ESCRITORES



ÁGUA VIVA





Autor: Clarice Lispector
Título: Água Viva, Agua Viva
Idiomas: port, fra
Tradutor: Regina Helena de Oliveira Machado
Data: 28/12/2004

ÁGUA VIVA 
Clarice Lispector
É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é a loucura do raciocínio – mas agora quero o plasma – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena.
Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio dos instantes – e o que se sente é ao mesmo tempo que imaterial tão objetivo que acontece como fora do corpo, faiscante no alto, alegria, alegria é matéria de tempo e é por excelência o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.
Meu tema é o instante? meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.
Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo-a-corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com meu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão.
Hoje acabei a tela de que te falei: linhas redondas que se interpenetram em traços finos e negros, e tu, que tens o hábito de querer saber por quê – e porque não me interessa, a causa é matéria de passado – perguntarás por que os traços negros e finos? é por causa do mesmo segredo que me faz escrever agora como se fosse a ti, escrevo redondo, enovelado e tépido, mas às vezes frígido como os instantes frescos, água do riacho que treme sempre por si mesma. O que pintei nessa tela é passível de ser fraseado em palavras? Tanto quanto possa ser implícita a palavra muda no som musical.
Vejo que nunca te disse como escuto música – apóio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos.
E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última. Para te dizer o meu substrato faço uma frase de palavras feitas apenas dos instantes-já. Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê o que agora se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação enérgica dos elétrons, prótons, nêutrons, no fascínio que é a palavra e a sua sombra”. Isso que te escrevi é um desenho eletrônico e não tem passado ou futuro: é simplesmente já.
Também tenho que te escrever porque tua seara é a das palavras discursivas e não o direito de minha pintura. sei que são primárias as minhas frases, escrevo com amor demais por elas e esse amor supre as faltas, mas amor demais prejudica os trabalhos. Este não é um livro porque não é assim que se escreve. O que escrevo é um só clímax? Meus dias são um só clímax: vivo à beira.
Ao escrever não posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictiossauros e plessiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida. Não pinto idéias, pinto o mais inatingível “para sempre”. Ou “para nunca”, é o mesmo. Antes de mias nada, pinto pintura. E antes de mais nada te escrevo dura escritura. Quer como poder pegar com a mão a palavra. A palavra é objeto? E aos instantes eu lhes tiro o sumo da fruta. Tenho que me destituir para alcançar cerne e semente de vida. O instante é semente viva.
A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.
E se eu digo “eu” é porque não uso dizer “tu”, ou “nós” ou “uma pessoa”. Sou obrigada à humildade de me personalizar me apequenando mas sou o és-tu.
Sim, que a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real. Ainda tenho medo de me afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto, e no futuro: a invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro. Desde já é futuro, e qualquer hora é hora marcada. Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo. Parece com momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir pois fui ao fundo dos momentos. É um estado de contato com a energia circundante e estremeço. Uma espécie de doida, doida harmonia. Sei que meu olhar deve ser o de uma pessoa primitiva que se entrega toda ao mundo, primitiva como os deuses que só admitem vastamente o bem e o mal e não querem conhecer o bem enovelado como em cabelos no mal, mal que é o bom.
Fixo instantes súbitos que trazem em si a própria morte e outros nascem – fixo os instantes de metamorfose e é de terrível beleza a sua seqüência e concomitância.
Agora está amanhecendo e a aurora é de neblina branca nas areias da praia. Tudo é meu, então. Mal toco em alimentos, não quero me despertar para além do despertar do dia. Vou crescendo com o dia que ao crescer me mata certa vaga esperança e me obriga a olhar cara a cara o duro sol. a ventania sopra e desarruma os meus papéis. Ouço esse vento de gritos, estertor de pássaro aberto em oblíquo vôo. E eu aqui me obrigo à severidade de uma linguagem tensa, obrigo-me à nudez de um esqueleto branco que está livre de rumores. Mas o esqueleto é livre de vida e enquanto vivo me estremeço toda. Não conseguirei a nudez final. e ainda não a quero, ao que parece.
Esta é a vida vista pela vida. Posso não ter sentido mas é a mesma falta de sentido que vem a veia que pulsa.
Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por quê, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim.
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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1994. p. 13-8.
AGUA VIVA
Clarice Lispector
C’est avec une joie si profunde. C’est un tel alléluia. Alléluia, crié-je, alléluia qui se fond au plus obscur hurlement humain de la douleur de séparation, mais c’est un cri de félicité diabolique. Parce que personne ne me retient plus. Je suis encore capable de raisonnement – j’ai déjà étudié les mathematiques qui sont la folie du raisonnement – mais maintenant je veux le plasma – je veux me nourrir directement du placenta. J’ai un peu peur: peur encore de m’abandonner car l’instant prochain est l’inconnu. L’instant prochain est-il fait par moi? ou se fait-il tout seul? Nous le faisons ensemble par la respiration. Et avec une désinvolture de torero dans l’arène.
Je te dis: j’essaie de capter la quatrième dimension de l’instant-déjà qui d’être si figitif, n’est plus, car maintenant est devenu un nouvel instant-déjà qui à son tour n’est plus. Chaque chose a un instant où elle est. Je veux m’emparer du est de la chose. Ces instants qui s’écoulent dans l’air que je respire: en feux d’artifice ils éclatent muets dans l’espace. Je veux posséder les atomes du temps. Et je veux capturer le présent qui, par sa nature même, m’est interdit: le présent me fuit, l’actualité m’échappe, l’actualité c’est moi toujours dans le déjà. C’est seulement dans l’acte d’amour – par la limpide abstraction d’étoile de ce que l’on sent – que l’on capte l’inconnue de l’instant qui est durement cristaline et vibrante dans l’air, et la vie est ce instant incomptable, plus grand que l’événement en soi: dans l’amour l’instant d’impersonnel joyau resplendit dans l’air, gloire étrange de corps, matière sensibilisée par le frisson des instants – et ce que l’on sent est, en même temps qu’immatériel, si objectif que cela se passe comme hors du corps, étincelant en haut, joie, joie, est matière de temps, et par excellence, l’instant. Et dans l’instant est le est de l’instant liu-même. Je veux capter mon est. Et je chante alléluia dans l’air ainsi que fait l’oiseau. Et mon chant est à personne. Mais il n’est pas de passion soufferte en douleur et amour qui ne soit suivie d’un alléluia.
Mon thème est l’instant? mon thème de vie. Je cherche à lui être pareille, je me divise des milliers de fois en autant de fois que d’instants qui s’écoulent, fragmentaire que je suis et précaires les moments – je ne me compromets qu’avec la vie qui naît avec le temps et avec lui grandit: c’est seulement dans la temps qu’il y a de l’espace pour moi.
Je t’écris tout entière et je sens une saveur à être et ta saveur-à-toi est abstraite comme l’instant. C’est aussi avec tout le corps que je peins mês tableaux et sur la toile je fixe l’incorporel, moi corps à corps avec moi-même. La musique ne se comprend pas: s’entend. Entends-moi alors avec ton corps entier. Quand tu arriveras à me lire, tu demanderas pourquoi je ne m’en tiens pas à la peinture et à mês expositions, puisque j’écris rude et sans ordre. C’est que maintenant je sens la nécessité de mots – et c’est nouveau pour moi ce que j’écris parce que ma vraie parole est restée jusqu’à présent intouchée. La parole est ma quatrième dimension.
Aujourd’hui j’ai fini la toile dont je t’ai parlé: lignes rondes qui s’interpénètrent et traits fins et noirs, et toi, qui as l’habitude de vouloir savoir pourquoi – et le pourquoi ne m’intéresse pas, la cause est matière de passé –, tu demanderas pourquoi les traits noirs et fins? c’est à cause du même secret qui me fait maintenant écrire comme si c’était à toi, j’écris rond, emmêlé et tiède, mais parfois glacé comme les instants frais, eau du ruisseau qui toujours tremble de soi-même. Ce que j’ai peint sur cette est-il susceptible d’être phrasé en mots? Autant que peut être implicite la parole muette dans le son musical.
Je vois que jamais je ne t’ai dit comment j’écoute la musique – je pose légèrement la main sur l’électrophone et la main vibre répandant des ondes à travers tout le corps: ainsi j’entends l’électricité de la vibration, substrat ultime dans le domaine de la réalité, et le monde tremble dans mês mains.
Et voilà que je m’aperçois que je veux pour moi le substrat vibrant du mot répété en chant grégorien. Je suis consciente du fait que tout ce que je sais, je ne peux le dire, je ne sais qu’en peignant ou prononçant des syllables aveugles de sens. Et si je sois ici t’utiliser toi des mots, ils doivent faire un sens presque uniquement corporel, je suis en lutte avec la vibration ultime. Pour te dire mon substrat, je fais une phrase de mots uniquement faits des instants-déjà. Lis alors mon invention de pure vibration sans signifié hors celui de chaque syllable sibilante, lis ce qui suit maintenant: « au cours des siècles j’ai perdu le secret de l’Egypte, quand je me mouvais en longitude, latitude et altitude par l’action énergétique des électrons, protons, neutrons, dans la fascination qu’est la parole et son ombre ». Ceci, que je t’ai écrit, est un dessin électronique et n’a ni passé ni futur: c’est simplement déjà.
Je dois aussi t’écrire parce que ton champ est celui des paroles discursives et non le direct de ma peinture. Je sais qu’elles sont primaires mês phrases, j’écris avec trop d’amour pour elles et cet amour supplée aux fautes, mais trop d’amour nuit aux travaux. Ceci n’est oas un livre parce que se n’est pais ainsi qu’on écrit. Ce que j’écris n’est qu’un sommet? Mês jours ne sont qu’un sommet je vis au bord.
Lorsque j’écris je ne peux fabriquer comme en peinture, quand je fabrique artisanalement une couleur. Mais j’essaie de t’écrire avec tout le corps, envoyant une flèche qui se fiche au point tendre et névralgique du mot. Mon corps inconnu te dit: dinosaures, ichtyosaures et plésiosaures, avec un sens seulement auditif, sans qu’ils deviennent pour autant paille sèche, mais humide. Je ne peins pas de idées, je peins le plus intangible « pour toujours». Ou « à jamais», c’est la même chose. Avant tout, je peins la peinture. Et avant tout je t’écris la dure écriture. Je veux comme pouvoir prendre le mot avec la main. Le mot est un objet? Et des instants je tire le jus de fruit. Je dois me destituer pour atteindre cœur et semence de vie. L’instant est semence vivante.
L’harmonie secrète de la disharmonie: je veux, non ce qui est fait, mais ce qui tortueusement se fait encore. Mês mots déséquilibrés sont le luxe de mon silence. J’écris par pirouettes acrobatiques et aériennes – j’écris à cause de mon profond vouloir parler. Quoique écrire ne me donne que la grande mesure du silence.
Et si je dis « je » c’est parce que je n’ose pas dire « tu », ou « nous » ou « une personne ». Je suis obligée à l’humilité de me personnaliser, me rapetissant, mais je suis le es-tu.
Oui, je veux la parole ultime qui est aussi tellement première qu’elle se confond déjà avec la partie intangile du réel. J’ai encore peur de m’éloigner de la logique parce que je tombe dans l’instinctif et dans le direct, et dans le futur: l’invention de l’aujourd’hui est mon unique moyen d’instaurer le futur. Des déjà, c’est futur, et toute heure est l’heure dite. Quel mal y a-t-il pourtant à ce que je m’éloigne de la logique? Je travaille la matière première. Je suis derrière ce qui est derrière la pensée. Inutile de vouloir me classifier: je me dérobe simplement, sans laisser faire, le genre ne me saisit plus. Je suis dans un état tout à fait nouveau et vrai, curieux de soi-même, si attirant et personnel que je ne peux le peindre ni l’écrire. Cela ressemble à des moments que j’ai eus avec toi, quand je t’aimais, au-delà desquels je n’ai pu aller car j’ai été au fond des moments. C’est un état de contact avec l’énergie environnante et je frémis. Une espèce de folle, folle harmonie. Je sais que mon regard doit être celui d’une personne primitive qui s’abandonne tonte au monde, primitive comme les dieux qui n’admettent largement que le bien et le mal et ne veulent pas connaître le bien emmêlé comme écheveau au mal, mal qui est le bon.
Je fixe des instants subits qui portent en eux la propre mort et d’autres naissent – je fixe les instants de métamorphose et c’est d’une terrible beauté, leur séquence et concomitance.
Maintenant le jour se lève et l’aurore est de brume blanche sur les sables de la plage. Tout est à moi, alors. Je touche à peine aux aliments, je ne veux pas me réveiller au-delà du réveiller du jour. Je vais croissant avec le jour qui, de croître, me tue certain vague espoir et m’oblige à regarder face à face le dur soleir. Le vent souffle et dérange mês papiers. J’entends ce vent de cris, râle d’oiseau ouvert en vol oblique. Et moi ici, je m’oblige à la sévérité d’un langage tendu, je m’oblige à la nudité d’un squelette blanc qui est libre d’humeurs. Mais le squelette est libre de vie, et tant que je vis, je frémis toute. Je n’atteindrai pas la nudité finale. Et je ne la veux pas encore, semble-t-il.
Celle-ci est la vie vue par la vie. Je peux ne pas avoir de sens mais c’est le même manque de sens qu’a la veine qui bat.
Je veux t’écrire comme qui apprend. Je photographie chaque instant. J’approfondis les mots comme si je peignais, plus qu’un objet, son ombre. Je ne veux pas demander pourquoi, on peut demander toujours pourquoi et toujours continuer sans réponse: arriverai-je à m’abandonner au silence expectant qui suit une question sans réponse? Pourtant je devine que quelque part, ou en quelque temps, existe la grande réponse pour moi.
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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Agua Viva. Traduit du brésilien par Regina Helena de Oliveira Machado. Paris, Des Femmes, 1973. p. 9-25.

 

 



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