Revista LitCult – Vol.9 - 2. semestre 2015



ANTOLOGIA POÉTICA (Drummond) E SUA ESTRUTURA NARRATIVA – Shirley Maria de Jesus





ANTOLOGIA POÉTICA (Drummond) E SUA ESTRUTURA NARRATIVA

 

Shirley Maria de Jesus

Universidade Federal de Minas Gerais/FALE

 

RESUMO: Este artigo pretende ressaltar na obra Antologia poética, de Carlos Drummond de Andrade (1998), que em sua lírica pessoal a exterioridade apresenta-se como depositário de memórias que carregam conteúdo social, cultural e histórico. Estas, consoante Charaudeau & Maingueneau (2012), representam um reinvestimento de imagens (internas e externas), levantadas na leitura dos poemas, e refletem aspectos estéticos, retóricos e ideológicos. A partir desses autores, de Mendes (2010) e outros, far-se-ão análises de alguns poemas a fim de possibilitar o acesso aos discursos e suas imagens. Nossa hipótese será de que a preocupação do autor (1998) era tão profunda que ele vivenciou o eu do outro de um modo totalmente diferente do que vivenciou seu próprio eu. De uma maneira geral, o autor “absorve” o mundo externo e por, às vezes, não saber quem é, será vários: Carlos, José, Robinson Crusoé… mas gauche.

Palavras-chave: Antologia poética; Carlos Drummond de Andrade; lírica pessoal; reinvestimento.

 

ABSTRACT: This article aims to highlight, in the work Poetic Anthology, by Carlos Drummond de Andrade (1998), in its lyrical aspects, stressing that exteriority is a repository of memories carried with social, cultural and historical meanings. According to Charaudeau & Maingueneau (2012), while reinvestments of images (external and internal), raised in the reading of the poems, reflect aesthetic, rhetorical and ideological aspects. The analysis of some poems will enable access to discourse and images, based on the above authors and Mendes (2010), among others. This study will consider  the hypothesis that the author’s preoccupation (1998) was so profound that he experienced the I of the other in a totally different way that he experienced his own self. In general, the author “absorbs” the external world, and sometimes not knowing who he is, decides to be several: Carlos, José, Robison Crusoe… always as a gauche.

 

Keywords: Antologia poética; Carlos Drummond de Andrade; personal lyric; reinvestments.

 

Currículo: Doutoranda em Linguística do Texto e do Discurso pela UFMG (FALE) em 2013, é bolsista da CAPES. Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2002). Graduada em Letras por esta universidade em 1999. Tem pós-graduação em Consultoria Empresarial pelo Centro Universitário Newton Paiva (2006). Suas áreas de atuação são Gramática Tradicional, Língua Portuguesa, Linguística do texto e do discurso, Leitura e Produção de Textos, Literaturas de Língua Portuguesa, Teoria Literária, Comunicação Oral e Escrita, Comunicação Empresarial, Metodologia Científica. 

ANTOLOGIA POÉTICA (Drummond) E SUA ESTRUTURA NARRATIVA

 

Shirley Maria de Jesus

Universidade Federal de Minas Gerais/FALE

 

Poema de sete faces

 

Quando nasci, um anjo torto  

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida. (…)

ANDRADE, 1998, p. 13

 

Introdução

 

O presente trabalho pretende destacar na obra Antologia poética, de Carlos Drummond de Andrade (1998), como o autor transforma sua lírica não somente em memória pessoal, mas também em reinvestimento de captação (MAINGUENEAU, 2012) de imagens (internas e externas) que, em seus poemas, refletem tanto ressonâncias pessoais quanto coletivas. Segundo Maingueneau (2012, p. 94): “A captação consiste em transferir para o discurso reinvestidor a autoridade relacionada ao texto ou ao gênero fonte: o pregador cristão que imita uma parábola, o slogan que imita um provérbio ou o gênero proverbial.” O reinvestimento, portanto, sugere que o destinatário perceba sempre da mesma maneira o discurso fonte já que o texto / gênero inscrito na memória é portador de autoridade.

Em Antologia poética, o poeta (1998), ao falar do cotidiano e do presente-passado, utiliza linguagem lúdica, mas puramente artesanal e, portanto, que não se fixa em uma corrente estética apenas. Para demonstrar essas questões, far-se-á análises de alguns poemas de forma crítica a fim de possibilitar o acesso à linguagem dos discursos, considerando, às vezes, aspectos estéticos e ideológicos. Alguns teóricos a serem utilizados nesta pesquisa são: Aumont (2012), Charaudeau & Maingueneau (2012), Mendes (2010), dentre outros.

Após esse preâmbulo, propomos algumas considerações sobre a exterioridade na lírica de Carlos Drummond de Andrade (1998).

 

2 A exterioridade na lírica drummoniana

Ao observarmos a organização da obra Antologia poética, percebemos que ela reflete as principais linhas de força da poética drummoniana. As partes intituladas “Um eu todo retorcido”, “Uma província: Esta” e “A família que me dei” enunciam algumas dessas linhas: a apresentação do poeta (1998) enquanto sujeito histórico empenhado em materializar, na escrita, o universo familiar-patriarcal e seus reflexos no autor enquanto reinvestimento de captação. A exterioridade na lírica pessoal de Drummond (1998) apresenta-se como depositário de imagens, principalmente, familiares, fato que se torna evidente mediante o trabalho com a memória do autor (1998), que será uma das pedras de toque de sua poesia e / ou uma pedra “no meio do caminho”. E essa memória pessoal no poema drummoniano, enquanto reinvestimento de captação (MAINGUENEAU, 2012) de imagens (interna e externa), carregam conteúdo social, cultural e histórico. Esses conteúdos apontam-nos, por exemplo, que o poeta gauche, ao falar de si, chega à autonegação provocada pelo sentimento de culpa e de limitação, cujo remédio é a automutilação, conforme podemos perceber no poema “A mão suja”:

 

Minha mão está suja.

É preciso cortá-la.

Não adianta lavar.

A água está podre.

(…)

Inútil reter

a ignóbil mão suja

posta sobre a mesa.

Depressa, cortá-la,

fazê-la em pedaços

e jogá-la ao mar!

(…)

(ANDRADE, 1998, p. 22-24)

 

Esse poema revela a expressividade externa que o autor (1998) percebe a partir da sensação interna e revela-nos que o processo de captação opõe uma espécie de resistência ao imaginar-se “de dentro”, em categorias de valores totalmente diferentes – meu eu que ama, quer, sente, vê, conhece – e que não são diretamente aplicáveis a nossa expressividade externa: “Minha mão está suja. / É preciso cortá-la”. Não se trata de subversão no sentido de “(…) desqualificar a autoridade do texto ou do gênero fonte”, no caso, o poema. (MAINGUENEAU, 2012, p. 94) Mas do fato de a percepção interna e a própria vida parecem se inserir no “eu” que imagina e vê, não no “eu” imaginado e visto. É, portanto, um reinvestimento de captação de imagens internas e externas carregadas de uma memória interior e que, às vezes, entra em choque com a memória exterior.

Drummond (1998) apresenta, ainda, um sentimento de repulsa por fazer parte daquilo com que não concorda e por achar vil o mundo em que vive. Revela que seu papel como intelectual deve ser o do crítico voltado para a arte e essa deve estar a serviço do povo e não da política em si. Sua arte, portanto, revela-se também enquanto reinvestimento de captação de imagens que carregam conteúdo social, cultural e histórico partilháveis. Como artesão das palavras não abre mão do maior valor: o pensamento. Seus poemas, portanto, reinvestem tanto o que o poeta defende quanto o que não defende.

Fala (1998) também de si e, ao fazê-lo, fala de nós mesmos, criando um reinvestimento de captação de vários ‘eus’ – um eu-autor, um eu-leitor, mas que já é outro eu-autor (transfigurado) e outro eu-leitor (transfigurado também). Ao desentranhar reinvestimentos nos quais os vários ‘eus’ entram em contato – mediante a memória, a saudade e ao descobrir elementos de um mundo em expansão –, o eu-autor não é ele e sim o reinvestimento de alguém que ficou no passado, mas que emerge na contemporaneidade através das palavras nesse seu passado-presente. Nesse processo de reinvestimento, o autor (1998) nos revela sua multiplicidade e nos impele a descortinar as camadas de ‘eus’ que estão dentro de cada eu-autor.

 

3 Antologia poética e sua ficcionalidade

Antologia poética está inserida no gênero poesia. Conforme Mendes (2010, p. 201): “(…) no interior de cada gênero, há um entrelaçamento de efeitos de real, efeitos de ficção e efeitos de gênero.” Para a autora (MENDES, 2010, p. 200), a ficcionalidade, que é definida como “a simulação de um mundo possível”, pode ocorrer de três modos: a) de maneira constitutiva, quando é inerente ao fenômeno; b) de modo colaborativo, quando participa da constituição de algum gênero, mas não altera seu estatuto de real; c) de maneira predominante, quando o gênero possui estatuto ficcional, havendo, desse modo, maior ocorrência de simulações de mundos possíveis.

Dentro dessas possibilidades de simulações, nota-se, na poesia de Drummond (1998), que de maneira predominante, ele faz recortes da realidade – de diferentes épocas – vivenciada por ele desde criança, simulando / reinvestindo em sua obra mundos possíveis. Sua arte, portanto, instaura, em seu repertório pictórico, memórias, ideologias e a busca de uma nova construção estética e, às vezes, social. Isso nos remete ao conceito de realismo que, segundo Aumont (2012, p. 106), trata-se de um “conjunto de regras sociais, com vistas a gerir a relação entre a representação e o real de modo satisfatório para a sociedade que formula essas regras”. O efeito de realidade designa o efeito produzido no destinatário pelo conjunto de índices de analogia mediante imagens representativas que os poemas suscitam. Isso quer dizer que existe um “catálogo de regras representativas que permitem evocar, ao imitá-la, a percepção natural” (Aumont, 2012, p. 113). Desse modo, Antologia poética, enquanto retrato pessoal, que faz aflorar, inclusive, os reflexos do universo familiar-patriarcal no eu-autor, apresenta-se como uma obra com efeitos de real, em busca de reflexão sobre a existência humana. Ou ainda, de acordo com Maingueneau (2012), trata-se de uma captação no sentindo de nos remeter, mediante a poesia drummoniana, a uma realidade material do mundo por intermédio da ilusão de realismo criada pelo poeta (simulação do mundo possível). O que implica dizer que o eu-leitor acredita que o que “vê” – já que o discurso do eu-autor suscita imagens que articulam o real e a ficção – existiu ou pode existir.

Vejamos, agora, o fazer poético de Drummond (1998), a partir da perspectiva de Bystrina, citada por Guimarães (2003, p. 1), que declara que é imprescindível dizer o indizível por intermédio da criatividade e que

 

(…) para sua sobrevivência psíquica, o homem constrói sobre a estrutura da primeira realidade sensível, predeterminada biofisicamente, uma outra realidade, operada pela cultura. Essa “segunda realidade”, concebida pela criatividade, imaginação e fantasia humana, tem um caráter sígnico e é essencialmente narrativa (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1).

 

Se retomarmos o pensamento de Maingueneau (2012) acerca do reinvestimento de captação e o associarmos ao de Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1), podemos notar que o eu-autor ao usar a criatividade, a imaginação, para fundir o “vivido e o inventado” em Antologia poética enquanto criação literária, pelo viés da sobreposição / reinvestimento de captação das realidades (percepção natural / percepção coletiva), elabora um fazer poético “que têm caráter sígnico”, consoante Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1), ao carregar imagens que também refletem conteúdo sócio-histórico-cultural narrados por um autor (1988) que reflete as próprias experiências, ou seja, sua primeira realidade sensível.

A partir das considerações de Bystrina (BYSTRINA apud GUIMARÃES, 2003, p. 1) e de Maingueneau (2004), retomamos Mendes (2010) a fim de afirmar que a ficcionalidade na obra de Carlos Drummond de Andrade (1998) é construída também de modo colaborativo uma vez que a obra participa da constituição do gênero poesia, mantendo simulações de mundos possíveis, inclusive, com o mundo retratado pelo eu-autor – temos nela, portanto, efeitos de real e de ficção. As imagens que o autor (1998) cria através de suas palavras se definem como objetos produzidos em um determinado dispositivo para transmitir a seu leitor, sob a forma simbolizada, um discurso sobre o mundo “real” (mesmo valendo-se de aspectos ficcionais) ou sobre um aspecto da realidade.

O reinvestimento de captação, na poesia de Drummond (1998), portanto, parece supor a relação entre imagens externas e internas (imagens de lembranças, de memórias, imagens de impressão visual armazenadas pelo autor, imagens que fomentam outras imagens vistas ou simplesmente imaginadas). E ao fazer intervir o saber prévio, o destinatário da poesia de Drummond (1998) pode ser capaz de suprir o não representado, as lacunas da representação em todos os níveis. Isso nos permite perceber uma nova relação na qual poema e destinatário são parecidos na medida em que pensamos que há um paralelismo entre o “trabalho” do “fabricante” das imagens e o “trabalho” do poema.

Assim, se abordarmos a exterioridade na lírica drummoniana, ou seja, os aspectos físicos, certamente, nos perguntariam como o autor (1998) vive o próprio aspecto físico e como vive o aspecto físico do outro. A expressividade do nosso corpo e nosso aspecto físico são vividos por nós internamente. Assim, é somente como fragmentos díspares, ligados a nossa percepção interna, que nossa exterioridade – e a do eu-autor -– é captada no campo das nossas sensações externas e, acima de tudo, no campo da nossa visão. Mas essas sensações externas não representam a nossa última instância, mesmo quando acontece de nos perguntarmos se se trata realmente do nosso próprio corpo, e a resposta só nos é fornecida por nossa percepção interna que assegura também a unidade das imagens fragmentárias que temos da nossa expressividade externa e as traduz em linguagem interna. De acordo com Bakhtin (2000, p. 48), essa percepção emerge na “fronteira do mundo” no qual o eu-autor se insere.

Mediante o exposto, Antologia poética deixa entrever a percepção do eu-autor acerca das fronteiras exteriores que configuram o ser humano. Essa percepção é indissociável do aspecto físico: registra uma relação com o homem exterior e com o mundo exterior que engloba e circunscreve o homem no mundo. Entretanto, a consciência vive suas próprias fronteiras exteriores de uma maneira diferente, vive-as numa relação consigo mesma, portanto, apenas o outro pode, de maneira convincente, no plano estético (e ético), fazer o poeta viver o finito humano, ou seja, viver sua materialidade empírica delimitada.

 

4 O fazer poético de Carlos Drummond de Andrade

O fazer poético de Drummond (1998) traduz-se, ainda, em profunda indagação / captação do mundo, de sua infância, de seus medos, sobre o tempo, sobre sua vivência nas cidades de Itabira e Rio de Janeiro, sua família (sobre a figura paterna principalmente), sobre seus amigos poetas (Mário de Andrade, Manuel Bandeira…) e daqueles que lhe chamaram a atenção (Charlie Chaplin, García Lorca…). Sua poesia torna-se contemplativa e nela parece desconfiar de si e de sua maneira de ver o mundo. O autor (1998), aos poucos, nos revela que buscou dialogar com o velho e com o novo e indagar sobre a própria poesia. É um poeta em ação: luta sempre com a expressão e não espera passivamente. E, por isso, ele deixa transparecer que se deve penetrar “surdamente no reino das palavras” conforme percebemos no poema O lutador:

 

O lutador

 

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos mal rompe a manhã.

(…)

(ANDRADE, 1998, p. 182-185)

 

No poema Conclusão, percebemos que Drummond (1998) revela que “estar-no-mundo”, mediante o uso da captação, pode significar, inclusive, o desencantamento com a própria indagação sobre seu ofício e, portanto, sobre o fazer poético:

 

Conclusão

 

(…)

De que se formam nossos poemas? Onde?

Que sonho envenenado lhes responde,

se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

(ANDRADE, 1998, p. 190)

 

Nesse seu trabalho com as palavras, percebemos que Drummond (1998) transitou do uso gramatical esteticamente correto ao uso desordenado da sintaxe proposta pelos modernistas para nos atingir com uma linguagem excepcional, como percebemos em “Os materiais da vida”.

 

Dris? Faço meu amor em vidrotil

nossos coitos são de modernfold

até que a lança de interflex

vipax nos separe

em clavilux

camabel camabel o vale ecoa

sobre o vazio de ondalit

a noite asfáltica

plkx

(ANDRADE, 1998, p. 192)

 

Já em outros momentos, como “Prece de mineiro no rio”, sendo usuário da língua, não procurou defender nada, a não ser o direito de poder dizer o indizível com ela mesma.

 

Espírito de Minas, me visita,

e sobre a confusão da cidade,

onde voz e buzina se confundem,

lança teu claro raio ordenador.

Conserva em mim ao menos a metade

do que fui de nascença e a vida esgarça […]

(ANDRADE, 1998, p. 56)

 

Nesse poema, o poeta nos revela, mediante o reinvestimento de suas memórias pessoais – ao nos remeter a sua “pertença” ao estado de Minas Gerais – sua necessidade de conservar em si parte do que foi um dia em Itabira. Para isso, materializa, em suas palavras, o “Espírito de Minas”. Entretanto, faz questão de declarar que o fazer poético não se trata de atividade sem preparo técnico e intelectual:

 

Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos (ANDRADE, 1944, p. 1.344).

 

Como se pode depreender da citação, Drummond (1944) faz esforço para realizar uma poesia bem construída. O poema, para ele, é um artefato e não obra de puro lirismo ou inspiração. Portanto, encontrará poesia não só nas grandes coisas, mas também em notícias de jornais – “Desaparecimento de Luísa Porto” (ANDRADE, 1998, p. 129-134) e “Morte do leiteiro” (ANDRADE, 1998, p. 134-137). Irá trabalhar com o cotidiano a partir de um prisma onde predominam a emoção e a sensibilidade. E ao fundir / reinvestir o vocabulário com o tema, o autor (1998) acaba guardando sua dimensão coloquial, levando o gênero, antes apenas jornalístico, a ultrapassar os próprios limites se ingressando nos domínios da literatura. E, por isso, o poeta tem a necessidade de refletir e questionar a própria atitude poética para compreender a si e a humanidade ao reinvestir tanto imagens do mundo real quanto do ficcional conforme notamos no Poema-orelha:

 

Poema-orelha

 

(…)

Aquilo que revelo

e o mais que segue oculto em vítreos alçapões

são notícias humanas,

simples estar-no-mundo,

e brincos de palavra,

um não-estar-estando,

mas de tal jeito urdidos

o jogo e a confissão

que nem distingo eu mesmo

o vivido e o inventado.

(…)

(ANDRADE, 1998, p. 189-190)

 

Abordaremos, agora, a importância da terra natal na poesia drummoniana (1998).

Ao falar de Itabira, o eu-autor fala também de todo o estado de Minas Gerais, evocando / captando cenários e hábitos mineiros, conseguindo exprimir o elemento humano e universal, o telurismo e a revelação da pasmaceira de uma “Cidadezinha qualquer” do interior, focalizando o chão brasileiro sem ufanismos e idealismos, que envolvem o destinatário. Faz, inclusive, uma “Romaria” reinvestindo o barroco ao caráter arrependido.

 

Romaria

 

Os romeiros sobem a ladeira

cheia de espinhos, cheia de pedras,

sobem a ladeira que leva a Deus

e vão deixando culpas no caminho.

(…)

(ANDRADE, 1998, p. 44-46)

 

Drummond (1998), ausente de sua terra natal, sabe que traz o lugar reinvestido dentro de si e na parede é apenas uma fotografia… enquanto captação de uma época da vida do eu-autor, “Mas como dói”. Chega ao reconhecimento de que “o hábito de sofrer, que tanto me diverte, / é doce herança itabirana”. Deslocado espacialmente de sua terra, tenta recuperar o tempo passado, vencer a distância que o separa das terras mineiras, na medida em que percebe que o passado se torna presente pelo reinvestimento de lembranças e através da herança legada pela terra onde nasce conforme percebemos na Confidência do itabirano.

 

Confidência do itabirano

 

Alguns anos vivi em Itabira.

Principalmente nasci em Itabira.

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.

(…)

(ANDRADE, 1998, p. 46-47)

 

Herança que o poeta (1998) carrega como parte constitutiva do seu ser e que tem suas raízes nos ancestrais longínquos, cujos retratos foram carcomidos pelo tempo. Tempo que “Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava / que rebentava daquelas páginas.”

 

5 Considerações finais

Em um mundo que lhe é exterior, o outro se oferece por inteiro à visão de Drummond (1998), enquanto elemento constitutivo deste mundo. A cada instante, ele vive distintamente todas as fronteiras do outro, podendo, dessa maneira, captá-lo, reinvesti-lo por inteiro com a visão, o tato e as imagens compartilhadas pelo eu-autor e pelos destinatários mediante as ressonâncias coletivas. No mundo exterior, o outro parece se mostrar por inteiro à sua frente e sua visão / captação pode esgotá-lo enquanto objeto entre os outros objetos, sem que nada venha ultrapassar o limite de sua configuração, venha romper sua unidade plástico-pictural, visível e tangível. E ao percebemos em Drummond (1998) a consciência histórica, a capacidade de abranger toda uma pauta de sentimentos e a catolicidade, podemos dizer que encontramos os atributos de um verdadeiro clássico.

Com muitas veredas do conhecimento humano, nosso poeta (1998) atinge, com sua poesia, o homem (esse sonhador incansável), o mundo e seu peso, o humor, a sátira, a ironia, a mensagem social, o clã familiar, o amor à terra natal, a crítica a um presente que valoriza a máquina, enfim, um conjunto que seria impossível, talvez, a qualquer outro autor. E para que tudo isso? Para chegar à demonstração de que o homem é apenas homem, coisa inexplicável e sem perspectivas de definição. Um ser que se caracteriza por um contínuo desajustamento entre a sua realidade e a realidade exterior de acordo com o poema Especulações em torno da palavra homem:

Especulações em torno da palavra homem

(…)

Que milagre é o homem?

Que sonho, que sombra?

Mas existe o homem?

(ANDRADE, 1998, p. 215-219)

Carlos Drummond de Andrade (1998), lido e relido por décadas, pode ser considerado o poeta que ultrapassa gerações. Ele adota, em sua poesia, desde o humor até o pessimismo e nos mostra que não deixou de ser o intelectual preocupado com a difusão da arte. Mostra-nos também que vivencia o eu do outro de um modo totalmente diferente daquele como vivencia seu próprio eu ao valer-se do reinvestimento de captação. Trata-se de uma distinção essencial para a estética. Basta lembrar o princípio da disparidade dos valores entre eu e o outro do ponto de vista da moral cristã: não se deve amar a si mesmo, mas deve-se amar ao outro; não se deve ser indulgente consigo mesmo, mas deve-se ser indulgente com o outro. De uma maneira geral, deve-se aliviar o outro de seus fardos e assumi-los para si mesmo. E ao assumir esses fardos e por não saber, às vezes, quem é, será vários: Carlos, José, Robinson Crusoé … gauche.

 

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1998.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Confissões de Minas. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 1944.

AUMONT, Jacques. A imagem. Trad. Estela dos Santos Abreu e Cláudio C. Santoro. 16ª ed. Campinas: Papirus, 2012.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. 3ª ed. Coordenação da tradução Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2012.

GUIMARÃES, Luciano. As cores da mídia. A organização da cor-informação no jornalismo. São Paulo: Annablume, 2003.

MAINGUENEAU, D. Diversidade dos gêneros de discurso. In: MACHADO, I. L. & MELLO, R. (Orgs.). Gêneros: Reflexões em Análise do Discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004.

MENDES, Emília. Publicidade e imagem: uma proposta de estudo. In: Fórum Internacional de análise do discurso, 2, 2010, Rio de Janeiro, Anais do II Fórum Internacional de Análise do Discurso – discurso, texto e enunciação. Homenagem a Patrick Charaudeau. Rio de Janeiro: UFRJ, 2010, p. 91-102.

NATIVIDADE, Cláudia; PIMENTA, Sônia. A semiótica social e a multimodalidade. In: LIMA, C. H.; PIMENTA, S. M. O.; AZEVEDO, A. M. T. (Orgs.). Incursões semióticas: teoria e prática da gramática sistêmico-funcional, multimodalidade, semiótica social e análise crítica do discurso. Rio de Janeiro: Livre Expressão Editora, 2009. p. 21-29.

 



Voltar ao topo