Revista Mulheres e Literatura – vol. 17 - 2º trimestre - 2016



A VIAGEM COMO ESTRATÉGIA DE LIBERTAÇÃO FEMININA EM AMANHECER, DE LÚCIA MIGUEL PEREIRA – Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida





Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida

Universidade Estadual de Montes Claros

 

RESUMO: A escritora mineira Lúcia Miguel Pereira iniciou sua carreira literária nas primeiras décadas do século XX. Foi também uma das pioneiras mulheres a investir na crítica literária brasileira e ser reconhecida pela sua atuação nessa área. Enquanto ficcionista, Lúcia Miguel-Pereira não teve o mesmo reconhecimento que enquanto crítica literária, ainda que tenha publicado várias obras: quatro romances direcionados ao público adulto, intitulados Maria Luísa, Em Surdina, Amanhecer e Cabra-cega e outros quatro voltados para o público jovem: A fada menina, Na floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde. Fica evidente, tanto em sua crítica quanto em sua ficção, que a autora se preocupa com a condição social da mulher no Brasil dos primeiros cinquenta anos do século XX. Esse aspecto pode ser exemplificado quando trata da viagem das personagens Maria Aparecida e Sônia como sendo estratégia de libertação, na obra Amanhecer, escrita em 1938.

 

PALAVRAS-CHAVE: mulher, libertação, viagem, ficção.

 

ABSTRACT: The writer Lúcia Miguel-Pereira was born in Minas Gerais and began her literary career in the first decades of the twentieth century. She was one of the first women to become a female Brazilian literary critic and to be recognized by her performance as such. Lúcia Miguel-Pereira did not have the same recognition as a fiction writer, although she published four novels directed to adult readers, entitled Maria LuísaEm surdinaAmanhecer and Cabra-cega; another four were aimed at young readers: A fada menina, Na floresta mágicaMaria e seus bonecos and A filha do Rio Verde. One can notice her concern for the social status of Brazilian women either in her criticism or in her fiction during the 1950s. This becomes evident in her introduction of travels by the characters Maria Aparecida and Sônia in the novel Amanhecer (1938) as a strategy for women’s liberation.

 

KEYWORDS: woman, liberation, travel, fiction.

 

 

Minicurrículo: EDWIRGENS A. RIBEIRO LOPES DE ALMEIDA é mestre em Literatura Brasileira pela UFMG, doutora em Literatura pela UNB e doutora em Literatura espanhola pela USP. Autora dos livros Por trás do véu e da espada: o disfarce subjacente à representação das personagens cervantinas, O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira: escritos da tradição, Crítica, poética e relações de gênero: uma releitura de Memórias de um sargento de milícias, organizadora dos livros Diálogos literários: a ficção do século de ouro espanhol e as literaturas brasileira, francesa e inglesa, Nas margens do fato escritos sobre as Novelas de Cervantes; e Relendo Dom Quixote. É escritora integrante do Dicionário Miguel de Cervantes o sagrado direito de sonhar, dentre outros. Professora/pesquisadora do Departamento de Comunicação e Letras e do Mestrado em Letras da UNIMONTES. Membro da ABH e da Asociación Cervantes.

 

 

A VIAGEM COMO ESTRATÉGIA DE LIBERTAÇÃO FEMININA EM AMANHECER,

DE LÚCIA MIGUEL PEREIRA

 

Edwirgens A. Ribeiro Lopes de Almeida

Universidade Estadual de Montes Claros

 

 

Longo ou curto, narrando um episódio ou toda uma existência, o romance tem que penetrar fundo nos mistérios da vida, ter um sentido de busca, de tentativa de compreensão. Sem isso, nada vale, seja embora bem realizado como obra de arte.

Lúcia Miguel-Pereira

 

 

Sendo considerada uma das primeiras mulheres a investir do campo da crítica literária, Lúcia Miguel Pereira teve logo o reconhecimento por sua atuação na escrita de jornais e revistas, além de biografar, coerentemente, dois grandes nomes da literatura brasileira: Machado de Assis e Gonçalves Dias. A profícua atividade no campo das letras ao longo dos primeiros 1950 anos do século XX, a escritora, nascida em Minas Gerais, também fez um breve percurso pelos campos da ficção quando empreendeu a escrita de quatro romances Maria Luísa, Em Surdina, Amanhecer e Cabra-cega destinados ao leitor adulto e outros quatro A fada menina, Na floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde, que procuravam conquistar os pequenos leitores.

Desse legado deixado por Lúcia Miguel Pereira, a ficção para adultos revela uma autora preocupada com a condição social da mulher naquele contexto dos anos 30 e nas décadas seguintes até o falecimento da autora em 1959.  Para Lúcia Miguel, a literatura era uma forma ativa de demonstrar a ocupação relegada à mulher e as possibilidades que as mesmas poderiam galgar. Essa discussão pode ser facilmente percebida tanto em seus textos de ficção quanto em seus textos críticos publicados em jornais e revistas para os quais a autora, fertilmente, contribuiu. Tendo em vista essa inquietação que percorreu a trajetória da escritora, nesta breve exegese, demonstraremos como a mesma utiliza a estratégia da viagem de Maria Aparecida, personagem da obra Amanhecer, publicada em 1938, para metaforizar uma forma de libertação feminina.

Frente ao exposto, pode-se relatar que, pelo trecho acima citado como epígrafe, escrito por Lúcia Miguel Pereira para a Revista do Brasil dois anos após a publicação de Amanhecer, indica a preocupação com o conteúdo da ficção, sobretudo com a sua função na existência das pessoas. No mesmo artigo, Lúcia avança no sentido de explicar que o papel do romance, mais acessível que o drama e a poesia, pode satisfazer “à necessidade, numa época como a nossa [o final da década de 30], praticamente sem padrões morais, de pôr em equação todos os problemas, de procurar soluções para os conflitos humanos” (PEREIRA, 1992, p. 126).

Talvez por essas preocupações, pela ação do romance sobre o indivíduo que pode influenciar a desordem evidente no contexto, a artista construa um enredo bastante contraditório, porém, que faz um chamamento a pensar. Traduzindo essa complexidade do tempo, principalmente no plano ideológico, ela põe em evidência no romance Amanhecer, duas distintas personagens, Maria Aparecida e Sônia. A primeira, embora seja a protagonista, narradora de suas próprias memórias, divide atenção com a coadjuvante Sônia, que passa a ocupar lugar privilegiado na cena ficcional. Uma é o oposto da outra. Enquanto Maria Aparecida é a representação da tradição, através de seu discurso religioso, embora um pouco místico também, sonha com um casamento por amor e sua completa realização através dele, enquanto Sônia é emblemática da modernidade. Moradora da cidade grande, sem muitas crenças e superstições, namoradeira, não segue os protocolos e os padrões morais da família tradicional.

Para a protagonista, o encontro com Sônia está previsto em sua imaginação fantasiosa. Também a chegada da nova moradora da Casa Verde põe Aparecida diante da possibilidade da realização de seus sonhos, como o casamento com um burguês, o exercício do trabalho, a mudança para a cidade grande. Talvez aqui seja indicada a inevitabilidade do contato com as novas posturas, com a modernidade, traduzida na oportunidade da realização pessoal e profissional da mulher, o que, ironicamente, configura outra frustração da protagonista. De certa forma, é a viagem tanto de uma quanto da outra que começa a operacionalizar as transformações na vida das duas. É através da viagem de Sônia para o lugarejo de São José que Aparecida tem contato com novas ideologias e novas práticas, do mesmo modo que Sônia, naquele lugar, trava contato com uma nova realidade e, a partir dali, passa a buscar novos objetivos para sua vida. É, ainda, com a viagem para o Rio de Janeiro que se dá a concretização da transformação de ambas.

Se o embate que nutriu esse escrito se revela bem condizente com uma crítica aos pressupostos patriarcais, Sônia era o símbolo da desordem, da liberdade, enquanto Aparecida realça os parâmetros da regrada educação patriarcal. Nádia Batella Gotlib (1998) esclarece que as personagens de Lúcia Miguel apresentam alguns traços da religiosidade católica possuídos pela autora. Do lado da autoria, Antonio Candido acrescenta que, nos registros de Lúcia, há a preocupação com o espiritual. “Trata-se de uma católica preocupada em ver a sociedade resolver os seus graves problemas à luz de uma transformação espiritual marcada pela fidelidade aos princípios religiosos” (CANDIDO, 2004, p. 130). Consoante nossa explicação, mesmo que revele a preocupação com a presença de Deus, através da religião católica na ficção, a autora não deixa de criticar algumas posturas de religiosos. Falando ainda dessa presença nos textos da década de 30, Candido prossegue: “Para Lúcia, havia no panorama do seu tempo uma esterilidade e um dilaceramento que a faziam tender à busca da unidade pela fé” (CANDIDO, 2004, p. 130).

Do plano da ficção, essa educação, sobretudo religiosa adquirida num colégio de freiras, era, para Sônia, uma falta de civilização: “– Você está muito cheia de baboseiras… quando formos para o Rio, há de ir passar uns tempos comigo para se civilizar” (PEREIRA, 1938, p. 38). Sob uma ótica irônica, as palavras da personagem Sônia indicam que as crenças, superstições e costumes daquele lugar eram entendidos como ‘baboseiras’ e a vida que levava no Rio de Janeiro, ‘cassinos e grills’, festas, passeios ‘de baratinhas com os namorados’, eram para ela práticas de uma pessoa civilizada. A viagem para o Rio de Janeiro era, para Aparecida e, também pela visão de Sônia, uma forma daquela se libertar de uma série de ‘preconceitos’. A religião passa então a ser uma forma de libertação. Também, para Aparecida que, no final da história, acredita-se sem fé, é a Nossa Senhora da Aparecida, a quem ela recorre na última frase do livro.

Apesar de vislumbrar algumas mudanças e certa liberdade, Aparecida tinha consciência da diferença existente entre as duas. Explica a protagonista que “sentia-a mais livre, mais dentro da vida do que, mais capaz de gozar, de aproveitar tudo. Sônia era um animalzinho novo e feliz, obedecendo sempre ao capricho do momento, fazendo tudo que lhe passava pela cabeça” (PEREIRA, 1938, p. 34). A vida regrada da educação recebida por Aparecida é para ela um afastamento dos prazeres da vida, procurando então aproximar-se de Sônia para alcançar também a sua liberdade. Apesar dessa constatação e dessa aspiração, a protagonista, parece não concordar com a amiga que achava um ‘absurdo que a mulher dependesse do casamento para conhecer a vida’. O destaque a este pensamento é bem providencial para fazer pensar as mulheres e, a sociedade de modo extensivo, sobre a ocupação e a conduta estigmatizada da mulher ainda naquele momento. Contraditoriamente e, estrategicamente sarcástico, após abandonar a vida desregrada e passar a obedecer alguns protocolos do tempo, sobretudo no plano espiritual, Sônia se sente mais livre e feliz que a protagonista. E, é com base nessa transformação também que Sônia atribui à religião o final infeliz de Aparecida mostrando isso quando esclarece: “– Antônio matou a sua fé, por isso é que você não é feliz, apesar de estar com ele” (PEREIRA, 1938, p. 228).

A expressão ‘conhecer a vida’ assume significados diferentes para cada uma. Para a ingênua Aparecida, isto representava viver como as heroínas dos romances românticos, enquanto para Sônia, o termo adquire sentido da prática sexual. Apesar da ingenuidade, a narradora de Amanhecer consegue definir bem a questão. “Sem deixar de invejar a liberdade de Sônia, eu sabia que não seria capaz de imitá-la. Viver era para ela uma coisa e para mim outra. Bem diferentes. Às vezes achava Sônia uma desmiolada, uma leviana. E prometia a mim mesma afastar-me dela” (PEREIRA, 1938, p. 35). O enunciado da narradora põe em destaque o conhecimento da ação transformadora de uma sobre a outra. Como buscava mudanças para sua vida, Aparecida mostra ainda uma incerteza se essa transformação seria benéfica para si, assim como se comportavam grande parte das mulheres diante do rompimento e da transformação de suas práticas. Neste sentido, o final desencantado da protagonista parece culminar na punição da mesma por ter tentado. Ao longo da narrativa, é-lhe permitido, em vários momentos, refletir sobre sua decisão. A constatação feita no trecho acima, por exemplo, não foi realizada após a desilusão da mudança, mas no presente dos acontecimentos. Então, ela mesma tinha consciência da incerteza das consequências de seus atos.

Essa criticidade presente na romântica personagem a faz sentir também mais parecida com a mãe da amiga, pois ela “não tinha as teorias esquisitas da filha, vivia no mesmo mundo que eu. Era do Apostolado da Oração, cosia para os pobres todas as sextas feiras. Queria muito que Sônia se casasse” (PEREIRA, 1938, p. 36). Podemos localizar na explicação de Aparecida a chamada de atenção para a existência de mundos diferentes, em consequência disso também a existência de escolhas a serem feitas. Se as teorias são esquisitas se deve ao fato de não serem condizentes com a realidade daquele que a contata, logo improcedentes para uma personagem ‘sonhadora’ como Aparecida, vivendo numa sociedade ficcional que assume para si um tempo de desagregação de valores e de constante vigilância das ideias e das práticas no plano histórico. Do mesmo modo em que a sociedade daqueles tempos agregava distintas formas de tratamento para a mulher burguesa, camponesa ou proletária, a sociedade ficcional assume essa dinâmica e constrói dois universos incompatíveis entre si, o mundo de Aparecida e o mundo de Sônia. O clima de desencanto em que a obra é finalizada parece comprovar a dificuldade de integração entre ambos.

Esse descompasso entre os mundos de Sônia e de Aparecida pode ser notado quando se refere ao trabalho. Como burguesa, essa ocupação não faz parte dos planos de Sônia, enquanto para Aparecida, incentivada por Tia Josefina e por Antônio, o trabalho é entendido como forma de libertação. Porém, Aparecida não segue os conselhos da Tia se tornando professora em São José, ela deseja um emprego como datilógrafa no Rio de Janeiro. Enquanto o pai vê no trabalho uma forma de ‘humilhação parecer não poder sustentá-la’, a mãe indica os perigos do trabalho feminino que levam à perdição. Há aqui mais uma ousadia feminina, isto é, o caminho da subversão tomado por Aparecida que, de certo modo, se não a conduz ao desencanto final, também não é suficiente para a sua plena realização. Com uma iniciativa rara nas protagonistas dos romances de Lúcia, a protagonista põe em prática as ideias de Antônio que ela mesma considera ‘esquisitas’, com isso, rompe com o futuro previsto para uma menina na sua condição, ser professora.

No modo de ver historiográfico, Guacira Lopes Louro (1997) empreende que a sociedade semipatriarcal, ainda nesses tempos, acreditava que toda atividade da mulher fora do lar poderia representar um risco. Para justificar o trabalho da mulher como professora, algumas vozes argumentavam que estas possuíam natural inclinação para o trato com as crianças, sendo elas as primeiras educadoras. “Se o destino primordial da mulher era a maternidade, bastaria pensar que o magistério representava, de certa forma, ‘a extensão da maternidade’, cada aluno ou aluna vistos como um filho ou uma filha ‘espiritual’” (LOURO, 1997, p. 450), completa Guacira Lopes Louro. Por este lado, o trabalho passava a ser visto como uma extensão da maternidade, portanto da ocupação ‘por excelência’ da mulher. Também nesse discurso se inclui os baixos salários oferecidos à mulher o que permitia ao homem o provimento da família, já que “o trabalho externo para ele era visto não apenas como sinal de sua capacidade provedora, mas também como um sinal de sua masculinidade” (LOURO, 1997, p. 453). No ferir a ‘capacidade provedora e a masculinidade’ está a ‘humilhação’ temida pelo pai da narradora de Amanhecer e, mais uma vez o discurso literário, com ironia, critica as regras ao mesmo tempo em que se mostra condizente com o discurso histórico, criando, assim, a ilusão da verdade.

Intentando irromper a condição de submetimento feminino e alcançar a esperada liberdade, o que almeja Aparecida é ir para a cidade exercer o seu trabalho para, assim, fomentar o seu sustento. Embora já houvesse número significativo de mulheres engajadas nos trabalhos como os das fábricas, do comércio ou dos escritórios, essas mulheres ainda eram marginalizadas e essa prática considerada uma fatalidade. Sob essa questão, a ficção põe diante do leitor, a partir da percepção da própria protagonista, que é impossível a tranquilidade para quem faz certas escolhas. Tendo em vista que a posição crítica da autora concorre para acentuar os contrastes e interpretações da ficção, convém comentar a afirmação de Cristina Ferreira Pinto de que Lúcia Miguel Pereira “é partidária da ideologia que defende o direito da mulher ao trabalho, sem restrições de atividades” (PINTO, 1990, p. 50). Desperta atenção essa afirmativa já que, a autora, em texto escrito para a Revista A Ordem, em 1933, já mencionado anteriormente, confirma essa vertente histórica de que a mulher deveria trabalhar em atividades que não ferissem as suas ‘sensibilidades’ femininas e nem as ‘impedissem de exercer as suas atividades domésticas’. Esse pensamento é condizente com aquele do feminismo bem comportado daquela época, do qual Lúcia nega ser complacente, porque, pensava nas mulheres de elite que já haviam alcançado o direito ao voto, o ingresso às universidades, alguma ocupação social. Como esclarecia Bertha Lutz, dois anos antes da publicação de Amanhecer (1938), o envolvimento da mulher com as atividades da educação, do trabalho ou da política daria melhores condições para exercerem o compromisso de mãe e esposa, já que, no lar, ela precisava tomar decisões que eram estabelecidas a partir dessas instituições.

Na instância literária, através da criatura de papel é criticada essa trajetória feminina, pois, negando o trabalho como professora que legaria ‘sua independência’ e a aproximaria das ‘atividades femininas’, a protagonista opta pelo serviço na cidade grande no qual, de toda forma, não consegue alcançar a sua total liberdade, mas fica também exercendo trabalho de datilógrafa para Antônio. Quem a conduz para este trabalho é o ‘mentor’ das ideias ‘dispersivas’ e esse trabalho, como esclarecido, não é bem visto para uma mulher.

Se estudasse, como diz Antônio, a menina poderia virar gente através do trabalho, renuncia ao casamento, tornando-se apenas amante, à maternidade e “torna-se mera colaboradora de Antônio” (BUENO, 2006, p. 518), conforme diz Luís Bueno. Ela mesma conclui sua infelicidade, mediada pela total subserviência e aceitação quando relata “eu serei sua amante, Antônio, sua criada, sua escrava. Serei o que você quiser, contanto que você me dê um lugarzinho na sua vida” (PEREIRA, 1938, p. 213). Nesse momento, o romance ironiza e expõe o risco da mulher ingênua que almeja a liberdade, mas continua submissa ao masculino. Nem o relacionamento com aquele, nem o trabalho é, para ela, fator de libertação, mas de aprisionamento, é o argumento utilizado para viajar para o Rio de Janeiro e dedicar-se a ele, sem pedir nada em troca. São o trabalho e o afeto concorrendo para a escravidão consciente da protagonista. Por conseguinte, a nosso ver, como um mecanismo de mostrar que as mulheres devem vislumbrar mais do que já conseguiram, a personagem é vencida pela sociedade semipatriarcal, pois o que impera no desfecho da trama é o ‘vazio’ desse tipo de vida que ela leva agora em comparação com aquela estabilidade que almeja.

A desagregação ideológica, política e moral, cuja influência se evidencia nos aspectos da vida coletiva são entrevistos, mormente, no seu reflexo literário. Essa desagregação afeta a vida de todos os personagens que passam de uma condição a outra ou de um modo de pensar a outro. Os três romances dessa autora, publicados na década de 30, revelam a desarticulação provocada pelas ‘ideias novas’ em contraposição à chamada ‘velha ordem’. Inclusive a fé católica de Aparecida é perdida após o contato com o modo de pensar e as práticas de Antônio. Explica a protagonista: “não me faz falta a fé, como a entende Sônia; queria sim, que Antônio não tivesse matado a minha alma, a minha personalidade” (PEREIRA, 1938, p. 228). Aparecida que antes acreditava em Deus passa a substituí-lo em sua vida por Antônio. Enquanto Sônia, que antes queria ser livre, após o episódio do ataque do negro, em que acredita ser punição de Deus pelo aborto e pela vida desregrada, de liberdades, o assume para si e finaliza o livro fazendo um esclarecimento para Aparecida: “– De nós duas, a mais livre sou eu… Deus exige muito, mas dá tudo. Antônio quer tudo de você, sem dar nada” (PEREIRA, 1938, p. 232).

Veja-se que as mudanças operacionalizadas nas personagens são intensas, capazes de conduzir o curso da trama e permitir o chamamento de uma reação feminina diante da passividade e do anonimato da mulher frente à sociedade. A postura de Antônio revela a vulnerabilidade de seus posicionamentos comunistas levando o leitor a duvidar de sua crença em suas próprias ações. Ainda assim, Antônio não muda, termina a narrativa do mesmo modo que começou nem mais nem menos feliz. Assim, a narrativa conclama ao leitor a pensar sobre a parcialidade dos discursos. Enquanto ele prega o princípio da liberdade, o resultado de sua ação sobre Aparecida é de aprisionamento. Se, como diz Antônio, o único trabalho que degrada é o do escravo, a vida de Aparecida é degradada porque ela termina vivendo em função dele e lhe servindo como datilógrafa, sem receber nada em troca, apenas com a recompensa de que “a história registrará o seu nome como minha colaboradora” (PEREIRA, 1938, p. 229), como completa Antônio.

A nosso ver, vale lembrar também que a condição social concorre para o final desencantado da narradora. Sônia deixa sua vida burguesa, de ‘modernismos’, para acreditar e seguir os princípios da fé católica. Para ela, isso a faz mais feliz que Aparecida, pois esta agora, descrente de tudo em que acreditava antes, começa a viver como amante de Antônio, servindo-lhe com seus trabalhos de datilografia, sem, como ela mesma diz: “um nome, um lar, uma situação estável” (PEREIRA, 1938, p. 230). A frase acima citada por Aparecida ratifica o desejo dela pela manutenção daqueles protocolos dos quais ela vai se afastando à medida que se aproxima das ‘novas’ ideias e faz a sua viagem. Nome, lar, situação estável traduz e inspira situação semelhante ao que se prega com “Deus, pátria e família”. Pensando no trabalho feminino como uma preocupação moderna, este é visto com certos receios, uma vez que contribui para a perdição da protagonista. Através dele, a mesma busca alcançar a liberdade, o que configura a sua dupla perda: da liberdade e do outro caminho, aquele constituído numa condição patriarcal. Nem de um modo nem de outro são plenamente realizadas. Trocando suas próprias experiências, como se trocassem de papel, Sônia e Aparecida veem o fracasso da opção feita pela outra.

A protagonista termina no meio termo, pois além de não alcançar a liberdade, não rompe com as regras tradicionais porque mesmo não se casando se submete aos mandos masculinos. Como uma perfeita romântica, embora não realize o casamento contratual, Aparecida se dedica a essa ‘união’ porque o sentimento que mantém por ele é maior que as razões para se afastar. Por esse lado parece que, mais uma vez, Amanhecer, embora critique as normas, reflete o pensamento falocêntrico quando põe em primeiro plano o lado emocional feminino sobre o racional. Sem escolha satisfatória, o estilo de vida desestabilizadora que encontra Aparecida possui para ela muitas implicações negativas. Se, de um lado, a viagem para Aparecida significa o encontro com o ‘novo’, para Sônia, ela simboliza o encontro com a tradição, com a religião e com as convenções de uma vida patriarcal. Também nesse ponto, quem parece ter um final satisfatório para aquele contexto é a mãe de Maria Aparecida que, sendo muito nova, após enviuvar, casa-se com o ex-pretendente da filha quando ainda morava em São José atinge o final ‘feliz’, se não feliz, pelo menos o esperado pelo discurso predominante, embora a contragosto da protagonista.

Com essas trajetórias femininas percebidas na ficção de Lúcia Miguel-Pereira, Luís Bueno (2006) observa que as mulheres são convidadas mais à renúncia que à ação. Trabalhado artisticamente ao longo de todo o enredo até se decantar em vários sentidos para o leitor, vê-se que o conteúdo histórico que a obra ficcionaliza não funciona aqui como pano de fundo, mas como elemento trabalhado a fim de compor a razão de ser da narrativa. Dessa forma, a viagem empreendida pelas duas personagens são vistas aqui como estratégias adotadas por cada uma a fim de conceberem a sua libertação, no entanto, ainda assim essas mulheres continuam sendo aprisionadas pelo mesmo sistema que as condicionaram, deixando em evidência o motivo central de sua submissão: o ser mulher.

 

NOTA: Para um estudo mais alentado sobre a ficção de Lúcia Miguel Pereira ver O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira escritos da tradição, de minha autoria, publicado pela Editora Mulheres.

 

REFERÊNCIAS

 

BUENO, Luís. Uma história do romance de 30. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Campinas: Editora da Unicamp, 2006.

CANDIDO, Antonio. Lúcia. In: O albatroz e o chinês. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004.  p. 127-132.

GOTLIB, Nádia Batella. A literatura feita por mulheres no Brasil. In Boletim do GT ANPOLL/MULHER E LITERATURA, 1998.

LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. In: DEL PRIORE, Mary. (Org.) História das mulheres no Brasil. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1997. p.443-481.

MIGUEL-PEREIRA, Lúcia Miguel. Amanhecer. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1938.

MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. A leitora e seus personagens: seleta de textos publicados em periódicos (1931- 1943), e em livros. Prefácio, Bernardo de Mendonça; pesquisa bibliográfica, seleção e notas, Luciana Viégas- Rio de Janeiro: Grafia Editorial, 1992.

PINTO, Cristina Ferreira. O Bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1990.

 

 

 

 

 

[1] Para um estudo mais alentado sobre a ficção de Lúcia Miguel Pereira ver O legado ficcional de Lúcia Miguel Pereira escritos da tradição, de minha autoria, publicado pela Editora Mulheres

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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