ESCRITORES



Anunciação e encontro de Mira-Celi





Autor: Jorge de Lima
Título: Anunciação e encontro de Mira-Celi, Anunciación de Mira-Coeli
Idiomas: port, esp
Tradutor: Jorge de Limana(esp)
Data: 28/12/2004

POEMA


IX

Anunciação e encontro de Mira-Celi


Jorge de Lima


1

O inesperado ser começou a desenrolar as suas faixas em que estava escrita a história da criação passada e futura.
Retirou a sua imensa cabeça de dentro da torre, sob o estrondo das muralhas desabadas com o seu gesto.
A estreita porta abriu-se reverente para ele passar.
O pátio interior espraiou-se como um lago, e as colunas eternas que sustentavam as abóbadas substituíram os seus braços e as suas pernas.
Entretanto, ele continuava incluso na eternidade. Nos blocos retangulares de suas órbitas estavam encerradas inúmeras gerações.
Era tão velho que morava dentro da morte.
Era tão jovem que inscrevera no seu peito de pedra o nome de várias mulheres.
Dentro dos aquedutos que irrigavam os jardins suspensos em suas frentes haviam navegado muitos povos experientes.
Acharam a sua carne tão áspera como a sua solidão.
Tendo selecionado algumas presenças, pôde expulsar várias rainhas tombadas em seu pórtico. Caíra de qualquer dinastia: o hálito quente do deserto ainda corria sobre os seus lábios gretados.
O inesperado ser tinha taras humanas; mas a sua rota se dirigia às Três Pessoas Eternas e Unas no imenso Deus que recobrira com esta aparência.
Senhor, o meu corpo é genérico; e porque me crucificam?
Falava e pensava a sós como um louco.
A abundância de faces que se sucediam ininterruptamente sua cabeça criou a lenda de que ele era mágico; mas seu rosto permanecia absolutamente infantil; o rosto dos outros homens é que se moviam com premeditada desigualdade; muitos de seus companheiros se fantasiaram de anões para desapontá-lo; inúmeros se metamorfosearam em deuses secundários, em coisas estanques, em manequins, em pássaros empalados.
Pretenderam descobrir a sua tumba, e não conseguiram: ele às azes se declarava morto, porque a morte era apenas uma continuação.
Contudo, desenterraram milhares de retratos de sua vida contínua com todos os defuntos que cruzaram a sua órbita: ele se reviu e chorou diante dos documentos de sua consagração.
Através dos desfiladeiros solitários e largos, vagou com seus pensamentos frontais.
Várias sepulturas de reis tinham sido efetivamente executadas.
Quantos se enterraram prematuramente em companhia de demônios sórdidos?
Quantas efígies de soberanos estavam desfiguradas pelo orgulho?
Quantos tronos se encontravam povoados de insetos?
Era preciso dar sombra à água: ele estendeu as mãos.
A jusante do rio todos se dessedentaram.
Era preciso escavar a verdade: ele rompeu os dedos na rocha até encontrá-la.
Era preciso descer à terra: ele navegou pelo mar até os cais em que fuzilavam homens tidos como estrangeiros.
Era preciso ir à eternidade: ele já se encontrava nela.
Que nome mais antigo que o seu e da musa saída de si?
O horror ao espaço e à fragmentação obrigou-o a encher a planície de colunas com as insígnias de seus amigos e de operários que com ele trabalhavam.
Olhai atentamente os espelhos, que os vereis lá dentro.
E se vedes guerras, são sempre cenas bélicas contra grifos vigilantes ou sonâmbulos.
Entretanto, aparecem outros temas mais determinados: são as faces do Pai sob os mais vários signos; mas todas estas faces são uma, sob distribuição tripartite.
O inesperado ser luta pelos seus irmãos acossados e ama a magnitude do perigo.
As suas flechas já atravessam os corações superpostos de um pelotão de demônios.
E se nessa luta ele se declara morto, é que a morte lhe dá maior panorama da vida.
Ego dormivi, et soporatus sum: et exsurrexi, quia Dominus suscepit me.
Illumina oculos meos, me unquam obdormiam in morte; nequando dicat inimicus meus: Prevalui adversus eum.

2

Tu és, ó Mira-Celi, a repercutida e o laitmotivo
que aparece ao longo de meu poema.
Nele estás construída à semelhança de um imenso órgão
movimentado pelo meu espírito.
Cresces nele paralelamente a teu desenvolvimento físico,
mas incógnitamente, como uma órfã dentro da multidão.
Às vezes, quando dobras uma página, perguntas: – “Sou eu?”
Mas, olhando depois a paisagem mudar tanto, no espaço de um segundo,
encontras os teus membros na nudez de uma frase.
Nunca te libertarás deste parque em que nos encerramos,
fingindo dois desaparecidos,
e em que nos nutrimos um do outro contra as leis naturais.
Outras vezes te encolhes em mim, ó minha pequena maré;
e basta que eu abra as pálpebras e a minha memória te encontre,
para te recompores imediatamente
em minha maior dimensão.
As nossas respirações enchem o mundo,
achatam o mar,
agitam as palmas e os areais.
Pairamos em planos irrealizáveis à maioria das aves
com outra visão oculta em cada palavra.
Pouca gente encontrará a chave deste mistério.
E os olhos que perpassarem através de tantos poemas que não
findam e que se transformam de momento a momento,
não compreenderão o movimento perpétuo
em que nos perseguimos e nos superpomos.
Outras vezes ainda, as minhas mãos são um disfarce de ti,
escrevendo tua história ou me sustentando a face.
Ora pareces marcha nupcial; és, no espanto, elegia.
Ora és sacerdotisa, musa, louca, pastora ou apenas ave.
Dei-te diversos nomes, para que ninguém te acompanhe.
Anuncio que morreste, para que ninguém te convide.
Quase sempre te transformo, para te distribuir.
E, quando me resta uma única migalha, reconstituo-te como uma catedral
e alimento-te como uma criancinha.
Figuramos no mapa como um sol gêmeo que num perpétuo eclipse
desse a impressão de um só núcleo.
Gravidades estranhas nos atraem; sombras tutelares protegem
a nossa rotação, em que tudo são coincidências de duas asas num corpo.
Algum sacerdote antigo já nos tinha visto, por acaso, uma noite,
e morreu sem nos decifrar, pois não voltamos ainda
nem à primeira página, nem à primeira estrofe
do imenso e misterioso poema sempre por terminar.

3

Há necessidade de tua vinda, Mira-Celi:
Milhares de ventres virginais te esperam
através de séculos e séculos de insônia!
Basta de te entremostrares:
Nós já te pressentimos demais
em certos momentos de mistério
ou sob algumas aparências obscuras.
Há lábios entreabertos esperando:
São os meus irmãos,
a quem anunciei que tu virias.
Há palavras de fogo, semi-apagadas;
há janelas desertas, já fechadas;
há ausências inexplicáveis, gestos mortos;
há lagos estagnados sob grifos de luto.
Quando vieres, as árvores ôcas darão flores,
e teu esplendor acenderá pela noite dormente
os olhos entreabertos dos semblantes amados.

_________________

Fonte: LIMA, Jorge de. Obra poética. Edição completa, em um volume, org. Otto Maria Carpeaux. Rio de Janeiro: Getulio Costa, 1950. p. 467-72.

MIRA-COELI


Anunciación de Mira-Coeli


Jorge de Lima

1

Aquel ser extraño empezó a desenrollar sus fajas, en las que estaba escrita la historia de la creación, pretérita y futura. Retiró su inmensa cabeza del interior de la torre, bajo el estruendo de las muradas que se derribaron con su gesto. La estrecha puerta se abrió, reverente, a su paso. El patio interior se ensanchó como un lago, y 1as eternas columnas que sustentaban las bóvedas, substituyeron a sus brazos y sus piernas. Mientras tanto, él continuaba inmerso la eternidad. En los bloques rectangulares de sus colosales órbitas estaban comprimidas innumeras generaciones. Era tan viejo, que se hallaba dentro de la muerte. Era tan joven, que inscribiera en su pecho de piedra el nombre de diversas mujeres. Dentro de los acueductos que irrigaban los jardines suspensos en sus frentes habían navegado muchos pueblos experimentados. Encontraron su carne tan áspera como su soledad. Habiendo seleccionado algunos seres, pudo expulsar varias reinas caídas en éxtasis ante su pórtico. Vino rodando de cualquier dinastía: el hálito abrasador del desierto aun corría sobre sus labios agrietados.
Aquel ser extraño tenía la tara humana; pero su camino se dirigía a las Tres Figuras Eternas y Unas en el inmenso Dios, que lo recubrió con esta apariencia.
–Señor, si mi cuerpo es genérico, ¿por qué me crucifican?
Hablaba y pensaba a solas, como un loco. Los innumerables rostros que se sucedían ininterrumpidamente en su cabeza crearon la leyenda de que era mágico; pero su rostro permanecía absolutamente infantil; eran los de los otros hombres los que se movían con premeditada desigualdad; muchos de sus compañeros se disfrazaban de enanos para desorientarlo, innúmeros se metamorfoseaban en dioses secundarios, en cosas quietas, en maniquíes, en pájaros, disecados. Pretendieron descubrir su tumba y no lo consiguieron; a veces, confesábase muerto, porque la muerte era apenas una continuación. A pesar de ello desenterraron millares de retratos de su vida infinita, con todos los difuntos que cruzaron su órbita; se vio de nuevo y lloró delante de los documentos de su consagración. A través de los desfiladeros solitarios y amplísimos, vagó con sus pensamientos frontales.
Varias sepulturas reales habían sido efectivamente construidas. ¿Cuántos se enterraron prematuramente en compañía de sórdidos demonios? ¿Cuántas efigies de soberanos estaban desfiguradas por el orgullo? ¿Cuántos tronos se encontraban poblados de insectos? Era preciso dar sombra al agua, y él extendió las manos. En la pendiente del río todos saciaron su sed. Era preciso excavar la verdad; rompió los dedos en la roca hasta encontrarla. Era preciso bajara la tierra; navegó por el mar hasta el muelle en donde fusilaban hombres considerados como extranjeros. Era preciso ir a la eternidad; ya se encontraba en ella.
¿Cuáles los nombres más antiguos que el suyo y el de la musa que salió de sí? El horror al espacio y a la fragmentación le obligó a llenar la planicie de columnas con las insignias de sus amigos y de los obreros que con él trabajan.
Mirad atentamente los espejos y os veréis allí dentro. Y si veis guerras, son siempre escenas bélicas contra grifos vigilantes o sonámbulos. Mientras tanto, aparecen otros temas más precisos; son los rostros del Padre bajo los más diversos signos; pero todos ellos son uno, bajo una distribución tripartita.
El inesperado ser lucha por sus hermanos acosados y ama la magnitud del peligro. Sus flechas ya atraviesan los corazones superpuestos de un pelotón de demonios. Y si en esa lucha él se declara difunto es porque la muerte le da un mayor panorama de la vida.
Ego dormivi, et soporatus sum: et exsurrexi, quia Dominus suscepit mea.
Illumina óculos meus, me umquam abdormiam in morte: nequando dicat inimicus meus: Pravalui adversus sum.

2

Tu eres, ¡oh, Mira-Coeli!, la resonancia y el epígono
que parece a lo largo de mi poema.
Estás en él construida a semejanza de un inmenso órgano
movido por mi espíritu.
Creces en él paralelamente a tu desenvolvimiento físico,
aunque desconocida, como una huérfana dentro de la multitud.
A veces, cuando doblas una página, preguntas: -¿Soy yo?
Y después, mirando el paisaje cambiar tanto en el espacio de un segundo,
encuentras tus miembros en la desnudez de una frase.
Nunca te libertarás de este parque en que nos encerramos,
fingiéndonos dos desaparecidos,
y en que nos nutrimos uno del otro contra las leyes naturales.
En otras, te encoges dentro de mí, ¡oh, mi pequeña marea!;
pero basta con que levante los párpados y mi memoria te encuentre,
para que te reconstruya inmediatamente
en mi mayor dimensión…
Nuestras respiraciones llenan el mundo,
achatan el mar,
agitan las palmeras y los arenales.
Fijamos el vuelo en planos irrealizables para la mayoría de las aves
con otra visión oculta en cada palabra.
Pocos mortales encontrarán la clave de este misterio.
Y los ojos que una y otra vez pasan a través de tantos poemas que no terminan
y que se transforman de momento a momento,
no comprenderán el movimiento perpetuo
en que nos perseguimos y nos superponemos.
Otras veces mis manos son un disfraz tuyo,
escribiendo tu historia o sustentándome el rostro.
Ora pareces marcha nupcial, y eres elegía;
ora, sacerdotisa, musa, loca, pastora o solamente ave.
Te di nombres diversos para que nadie te acompañe.
Anuncio que has muerto para que nadie te convide.
Casi siempre te transformo para distribuirte.
Y cuando apenas me resta una única migaja, te reconstruyo como una catedral,
y te alimento como a un recién nacido.
Figuramos en el mapa como dos soles gemelos que en un perpetuo eclipse
dan la impresión de un solo núcleo.
Extrañas gravitaciones nos atraen; sombras tutelares protegen
nuestra rotación, en que todo son coincidencias de dos alas en un cuerpo.
Algún sacerdote antiguo ya nos vio por acaso una noche,
y murió sin descifrarnos, pues aun no volvimos
ni a la primera página, ni a la primera estrofa
del inmenso y misterioso poema siempre inacabado.

3

Es preciso que vengas, Mira-Coeli:
millares de vientres virginales te esperan
a través de siglos y siglos de insomnio.
Basta con que te vislumbremos.
En ciertos instantes misteriosos, ya te presentimos,
o bajo algunas apariencias indecisas.
Hay labios entreabiertos esperándote:
son mis hermanos, a quienes anuncié tu llegada.
Hay palabras de fuego semiextintas
hay ventanas desiertas, ya cerradas,
hay ausencias inexplicables, gestos muertos,
hay lagos inmóviles bajo grifos enlutados.
Cuando llegues, Mira-Coeli, los árboles huecos darán flores,
y tu esplendor encenderá en la noche dormida
los ojos entreabiertos de los semblantes amados.

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Fonte: LIMA, Jorge de. Mira-Coeli. Trad. de Jorge de Limana. Buenos Aires: Latino-Americana, 1950. p. 13-23.



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