Revista LitCult – Vol.11 – 2º Trimestre – 2016



A PERSONAGEM FEMININA NA OBRA MEMORIAL DO CONVENTO: COMO “FORJAR UMA NOVA FORMA DE HUMANIDADE” – Marcelo Franz





Marcelo Franz

Universidade Técnica Federal do Paraná – UTFPR

 

 

Resumo: Analisa-se neste artigo a representação da figura feminina na obra Memorial do convento (1982) discutindo as particularidades do trato de José Saramago a essas figuras e como essa representação se articula com os interesses ideológicos evidentes em sua obra. Além disso, pretendemos vincular as declarações manifestadas pela figura pública do escritor, retiradas da obra Palavras de Saramago, para confrontarmos essas informações com as personagens de Memorial do Convento com o objetivo de mostrar a construção e a relevância das personagens analisadas.

 

Abstract: This article analyzes the representation of the female figure in the novel Memorial do convento (1982). This representation is articulated with the ideological interests evident in Saramago’s work. In addition, our intention is to link the statements expressed by him as a public figure in the book Palavras de Saramago, and to confront them with the characters in his novel Memorial do Convento in order to evince their model of construction and their overall relevance.

 

Palavras-chave: Saramago; Memorial do convento; Feminino.

 

Key-words: Saramago; Memorial do convento; Feminine.

 

Minicurrículo: Marcelo Franz é professor de Literaturas de Língua Portuguesa e de Teoria da Literatura do Curso de Letras da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Tem mestrado em Literatura Brasileira (pela UFPR) e doutorado em Literatura Portuguesa e Pós-doutorado em Teoria da Literatura, ambos pela Universidade de São Paulo (USP).

 

 

A PERSONAGEM FEMININA NA OBRA

MEMORIAL DO CONVENTO: COMO

“FORJAR UMA NOVA FORMA DE HUMANIDADE”

 

Marcelo Franz

Universidade Técnica Federal do Paraná – UTFPR

 

O pessimismo como motor das transformações

Como escritor, José Saramago afirmava estar comprometido com a vida até os últimos dos seus dias, e não separava o escritor do cidadão. Segundo ele, sua literatura reflete de alguma forma, as posturas que ideologicamente assumia, sem, no entanto, transformar os seus livros em meros panfletos. Para isso, não encontrava outro remédio senão fazer o que fazia e dizer o que dizia:

 

Auschwitz não está fechado, está aberto, e suas chaminés continuam soltando a fumaça do crime que se comete a cada dia contra os mais frágeis. E (…) eu não quero ser cúmplice, com a comodidade do meu silêncio, de nenhuma fogueira (Aguilera, 2010, p. 352)

 

 

 

Assim, literariamente encontramos um Saramago inserido em suas obras:

 

Onde estou nos romances? Ali, sim, estou.  Mas um leitor não deve perder tempo a procurar a minha vida nos romances porque ela não está ali. O que está nos romances não é a minha vida, mas a pessoa que eu sou, o que é algo muito diferente (AGUILERA, 2010, p. 206).

 

A literatura não é a vida e também não é uma imitação da vida.  Nada do que entra num livro vem de outro lugar que não seja este mundo, mas o romance ao achar-se feito entra ele também a influir na vida (AGUILERA, 2010, p. 182).

 

 

Um dos traços mais marcantes da personalidade pública de José Saramago era o seu caráter pessimista em relação a uma humanidade que, segundo ele, jamais foi humanizada. Para o escritor português estamos todos condenados: este mundo não tem solução, não merecemos a vida, a humanidade jamais foi educada para a paz, mas sim moldada espiritualmente para o conflito.

Em Aguilera (2010, p. 142), Saramago afirma: “Como se pode ser otimista quando tudo isto é um estendal de sangue e lágrimas? Nem sequer vale a pena que nos ameacem com o inferno, porque inferno já o temos. O inferno é isto”. Ateu, Saramago via o elemento divino como uma invenção humana e produto da imaginação.  O que chamam de mistério é simplesmente o que não se sabe. A partir do momento em que há uma explicação científica (ou lógica), deixa de ser mistério. Logo, esse produto da imaginação humana que chamamos de divino, assim como muitas outras criações humanas, a certa altura toma as rédeas e passa a condicionar os seus inventores:

 

Levamos o diabo e Deus dentro de nós; aí nasceram e aí continuam vivendo.  O bem e o mal são obra humana.  Não posso acreditar num Deus que não existe ou que nunca se apresentou.  Eu não necessito de Deus.  Nunca tive nenhuma crise religiosa.  Vivi meu ateísmo numa tranquilidade total.  E digo a mim mesmo: nasceste, estás vivendo, morrerás, e acabou (AGUILERA, 2010, p. 127).

 

 

Portanto, ao afirmar que não acreditava e não precisava de Deus, o remédio para os males que afligem o mundo, na ótica de Saramago, estaria apenas no plano terreal. Por outro lado, o próprio Saramago, afirma, paradoxalmente, que sem Deus a sua literatura perderia o sentido.

Não há como negar que nas construções literárias do autor, muitos dos alicerces estão sustentados, justamente, na polêmica luta em afirmar que Deus é uma criação humana. Para se ter ideia de tamanha inquietação, no ano de 1991, Saramago publica a sua obra mais controversa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, um romance que conta a história humanizada de Jesus Cristo, desconstruindo as verdades canônicas da Igreja. No evangelho de Saramago, Jesus Cristo não nasceu de uma Maria virgem, mas sim de uma relação carnal.  José é acusado de ser cúmplice da matança dos nascituros ordenada pelo rei Herodes e, ainda, Jesus estaria envolvido em uma relação amorosa com Maria Madalena.

Diante desses relatos, a Igreja Católica portuguesa como instituição não reagiu, preferiu ignorar oficialmente o livro.  No entanto, Saramago não ficou isento das críticas de algumas figuras do alto clero. Assim, o arcebispo de Braga proferiu uma homilia classificando o livro como blasfemo e adjetivando Saramago como um “ateu confesso, um comunista impenitente, que escrevera uma obra desrespeitosa à identidade do povo português”. O Evangelho segundo Jesus Cristo, vendeu mais de 100 mil exemplares em Portugal e outros 40 mil no Brasil.

Mas Saramago sofreu um duro golpe: em uma sociedade autoproclamada democrática, sua obra seria alvo de censura imposta pelo próprio governo. A decisão da Secretaria de Estado da Cultura vetaria a inclusão dessa obra na lista de concorrentes ao Prêmio Literário Europeu.

Não obstante, ainda que estejamos em um mundo condenado e sem um Deus para nos socorrer, Saramago afirmava que há a necessidade de um olhar pessimista, pois é somente esse olhar que pode mudar o mundo:

 

Os pessimistas são pessoas insatisfeitas com o mundo.  Em princípio seriam as únicas interessadas em alterar a rotina, uma vez que, para os otimistas, é razoável como está.  Mas, ultimamente, gosto de dizer outra coisa: eu não sou pessimista, o mundo que é péssimo.  Com isto transfiro a culpa para a realidade (AGUILERA, 2010, p. 141).

 

Olhando as marcas deixadas na pavimentação da estrada literária de Saramago, notamos que a crítica social do autor vai ganhando traços e contornos que irão culminar com a representação da perda da razão na humanidade, notória no romance alegórico Ensaio sobre a cegueira, de 1995. Nesse texto, o uso desumanizado da razão (que é metaforizado na epidemia de cegueira) conduziu os personagens aos extremos da violência, da crueldade, uma irracionalidade que, segundo Saramago, reflete o horror contemporâneo do mundo real, no qual o homem não está em condições ainda de se ocupar das relações com os outros seres humanos. Estamos cada vez mais cegos, porque cada vez menos queremos ver. Fato é que Ensaio sobre a cegueira afirma que todos nós estamos cegos da razão. No entanto, vale lembrar que a personagem identificada significativamente como “a mulher do médico” é uma espécie de fio de esperança que atravessa toda a narrativa sem ser contaminada por uma epidemia que cega a espécie humana do exercício da razão.

Todavia, se estamos cegos da razão e transcendentalmente não temos o que buscar, será que ainda há esperança? As palavras de Saramago dizem que sim, não com o sim, e sim com o não:

 

Embora não sejamos donos da verdade, pois isso não existe, somos os que dizem a palavra “não”. O “sim” é da rotina, está sempre por aí.  Devemos sempre introduzir um “não” para confrontar o “sim” que é o consenso hipócrita em que estamos mais ou menos vivendo (Aguilera, 2010, p. 379).

 

Mas onde estaria essa voz negativa? Reiteradamente, na literatura samaraguiana essa voz ganha vida nas personagens femininas:

 

Se algum dia uma personagem minha ficar na memória das pessoas, será a de uma dessas mulheres, e não é porque eu predetermine sua maneira de ser ou atue mediante estratégias prévias. O caráter dessas mulheres nasce naturalmente, no meio da situação concreta que estou a narrar.  Em certa ocasião, alguém me perguntou: Mas por que sempre escolhe uma mulher? E eu respondi: Acredita que tudo que essa mulher fez um homem faria? Claro que não. Sempre há uma mulher a sustentar cada um de meus romances: Lídia em O ano da morte de Ricardo Reis, Blimunda em Memorial do Convento, Maria Madalena em O Evangelho segundo Jesus Cristo […] (Aguilera, 2010, p. 265).

 

 

Durante séculos a mulher foi vista como subserviente e dominada pelas prerrogativas masculinas nas sociedades patriarcais, e porque não dizer, até os dias de hoje. Basta direcionar o nosso olhar para algumas culturas do mundo árabe que ainda insistem em manter a mulher submissa em relação ao sexo masculino dominante, utilizando como ferramentas repressoras o poder do Estado e práticas religiosas ortodoxas e ultraconservadoras que acabam limitando muito o papel da mulher nessas sociedades.  Há também, nas sociedades ocidentais a transformação da mulher em objeto da satisfação sexual masculina.

Na ânsia de romper com esse legado, na segunda metade do século XIX o feminismo político começa a se organizar, particularmente nos Estados Unidos e Inglaterra, em busca da igualdade legislativa, pois, a partir desse direito, se descortinaria um novo horizonte de ampliação dos direitos da mulher.  Todavia, foi nessa época, na Inglaterra, que a mulher foi amplamente discriminada, conforme observamos em Bonicci e Zolin:

 

A mulher que tentasse usar seu intelecto, ao invés de explorar sua delicadeza, compreensão, submissão, afeição ao lar, inocência e ausência de ambição, estaria violando a ordem natural das coisas, bem como a tradição religiosa […] a condição de subjugada da mulher deve ser tomada como sendo de vontade divina. (BONNICI & ZOLIN, 2004, p. 220-221).

 

No entanto, assim como em algumas sociedades, será que na literatura as personagens femininas também possuem algum estereótipo ou papel previamente definidos? Para isso vamos recorrer novamente a um pronunciamento de Bonnici e Zolin:

 

As críticas feministas mostram como é recorrente o fato de as obras literárias canônicas representarem a mulher a partir de repetições de estereótipos culturais, como, por exemplo, o da mulher sedutora, perigosa e imoral, o da mulher como megera, o da mulher indefesa e incapaz, e entre outros, o da mulher como anjo capaz de se sacrificar pelos que a cercam (BONNICI & ZOLIN, 2003, p. 226).

 

 

A inquietação com a distinção da personagem feminina nas obras de Saramago se deve às recorrências de um rompimento com os estereótipos e papéis da mulher na literatura:

Não me agradam as grandes frases nem a retórica das ações.  Mas é verdade que nos meus romances aparecem personagens, sobretudo mulheres, dotadas de um heroísmo discreto, natural, como uma emanação de sua personalidade.  São mulheres, inclusive, dispostas ao sacrifício por compaixão, compadecer-se com o outro, um sentimento que tem haver com piedade, não com a grandiloquência.  Nesse modelo de mulher que se repete de livro em livro, com nomes diferentes e em épocas diferentes, se está a forjar uma nova forma de humanidade, uma forma distinta de ser humano (Aguilera, 2010, p. 265).

 

 

Nos pilares de sustentação da literatura samaraguiana estão excepcionais figuras femininas, presentes em seus romances como fulgurantes encarnações do melhor da condição humana já que, na visão de Saramago, a esperança para a mudança de um mundo desumanizado estaria na sensibilidade da mulher. Diante disso, nossa proposta é analisar a representação da figura feminina na obra Memorial do convento, lançada em Portugal em 1982.

 

O feminino em Memorial do convento

Com mais de dez edições e 50 mil exemplares vendidos em apenas dois anos, foi Memorial do convento que consagrou definitivamente o nome de Saramago no panorama literário português e na cultura internacional. O impacto dessa obra acabou alavancando as obras de Saramago no cenário internacional. Apenas para termos noção de tal êxito, Memorial do convento obteve uma tiragem inicial de 5 mil exemplares e a obra seguinte, O ano da morte de Ricardo Reis (1984), impulsionado pelo sucesso de Memorial, vendeu 20 mil exemplares em um período de três meses. Esses números evidenciam a força que o nome Saramago ganha no cenário internacional e que conduzem o autor para o restrito espaço do cânone.

Para o crítico literário Álvaro Pina, analisando a obra em algumas páginas da revista Colóquio-Letras, Memorial do Convento, por mais interessante que pareça ser não atinge a condição de romance, não passa de uma composição epidérmica que romanceia fatos históricos (AGUILERA, 2010, p. 11).

Todavia, contrapondo Álvaro Pina e reforçando a importância de Saramago no cenário ocidental recorreremos às palavras do crítico Harold Bloom. Professor de literatura das universidades de Yale e Nova Iorque, autor das obras O cânone ocidental e Gênio, Os 100 autores mais criativos da História da Literatura, Harold Bloom é considerado um dos críticos literários de maior relevância no Ocidente. Sobre Saramago, Bloom afirma:

 

Saramago é extraordinário, quase um Shakespeare entre os romancistas. Não há nenhum ficcionista vivo nos Estados Unidos, na América do Sul ou na Europa que tenha a sua versatilidade. Dir-se-ia tão divertido quanto pungente. Sei que é um marxista, mas não escreve como um comissário [Komintern] e opõe-se aos impostores da Igreja católica. O seu trabalho ultrapassa tudo isso (HAROLD BLOOM, 2001 apud AGUILERA, 2010, p. 12).

 

 

Em nossa proposta de análise serão comparadas as personagens femininas, Dona Maria Ana Josefa e Blimunda Sete-Luas dentro da obra Memorial do Convento.

Em Memorial do convento, somos conduzidos ao século XVIII em Portugal, no período de construção do convento de Mafra, durante o reinado de D. João V. Saramago organiza o romance em três núcleos narrativos: o projeto de construção do convento de Mafra, no espaço da monarquia; a história de amor entre uma feiticeira e um soldado maneta mutilado na guerra; a construção da passarola arquitetada pelo padre Bartolomeu Lourenço.

Nesses três núcleos os conflitos sociais ganham uma força e uma voz crítica contra a Igreja e o Estado, voz essa que ganha vida não apenas nas personagens femininas. Valendo-se da revisitação ao passado, Saramago ficcionalizou as personagens históricas do casal real, D. João e Dona Maria Josefa, do padre Bartolomeu Lourenço e de Domênico Scarlatti, entre outros de menor destaque. Para completar o elenco, Saramago cria as figuras ficionalizadas do casal Blimunda de Jesus e Baltazar Mateus e as suas respectivas famílias. Segundo o autor:

 

Se não ligasse meu trabalho à História não faria qualquer trabalho. (…) o que eu quero escrever liga-se aos fatos e aos homens passados, mas não em termos de arqueologia.  O que eu quero é desenterrar homens vivos. A História soterrou milhões de homens vivos (AGUILERA, 2010, p. 253).

 

O romance inicia-se com um narrador em terceira pessoa relatando a dificuldade da rainha D. Maria Ana Josefa em dar infantes à coroa portuguesa.  Passados mais de dois anos desde a sua chegada e até o momento não havia engravidado:

 

Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, […] que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, […] Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais (SARAMAGO, 2011, p. 11).

 

  1. Maria Ana Josefa historicamente foi a arquiduquesa da Áustria, filha do Sacro Imperador Germânico, Leopoldo I, da Casa dos Hasburgos, e da condessa Palatina de Neuburgo Leonor Madalena.
  2. João V e D. Ana Maria Josefa, eram primos diretos, filhos da Rainha D. Maria Sofia de Portugal e a Imperatriz Leonor Madalena, respectivas mães de Sua Majestade o Rei de Portugal e da Sereníssima Arquiduquesa da Áustria. Assim, a troca de alianças no enlace matrimonial extrapola os limites do religioso e atinge um caráter de grande Aliança.

Na ficção ocorre um silenciamento de D. Maria Ana Josefa. As poucas ocorrências de falas suas ficam restritas às suplicas a Deus por um filho. A liberação dos seus desejos sexuais ganha vida somente nos sonhos:

 

  1. Maria Ana se vê a si própria inclinando-se para o pano santíssimo, não se chega, a saber, se o ia beijar devotamente, porque de repente adormece e acha-se dentro do coche, recolhendo-se ao paço noite já escura, (…) é o infante D. Francisco, de que lugares do sono veio ele e porque virá tantas vezes. Espantou-se-lhe o cavalo, não podia ter sido outra coisa, com o tropear do coche e dos archeiros sobre as pedras da calçada, mas, comparando sonho e sonho, observa a rainha que de cada vez chega o infante mais perto, que quererá ele, e ela que quererá (SARAMAGO, 2011, p. 32).

 

Em Memorial do convento temos a representação do casamento de aparências, na qual a missão da mulher é dar herdeiros ao rei para glória do reino, afinal, na monarquia a sucessão do trono ocorre de forma hereditária e vitalícia, salvo se não houver herdeiros.

A rainha é o símbolo do papel da mulher da época: submissa, procriadora, objeto da vontade masculina que cumpre o seu dever:

 

Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canônica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total (SARAMAGO, 2011, p. 11).

 

O papel de rainha, desempenhado por D. Ana Maria Josefa, é de uma personagem plana. A condição de majestade distancia a personagem da condição de mulheres comuns, pois não cabem em um mesmo corpo a coroa e a mulher:

 

Farta estou eu de ser rainha e não posso ser outra coisa, assim como assim, vou rezando para que se salve o meu marido, não vá ser pior outro que venha, Acha então vossa majestade que eu seria pior marido que meu irmão, Maus, são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem (SARAMAGO, 2011, p. 112).

 

 

Paralelamente à ação dos nobres e das intrigas palacianas a que se dão, encontra-se uma ação que envolve a história de amor de Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, representantes da plebe que se conheceram em um auto-de-fé cuja vítima era a mãe de Blimunda, considerada bruxa:

 

E estando já passados quase dois anos que se queimaram pessoas em Lisboa, está o Rossio cheio de povo duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-fé (SARAMAGO, 2011, p. 48).

 

(…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, (…) Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu (…),e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele (…). Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis (SARAMAGO, 2011, p. 51).

 

 

Blimunda de Jesus, de alcunha Sete-luas, diferentemente da mãe, não possui a capacidade de enxergar o futuro; seu poder está no olhar que permite visualizar aquilo que está por debaixo da pele: a vontade humana. Para isso, basta que Blimunda esteja em jejum.

É importante salientar os significados da visão na ação de Blimunda. Ela representa a mulher que vai além da simples ação de ver. Mais do que isso, ela enxerga com seus próprios olhos, diferentemente das demais personagens femininas na obra que veem por meio do Santo Ofício, de um catolicismo que cega.

Seu papel será decisivo na construção da invenção do Padre Bartolomeu, a passarola, visto que o combustível para que a máquina possa alçar voo está justamente nas vontades humanas vistas por Blimunda. Essas vontades são capturadas no momento em que há a separação do corpo e do espírito quando as pessoas estão à beira da morte.

Além disso, Blimunda é a representação da concretização dos desejos oprimidos. Seu comportamento é marcado pela transgressão aos ditames de uma sociedade cristã e conservadora. Conforme observamos no diálogo entre o padre Bartolomeu Lourenço e Balatasar: “Tens dormido com ela, Vivo lá, Repara que estão em pecado de concubinato, melhor seria casarem-se” (SARAMAGO, 2011, p. 62).

Diferentemente da rainha, os seus desejos são concretizados sem qualquer ressentimento de pecado. Em concubinato com Baltasar, acaba infringindo um dos mandamentos da Igreja Católica.

Ao compararmos os casais representativos da nobreza e da plebe, observamos que D. João V e D. Ana Maria Josefa, os monarcas, têm muitas coisas em comum, ambos têm o título de nobreza, estão no topo da pirâmide social. Entretanto, eles não se completam, a troca de alianças entre o casal representa apenas o cumprimento de um dever religioso e a manutenção de uma tradição dinástica:

 

Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra. (…) Não são combinações do pé para a mão, os casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Muita conversa para a conversa, muito embaixador, muito regateio, muitas idas e vindas de plenipotenciários, discussões sobre as cláusulas dos contratos de matrimónio, as prerrogativas, os dotes das meninas, e não podendo estas uniões ser feitas à ligeira, nem à porta do talho, onde grosseiramente se diz que são combinados os amiganços, só agora, quase um lustro passado, se fará a troca das princesas, uma a ti, outra a mim (SARAMAGO, 2011, p. 288).

 

 

No caminho inverso, representando o povo, temos o casal Baltasar e Blimunda, que estão na base da pirâmide social. Como bem diz o narrador, nem parecem pessoas daquele século:

 

Há também outros simples e rústicos prazeres, como lavarem Baltasar e Blimunda os pés na água, ela levantando as saias até à curva da perna, melhor será que as desça, porque para cada ninfa que se banha há sempre um fauno espreitando, e este está perto e arremete. Blimunda foge da água rindo, ele agarra-a pela cintura, ambos caem, qual de baixo, qual de cima, nem parecem pessoas deste século (SARAMAGO, 2011, p. 263).

 

 

A aliança entre Baltasar e Blimunda é de sangue, acordada no primeiro ato sexual entre ambos.  O casamento ocorre em uma cerimônia breve durante um jantar. Aqui não temos as pompas da nobreza, porém o enlace é feito em corpo presente, diferentemente da nobreza da época que tinha o costume de se casar por procuração:

 

Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. (…) Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezenove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus (SARAMAGO, 2011, p. 54).

 

 

Em alguns trechos da obra Saramago quer ressaltar a representação da figura da mulher e seu papel na História como condutoras e não como conduzidas: “Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres”. (SARAMAGO, 2011, p. 17); “Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu” (SARAMAGO, 2011, p. 113).

Logicamente que a construção dessas personagens tem uma razão de ser: ironizar e questionar os poderes instituídos, a nobreza com suas convenções e sua opressão à mulher (sinalizada no drama do silenciamento da rainha), a Igreja (que persegue as “heresias” dirigindo especial violência ao que considera “bruxarias”, praticadas preferencialmente por mulheres) e o Estado por meio das vozes das personagens que representam uma grande parcela da humanidade que é ignorada nos registros da História.

 

 

 

Referências Bibliográficas

AGUILERA, Fernando Gómez.  As palavras de Saramago: catálogo de reflexões

pessoais, literárias e políticas.  São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

BONNICI, Thomas e ZOLIN, Lúcia O. (Org.). Teoria Literária. Abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: EDUEM, 2003.

SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a egueira. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.

SARAMAGO, José. Memorial do convento. São Paulo: Companhia da Letras, 2011.



Voltar ao topo