Revista Mulheres e Literatura – vol. 11 – 2007



A REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA SUL-BAIANA EM IARARANA, DE SOSÍGENES COSTA






Resumo:
Iararana de Sosígenes Costa, é uma alegoria que narra a formação étnico-cultural do Sul da Bahia através de mitos regionais e gregos, que suscita a discussão sobre o potencial literário em servir como forma de representação de traços da cultura popular que compõem a identidade de um povo. Objetiva-se, identificar os aspectos através da organização da narrativa que retratam a cultura local que, por sua vez, estabeleça uma relação entre a brasileira e a identidade sul-baiana. Com a finalidade de esclarecer essa questão, a verificação da narrativa literária enquanto representação da identidade é vislumbrada segundo os conceitos advindos dos Estudos Culturais de acordo, sobretudo, com Hall, Bhabha e Canclini, cujas abordagens são perpassadas pela reflexão acerca da dinamica imbricada no processo de formação das identidades culturais. Palavras – chave: Iararana, identidade, mito fundacional.

Texto:

 

 

 

A REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA SUL-BAIANA EM IARARANA, DE SOSÍGENES COSTA

Gisane Souza Santana – UESC

Tiago Santos Sampaio – UESC

 

“As identidades só podem ser lidas a contrapelo, isto é,

não como aquilo que fixa o jogo da diferença em um

ponto de origem e estabilidade, mas como aquilo

que é construído na différrance ou por meio dela.”

 

Stuart Hall

 

 

 

Considerações Iniciais

 

            Iararana, poema de Sosígenes Costa, que narra de forma subjetiva o mito fundacional da região cacaueira através de mitos regionais e gregos, suscita a discussão sobre o potencial literário em servir como forma de representação de traços da cultura popular que compõem a identidade de um povo. Objetiva-se, portanto, identificar os aspectos presentes na narrativa que retratam a cultura local e, por sua vez, estabelecem uma relação entre a  identidade brasileira e  sul-baiana. Nesse sentido, pressupõe-se que a literatura, ao abordar os elementos culturais, corrobora para a construção e manutenção das identidades. A problemática concentra-se em investigar como a identidade é reafirmada a partir de uma estratégia discursiva literária que utiliza elementos componentes da cultura local no seu decorrer.

Com a finalidade de esclarecer essa questão, a verificação da narrativa literária enquanto representação da identidade é vislumbrada segundo os conceitos advindos dos Estudos Culturais de acordo, sobretudo, com Hall (2005), Bhabha (1995) e Canclini (2003), cujas abordagens são perpassadas pela reflexão acerca da dinâmica imbricada no processo de formação das identidades culturais.

Dessa forma, selecionam-se elementos da cultura sul-baiana presentes em Iararana a fim de perceber sua capacidade representativa, bem como a reafirmação identitária operada nos momentos em que a narrativa aponta para o leitor alguns aspectos marcantes da cultura popular.

 

 

Pressupostos Teóricos

Discutir a questão da identidade exige a retomada de alguns conceitos que permitem que esta seja vista como uma construção discursiva pela qual os indivíduos se localizam individual e socialmente (Hall, 1999; Cuche, 2002). A partir dessa localização são construídos os sentidos que marcam as características mais representativas de um povo.

Não temos conhecimento de um povo que não tenha nomes, idiomas ou culturas que em alguma forma de distinção entre o eu e o outro, nós e eles, não seja estabelecida…. O autoconhecimento – invariavelmente uma construção, não importa o quanto possa parecer uma descoberta – nunca está totalmente dissociado da necessidade de ser conhecido, de modos específicos, pelos outros (CALHOUN apud. CASTELLS, 2000 p. 22).

 

Castells (2000, p. 22) caracteriza a identidade como “o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda, um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(ais) prevalece(em) sobre outras fontes de significado.” Assim, entende-se, que é operada uma espécie de seleção por parte da sociedade dos atributos culturais que devem definir os seus traços distintivos e, a partir dos sentidos conferidos a eles pelos indivíduos, passa-se a edificar as identidades.

A identidade é, então, construída a partir de um repertório cultural que se apresenta na sociedade, que pode se expressar como conhecimento científico, práticas artísticas ou religiosas. Mas, “todos esses materiais são processados pelos indivíduos, grupos sociais e sociedades, que reorganizam seu significado em função de tendências sociais e projetos culturais enraizados em sua estrutura social, bem como em sua visão de tempo e espaço” (Castells, 2000, p. 23-24). Os grupos sociais remodelam essas práticas e conhecimentos de acordo com o propósito dos seus projetos de formação, transformação ou manutenção das identidades. Esse aspecto fará com que os indivíduos enquadrem a produção cultural individual e coletiva aos interesses dos projetos comuns da sociedade. Estabelece-se aí quem está apto ou se interessa a pertencer a determinados grupos de acordo com as suas identidades.

Woodward (2003, p.13) afirma que “com freqüência, a identidade envolve reivindicações essencialistas sobre quem pertence e quem não pertence a um determinado grupo identitário, nas quais a identidade é vista como fixa e imutável”. O sentimento de pertencimento e permanência é o pressuposto básico para a construção da identidade individual, ao se referir aos grupos a que pretende fazer parte. No entanto, ver a identidade como fixa e imutável corresponde apenas a uma estratégia para tentar formar nas consciências a sensação de homogeneidade que, na verdade, não corresponde mais ao conceito pós-moderno de identidade, devido aos processos de hibridização cultural.

O sujeito pós-moderno, segundo Hall (2005, p. 13), é

 

[…] conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. […] A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidade possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente.

 

As identidades, como mostra Hall, estão em constante processo de formação a depender dos fatores sociais que agem sobre os indivíduos. Daí a concepção do termo “identificação”, uma vez que, à medida que esses fatores – ‘as interpelações dos sistemas culturais’ – se apresentam, as pessoas se identificam de acordo com cada circunstância. Os processos que desencadeiam as identificações são múltiplos e por isso geram uma dinâmica favorável à não fixação permanente das identidades.

A identidade, de acordo com sua concepção pós-moderna e enquanto resultado das atribuições culturais, é vista como uma manifestação muito mais flexível, uma vez que tem sido mais difícil a tarefa de se situar num ambiente mediado e formado por uma constante hibridização cultural (Canclini, 2003). Os sujeitos passam a assumir diversas identidades que não existem mais como algo unificado, mas que respondem a momentos específicos e a contextos diversificados. Daí a necessidade de se formular estratégias que permitam que, mesmo com a hibridização das culturas e formação múltipla das identidades, sejam construídos aspectos que reúnam os indivíduos em categorias de acordo com algumas características comuns ao grupo e que permitam que esses se sintam como parte de um todo. Deve-se encontrar, portanto, formas de se costurar as diferenças decorrentes das várias identificações, a fim de constituir uma certa homogeneidade capaz de classificar os indivíduos segundo particularidades que os definam. Para Hall

uma forma de unificá-las tem sido a de representá-las como a expressão da cultura subjacente de ‘um único povo’. A etnia é o termo que utilizamos para nos referirmos às características culturais – língua, religião, costume, tradições, sentimento de ‘lugar’ – que são partilhados por um povo.(2005, p. 62).

 

Essas classificações acerca das caracterizações do povo são fundamentais para gerar um agrupamento em torno dos mesmos aspectos culturais que promoverão as impressões de homogeneidade. A unicidade mostra-se aí como uma marca que reúne os requisitos que cada indivíduo deve conter para que nasça a sensação de pertencimento.

Perceber a identidade como processo que emerge de atributos culturais é crucial, portanto, para a compreensão do papel que as representações têm na edificação dos sentidos que compõem as identidades. Assim, é possível dizer que só a partir da representação será possível conceituar a identidade nacional explicando a sua importância nas sociedades contemporâneas, nos domínios cultural e social. Nesse contexto, a cultura, enquanto expressão da produção de bens simbólicos que definem as identidades surge como uma síntese de representações capazes de produzir as identificações dos sujeitos com o meio no qual está inserido.

Dessa forma, a literatura adquire o status de representação identitária cujo funcionamento age como fonte de significados e suscita a abordagem dos aspectos culturais da sociedade a que se refere. A partir dessa abordagem pode-se inferir que a construção de traços característicos que compõem as identidades são provenientes das representações que abarcam e sintetizam os elementos da cultura.    A representação literária estudada, por exemplo, apresenta o potencial de retratar com grande riqueza os aspectos da cultura regional, permitindo que a identidade seja consolidada a partir de sua dimensão local.

Antes que se perceba imerso numa cultura universal, na qual se experencia um contato mais íntimo com outros ambientes culturais, o sujeito precisa se centrar num contexto local para encontrar os referenciais que interferem de forma mais contundente na sua individualidade: “Ter uma identidade seria, antes de mais nada, ter um país, uma cidade ou um bairro, uma entidadeem que tudo o que é compartilhado pelos que habitam esse lugar se tornasse idêntico ou intercambiável” (Canclini, 2003, p. 190). As identificações com os fatores sociais formam-se primeiro nos espaços cujas identidades são mais facilmente constituídas, ou seja, a formulação da identidade se processa inicialmente em referência ao contexto local. As produções culturais das comunidades passam a ter maior relevância por refletir mais diretamente as características que se relacionam aos grupos sociais locais.

Outro aspecto relevante que se refere aos produtos culturais que visam a reafirmação das identidades é que estes funcionam, ainda, a partir de algumas estratégias a fim de situar as origens de um povo através de narrativas que agem como mitos fundadores ou lendas de tradição oral, construindo os sentidos que compõem as identidades (Bhabha, 1995). Esse aspecto se verifica, assim, na literatura, na cultura popular e na mídia e através de estratégias discursivas que objetivam gerar a noção de continuidade, de tradição e de intemporalidade. A crença em um passado imaginado (Hobsbawm, 1997) e comum a todosedificado pelas narrativas literárias, e outras formas de representação cultural, orientam os indivíduos na história de formação da sua coletividade e preenchem de sentidos suas identidades.  Desta maneira, a partir da produção cultural é possível que as pessoas de determinado local sintam-se agregadas, compartilhando modos de se comportar e pensar, vivenciando um sentimento de cultura partilhada.

Os produtos culturais, como a literatura regional, são vitais no processo de constituição das identidades locais, pois funcionam como forma de representação dos aspectos culturais que as caracterizam tal como se manifestam socialmente. O estudo da obra Iararana permite, deste modo, perceber a literatura como reflexo da cultura retratada e também como uma estratégia narrativa de reafirmação e valorização da identidade sul-baiana.

 

Identidade em Iararana

 

Iararana de Sosígenes Costa, composta por quinze cantos ou cenas e escrita na década de 1930, é uma alegoria que narra a formação étnico-cultural do Sul da Bahia, partindo de elementos  formadores da identidade nacional, ou seja, elementos que remetem à miscigenação brasileira: o branco Tupã-Cavalo, Iara e o índio. A obra está inserida no panorama da literatura modernista, que buscava como um dos seus objetivos primordiais a valorização do nacionalismo, através da exploração de temáticas voltadas para os elementos mais representativos da cultura brasileira. Com Iararana, Sosígenes Costa opera, pela literatura, uma reafirmação dos traços de elevada significação para o contexto da região Sul-baiana.

A poesia épica de Sosígenes Costa relata, através da alma-do-mato, a história da chegada de Tupã-Cavalo à região cacaueira e seus desdobramentos a partir do enlevo amoroso do personagem com a Iara, figura mitológica que habita as águas dos rios também conhecida como mãe-d’água – materialização da divindade. Partindo da narrativa de cunho mítico, o poeta expõe como teria se originado o cacau e apresenta marcas relevantes da cultura regional que auxiliam no processo de composição da identidade local.

 

E Tupã-Cavalo brotou a mataria

 

_________________________________________

E as sementes nasceram e se viu que era cacau

E o cacau já estava crescidinho

e saía com uma força…

e saía com um forção

que benza-te Deus meu pé de feijão!

mas ele dava na gente  a tirar broto de cacau

deu facão a caboco para tirar broto de cacau

e o cacau desbrotado ficou parrudo

e bonito como danado.

(COSTA, 2001, p. 444).

 

 

 

Através da representação literária é possível, assim, ter-se  conhecimento sobre elementos da cultura não apenas no que diz respeito às suas manifestações festivas, expressões folclóricas e outros costumes, mas também sobre a organização social e econômica da região firmada sobre o cultivo do cacau.

Seguindo a lógica da literatura modernista, Iararana se apresenta como

 

[…] uma saga, com exaltação do índio brasileiro e utilizando na ação, como estratégia, a ‘limpeza de sangue’. Esse percurso o singulariza no movimento modernista iniciado em 1922, por não privilegiar a apropriação das contribuições exógenas nas representações culturais mas destacando nelas o que é autóctone, através da celebração genealógica de uma linhagem e através das peripécias e façanhas vivenciadas por um clã. (SCHEINOWITZ, 2002, p. 66).

 

 

Pela ênfase no que é autóctone,  a identidade regional em Iararana é reafirmada através da estratégia da retomada de elementos que expressem a diferenciação com relação às outras culturas, sobretudo àquela que se evidencia como exógena e opressora. A cultura local mostra-se no poema, sobretudo, em seu potencial antropofágico de digerir os aspectos positivos que contribuíram para a região, como a técnica do cultivo do cacau, mas também de renegar os traços que comprometem a identidade quando vista sob a perspectiva de uma unicidade que mantém seu caráter distintivo. Esse fator se evidencia, na poesia, na morte do Tupã-Cavalo, representação do colonizador europeu, causada pelo lobisomem

E o Lobisome com boca de fogo

Atacou Tupã-Cavalo no barranco da Inguaíra

E avançou no pescoço do cavalo

E queria mata-lo de arrocho.

Mas a carne dele já estava chiando no fogo que saía

Da boca do Lobisome

(COSTA, 2001, p. 505).

 

Há ainda uma associação entre os traços negativos de personalidade com a descendência de Tupã-Cavalo, e entre traços positivos com a descendência da Iara que, após gerar a Iararana e de ser trocada pela loura européia Arancajuba, envolve-se com um aimoré dando origem ao personagem menino do céu.

 

– Menino do céu, você tem sangue de mãe-dágua.

Teu sangue bom é sangue do rio

Sangue caboco com sangue do rio

Sangue mais limpo que o da falsa iara

Que puxou ao bicho e tem sangue runhe.

(COSTA, 2001, p. 503-504).

 

Embora a narrativa traga aspectos distintivos da cultura regional, vislumbra-se a presença de outros elementos que não são oriundos desta, mas a compõe através de fenômenos híbridos (Canclini, 2003), reunindo e relacionando aspectos históricos, artísticos, filosóficos, culturais e literários. Essas interferências de outros sistemas culturais caracterizam a cultura como um processo em formação constante. De acordo com Laraia (1997, p. 100) “existem dois tipos de mudança cultural: uma que é interna, resultante da dinâmica do próprio sistema cultural, e uma segunda que é o resultado do contato de um sistema cultural com um outro”.

Assim, identificam-se na poesia marcas desse hibridismo cultural. Inicialmente pela presença do Tupã-Cavalo (centauro) que desencadeia uma mestiçagem resultante da mistura dos povos, representada na obra pelo nascimento da Iararana, caracterizada como a “falsa iara” e de seus outros irmãos. Além disso, constam na narrativa os elementos gregos como os deuses. Além da mistura entre os mitos de tradição indígena e cristã..

 

Naquela festa do céu

havia um jegue com asas

Qual o nome deste jegue?

– Pégaso

(COSTA, 2001, p. 479).

Se não fosse esse fiasco

Aquela moça copeira seria eleita rainha

naquela festa do céu.

– Qual o nome desta moça?

– Hebe

(COSTA, 2001, p. 480).

 

 

Há, portanto, uma abordagem ampla dos traços constituintes da cultura regional, ainda que estes se apresentem hibridizados com elementos de outras culturas. A partir dessa abordagem é possível se ter uma noção das manifestações mais características da cultura popular, expressas e perpetuadas, sobretudo pela oralidade e que são revividos através da narrativa literária.

 

Ah naquela cana brava

Todo dia pega fogo

no momento em que a mãe-dágua

deste rio Jequitinhonha

é levada lá pra dentro

por esse bicho danado

que espantou a caipora

meteu medo no boitatá

(COSTA, 2001, p. 449).

 

São evidenciadas nesses trechos algumas crenças advindas da cultura popular como da cobra que mama no seio das mulheres que pariram e a explicação fantasiosa para a ocorrência simultânea de chuva e sol como resultante do casamento da raposa. Os mitos são expressos nos fragmentos que apresentam as figuras mitológicas como o Tupã-Cavalo, a iara, o lobisomem, a mula-de-padre, o boitatá, a caipora, dentre outros que surgem na narrativa, assumindo papéis importantes para o desenvolvimento da história, como o lobisomem que se responsabilizou por matar o Tupã-Cavalo devolvendo a autonomia das personagens que representam a cultura local. Além disso, são retratados os costumes, como o de enterrar os restos do parto na areia e evitar treze pessoas à mesa para não dar azar, expressões regionais, como o “oxente” e também ditados populares.

Moça não casa com cobra

Porque não sabe quem é o macho,

Isso é o que o povo diz

(COSTA, 2001, p. 473).

– Oxente! Você tem namorado, Calunga?

(COSTA, 2001, p. 433).

 

 

O poema traz ainda outras manifestações da cultura popular como as danças, canções, ritmos, como o samba, as festas típicas, como o forrobodó na coroa e burrinha,  e as brincadeiras infantis. Estes aspectos funcionam como marca da diferença por serem tipicamente regionais, necessitando serem repetidos como práticas inerentes da cultura local para que possam ser perpetuados e possam consolidar a identidade cultural associada a estas práticas.

A festa que se fez foi a festa da Burrinha.

Todos foram cantando receber o cavalo-do-mar

(COSTA, 2001, p. 496).

O samba que é macuíba

É o samba do pau siriba.

Remexa bem as cadeiras,

Se esqueça da pindaíba.

E todo mundo se peneirou

no samba do pau siriba

(COSTA, 2001, p. 481).

 

 

Iararana funciona como uma das narrativas que constituem a identidade também pela estratégia de mito fundacional. Sosígenes Costa parte de uma narrativa mítica para explicar o surgimento de elementos regionais que atualmente são conhecidos como tal devido à presença dos acontecimentos de origem mitológica. Um exemplo se refere ao rio Belmonte que teria esse nome devido a ossada de Tupã-Cavalo depositada no fundo do rio.

E a ossada está lá no fundo do rio.

Mas a mãe-dágua está lá viva e amarrada.

Ela dorme no fundo do rio.

E nem sucuriúba pode quebrar as correntes.

Só quem descende da mãe dágua pode quebrar as correntes.

E os descendentes dos mondrongos

chamam este rio de Belmonte

(COSTA, 2001, p. 506-507).

 

Além disso, pode-se dizer que a referência a Belmonte funciona como forma do poeta reviver as memórias da sua infância, vivida em Belmonte. Pela organização dessa narrativa também se reafirma a identidade enquanto sentimento de pertencimento à realidade nacional.

 

Considerações Finais

            Enquanto fonte primordial de sentido para que os sujeitos se localizem socialmente, as identidades funcionam como manifestações móveis pelas quais podem ser construídos os sentidos necessários para a convivência na coletividade. Santos (1999, p. 135) afirma que. “as identidades culturais não são nem rígidas  nem, muito menos, imutáveis. São resultados sempre transitórios e fugazes processos de identificação”. Portanto, devem ser encontradas formas dos indivíduos irem se identificando com vários contextos sociais e culturais a fim de fornecer sentidos às suas experiências.

As representações têm, então, o papel de produzir uma síntese das características mais marcantes da cultura de um povo para dar suporte à criação das identificações. Estas, por sua vez, são responsáveis pelo sentimento de pertencimento, que permite aos sujeitos vislumbrarem-se como integrantes de um contexto cultural com traços bem demarcados. Através das várias representações a identidade cultural vai sendo edificada como uma narrativa, na qual se pode verificar os aspectos que compõe cada cultura.

No caso da obra Iararana, Sosígenes Costa consegue tecer uma narrativa capaz de reunir os caracteres que mais se evidenciam na cultura popular, formando uma importante referência para a construção da identidade cultural da região sul-baiana. Mesmo que  haja um hibridismo na apresentação desses aspectos, que pode ser visto como uma metáfora da constante interação cultural entre diversos povos, é possível demarcar os elementos típicos da cultura local que são valorizados na história como forma mostrar não apenas a diversidade, mas a capacidade de resistência sobre as dominações exógenas, enfatizando a riqueza advinda da produção cultural autóctone e independente.

 

REFERÊNCIAS

 

CANCLINI, Nestor García (2003). Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4ª ed. Trad. Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: Edusp.

 

CASTELLS, Manuel (2000). O Poder da Identidade. Trad. Klauss Brandini Gerhardt. São Paulo: Paz e Terra.

 

COSTA, Sosígenes. Iararana. São Paulo: Cutrix, s/d.

 

HALL, Stuart (1999). A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A.

 

HOBSBAWM, Eric J (1997). A produção em massa de tradições. In: HOBSBAWM, Eric J.  e RANGER Terence  (Orgs). A invenção das tradições. Trad. Celina Cardim Cavalcante. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

 

LARAIA, Roque de Barros (1997). Cultura: um conceito antropológico. 11 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

 

SCHEINOWITZ, Celina (2001). Poética e Linguagem em Iararana. In: Iararana: revista de arte, crítica e literatura. Ano III, nº 7.

 

WOODWARD, Kathryn (2003). Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org.) Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes.



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