barreiras comuns à época como a predestinação aos casamentos arranjados ou à conduta que causavam estranhamento à sociedade ou à comunidade onde viviam. Considerando que às mulheres eram em sua maioria educadas para serem submissas, recatadas e voltadas unicamente para o lar, o acesso às obras literárias onde às mulheres são destemidas e lutam pelo direito de amar e ser feliz era raro mas das mulheres que tinham esse privilégio lhes era permitido ao menos o direito de sonhar.

Através da análise das suas personagens, mulheres que existiram de fato ou foram obra da imaginação do autor, perecebemos, a história das relações familiares, da literatura, da violência, da sexualidade, enfim, dos sentimentos e suas representações.   As obras não se contentam apenas em separar as vitórias das derrotas das mulheres e sim, retratar o universo feminino nos seus mais diversos espaços como a zona rural, as sinhazinhas, as burguesas, etc. É compreender que ser um a mulher no Brasil é uma construção de imagens e valores que atravessam os anos, décadas e séculos em diferentes espaços geográficos, dada a diversidade cultural existente em nosso país.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERNANDES, S. O problema: a Liga do Ensino I, A República, 1911

PEIXOTO, Afranio. Ensinar a ensinar: ensaios de pedagogia aplicada à educação nacional. 2ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.

PEIXOTO, Afranio. Noções da História da Educação. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1942.

PEIXOTO, Afranio. Sinhazinha. São Paulo: Clube do Livro, 1975.

PEIXOTO, Afranio. Bugrinha. São Paulo: Clube do Livro, 1975.

PEIXOTO, Afranio. A Esfinge. São Paulo: Clube do Livro, 1978.

PEIXOTO, Afranio. Maria Bonita. Rio de Janeiro, Tecnoprint, 2002. (Coleção Prestígio).



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